{"id":72825,"date":"2019-02-15T11:21:21","date_gmt":"2019-02-15T13:21:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=72825"},"modified":"2019-02-15T11:21:21","modified_gmt":"2019-02-15T13:21:21","slug":"van-gogh-suicidio-ou-homicidio-involuntario-filme-reabre-polemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/van-gogh-suicidio-ou-homicidio-involuntario-filme-reabre-polemica\/","title":{"rendered":"Van Gogh: suic\u00eddio ou homic\u00eddio involunt\u00e1rio? Filme reabre pol\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p>Francisco Ribeiro<br \/>\nA morte do pintor holand\u00eas Vincent Van Gogh (1853-1890) n\u00e3o \u00e9 o tema central de \u201cNo portal da Eternidade\u201d (Julian Schnabel, 2018). Entretanto, algumas cenas no final do filme \u2013 de car\u00e1ter d\u00fabio, sugerindo uma tese ou um del\u00edrio \u2013 deixam o espectador com uma pulga atr\u00e1s da orelha, e reabre a pol\u00eamica sobre o tiro que matou o artista na localidade de Auvers-sur-Oise, Fran\u00e7a, em 29 de julho de 1890. Afinal, foi um suic\u00eddio ou um homic\u00eddio involunt\u00e1rio, acidente?<br \/>\n\u00c9 antiga a hip\u00f3tese de que o tiro que matou Van Gogh n\u00e3o foi efetuado por ele. Uma das teorias atribui o fato a um acidente perpetrado por dois adolescentes \u2013 um dos quais, no dia fat\u00eddico, estaria vestido de cowboy \u2013 que \u201cbrincavam\u201d com uma arma que n\u00e3o funcionava bem. Eles eram conhecidos de Van Gogh que, para proteg\u00ea-los, teria assumido a autoria do disparo: \u201cn\u00e3o culpem ningu\u00e9m\u201d, teria dito no seu leito de morte\u201d, ocorrida dois dias ap\u00f3s ter sido baleado. Tese que, nos anos 30 do s\u00e9culo passado, foi veiculada pelo renomado historiador de arte John Rewald, autor de v\u00e1rios livros sobre pintores impressionistas. E tamb\u00e9m, mais recentemente, pelos bi\u00f3grafos Gregory White Smith e Steven Naifeh, autores de \u201cVan Gogh, a vida\u201d (Companhia das Letras, 2012).<br \/>\nO filme de Schnabel exp\u00f5e a teoria do homic\u00eddio involunt\u00e1rio atrav\u00e9s de uma seq\u00fc\u00eancia r\u00e1pida de imagens, praticamente um clip, em que aparecem dois adolescentes em atividade l\u00fadica, a indument\u00e1ria de um cowboy, o disparo, a arma jogada no rio, e a caminhada do artista ferido at\u00e9 o seu quarto. Contudo, n\u00e3o se trata de um ponto de vista claramente assumido, pois sugere tamb\u00e9m um del\u00edrio, um surto psic\u00f3tico, como tantos outros, num dos quais, em dezembro de 1888, fizera com que cortasse a pr\u00f3pria orelha. Epis\u00f3dio cuja autoria tamb\u00e9m gera pol\u00eamica, alguns atribuindo a Gauguin.<br \/>\nE, ainda no filme, o questionamento do doutor Gachet (Mathieu Amalric) junto a Van Gogh \u2013 de como ele poderia ferir-se com um rev\u00f3lver se jamais possuiu um \u2013 n\u00e3o chega a ser um argumento contundente. Neste aspecto, a bela anima\u00e7\u00e3o, \u201cCom amor, Van Gogh\u201d, 2017, uma narrativa em forma de triller, abordando pessoas e situa\u00e7\u00f5es envolvendo o pintor na fase final de sua vida, coloca quest\u00f5es mais pertinentes (vide infra) para refutar ou assumir a tese do suic\u00eddio.<br \/>\nFora da fic\u00e7\u00e3o, nem a extensa correspond\u00eancia com o irm\u00e3o \u2013 levando-se em conta as \u00faltimas cartas e a altern\u00e2ncia de humores \u2013 aporta uma prova cabal. Afinal, qualquer um, com um hist\u00f3rico desequilibrado ou n\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o limite, pode atentar contra a sua vida.De certo, em Van Gogh,, foram as crises, os surtos, as alucina\u00e7\u00f5es e os del\u00edrios que povoaram sua curta exist\u00eancia, apenas 37 anos, e que lhe valeram algumas interna\u00e7\u00f5es em sanat\u00f3rios. E por isso a hip\u00f3tese do suic\u00eddio ser comumente aceita.<br \/>\nDe certo, tamb\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o foi somente um louco ou, pelo menos, n\u00e3o o tempo todo. Gostava muito de beber e, sobretudo, de pintar. Atingiu nesta arte a designa\u00e7\u00e3o de g\u00eanio, principal motivo de tantas biografias e cinebiografias, tornando-se interessante examinar mais detalhadamente algumas destas ultimas, ainda longe serem definitivas. Resta muita coisa pra contar sobre o seu universo m\u00e1gico e colorido, e o cinema, e sua telona, \u00e9 o melhor canal.