{"id":85315,"date":"2026-10-30T14:14:09","date_gmt":"2026-10-30T17:14:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85315"},"modified":"2026-10-30T14:14:10","modified_gmt":"2026-10-30T17:14:10","slug":"carlos-o-pianista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/carlos-o-pianista\/","title":{"rendered":"Carlos, o pianista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Moro no s\u00e9timo andar; Carlos, no nono. O oitavo, entre n\u00f3s, guarda um apartamento vazio h\u00e1 24 anos, o tempo exato em que estou no pr\u00e9dio. Pertence a um fazendeiro do interior que raramente vem a Porto Alegre. H\u00e1 uma ironia nessa disposi\u00e7\u00e3o: um andar inteiro de sil\u00eancio separa duas portas que, em outras circunst\u00e2ncias, talvez estivessem mais pr\u00f3ximas. Ainda assim, h\u00e1 noites em que a dist\u00e2ncia parece diminuir. Basta que Carlos se sente ao piano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/imagem-gerada-por-ia-gpt-image-25-sunburst-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85316\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/imagem-gerada-por-ia-gpt-image-25-sunburst-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/imagem-gerada-por-ia-gpt-image-25-sunburst-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/imagem-gerada-por-ia-gpt-image-25-sunburst-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/imagem-gerada-por-ia-gpt-image-25-sunburst.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem gerada por IA. GPT Image 2.5 Sunburst<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa dessas noites, j\u00e1 no come\u00e7o da madrugada, eu escrevia diante do computador quando a m\u00fasica come\u00e7ou a se anunciar, distante. Chegava abafada, quase secreta, como se tamb\u00e9m ela soubesse que era tarde. Carlos fecha todo o apartamento para n\u00e3o perturbar os vizinhos; o som do piano, contido pelas janelas e pelas paredes, perde o brilho mais ostensivo e ganha uma intimidade particular. N\u00e3o chega a ser concerto, nem ru\u00eddo: \u00e9 uma presen\u00e7a sussurrada, uma sucess\u00e3o de notas que parece escolher o caminho mais discreto at\u00e9 meus ouvidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela noite, antes de ouvi-lo, havia pensado nele. Fazia semanas que n\u00e3o o encontrava, nem o escutava tocar. Cheguei a pensar que talvez tivesse se mudado. N\u00e3o havia motivo concreto para essa hip\u00f3tese, apenas a aus\u00eancia, que \u00e0s vezes se encarrega de inventar explica\u00e7\u00f5es para si mesma. Ent\u00e3o a m\u00fasica surgiu, vinda do nono andar, e desfez a suposi\u00e7\u00e3o com a delicadeza de quem n\u00e3o pretende ser notado. Carlos continuava ali. E, por alguns minutos, voltei a ser plateia daquele artista particular. Ele tocava l\u00e1 em cima, sem saber que eu o ouvia daqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conhe\u00e7o-o dos encontros breves no hall de entrada e no elevador, das conversas que cabem entre a abertura e o fechamento das portas, das mensagens curtas que trocamos pelo WhatsApp. H\u00e1 sempre alguma coisa que poderia ser dita com mais vagar, mas o elevador chega, o telefone interrompe, a vida chama cada um para o seu lado. \u00c0s vezes, quando nos encontramos, uma frase se prolonga um pouco al\u00e9m do tempo que dispomos; em outras ocasi\u00f5es, o sil\u00eancio que vem depois parece guardar uma continua\u00e7\u00e3o que nenhum dos dois se apressa em oferecer. Talvez seja apenas impress\u00e3o minha. H\u00e1 impress\u00f5es, contudo, que n\u00e3o pedem confirma\u00e7\u00e3o: preferem permanecer suspensas no ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos estuda medicina e pretende fazer resid\u00eancia em pediatria. Diante de uma rotina t\u00e3o exigente, compreendo que as conversas sejam breves e que os encontros prometidos se deixem adiar. J\u00e1 falamos sobre um poss\u00edvel jantar, um vinho no fim de semana, a possibilidade de nos sentarmos sem a urg\u00eancia habitual. A ideia ficou entre n\u00f3s, n\u00e3o como compromisso vencido, mas como possibilidade: dessas que podem esperar sem perder o encanto. Imagino que, quando acontecer, haver\u00e1 tempo para uma conversa inteira, sem o elevador anunciando a interrup\u00e7\u00e3o, sem a tela do celular reclamando aten\u00e7\u00e3o. At\u00e9 l\u00e1, a promessa permanece em suspenso, como uma nota que o piano ainda n\u00e3o resolveu concluir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da medicina e da m\u00fasica, Carlos