{"id":83227,"date":"2020-12-15T21:42:11","date_gmt":"2020-12-16T00:42:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/?p=83227"},"modified":"2020-12-15T21:42:11","modified_gmt":"2020-12-16T00:42:11","slug":"1935-a-volta-do-reporter-policial-paulo-koetz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/1935-a-volta-do-reporter-policial-paulo-koetz\/","title":{"rendered":"1935 &#8211; A volta do rep\u00f3rter policial Paulo Koetz"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Geraldo Hasse*<\/strong><\/p>\n<p><em>A cada livro \u2013 a conta j\u00e1 passou de 15 &#8211;, o rep\u00f3rter-historiador Rafael<\/em><br \/>\n<em>Guimaraens vai se aperfei\u00e7oando como ficcionista escolado, mas sem se<\/em><br \/>\n<em>afastar da trilha segura da pesquisa hist\u00f3rica em cima de epis\u00f3dios do<\/em><br \/>\n<em>mundo policial. Em seu \u00faltimo livro, 1935 (Libretos, 336 p\u00e1ginas), lan\u00e7ado<\/em><br \/>\n<em>na \u00faltima feira do livro (virtual) de Porto Alegre, ele mescla reportagem<\/em><br \/>\n<em>policial com inven\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e, numa trama extremamente h\u00e1bil, produz<\/em><br \/>\n<em>uma estupenda novela de costumes em que se entrecruzam policiais,<\/em><br \/>\n<em>jornalistas, pol\u00edticos, prostitutas, gigol\u00f4s, advogados e contrabandistas.<\/em><\/p>\n<p><em>A personagem central da hist\u00f3ria \u00e9 Paulo Koetz, rep\u00f3rter policial-narrador<\/em><br \/>\n<em>que se envolve em diversas ocorr\u00eancias do ano em que o governo ga\u00facho<\/em><br \/>\n<em>monta uma grande festa-exposi\u00e7\u00e3o para comemorar o centen\u00e1rio da<\/em><br \/>\n<em>revolu\u00e7\u00e3o farroupilha (1835-1845). Enquanto cobre acontecimentos em<\/em><br \/>\n<em>Porto Alegre, ele se envolve com uma bailarina \u201cfrancesa\u201d explorada por<\/em><br \/>\n<em>uma organiza\u00e7\u00e3o mafiosa e frequenta escrit\u00f3rios de profissionais liberais<\/em><br \/>\n<em>esquerdistas vigiados pelo governo de Flores da Cunha, o caudilho<\/em><br \/>\n<em>provinciano que mira o lugar de Get\u00falio Vargas na Presid\u00eancia da<\/em><br \/>\n<em>Rep\u00fablica. \u00c9 uma narrativa praticamente pronta para virar roteiro de<\/em><br \/>\n<em>cinema.<\/em><\/p>\n<p><em>Paulo Koetz \u00e9 uma personagem ficcional baseada em fatos reais. Esse<\/em><br \/>\n<em>nome consta dos bastidores da hist\u00f3ria d\u2019A Dama da Lagoa, livro de<\/em><br \/>\n<em>Rafael Guimaraens que explora o caso do assassinato de uma jovem de<\/em><br \/>\n<em>Porto Alegre cujo corpo foi jogado na Lagoa dos Barros, em Santo Antonio<\/em><br \/>\n<em>da Patrulha, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1040. Em 1935, Koetz aparece como<\/em><br \/>\n<em>ex-estudante de direito, tem 24 anos, trabalha como rep\u00f3rter do Correio<\/em><br \/>\n<em>do Povo e sonha ser chamado pela Revista do Globo, onde seu primo, o<\/em><br \/>\n<em>artista pl\u00e1stico Edgar Koetz (1914-1969), trabalha como ilustrador sob a<\/em><br \/>\n<em>dire\u00e7\u00e3o de Erico Verissimo nos prim\u00f3rdios da carreira liter\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p><em>Esses v\u00ednculos entre a realidade e a fantasia constituem um dos charmes<\/em><br \/>\n<em>do livro, que explora com efic\u00e1cia e lucidez fatos e viv\u00eancias de uma<\/em><br \/>\n<em>cidade em franca transforma\u00e7\u00e3o. O rep\u00f3rter conhece o psiquiatra e<\/em><br \/>\n<em>escritor Dyonelio Machado, preso como agitador comunista e visitado na cadeia por ningu\u00e9m menos do que o cronista Rubem Braga, um dos<\/em><br \/>\n<em>jornalistas brasileiros convidados para a inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o no dia<\/em><br \/>\n<em>20 de setembro de 1935. Koetz vai junto e contracena com os dois<\/em><br \/>\n<em>escritores rebeldes.<\/em><\/p>\n<p><em>A novela cresce \u00e0 medida que o rep\u00f3rter-narrador mergulha nos<\/em><br \/>\n<em>subterr\u00e2neos da vida pol\u00edtico-policial portoalegrense. Vai de trem a<\/em><br \/>\n<em>Taquara a fim de desvendar o crime do sapatinho vermelho \u2013 uma jovem<\/em><br \/>\n<em>\u00e9 degolada por um veterano da revolu\u00e7\u00e3o de 1893. Embora seja um<\/em><br \/>\n<em>aprendiz do of\u00edcio, troca informa\u00e7\u00f5es com o patr\u00e3o Breno Caldas, herdeiro<\/em><br \/>\n<em>do Correio do Povo, sobre frequentadores do Jockey Clube suspeitos de<\/em><br \/>\n<em>bandalheiras internacionais. Assiste ao Gre-Nal do Centen\u00e1rio, destacando<\/em><br \/>\n<em>a figura de Lara, o goleiro que sai de campo para o hospital e, pouco<\/em><br \/>\n<em>depois, morre tuberculoso.<\/em><\/p>\n<p><em>Mais de uma vez tenta mas n\u00e3o consegue uma mesa no restaurante Gambrinus, sempre lotado, no Mercado P\u00fablico. Esfor\u00e7a-se por ajudar o advogado Apparicio Cora de Almeida a desvendaro mist\u00e9rio do assassinato de Waldemar Ripoll, morto a machadadas em1934 por pregar um golpe contra o governador Flores da Cunha (Cora de<\/em><br \/>\n<em>Almeida morre com um tiro atr\u00e1s da orelha direita, tendo prevalecido a<\/em><br \/>\n<em>vers\u00e3o policial de que ele cometeu suic\u00eddio involunt\u00e1rio).<\/em><\/p>\n<p><em>A trama narrada na primeira pessoa tem o m\u00e1ximo rendimento quando o<\/em><br \/>\n<em>rep\u00f3rter Koetz, operando como investigador aut\u00f4nomo, furta documentos<\/em><br \/>\n<em>do escrit\u00f3rio de um contrabandista judeu, abrindo caminho para que a<\/em><br \/>\n<em>pol\u00edcia capture uma quadrilha internacional especializada na extors\u00e3o de<\/em><br \/>\n<em>\u201cescravas brancas\u201d europ\u00e9ias, especialmente as \u201cpolaquinhas\u201d obrigadas<\/em><br \/>\n<em>a trabalhar como prostitutas.\u00a0 Tudo isso \u00e9 bastante verossimel numa cidade coalhada de alem\u00e3es ou descendentes em que o maior empres\u00e1rio local, o industrial do vestu\u00e1rio A. J. Renner, usa um bigode semelhante ao de Adolf Hitler, l\u00edder do nazismo na Alemanha. Claro que o rep\u00f3rter s\u00f3 ganha tanta coragem para salvar a vida da sua querida namorada Juliette, ali\u00e1s Agniezka, origin\u00e1ria da Pol\u00f4nia. Com seu 1935, afinal de contas, Rafael Guimaraens avan\u00e7a como mestre num tipo de narrativa que mistura jornalismo, literatura e pol\u00edtica, explorando habilmente fatos e costumes de uma \u00e9poca em que a provinciana Porto Alegre adquire ares de metr\u00f3pole e entroniza Erico Verissimo como um dos maiores romancistas do Brasil.