{"id":92476,"date":"2026-10-08T14:32:10","date_gmt":"2026-10-08T17:32:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/?p=92476"},"modified":"2026-10-08T14:32:12","modified_gmt":"2026-10-08T17:32:12","slug":"edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/","title":{"rendered":"Edison H\u00fcttner: \u00e9 preciso escutar os ind\u00edgenas mais do que falar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ao revisitar os 400 anos das Miss\u00f5es, o pesquisador destaca o protagonismo ind\u00edgena e defende que essa hist\u00f3ria seja contada com di\u00e1logo, escuta e respeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em entrevista exclusiva ao <strong><em>Jornal J\u00c1<\/em><\/strong>, o professor e pesquisador Edison H\u00fcttner prop\u00f5e uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria das Miss\u00f5es Jesu\u00edticas que reconhe\u00e7a a participa\u00e7\u00e3o e a contribui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas. Ao marcar os 400 anos da funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Nicolau, ele defende novas interpreta\u00e7\u00f5es sobre o passado missioneiro, conectadas \u00e0s demandas ind\u00edgenas do presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordenador do N\u00facleo de Estudos Afro-Brasileiros e Ind\u00edgenas (NEABI) da PUCRS, professor dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria e Teologia da universidade e membro do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Rio Grande do Sul, H\u00fcttner pesquisa a hist\u00f3ria, a arte e a cultura ind\u00edgena e missioneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na conversa, ele relata descobertas que ajudam a reconstituir esse legado, como a identifica\u00e7\u00e3o do artista guarani Gabriel Quiri como autor do sino de S\u00e3o Miguel e o retorno a S\u00e3o Nicolau de uma escultura barroca encontrada em Santa Maria. Tamb\u00e9m analisa as redu\u00e7\u00f5es como espa\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o e controle, a preserva\u00e7\u00e3o das cosmologias ind\u00edgenas e os riscos de apagar ou distorcer a mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao refletir sobre os desafios da pesquisa, H\u00fcttner destaca a import\u00e2ncia de ouvir as comunidades, reconhecer seus saberes e ampliar sua participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Sua mensagem sintetiza esse compromisso: \u201cEscutar mais que falar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrevista a Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Ao revisitar os 400 anos das Miss\u00f5es Jesu\u00edticas no Rio Grande do Sul, quais interpreta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas podem ser consideradas hoje insuficientes ou ultrapassadas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Edison H\u00fcttner:<\/em><\/strong> A hist\u00f3ria dos 400 anos das Miss\u00f5es Jesu\u00edticas \u00e9 um acontecimento vivo e cont\u00ednuo. Perene. Povos nativos, jesu\u00edtas e outros personagens permanecem atuais em nossa mem\u00f3ria, em nossa tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e em nossa cultura. Por isso mesmo, s\u00e3o in\u00fameras as interpreta\u00e7\u00f5es, cada uma marcada pelo contexto em que surgiu, sendo necess\u00e1rio que entendamos esse contexto, os di\u00e1logos entre as partes envolvidas e seus desdobramentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Envolver-se nesse legado exige contemplar suas diversas perspectivas, dialogando juntos, tendo em vista interpreta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que unem aquele mundo, com seu significado, com o mundo de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de 2026 \u2013 mas n\u00e3o s\u00f3 neste per\u00edodo \u2013, quando pensamos e falamos na hist\u00f3ria dos 400 anos das miss\u00f5es jesu\u00edticas no Rio Grande do Sul, referimo-nos \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e suas etnias que pertenceram e constru\u00edram aquele mundo: Kaingang, Charruas, Guarani, Minuano. E ainda carecemos de interpreta\u00e7\u00f5es mais positivas e realistas sobre esses povos que viveram naquele per\u00edodo, especialmente ao confrontarmos com a situa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro desse contexto, \u00e9 preciso observar, entender e valorizar profundamente a experi\u00eancia da Redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Nicolau, fundada em 3 de maio de 1626. Afinal, este \u00e9 o palco principal e articulador de significados daquele per\u00edodo e de seus desdobramentos. Celebramos os 400 anos das Redu\u00e7\u00f5es Jesu\u00edticas no Rio Grande do Sul, n\u00e3o 150, nem 300, mas 400 anos, exatamente no dia 3 de maio de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo de simb\u00f3lico neste dia, especialmente para mim. No dia 3 de maio de 2026, estive em S\u00e3o Nicolau. Nesse sentido, revisar e interpretar os 400 anos das Miss\u00f5es Jesu\u00edticas pressup\u00f5e: a) a compreens\u00e3o da Redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Nicolau como pedra angular que conecta a hist\u00f3ria e a paisagem de todos os Sete Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul; b) levar adiante o compromisso com os povos ind\u00edgenas, o legado deixado pelas redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas, valorizando as experi\u00eancias construtivas ali realizadas, mas agora inseridas em um novo contexto de necessidades contempor\u00e2neas desses povos no RS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Em sua trajet\u00f3ria \u2013 cercada de reconhecimento e respeito \u2013 como historiador e pesquisador de assuntos ind\u00edgenas e missioneiros, qual ou quais foram as descobertas mais importantes e como elas aconteceram?