<br \/>\nUma vida, v\u00e1rias (cine)biografias<br \/>\nH\u00e1 muitos livros e filmes que exploram a \u201ctotalidade\u201d ou certos per\u00edodos da agitada, termo mais apropriado, vida de Van Gogh, pois, est\u00e1 provado, n\u00e3o d\u00e1, como querem alguns, resumi-la aos seus aspectos mais tr\u00e1gicos. Os bi\u00f3grafos, por mais rigorosos que sejam em suas pesquisas e investiga\u00e7\u00f5es, defrontam-se sempre com o inexor\u00e1vel, o inapreens\u00edvel, pois, \u201co g\u00eanio perambula por esses caminhos misteriosos\u201d, diz o livro de Gregory White Smith e Steven Naifeh.<br \/>\nCom respeito aos filmes \u2013 do cl\u00e1ssico \u201cSede de viver\u201d (Vincent Minelli, 1956), a \u201cNo portal da eternidade\u201d \u2013 roteiristas, com suas hist\u00f3rias, e diretores, com sua criatividade visual, t\u00eam procurado explorar momentos ou fatos ligados a personalidade do artista, mas sempre ressaltando, como principal tra\u00e7o, a obstina\u00e7\u00e3o, seguido do gosto pela bebida, e a forte liga\u00e7\u00e3o com o seu irm\u00e3o Theo Van Gogh.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-72827\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/loving-vincent.jpg\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"290\" \/><br \/>\nAssim, o Van Gogh interpretado por Kirk Douglas em \u201cSede de Viver\u201d \u00e9 um ser febril, muito engajado em tudo que empreende, alternando desejos de santidade com surtos demon\u00edacos. O filme mostra um Van Gogh encarando a arte como uma esp\u00e9cie de apostolado, e a origem disso, ele, filho de uma pastor, atuando, antes de descobrir sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o, como mission\u00e1rio protestante na regi\u00e3o mineira do Borinage, B\u00e9lgica. Baseado na biografia de Irving Stone, \u201cSede de Viver\u201d, rendeu a Anthony Quinn, que interpretou Gauguin, o seu segundo Oscar de melhor ator coadjuvante.<br \/>\nJ\u00e1 o Van Gogh de \u201cVincent e Theo\u201d (Robert Altman, 1990) \u00e9 mais cru, apresentando um personagem com os dentes permanentemente sujos pelo tabaco, e, em boa parte do tempo, vestindo trapos. O Van Gogh vivido por Tim Roth \u00e9 um ser mais pr\u00f3ximo daquele comumente encontrado num asilo p\u00fablico de alienados. Tamb\u00e9m aborda de maneira mais clara as quest\u00f5es pecuni\u00e1rias, e ressalta o fato do artista sentir-se um fardo como o motivo principal do seu suic\u00eddio. Trata-se, sem d\u00favida, da mais depressiva das fic\u00e7\u00f5es enfocando a vida do pintor. E, assim como em \u201cSede de viver\u201d, adere explicitamente \u00e0 tese do suic\u00eddio.<br \/>\nNuma esp\u00e9cie de compensa\u00e7\u00e3o, um ano depois, 1991, o diretor franc\u00eas Maurice Pialat construiu, atrav\u00e9s do ator Jacques Dutronc, um \u201cVan Gogh\u201d intrigante, sedutor e bo\u00eamio, capaz, inclusive de fazer brincadeiras. Tra\u00e7os, enfim, que o colocam longe daquela figura permanentemente atormentada que sempre colam a sua pele. Dutronc vive o mais carnal dos Van Gogh, e a tens\u00e3o, constante, decorrendo mais das paix\u00f5es do que por um problema de insanidade mental. Neste filme, a morte de Van Gogh, em princ\u00edpio, parece resolver os problemas de todos: de Theo, por ter de sustent\u00e1-lo; o doutor Gachet, em rela\u00e7\u00e3o a filha, e ao pr\u00f3prio Vincent. A autoria do disparo n\u00e3o fica esclarecida.<br \/>\nJ\u00e1 a bela anima\u00e7\u00e3o \u201cCom amor, Van Gogh\u201d \u00e9 uma narrativa em tom de suspense, uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a morte do pintor. Ele realmente se matou? As argumenta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias s\u00e3o fortes. Quem quer se matar n\u00e3o d\u00e1 um tiro na barriga, atira na cabe\u00e7a ou na boca. E, dado o tiro no est\u00f4mago, percebendo que continuava vivo, por que n\u00e3o completou o servi\u00e7o, dando um segundo tiro? Arrependimento?Quest\u00f5es pertinentes, mas o que mais se destaca \u00e9 a excel\u00eancia do tratamento pl\u00e1stico, gra\u00e7as \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o de dezenas de artistas, transformando o mundo em animadas telas de Van Gogh.