<\/em><\/p>\n<p><em>Nascido em 1956 em Porto Alegre, filho do jornalista Carlos Guimaraens e<\/em><br \/>\n<em>neto do poeta Eduardo idem, Rafael sempre trabalhou com a escrita.<\/em><br \/>\n<em>Formado em jornalismo na PUCRS, come\u00e7ou como rep\u00f3rter e foi dirigente<\/em><br \/>\n<em>da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), que existiu de<\/em><br \/>\n<em>1974 a 1982. Desde a segunda metade dos anos 70, fez parte do n\u00facleo de<\/em><br \/>\n<em>jornalismo hist\u00f3rico da Coojornal, cujos integrantes selecionavam temas<\/em><br \/>\n<em>pass\u00edveis de pesquisa para publica\u00e7\u00e3o em forma de reportagens mais<\/em><br \/>\n<em>alentadas. De certa forma, Rafael se manteve nessa trilha hist\u00f3rica,<\/em><br \/>\n<em>tornando-se um escritor especialista em reportagens aptas a virar livros<\/em><br \/>\n<em>\u2013essa mesma vertente tem sido explorada por outros ex-membros da<\/em><br \/>\n<em>cooperativa atuantes em Porto Alegre: Elmar Bones (jornal J\u00e1), por<\/em><br \/>\n<em>exemplo, explora hist\u00f3rias dos poderosos da pol\u00edtica; j\u00e1 Jorge Polydoro<\/em><br \/>\n<em>(revista Amanh\u00e3) focaliza os poderosos do mundo empresarial.<\/em><\/p>\n<p><em>Em mais de uma dezena de livros, todos editados pela Libretos, fundada<\/em><br \/>\n<em>em 1997 por Clo Barcellos, jornalista especializada em design editorial,<\/em><br \/>\n<em>Rafael passou a limpo diversas hist\u00f3rias de Porto Alegre, entre elas a<\/em><br \/>\n<em>famosa enchente de 1941. Um dos pontos altos de sua trajet\u00f3ria \u00e9 O<\/em><br \/>\n<em>Sargento, o Marechal e o Faquir (Libretos, 2016), que reconta a hist\u00f3ria da<\/em><br \/>\n<em>pris\u00e3o, tortura e morte do sargento Raimundo Soares, tristemente c\u00e9lebre<\/em><br \/>\n<em>como protagonista-v\u00edtima do Caso das M\u00e3os Amarradas, de 1966, nos<\/em><br \/>\n<em>primeiros anos da ditadura militar.<\/em><\/p>\n<p><em>Com experi\u00eancia em assessoria de imprensa de pol\u00edticos petistas \u2013 Olivio<\/em><br \/>\n<em>Dutra e Flavio Koutzii &#8211;, Rafael nunca trabalhou fora de Porto Alegre,<\/em><br \/>\n<em>embora tenha recebido propostas para trabalhar em grandes ve\u00edculos no<\/em><br \/>\n<em>Rio, em S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia. H\u00e1 dois anos aposentou-se, com o que passou<\/em><br \/>\n<em>a dispor de mais tempo para pesquisar e escrever.<\/em><br \/>\n<em>Embora tenha passado a fazer parte do primeiro time dos escritores<\/em><br \/>\n<em>ga\u00fachos, ele n\u00e3o tira o pr\u00f3prio sustento da venda dos seus livros &#8212;<\/em><br \/>\n<em>importantes, por\u00e9m, para a sustentabilidade da Editora Libretos, para a<\/em><br \/>\n<em>qual trabalha exclusivamente desde 2006.<\/em><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Jornalista, pesquisador e escritor.<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Geraldo Hasse* A cada livro \u2013 a conta j\u00e1 passou de 15 &#8211;, o rep\u00f3rter-historiador Rafael Guimaraens vai se aperfei\u00e7oando como ficcionista escolado, mas sem se afastar da trilha segura da pesquisa hist\u00f3rica em cima de epis\u00f3dios do mundo policial. 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