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> As atividades de extens\u00e3o universit\u00e1ria que realizamos junto \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas no Rio Grande do Sul, atrav\u00e9s do N\u00facleo de Cultura Ind\u00edgena da PUCRS, desde 2003, me levaram a estudar as express\u00f5es de arte e cultura destes povos, de modo particular no contexto das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas inseridas no territ\u00f3rio ga\u00facho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Iniciei minhas pesquisas sobre as redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas de modo mais aprofundado em 2006, tendo como foco o Sino de S\u00e3o Miguel, datado de 1726. Ent\u00e3o, 2026 marca tamb\u00e9m os 300 anos do maior sino missioneiro. Descobri, atrav\u00e9s da obra do jesu\u00edta Ant\u00f4nio Sepp, que o sino foi criado por um \u00edndio guarani chamado <em>Gabriel Quiri<\/em>, que tamb\u00e9m era um m\u00fasico muito admirado nas redu\u00e7\u00f5es. Atualmente, o sino est\u00e1 exposto no alpendre do Museu das Miss\u00f5es, localizado no S\u00edtio Arqueol\u00f3gico S\u00e3o Miguel Arcanjo \u2013 RS<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" data-attachment-id=\"92477\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-scaled.jpg\" data-orig-size=\"2560,1707\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;10&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon EOS REBEL T1i&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1375177704&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;48&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;100&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.005&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Sino de S\u00e3o Miguel. Foto do professor Edison H\u00fcttner &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o.\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-1024x683.jpg\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92477\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sino-de-sao-miguel-foto-do-professor-edison-huttner-divulgacao-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sino de S\u00e3o Miguel | Foto de Edison H\u00fcttner\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o maior sino missioneiro, nunca havia sido pesado, e exatamente por esta raz\u00e3o, os pesquisadores divergiam quanto ao seu peso. E n\u00e3o havia registro da composi\u00e7\u00e3o met\u00e1lica e nem grava\u00e7\u00e3o dos sons emitidos pelo sino. Ao conseguirmos i\u00e7\u00e1-lo para pes\u00e1-lo, a balan\u00e7a indicou 910 quilos. Tamb\u00e9m registramos sua hist\u00f3ria e seus sons, que agora est\u00e3o dispon\u00edveis para todos ouvirem. O sino \u00e9 feito de bronze, e sua composi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 80% cobre e 20% de estanho. Mede 1 metro e 10 cent\u00edmetros de altura e tem 1 metro e 15 cent\u00edmetros de circunfer\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive a satisfa\u00e7\u00e3o de visitar diversas vezes S\u00e3o Nicolau, onde fui muito bem acolhido pela comunidade local e pela administra\u00e7\u00e3o municipal ao longo dos anos. Durante essas visitas, realizei duas descobertas importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma delas, ocorrida em 2017, quando identifiquei no munic\u00edpio de Santa Maria (RS) uma escultura barroca jesu\u00edtico-guarani de S\u00e3o Nicolau. Origin\u00e1ria do munic\u00edpio de S\u00e3o Nicolau, datada entre os s\u00e9culos XVII-XVIII, havia sido roubada de S\u00e3o Nicolau nos 1960.&nbsp; Depois de minha descoberta, a bela escultura retornou, em 2017, \u00e0 igreja de onde havia sido levada, trazendo alegria para a popula\u00e7\u00e3o e restabelecendo um importante patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural para a comunidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"648\" height=\"971\" data-attachment-id=\"92478\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/escultura-de-sao-nicolau-foto-de-bruno-todeschini-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/escultura-de-sao-nicolau-foto-de-bruno-todeschini-divulgacao.png\" data-orig-size=\"648,971\" data-comments-opened=\"0\" data-image-title=\"Escultura de S\u00e3o Nicolau. Foto de Bruno Todeschini &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/escultura-de-sao-nicolau-foto-de-bruno-todeschini-divulgacao.png\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/escultura-de-sao-nicolau-foto-de-bruno-todeschini-divulgacao.