<br \/>\nUm artista em busca do absoluto<br \/>\nA vers\u00e3o de Julian Schnabel vai por um caminho diferente. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 primeira vez que biografa aspectos da vida de um artista. Em 1996 filmou \u201cBasquiat\u201d \u2013 pintor, grafiteiro, poeta, etc &#8211; outro marginal que, ao contr\u00e1rio de Van Gogh, teve seus 15 minutos de fama. Basquiat n\u00e3o teve um Theo para sustent\u00e1-lo. Foi retirado, literalmente, das ruas para o ef\u00eamero, morreu de Aids, estrelato. Em vida sentia-se t\u00e3o maldito, exclu\u00eddo, rejeitado quanto Van Gogh, acrescentando mais o preconceito por ser negro.<br \/>\nVinte anos separam \u201cBasquiat\u201d de \u201cNo portal da eternidade\u201d. Schnabel, nesta aventura, contou, na elabora\u00e7\u00e3o do roteiro, com a prestigiosa e competente colabora\u00e7\u00e3o de Jean-Claude Carri\u00e8re, o grande parceiro da fase gaulesa do diretor espanhol Luis Bunel (1900-1983), um realizador c\u00e9lebre na arte do del\u00edrio, do surreal, principalmente quando esteve associado a Salvador Dali (1904-1989).<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-72828\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Van-Gogh-Noite-estrelada-450x263.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"263\" \/><br \/>\nMas de louco, no filme de Schnabel, s\u00f3 o sistema, a sociedade. \u00c9 ela a grande promotora de tens\u00e3o e agressividade. Expressa no filme atrav\u00e9s das crian\u00e7as que, ati\u00e7adas pelos coment\u00e1rios dos adultos, sentem-se encorajadas a agredir um ser aparentemente mais fr\u00e1gil do que elas. Esquizofrenia pura. Afinal, trata-se da mesma sociedade que,depois de morto, ir\u00e1 glorific\u00e1-lo e lucrar com ele, erguendo museus e colocando placas nos muquifos em que viveu. Transformando em lugares de peregrina\u00e7\u00e3o os mesmos caminhos onde antes lhe atiravam pedras. O capitalismo \u00e9 necr\u00f3filo<br \/>\nMas isso, assim como a especula\u00e7\u00e3o sobre a morte de Van Gogh, \u00e9 perif\u00e9rico. Schnabel, ele pr\u00f3prio um pintor, explora o fazer art\u00edstico ou, mais precisamente, tenta materializar algo impenetr\u00e1vel, a sensibilidade agu\u00e7ada que diferencia o artista de g\u00eanio do resto dos mortais. Nisto contou com espl\u00eandida atua\u00e7\u00e3o Willem Dafoe, que, por ela, ganhou o pr\u00eamio de melhor ator no Festival de Veneza. Dafoe, como os colegas que o precederam na interpreta\u00e7\u00e3o do pintor holand\u00eas \u2013 Kirk Douglas, Tim Roth, Jacques Dutronc \u2013 tem o phisique du r\u00f4le. Tamb\u00e9m n\u00e3o pesou a idade, 64 anos, pois caracteriza bem as fei\u00e7\u00f5es de algu\u00e9m precocemente envelhecido, que extraiu todo o sumo da vida, a sua.<br \/>\nE a bela fotografia do filme ajuda a materializar um pouco daquilo que se imagina tenha sido a percep\u00e7\u00e3o do mais febril dos impressionistas. Varia\u00e7\u00e3o de planos valorizando as paisagens, a vegeta\u00e7\u00e3o, as cores luxuriantes, o sol, coisas intrinsecamente, sensorialmente associadas \u00e0 pintura. Bom uso da c\u00e2mera subjetiva fazendo o espectador assumir a vis\u00e3o de um personagem em comunh\u00e3o com a natureza. Totalmente entregue a pintura, o Van Gogh de Dafoe,\u00e9 um personagem Zen, absorvendo, literalmente, aqueles cen\u00e1rios naturais ou moldados pelo homem, como os campos de girass\u00f3is ou trigo.<br \/>\nEnfim, \u201cNo portal da eternidade\u201d deve ser interpretado como uma met\u00e1fora para a gl\u00f3ria e n\u00e3o para a morte. Os dois \u00faltimos anos da vida de Van Gogh s\u00e3o compar\u00e1veis \u00e0 for\u00e7a de um poema selvagem, m\u00edstico. E ah, que trabalhador, pintou 75 quadros durante os 80 dias que passou em Auvers-sur-Oise, ritmo de produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 alcan\u00e7ado em Arles, pr\u00e9-orelha cortada. Obras consideradas entre as melhores pinturas j\u00e1 realizadas em todos os tempos. \u00c9 o que importa. O resto s\u00e3o p\u00f3 e ossos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Ribeiro A morte do pintor holand\u00eas Vincent Van Gogh (1853-1890) n\u00e3o \u00e9 o tema central de \u201cNo portal da Eternidade\u201d (Julian Schnabel, 2018). 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