encontra tempo para correr ou pedalar, inclusive em dias frios e chuvosos, quando a rua parece aconselhar a todos que fiquem em casa. A imagem me ficou: ele atravessando o tempo fechado, entregue ao pr\u00f3prio ritmo. Existe nele uma disciplina que n\u00e3o se exibe, embora acabe por se revelar. Talvez venha dos estudos, talvez do piano; talvez seja apenas um modo de estar no mundo, avan\u00e7ando sem alarde, mesmo quando o c\u00e9u n\u00e3o colabora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum encontrar jovens dispostos a um conv\u00edvio demorado com a m\u00fasica erudita. N\u00e3o afirmo que tenham desaparecido, nem que a curiosidade e o interesse perten\u00e7am a outra \u00e9poca. Mas a aten\u00e7\u00e3o, t\u00e3o disputada, costuma ser atra\u00edda pelo que atordoa, pelo que se oferece depressa, em batidas e volume alto. Por isso, a figura de um jovem pianista dedicado \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica me parece um consolo. \u00c9 profundamente alentador saber que, enquanto tanta coisa se precipita, algu\u00e9m ainda se senta diante de um piano e aceita o tempo pr\u00f3prio de cada nota. Essa simples exist\u00eancia conforta o esp\u00edrito, sobretudo o de quem escuta do andar de baixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s vezes me surpreendo desejando que Carlos morasse ao lado, que entre a porta dele e a minha n\u00e3o houvesse um apartamento vazio, nem um andar inteiro a amortecer a m\u00fasica. Gostaria de ouvi-lo melhor, de deixar que o piano chegasse sem precisar atravessar tantas paredes. Mas talvez parte do encanto esteja justamente nessa dist\u00e2ncia: o som vem incompleto e a imagina\u00e7\u00e3o, convidada a preencher o que falta, acaba por compor a sua pr\u00f3pria m\u00fasica. Ainda assim, se pudesse escolher, preferiria t\u00ea-lo mais perto. N\u00e3o apenas pelo piano. H\u00e1 presen\u00e7as cuja proximidade se deseja antes mesmo de saber o que fazer com ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos, por\u00e9m, toca com cautela. Fecha o apartamento para que ningu\u00e9m se incomode, como se oferecesse aos moradores uma considera\u00e7\u00e3o que talvez nem lhe tenha sido solicitada. Eu gostaria de lhe dizer que n\u00e3o h\u00e1 motivo para preocupa\u00e7\u00e3o. A boa m\u00fasica n\u00e3o precisa pedir licen\u00e7a, sobretudo quando chega assim, com delicadeza, trazendo tranquilidade e abrindo espa\u00e7o para a frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela madrugada, continuei escrevendo enquanto o piano tocava acima de mim. N\u00e3o reconheci a pe\u00e7a, pois pouco entendo de m\u00fasica cl\u00e1ssica. O que importa \u00e9 o prazer que ela me oferece. Havia apenas as notas, o intervalo entre uma e outra e a certeza de que, por tr\u00e1s das paredes fechadas, Carlos estava acordado como eu. O oitavo andar permanecia vazio; ainda assim, naquele instante, n\u00e3o parecia separar coisa alguma. A m\u00fasica atravessava o espa\u00e7o entre n\u00f3s sem aboli-lo, e talvez essa seja a forma mais elegante de aproxima\u00e7\u00e3o: n\u00e3o invadir, n\u00e3o explicar, apenas deixar que algo chegue devagar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o piano cessou, o sil\u00eancio voltou a ocupar seu lugar. Retomei o texto, embora, por alguns minutos, tenha escrito menos do que escutado. Pensei que, na pr\u00f3xima vez em que nos encontr\u00e1ssemos no elevador, talvez dissesse que o ouvi. Talvez ele sorrisse, talvez respondesse qualquer coisa breve e desviasse o olhar, intimidado, como j\u00e1 fizera outras vezes. Ent\u00e3o as portas se abririam, e cada um seguiria seu caminho, rua afora ou para o pr\u00f3prio andar, levando consigo o que n\u00e3o coube na conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por enquanto, n\u00e3o espero que o piano resolva o que a vida, com o seu vagar, deixou entre n\u00f3s por dizer. O jantar pertence agora a um futuro sem data, talvez a um tempo que j\u00e1 nem nos cabe; a m\u00fasica, ao contr\u00e1rio, ainda teima em acontecer, mesmo quando chega abafada pelas paredes e interrompida por semanas de absoluto sil\u00eancio. Escuto-a como quem reconhece um aceno distante, sem a pretens\u00e3o de o reter. Do nono andar, Carlos me brinda com o rigor da sua m\u00fasica; eu permane\u00e7o no s\u00e9timo, e o oitavo, vazio h\u00e1 tantos anos, continua entre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Moro no s\u00e9timo andar; Carlos, no nono. 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