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-92478\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/escultura-de-sao-nicolau-foto-de-bruno-todeschini-divulgacao.png 648w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/escultura-de-sao-nicolau-foto-de-bruno-todeschini-divulgacao-200x300.png 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Escultura de S\u00e3o Nicolau | Foto de Bruno Todeschini\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2020, tamb\u00e9m identifiquei uma fonte de \u00e1gua pertencente \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Nicolau. Neste local, ap\u00f3s esta descoberta, foi projetado e criado pela Prefeitura de S\u00e3o Nicolau o \u201cProjeto do Parque da Fonte Missioneira do Chafariz de S\u00e3o Nicolau\u201d, em comemora\u00e7\u00e3o aos 400 anos das Miss\u00f5es. Este ano, uma equipe de arque\u00f3logos, coordenado pela Juliana Soares, iniciou escava\u00e7\u00f5es no local com o objetivo de revitaliz\u00e1-lo. E fui convidado a integrar essa equipe de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Algum outro achado documental ou evid\u00eancia que tenha alterado significativamente sua compreens\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os jesu\u00edtas e os povos ind\u00edgenas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Foram muitas as descobertas registradas e documentadas ao longo desses anos. Mas, tamb\u00e9m em 2017, descobri no munic\u00edpio de Panambi (RS) um manuscrito jesu\u00edta rar\u00edssimo, datado do per\u00edodo entre 1730 \u2013 1740, e que em breve ser\u00e1 tombado pelo IPHAN. O Manuscrito \u00e9 bil\u00edngue, escrito em espanhol e latim. \u00c9 poss\u00edvel identificar a escrita e a caligrafia de v\u00e1rias m\u00e3os, tanto de \u00edndios quanto de jesu\u00edtas. Em outras palavras, trata-se de uma produ\u00e7\u00e3o de livro manuscrito para as escolas das redu\u00e7\u00f5es, com conte\u00fados diversos, evidenciando o alto n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e de aprendizagem das popula\u00e7\u00f5es missioneiras daquele per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"601\" data-attachment-id=\"92479\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" data-orig-size=\"800,601\" data-comments-opened=\"0\" data-image-title=\"Capa em couro do Manuscrito Jesu\u00edta. Foto de Edison H\u00fcttner &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92479\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg 800w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/capa-em-couro-do-manuscrito-jesuita-foto-de-edison-huttner-divulgacao-768x577.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa de couro do Manuscrito Jesu\u00edta | Foto de Edison H\u00fcttner \/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"601\" data-attachment-id=\"92480\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" data-orig-size=\"800,601\" data-comments-opened=\"0\" data-image-title=\"Trecho do Manuscrito Jesu\u00edta em que \u00e9 poss\u00edvel ver a marca d\u2019\u00e1gua do fabricante europeu do papel usado. Foto de Edison H\u00fcttner &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92480\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg 800w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/trecho-do-manuscrito-jesuita-em-que-e-possivel-ver-a-marca-dagua-do-fabricante-europeu-do-papel-usado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-768x577.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Trecho do Manuscrito Jesu\u00edta em que \u00e9 poss\u00edvel ver a marca d\u2019\u00e1gua do fabricante europeu do papel usado | Foto de Edison H\u00fcttner \/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"599\" data-attachment-id=\"92481\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" data-orig-size=\"800,599\" data-comments-opened=\"0\" data-image-title=\"P\u00e1gina do Manuscrito Jesu\u00edta em que o Zod\u00edaco \u00e9 abordado. Foto de Edison H\u00fcttner &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92481\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.jpg 800w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/pagina-do-manuscrito-jesuita-em-que-o-zodiaco-e-abordado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-768x575.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">P\u00e1gina do Manuscrito Jesu\u00edta em que o Zod\u00edaco \u00e9 abordado | Foto de Edison H\u00fcttner\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2018, pesquisei um Relat\u00f3rio das Guerras Cisplatinas (1817-1818), elaborado pelo militar Francisco Chagas do Santos, encontrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Esse documento registra a chegada de 43 sinos missioneiros saqueados por Chagas durante a invas\u00e3o \u00e0s redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas na Argentina e no Paraguai. Os sinos foram transportados para Porto Alegre. Os padres solicitavam esses sinos para suas capelas no interior do RS. Alguns destes sinos n\u00f3s identificamos em cidades como Ca\u00e7apava do Sul, Candel\u00e1ria, S\u00e3o Martinho da Serra, Santa Maria e S\u00e3o Francisco de Assis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na torre da igreja de Ca\u00e7apava do Sul h\u00e1 um sino missioneiro datado de 1732, origin\u00e1rio da Redu\u00e7\u00e3o da Sant\u00edssima Trindade, no Paraguai. &nbsp;Registramos os sons produzidos por esse sino. O \u00fanico sino do per\u00edodo das Sete Redu\u00e7\u00f5es Jesu\u00edticas que possui o nome de autoria de um \u00edndio gravado nele pr\u00f3prio. No sino, em alto relevo, est\u00e1 gravado o nome do \u00edndio guarani que o criou: Ignatius Guarepi.