E la nave va, lotada de bovinos vivos

O embarque de 24 mil bovinos vivos para a Turquia e o Líbano começou esta semana, no porto de Rio Grande. A previsão é de que o navio, que chegou nesta sexta-feira (11), possa zarpar daqui a seis dias. A exportação do boi vivo é polêmica, envolvendo desde o sofrimento dos animais numa longa viagem, até a sensação que voltamos ao período colonial piorado.

Um dos argumentos contrário à exportação é que esta modalidade traz poucos ganhos para o setor e para o Brasil, já que gera empregos em outros países e couro e miúdos também são processados no exterior. Os frigoríficos argumentam que o negócio poderia ampliar a falta de animais para o abate. No Rio Grande do Sul, em mais de uma ocasião, chegou-se a solicitar algum tipo de barreira.

De janeiro até outubro de 2019, o total exportado foi de 123 mil animais. Em 2018, 168,8 mil cabeças saíram do Rio Grande do Sul para o Exterior. No ano anterior, foram 85,6 mil, conforme dados são da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr). O estímulo de exportar o animal vivo está na diferença no preço.

Novos mercados estão se abrindo para a exportação de gado em pé. A modalidade já é consolidada no Rio Grande do Sul, que exporta para a Turquia e outros países árabes cerca de 120 mil animais por ano ou uma média histórica de 1% do rebanho gaúcho de 12,7 milhões de cabeças.

Nas primeiras décadas do século XVII o rebanho brasileiro já alcançava 1,5 milhão cabeças. A pecuária desenvolveu-se significativamente, chegando a ocupar posição de destaque, inclusive com a exportação de couro nos séculos XVIII e XIX.

Outra atividade que favoreceu a organização da pecuária do Sul foi o surgimento das charqueadas. Em 1793, segundo Prado Júnior, o Rio Grande do Sul exportava 13 mil arrobas de charque e nos primeiros anos do século seguinte chegava a exportar 600 mil arrobas deste produto. Agora, estamos exportando gado em pé.

Sofrimento dos animais

Em julho de 2018, foi feita uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa sobre o Transporte de Gado Vivo no Município de Rio Grande, coordenada pela deputada Regina Becker Fortunati PTB). No início do debate, ela divulgou um vídeo sobre o transporte marítimo dos animais. Se manifestou tanto sobre a questão econômica como sobre os maus-tratos aos animais, principalmente, durante as travessias. Até o Iraque, por exemplo, o gado brasileiro viaja de 23 a 26 dias. Sua intenção era apresentar um Projeto de Lei contra a exportação de animais vivos no Estado Rio Grande do Sul, que não vingou.

Daniel Martini, do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público do RS, disse que o artigo 225 da Constituição Federal, veda que o Estado seja conivente com qualquer prática de crueldade. Citou também a Lei Federal 9.605, que criminaliza a prática de métodos cruéis de maus tratos aos animais. No âmbito do Estado, citou o Código de Proteção Animal.

Os pecuaristas presentes na Audiência Pública não aceitaram os argumentos. Eles não admitem que haja maus-tratos no transporte marítimo de animais”, “eles até engordam na travessia”, “se jogam 600 toneladas de fezes por dia no mar é porque estão comendo bem”, “são bem tratados”.

E la nave va, já dizia Federico Fellini.

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