{"id":2012,"date":"2026-04-10T12:26:23","date_gmt":"2026-04-10T15:26:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/economics\/?p=2012"},"modified":"2026-04-10T21:38:35","modified_gmt":"2026-04-11T00:38:35","slug":"controle-do-estreito-de-ormuz-e-a-arma-mais-poderosa-do-ira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/economics\/controle-do-estreito-de-ormuz-e-a-arma-mais-poderosa-do-ira\/","title":{"rendered":"Controle do Estreito de Ormuz \u00e9 a arma mais poderosa do Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste momento, a situa\u00e7\u00e3o no Estreito de Ormuz \u00e9 definida por uma&nbsp;reabertura fr\u00e1gil e sob forte restri\u00e7\u00e3o iraniana, ap\u00f3s um duvidoso cessar-fogo de duas semanas, anunciado na noite de&nbsp;ter\u00e7a-feira, 7 de abril, por Ir\u00e3 e os Estados Unidos (EUA), com intermedia\u00e7\u00e3o do Paquist\u00e3o. O acordo n\u00e3o foi seguido por Israel, que bombardeou o L\u00edbano matando mais de 300 pessoas, o que provocou de novo a dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fego comercial como resposta \u00e0 agress\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s o in\u00edcio do conflito, o Ir\u00e3 declarou que tem controle militar do Estreito e decide quem pode ou n\u00e3o atravessar. Na pr\u00e1tica, surgiram tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es: navios de pa\u00edses considerados aliados  podem passar, depois de negociar previamente com autoridades iranianas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 os navios de pa\u00edses advers\u00e1rios est\u00e3o proibidos de atravessar, como o caso de embarca\u00e7\u00f5es ligadas aos EUA ou Israel. A terceira situa\u00e7\u00e3o envolve os poucos navios comerciais neutros que aceitam pagar e receber autoriza\u00e7\u00e3o para atravessar com \u201cpassagem segura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns navios de grande porte pagam at\u00e9 US$&nbsp;2 milh\u00f5es em criptomoedas ou iuan para contornar san\u00e7\u00f5es internacionais do Departamento do Tesouro dos EUA. As transa\u00e7\u00f5es s\u00e3o processadas por intermedi\u00e1rios e janelas de c\u00e2mbio na Ilha Qeshm, visando transferir fundos rapidamente para riais (moeda iraniana) ou contas no exterior, evitando o sistema SWIFT &#8211; um mecanismo de transfer\u00eancias financeiras interbanc\u00e1rias mundiais controlado pelos EUA. H\u00e1 proposta de cobran\u00e7a permanente de cerca de US$ 1 por barril de petr\u00f3leo transportado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Estreito de Ormuz&nbsp;\u00e9 uma passagem mar\u00edtima vital entre o Ir\u00e3 (norte) e Om\u00e3\/Emirados \u00c1rabes Unidos (sul), conectando o Golfo P\u00e9rsico ao Golfo de Om\u00e3. \u00c9 crucial por escoar cerca de 20% do petr\u00f3leo mundial e 20% do g\u00e1s natural liquefeito, sendo um ponto de estrangulamento energ\u00e9tico global essencial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra dos EUA e Israel contra o Ir\u00e3, no Oriente M\u00e9dio, iniciado em fevereiro\/mar\u00e7o, n\u00e3o apenas gera tens\u00f5es geopol\u00edticas, mas tamb\u00e9m coloca em risco a domin\u00e2ncia e a estabilidade da moeda dos Estados Unidos no cen\u00e1rio financeiro global.&nbsp;O ponto fundamental \u00e9 o controle do Ir\u00e3 sobre o Estreito de Ormuz, que aumenta a volatilidade nos mercados financeiros, questionando a efic\u00e1cia do d\u00f3lar como &#8220;porto seguro&#8221; em tempos de crise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Semelhan\u00e7as entre Ormuz e a crise do Canal de Suez<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que est\u00e1 acontecendo no Estreito de Ormuz e as consequ\u00eancias sobre o poder do petrod\u00f3lar tem certas semelhan\u00e7as com a crise do Canal Suez (situado no\u00a0Egito, que conecta o mar Mediterr\u00e2neo ao mar Vermelho, ligando a Europa com o Oceano \u00cdndico), em 1956, que sepultou a libra esterlina como principal moeda de reserva e troca do mundo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Crise de Suez \u00e9 frequentemente considerada por historiadores como o momento simb\u00f3lico que marcou o fim do Reino Unido como grande pot\u00eancia imperial global, processo que come\u00e7ou em Bretton Woods, EUA, no final da Segunda Guerra Mundial. N\u00e3o foi apenas um conflito militar, mas uma crise financeira, diplom\u00e1tica e estrat\u00e9gica que mostrou que Londres j\u00e1 n\u00e3o podia agir independentemente das superpot\u00eancias da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca, o governo brit\u00e2nico era o maior acionista da Companhia do Canal de Suez, detendo 44% das a\u00e7\u00f5es, enquanto particulares franceses detinham os 50% restantes. O canal movimentava 100 milh\u00f5es de toneladas de carga anualmente, das quais tr\u00eas quintos eram petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio destinado \u00e0 Europa Ocidental. Mais de 40 pa\u00edses utilizavam o canal, que gerava uma receita anual de aproximadamente US$ 100 milh\u00f5es, com um lucro l\u00edquido de cerca de US$ 30 milh\u00f5es por ano, dos quais 44% iam para bancos e empresas brit\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gamal Abdel Nasser &#8211; militar e pol\u00edtico nacionalista eg\u00edpcio, presidente de seu pa\u00eds de 1954 at\u00e9 sua morte em 1970 &#8211; deu origem a uma s\u00e9rie de reformas pensando na nacionaliza\u00e7\u00e3o das riquezas eg\u00edpcias e dissemina\u00e7\u00e3o do panarabismo, total integra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e produtiva do mundo \u00e1rabe. O capit\u00e3o tornou o petr\u00f3leo um bem nacional, expulsou empresas estrangeiras e aumentou o atrito com Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na diplomacia, passou a defender o n\u00e3o-alinhamento, ou seja, a neutralidade na polariza\u00e7\u00e3o da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que apelou para um apoio forte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS).\u00a0 Em julho de 1956, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal de Suez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resposta, o Reino Unido, a Fran\u00e7a e Israel firmaram um acordo secreto para invadir o Egito e retomar o controle da via. A invas\u00e3o come\u00e7ou em 29 de outubro de 1956. Embora militarmente bem-sucedida em curto prazo, a opera\u00e7\u00e3o foi um desastre pol\u00edtico para os brit\u00e2nicos. Durou&nbsp;nove dias, at\u00e9 7 de novembro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A URSS n\u00e3o participou militarmente da guerra, mas teve um papel pol\u00edtico e estrat\u00e9gico decisivo para for\u00e7ar o fim do conflito. Apoiou fortemente o governo de Nasser, incluindo defesa do Egito na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), condena\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o anglo-francesa e israelense e press\u00e3o diplom\u00e1tica internacional para cessar-fogo. Esse posicionamento ajudou a transformar a crise em um conflito global da Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, EUA e URSS acabaram pressionando os mesmos pa\u00edses aliados do Ocidente (Reino Unido e Fran\u00e7a) a recuar. O governo do presidente dos EUA Dwight Eisenhower criticou a invas\u00e3o por n\u00e3o ter sido informado sobre o plano secreto e considerou uma aventura colonial que atrapalha a pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o da Guerra Fria contra a URSS. Em vez de apoiar o aliado, Washington decidiu usar o poder econ\u00f4mico para for\u00e7ar o fim da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os EUA amea\u00e7aram vender suas reservas em libras esterlinas. Uma venda massiva da moeda por um governo estrangeiro teria causado uma desvaloriza\u00e7\u00e3o imediata e catastr\u00f3fica. Os estadunidenses instru\u00edram seus representantes no Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) a vetar qualquer empr\u00e9stimo de emerg\u00eancia solicitado pelo Reino Unido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m marca o fim de uma era antiga: a Gr\u00e3-Bretanha, outrora uma superpot\u00eancia econ\u00f4mica, teve que depender de um parceiro mais poderoso, ou seja, os EUA, que lan\u00e7aram &#8220;discretamente&#8221; uma &#8220;guerra cambial&#8221; contra a Gr\u00e3-Bretanha, conseguindo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, eliminar a influ\u00eancia brit\u00e2nica no Canal de Suez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a Gr\u00e3-Bretanha tenha vivenciado 14 crises da libra entre 1947 e 1972, a crise de 1956 foi particularmente singular. Pela primeira vez, a Gr\u00e3-Bretanha sentiu o impacto das guerras cambiais, despertando de seu sonho secular de continuar uma grande pot\u00eancia, sendo reconhecida sua verdadeira posi\u00e7\u00e3o internacional. Esse epis\u00f3dio mostrou ao mundo que o Reino Unido n\u00e3o tinha mais poder financeiro global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os EUA n\u00e3o apenas concretizaram seus interesses no Oriente M\u00e9dio e controlaram pa\u00edses da Europa Ocidental, como tamb\u00e9m obtiveram enormes lucros com o petr\u00f3leo, atingindo m\u00faltiplos objetivos simultaneamente. Ormuz ser\u00e1 o Suez \u00e0s avessas?&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste momento, a situa\u00e7\u00e3o no Estreito de Ormuz \u00e9 definida por uma&nbsp;reabertura fr\u00e1gil e sob forte restri\u00e7\u00e3o iraniana, ap\u00f3s um duvidoso cessar-fogo de duas semanas, anunciado na noite de&nbsp;ter\u00e7a-feira, 7 de abril, por Ir\u00e3 e os Estados Unidos (EUA), com intermedia\u00e7\u00e3o do Paquist\u00e3o. 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