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" data-attachment-id=\"92482\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.png\" data-orig-size=\"1536,1024\" data-comments-opened=\"0\" data-image-title=\"Sinos de 1732 identificados em Ca\u00e7apava do Sul. No detalhe da imagem \u00e0 direita, o nome de Ignatius Guarepi aparece gravado. Foto de Edison H\u00fcttner &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o.\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-1024x683.png\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-92482\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-300x200.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao-768x512.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/sinos-de-1732-identificados-em-cacapava-do-sul-no-detalhe-da-imagem-a-direita-o-nome-de-ignatius-guarepi-aparece-gravado-foto-de-edison-huttner-divulgacao.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sinos de 1732 identificados em Ca\u00e7apava do Sul. No detalhe da imagem \u00e0 direita, o nome de Ignatius Guarepi aparece gravado | Foto de Edison H\u00fcttner\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Como o senhor avalia a tens\u00e3o entre o projeto evangelizador jesu\u00edtico e a preserva\u00e7\u00e3o das cosmologias ind\u00edgenas origin\u00e1rias?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Importante dizer que o projeto mission\u00e1rio aconteceu dentro dos par\u00e2metros de sua \u00e9poca, que naturalmente podem ser questionados. Durante o per\u00edodo das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas, houve um controle rigoroso das manifesta\u00e7\u00f5es de rituais xam\u00e2nicos em espa\u00e7os p\u00fablicos, dentro do ambiente das capelas e das igrejas. Ao mesmo tempo, esse mundo n\u00e3o poderia se manter sem a express\u00e3o das cren\u00e7as nativas, que continuavam a existir em configura\u00e7\u00f5es mais discretas e adaptadas, em espa\u00e7os privados ou por meio de pr\u00e1ticas sincr\u00e9ticas, envolvendo elementos ind\u00edgenas e cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo ocorreu no in\u00edcio por meio de experi\u00eancias h\u00edbridas, ajustamentos e analogias. Por exemplo, o deus crist\u00e3o recebe o nome de <em>\u00d1and\u00e9 Dj\u00e1ra<\/em>: Nosso Senhor. Os anjos: <em>yvyr\u00e1r\u00ed dj\u00e1<\/em> \u2013 que seriam os esp\u00edritos protetores da mitologia guarani. Foram relatados casos em que os \u00edndios cultuavam a cruz, mas com uma ave de rapina ao lado. &nbsp;Com o passar do tempo, inseridos naquele contexto, a maioria dos \u00edndios se tornou crist\u00e3o cat\u00f3lico.&nbsp; Como prova, existem registros de batismos de \u00edndios e de seu envolvimento nas celebra\u00e7\u00f5es e festividades religiosas nas redu\u00e7\u00f5es. De alguma forma, isso ainda acontece hoje nas aldeias do RS e do Brasil. Por exemplo, \u00edndios que se convertem \u00e0 igreja evang\u00e9lica, ou uma outra representa\u00e7\u00e3o, mas que paralelamente preservam suas tradi\u00e7\u00f5es religiosas e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que os povos ind\u00edgenas conseguiram preservar suas cosmologias, de modo particular o mito guarani <em>Yvy Mar\u00e3e\u201fy<\/em> (Terra sem Mal), equivalente ao Mito do Jardim do \u00c9den e \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vida eterna que os jesu\u00edtas defendiam. O que mantinha o verdadeiro significado destes mitos era: a) as trocas e compartilhamentos de experi\u00eancias cotidianas entre \u00edndios e jesu\u00edtas; b) alguma \u00e1rea fora da redu\u00e7\u00e3o, no <em>Abamba\u00e9<\/em> (terra dos homens), que era um espa\u00e7o (ch\u00e1cara) destinado \u00e0s fam\u00edlias ind\u00edgenas para cultivarem sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia; c) o conhecimento da astronomia guarani.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Buenaventura Suarez, um astr\u00f4nomo jesu\u00edta (1679-1750), estabeleceu seu centro astron\u00f4mico em S\u00e3o Tom\u00e9, ele utilizou ali instrumentos produzidos com materiais encontrados no local. Esse centro astron\u00f4mico foi constru\u00eddo com a participa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios guarani, que tamb\u00e9m o influenciaram com sua vis\u00e3o de mundo, com sua astronomia. A sabedoria nativa dialogou com a obra de Buenaventura Suarez, que, em suas observa\u00e7\u00f5es do c\u00e9u, tamb\u00e9m registrou a constela\u00e7\u00e3o guarani de Ema (<em>Guyra Nhandu<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: At\u00e9 que ponto as redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas podem ser interpretadas como espa\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, e em que medida tamb\u00e9m representaram mecanismos de controle cultural?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Aqui temos um ponto importante a considerar. Espanha e Portugal invadiram as terras al\u00e9m-mar e transformaram essas \u201cterras descobertas\u201d em col\u00f4nias de seus reinados. H\u00e1 estudos que comprovam que, naquela \u00e9poca, o lugar mais seguro para as popula\u00e7\u00f5es nativas era o espa\u00e7o das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas. Fora deste contexto, essas popula\u00e7\u00f5es ficavam expostas \u00e0 ca\u00e7a, \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o por bandeirantes, e, muitas vezes, \u00e0 morte. Nesse cen\u00e1rio, surgiram as 30 Redu\u00e7\u00f5es da Prov\u00edncia Jesu\u00edtica do Paraguai (s\u00e9c. XVII-XVIII), que tamb\u00e9m funcionavam, dado o contexto da \u00e9poca, como forma de prote\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o social para os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele per\u00edodo, houve di\u00e1logo entre ind\u00edgenas e jesu\u00edtas sob v\u00e1rias perspectivas, uma delas foi a valoriza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua nativa, de modo particular o idioma guarani. Aquele mundo era bil\u00edngue, espanhol-guarani, o que permitiu sua prote\u00e7\u00e3o, sua manuten\u00e7\u00e3o e sua divulga\u00e7\u00e3o. Sem essa liga\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, aquele mundo n\u00e3o teria se desenvolvido com as cria\u00e7\u00f5es da arte e da cultura tal como as conhecemos hoje.&nbsp; Nessa perspectiva, \u00e9 necess\u00e1rio observarmos o que existe no espa\u00e7o em branco das linhas. E observarmos este fen\u00f4meno de uma sociedade que fez hist\u00f3ria, que escreveu sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modo de ser e fazer ind\u00edgena fizeram parte do cotidiano das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas, promovendo trocas de experi\u00eancias, di\u00e1logos e influ\u00eancias culturais rec\u00edprocas necess\u00e1rias para a vida social de ent\u00e3o. Por exemplo, os vasos e as panelas de barro cozido feitos pelos ind\u00edgenas passaram a ser pintados com um pincel das oficinas de arte ministradas pelos jesu\u00edtas. Al\u00e9m disso, a erva-mate, que os ind\u00edgenas consumiam tradicionalmente em suas caba\u00e7as com \u00e1gua fervida, foi adaptada pelos jesu\u00edtas com o processo da moagem das folhas feito tamb\u00e9m pelos jesu\u00edtas, possibilitando seu consumo e comercializa\u00e7\u00e3o em grande escala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: O senhor identifica perman\u00eancias culturais ind\u00edgenas nas regi\u00f5es missioneiras atuais que ainda n\u00e3o foram devidamente reconhecidas pela historiografia dominante?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Penso que ainda precisamos expandir o espa\u00e7o de di\u00e1logo, de compreens\u00e3o, de valoriza\u00e7\u00e3o, do reconhecimento e do justo significado da hist\u00f3ria e da arte ind\u00edgena do passado e do presente, seja ela produzida no contexto das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas ou fora delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante reconhecermos as manifesta\u00e7\u00f5es culturais geradas nas oficinas das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas, como as pe\u00e7as criadas por ind\u00edgenas artistas, pintores e artes\u00e3os. A arte daquele per\u00edodo \u00e9 sempre perene e atual. Pois havia \u00edndios artistas em v\u00e1rios campos do saber, como o famoso Ignacio Guarepi, que fez o sino da Redu\u00e7\u00e3o de Sant\u00edssimo Trindade, em 1732. Esse e outros mestres ind\u00edgenas do passado s\u00e3o importantes, proporcionaram a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade pr\u00f3pria. Por isso, \u00e9 fundamental esse reconhecimento por todos, pelas etnias Kaingang e Guarani que vivem nas aldeias do RS. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa mesma perspectiva, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecermos os art\u00edfices ind\u00edgenas contempor\u00e2neos que criam suas obras de arte de modo artesanal em madeira, em corti\u00e7a, representando animais como corujas, capivaras e on\u00e7as-pintadas. \u00c9 importante tamb\u00e9m valorizarmos os balaios pintados com urucum, assim como os sons dos viol\u00f5es e violinos tocados nas apresenta\u00e7\u00f5es de corais ind\u00edgenas. Precisamos de mais estudos e registros, feitos pelas pr\u00f3prias comunidades ind\u00edgenas ou por estas em di\u00e1logo com pesquisadores e historiadores s\u00e9rios e comprometidos com a causa. N\u00e3o sabemos, em geral, o nome dos artes\u00e3os e dos cantores, precisamos saber de todos; na maioria dos casos os vemos se apresentando ou vendendo suas obras nas esquinas e nas pra\u00e7as das cidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Em termos metodol\u00f3gicos, quais desafios espec\u00edficos surgem ao se tentar amplificar a voz ind\u00edgena atrav\u00e9s de produ\u00e7\u00f5es feitas majoritariamente por n\u00e3o-ind\u00edgenas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Aqui temos um dado importante: as produ\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas de ind\u00edgenas no Rio Grande do Sul t\u00eam aumentado consideravelmente nos \u00faltimos anos, resultando em registros importantes para a configura\u00e7\u00e3o da identidade e da voz dos povos ind\u00edgenas. Falando em metodologia de pesquisa, havendo permiss\u00e3o e di\u00e1logo, o primeiro passo \u00e9 visitar as aldeias para o conv\u00edvio e a troca de experi\u00eancias. Escutar mais que falar. Um dos desafios consiste em fazer mapas da realidade atual, compreendermos os problemas e os conceitos na fonte, onde eles nascem. Qualquer pesquisa sobre o tema deve considerar, em primeiro lugar, que a voz ind\u00edgena precisa ser ouvida e respeitada para sabermos onde nos situar. A partir disso, realizarmos a\u00e7\u00f5es conjuntas que valorizem todos os aspectos essenciais para a compreens\u00e3o do que eles buscam e do que n\u00f3s, como pesquisadores, buscamos. S\u00f3 assim poderemos contribuir com as pesquisas sobre o tema, com o crescimento das aldeias, com a manuten\u00e7\u00e3o de suas culturas e, respectivamente, com a constru\u00e7\u00e3o de estudos relevantes, creditando sempre os nomes de todos os envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Como o senhor enxerga o papel das miss\u00f5es jesu\u00edticas dentro do contexto mais amplo da coloniza\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica na Am\u00e9rica do Sul?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Foi realmente algo muito grande. Em 1730, a rede das 30 redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas alcan\u00e7ou uma estimativa de popula\u00e7\u00e3o de mais de 145 mil pessoas, convivendo numa rede de fala bil\u00edngue e fundando uma sociedade altamente criativa que se bastou a si mesma e forjou uma identidade cultural pr\u00f3pria, a qual chamo de helenismo sul-americano missioneiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Ao longo de suas pesquisas, houve momentos em que narrativas consagradas entraram em conflito com evid\u00eancias emp\u00edricas? Como o senhor lidou com essas tens\u00f5es?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Sim. Como no exemplo do sino de S\u00e3o Miguel, fundido em 1726. Os autores divergiam sobre algumas informa\u00e7\u00f5es, sobre o peso do sino, que s\u00f3 foi poss\u00edvel confirm\u00e1-lo ap\u00f3s uma for\u00e7a tarefa para pes\u00e1-lo, chegando nos 910 quilos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro caso muito interessante foi um registro que encontrei na obra \u201cComent\u00e1rio Eclesi\u00e1stico do Rio Grande de S\u00e3o Pedro\u201d, publicada por Vicente Zeferino Dias Lopes, em 1891. Nela, consta que a escultura de uma Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, da \u00e9poca das redu\u00e7\u00f5es, foi levada em 1863 para a igreja matriz de S\u00e3o Jer\u00f4nimo. Em 2015, visitei essa igreja em busca da escultura. De fato, havia l\u00e1 uma escultura da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.&nbsp; \u00c0 primeira vista, parecia ser de gesso, pois estava em \u00f3tima forma e bem pintada. No entanto, ao observar a parte de tr\u00e1s, notei uma \u00e1rea descascada no orbe que revelou um trabalho em policromia sobre a madeira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" data-attachment-id=\"92483\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/escultura-da-imaculada-conceicao-da-epoca-das-reducoes-que-foi-levada-em-1863-para-a-igreja-matriz-de-sao-jeronimo-foto-de-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/escultura-da-imaculada-conceicao-da-epoca-das-reducoes-que-foi-levada-em-1863-para-a-igreja-matriz-de-sao-jeronimo-foto-de-edison-huttner-divulgacao-scaled.jpg\" data-orig-size=\"1707,2560\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;7.1&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;Canon EOS REBEL T1i&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1445610883&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;42&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;800&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.008&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Escultura da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, da \u00e9poca das redu\u00e7\u00f5es, que foi levada em 1863 para a igreja matriz de S\u00e3o Jer\u00f4nimo. 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Ent\u00e3o, foi poss\u00edvel ver a parte oca da escultura e os detalhes do barroco missioneiro. Consultando o Livro de F\u00e1brica da Matriz, descobri que a escultura passou por uma restaura\u00e7\u00e3o em 1914. Era uma t\u00e9cnica muito usada no per\u00edodo, chamada de encarna\u00e7\u00e3o ou estofamento da imagem, que constituiu na aplica\u00e7\u00e3o de 1 cm de gesso sobre a escultura original da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Nesse caso, n\u00e3o houve conflito entre a historiografia e a parte emp\u00edrica, mas sim ajustes para elucidar o caso. O conflito estava no desenrolar da hist\u00f3ria, causado por uma restaura\u00e7\u00e3o que apagou a verdadeira identidade de uma escultura missioneira. Essa hist\u00f3ria foi recuperada, gra\u00e7as \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e \u00e0 evid\u00eancia emp\u00edrica, que possibilitaram o resgate de seu significado original.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"735\" height=\"938\" data-attachment-id=\"92484\" data-permalink=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/edison-huttner-e-preciso-escutar-os-indigenas-mais-do-que-falar\/tomografia-da-escultura-da-imaculada-conceicao-realizada-no-instituto-do-cerebro-da-pucrs-edison-huttner-divulgacao\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/tomografia-da-escultura-da-imaculada-conceicao-realizada-no-instituto-do-cerebro-da-pucrs-edison-huttner-divulgacao.jpeg\" data-orig-size=\"735,938\" data-comments-opened=\"0\" data-image-title=\"Tomografia da Escultura da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o realizada no Instituto do C\u00e9rebro da PUCRS. Edison H\u00fcttner &amp;#8211; Divulga\u00e7\u00e3o.\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/tomografia-da-escultura-da-imaculada-conceicao-realizada-no-instituto-do-cerebro-da-pucrs-edison-huttner-divulgacao.jpeg\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/tomografia-da-escultura-da-imaculada-conceicao-realizada-no-instituto-do-cerebro-da-pucrs-edison-huttner-divulgacao.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92484\" style=\"aspect-ratio:0.7835843620435221;width:439px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/tomografia-da-escultura-da-imaculada-conceicao-realizada-no-instituto-do-cerebro-da-pucrs-edison-huttner-divulgacao.jpeg 735w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/10\/tomografia-da-escultura-da-imaculada-conceicao-realizada-no-instituto-do-cerebro-da-pucrs-edison-huttner-divulgacao-235x300.jpeg 235w\" sizes=\"auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tomografia da Escultura da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o | Foto de Edison H\u00fcttner\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: De que forma nos apropriamos hoje da mem\u00f3ria hist\u00f3rica e art\u00edstica das Miss\u00f5es \u2014 seja atrav\u00e9s das pol\u00edticas p\u00fablicas, do turismo ou at\u00e9 mesmo como identidade regional \u2014 e quais riscos isso pode trazer para a sua descaracteriza\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Quando visitamos cidades como Roma ou o Egito, por exemplo, nos maravilhamos com a arquitetura e as obras de arte que l\u00e1 est\u00e3o preservadas. Muitas vezes, observamos a arte pela arte, por sua imag\u00e9tica e est\u00e9tica. E geralmente n\u00e3o nos questionamos sobre os motivos ou os princ\u00edpios pol\u00edticos que financiaram estas obras ou aqueles espa\u00e7os, destinados hoje \u00e0 visita\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Da mesma forma, ao visitarmos as ru\u00ednas jesu\u00edticas ou os museus no RS destinados \u00e0quele per\u00edodo, observamos suas obras, parcial ou totalmente preservadas e protegidas, sem refletirmos que estas tamb\u00e9m merecem ser olhadas e consideradas pelo seu contexto hist\u00f3rico e pelo motivo pelas quais foram criadas. Nessa perspectiva, existem dois riscos principais: a) a n\u00e3o valoriza\u00e7\u00e3o desta arte, seja ela criada por ind\u00edgenas ou por jesu\u00edtas, e que esta desvaloriza\u00e7\u00e3o pode diminuir ou apagar a sua import\u00e2ncia cultural e est\u00e9tica para a nossa hist\u00f3ria; b) fazer interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas ou negativas sobre esses espa\u00e7os missioneiros, que geralmente s\u00e3o motivadas por aus\u00eancia de conhecimento ou por acesso a informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sejam fidedignas ao que de fato aconteceu ali. Por isso, o importante \u00e9 sempre buscar fontes que possam explicar e traduzir a verdadeira hist\u00f3ria e o verdadeiro significado das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: O senhor acredita que h\u00e1 um processo de romantiza\u00e7\u00e3o das Miss\u00f5es Jesu\u00edticas? Se sim, quais aspectos costumam ser negligenciados nesse processo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> No Rio Grande do Sul, em termos gerais, n\u00e3o tivemos uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica das miss\u00f5es, mas vejo sim uma perspectiva tradicionalista, no sentido folcl\u00f3rico, que faz elo com a cultura e a m\u00fasica gauchesca. &nbsp;Essa perspectiva divulga e credita o termo missioneiro atrelado \u00e0 cruz missioneira. A figura do \u00edndio Sep\u00e9 Tiaraju ganha ent\u00e3o destaque como her\u00f3i nacional e Servo de Deus, representando a resist\u00eancia e a f\u00e9 que marcaram toda a hist\u00f3ria da regi\u00e3o. A perspectiva da tradi\u00e7\u00e3o, nesse sentido, mais que romantiza\u00e7\u00e3o, acontece por falta de leitores interessados ou por leitores sem acesso a uma literatura apropriada, sem vi\u00e9s ideol\u00f3gico ou de abordagem duvidosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Como as quest\u00f5es ind\u00edgenas contempor\u00e2neas no Brasil dialogam \u2014 ou deixam de dialogar \u2014 com o legado hist\u00f3rico das Miss\u00f5es no sul do pa\u00eds?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Penso que a academia, os escritores, a imprensa e os pr\u00f3prios ind\u00edgenas contempor\u00e2neos precisam se dedicar e valorizar mais as viv\u00eancias e a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual dos povos ind\u00edgenas que viveram no per\u00edodo das redu\u00e7\u00f5es. Arte, cultura e edifica\u00e7\u00f5es foram produzidas em grande escala. As palavras ind\u00edgenas <em>abamba\u00e9<\/em> e <em>tupamba\u00e9<\/em> conceituaram como devia ser o sistema econ\u00f4mico, bem como o modelo de trabalho e de propriedade das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas. Diga-se de passagem, que a Guerra Guaran\u00edtica (1753-1756) provou que tanto os \u00edndios quanto os jesu\u00edtas que estavam nas redu\u00e7\u00f5es n\u00e3o queriam que as redu\u00e7\u00f5es fossem destru\u00eddas pelo ex\u00e9rcito espanhol e portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Em sua vis\u00e3o, quais contribui\u00e7\u00f5es a pesquisa hist\u00f3rica sobre as Miss\u00f5es pode oferecer ao debate atual sobre direitos territoriais ind\u00edgenas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> Vou dar um exemplo. O direito ao reconhecimento oficial da \u201creligi\u00e3o\u201d (express\u00f5es xam\u00e2nicas, mitos) de cada etnia ind\u00edgena, n\u00e3o s\u00f3 no Rio Grande do Sul, mas no pa\u00eds todo, j\u00e1 est\u00e1 presente na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, que em seu <em><strong>Artigo 231,<\/strong><\/em> <em>garante: &#8220;S\u00e3o reconhecidos aos \u00edndios sua organiza\u00e7\u00e3o social, costumes, l\u00ednguas,\u00a0<\/em><strong><em>cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es.<\/em><\/strong><em>..\u201d.  <\/em>Contudo, at\u00e9 o momento, nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o ou \u201creligi\u00e3o\u201d ind\u00edgena espec\u00edfica foi oficialmente reconhecida em cart\u00f3rio no Brasil, como ocorre com outras religi\u00f5es e igrejas. Se queremos realmente valorizar os direitos ind\u00edgenas, n\u00e3o apenas os que dizem respeito aos seus territ\u00f3rios, mas tamb\u00e9m \u00e0s suas cren\u00e7as, \u00e9 necess\u00e1rio haver um forte trabalho pelo reconhecimento oficial de suas cren\u00e7as, express\u00f5es ou manifesta\u00e7\u00f5es de f\u00e9. Esse passo, junto com a prote\u00e7\u00e3o dos seus territ\u00f3rios, garantiria prote\u00e7\u00e3o legal e respeito \u00e0s pr\u00e1ticas xam\u00e2nicas e rituais dessas comunidades ind\u00edgenas. Talvez fosse um fator a mais a contribuir contra influ\u00eancias, interfer\u00eancias e imposi\u00e7\u00f5es externas. Com o passar do tempo, essas experi\u00eancias n\u00e3o registradas podem acabar se perdendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Considerando os 400 anos desse processo hist\u00f3rico, quais seriam as perguntas ainda n\u00e3o feitas \u2014 ou pouco exploradas \u2014 que deveriam orientar novas pesquisas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> \u00c9 importante fazermos perguntas a partir de dentro das aldeias ind\u00edgenas, das institui\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas e das cidades que preservam o patrim\u00f4nio cultural e art\u00edstico dos Sete Povos das Miss\u00f5es do Rio Grande do Sul. Hoje, no estado, h\u00e1 uma estimativa de 38 mil ind\u00edgenas, com representa\u00e7\u00e3o de quatro etnias: Mbya Guarani, Kaingang, Xokleng e Charrua. &nbsp;Praticamente a mesma estimativa de ind\u00edgenas que viviam nas redu\u00e7\u00f5es dos Sete Povos das Miss\u00f5es. Como as institui\u00e7\u00f5es municipais, estaduais e federais est\u00e3o respondendo hoje \u00e0s demandas e \u00e0 situa\u00e7\u00e3o desses diferentes povos ind\u00edgenas nas \u00e1reas da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, da moradia e de valoriza\u00e7\u00e3o da sua cultura? Nesse sentido, \u00e9 importante observarmos todos os \u00edndices alcan\u00e7ados nestas \u00e1reas no passado e no presente, n\u00e3o apenas para fins de registro, mas principalmente para encontrarmos as respostas necess\u00e1rias que conduzam \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que de fato atendam \u00e0s demandas urgentes dessas popula\u00e7\u00f5es, e que n\u00e3o s\u00e3o poucas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>J\u00c1: Uma \u00faltima pergunta: Qual legado intelectual e humano o senhor considera mais relevante transmitir \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es ao estudar as Miss\u00f5es Jesu\u00edticas e as culturas ind\u00edgenas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Edison H\u00fcttner:<\/strong> O legado mais relevante que procuro transmitir \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria conviv\u00eancia e das viv\u00eancias entre \u00edndios e n\u00e3o \u00edndios nas redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas. Essa viv\u00eancia bastou por si s\u00f3, porque deu certo, porque sobrepujou o modelo de uma nova experi\u00eancia de sociedade. Acredito fortemente que se os \u00edndios e os jesu\u00edtas n\u00e3o tivessem sido expulsos das redu\u00e7\u00f5es, ter\u00edamos um novo estado bil\u00edngue, com uma identidade nativa altamente avan\u00e7ada. Com certeza, esse foi o receio das autoridades coloniais espanhola e portuguesa, que agiram selvagemente para impedir esse processo de crescimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao revisitar os 400 anos das Miss\u00f5es, o pesquisador destaca o protagonismo ind\u00edgena e defende que essa hist\u00f3ria seja contada com di\u00e1logo, escuta e respeito. Em entrevista exclusiva ao Jornal J\u00c1, o professor e pesquisador Edison H\u00fcttner prop\u00f5e uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria das Miss\u00f5es Jesu\u00edticas que reconhe\u00e7a a participa\u00e7\u00e3o e a contribui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas. 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