{"id":2152,"date":"2026-08-07T15:16:31","date_gmt":"2026-08-07T18:16:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/economics\/?p=2152"},"modified":"2026-08-08T22:16:34","modified_gmt":"2026-08-09T01:16:34","slug":"guerras-pelo-petroleo-ira-ocupa-posicao-estrategica-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/economics\/guerras-pelo-petroleo-ira-ocupa-posicao-estrategica-parte-i\/","title":{"rendered":"Guerras pelo petr\u00f3leo: Ir\u00e3 ocupa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica (Parte I)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conflito dos Estados Unidos (EUA) e Israel contra o Ir\u00e3, em vez de definir um vencedor claro, parece redesenhar as regras do jogo global, com impactos profundos que v\u00e3o al\u00e9m do controle direto do petr\u00f3leo. Acontece que este embate n\u00e3o \u00e9 simplesmente sobre &#8220;quem fica com o petr\u00f3leo&#8221;, mas sobre&nbsp;quem controla as rotas por onde ele passa. E a\u00ed, o Ir\u00e3 tem uma poderosa arma assim\u00e9trica que \u00e9 o Estreito de Ormuz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Ir\u00e3 controla a margem norte do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de&nbsp;20% de todo o petr\u00f3leo do mundo. No atual conflito, o Ir\u00e3 fechou essa rota, transformando o que era uma amea\u00e7a em um bloqueio real. Isso causou um choque imediato nos mercados, com o pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo disparando em alguns momentos para mais de US$ 100.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode-se argumentar que h\u00e1 uma continuidade estrat\u00e9gica dos EUA desde os anos 1970, quando sua prioridade foi garantir que o petr\u00f3leo mundial circulasse dentro de um sistema financeiro baseado no d\u00f3lar. Hoje, al\u00e9m dessa preocupa\u00e7\u00e3o, existe a de impedir que a China consolide um sistema alternativo de com\u00e9rcio, financiamento e energia capaz de reduzir a influ\u00eancia estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, a China tornou-se o maior importador mundial de petr\u00f3leo. Pequim passou a comprar petr\u00f3leo de pa\u00edses sancionados pelos EUA e pagar parte dessas compras em yuan ou moedas locais. A estrat\u00e9gia de aquisi\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo bruto da China \u00e9 de diversifica\u00e7\u00e3o, que engloba contratos est\u00e1veis \u200b\u200bde longo prazo com fornecedores tradicionais do Oriente M\u00e9dio, como a Ar\u00e1bia Saudita, e pa\u00edses sancionados, como a R\u00fassia e o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os principais pa\u00edses fornecedores s\u00e3o relativamente est\u00e1veis, como R\u00fassia, Ar\u00e1bia Saudita, Iraque, Mal\u00e1sia e Brasil. Em 2025, os 15 principais parceiros comerciais da China forneceram aproximadamente 94% do petr\u00f3leo bruto importado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">R\u00fassia, Ir\u00e3 e Venezuela, os tr\u00eas pa\u00edses sancionados pelos Estados Unidos, representaram aproximadamente um ter\u00e7o das importa\u00e7\u00f5es chinesas de petr\u00f3leo bruto em 2024. A R\u00fassia foi o maior fornecedor individual da China, com importa\u00e7\u00f5es atingindo 100,72 milh\u00f5es de toneladas em 2025, representando 17,4%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As a\u00e7\u00f5es dos EUA seguem um padr\u00e3o geoecon\u00f4mico claro, com o objetivo de desmontar a rede de suprimentos de petr\u00f3leo &#8220;barato e sancionado&#8221; que abastece a economia chinesa. A estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 sobre tomar posse f\u00edsica do petr\u00f3leo para suas pr\u00f3prias reservas, j\u00e1 que s\u00e3o o maior produtor mundial, mas sim sobre&nbsp;controlar os fluxos e os mecanismos financeiros&nbsp;dessa commodity para us\u00e1-la como arma geopol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, o Ir\u00e3 \u00e9 a pe\u00e7a-chave que falta neste tabuleiro. Os EUA tentam bloquear petroleiros iranianos na entrada do Estreito de Ormuz, estendendo-se por \u00e1reas do Golfo de Om\u00e3 e do Mar Ar\u00e1bico, por onde passam cerca de 55% do petr\u00f3leo importado pela China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, petroleiros com \u00f3leo do Ir\u00e3 continuam driblando o bloqueio naval dos EUA e entregando a commodity na China por meio de frotas fantasmas, t\u00e1ticas de oculta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo brechas diplom\u00e1ticas tempor\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>F\u00faria Econ\u00f4mica<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Tesouro dos EUA intensificou a &#8220;Operation Economic Fury&#8221; (Opera\u00e7\u00e3o F\u00faria Econ\u00f4mica), por meio de uma s\u00e9rie de san\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, mirando diretamente as refinarias independentes chinesas (as &#8220;teapot refineries&#8221;), que s\u00e3o as maiores compradoras de petr\u00f3leo iraniano, com o objetivo de sufocar esse com\u00e9rcio. Ao contr\u00e1rio de iniciativas anteriores, esta opera\u00e7\u00e3o concentra-se em desmantelar as redes financeiras e log\u00edsticas que sustentam o com\u00e9rcio de petr\u00f3leo iraniano, em vez de apenas sancionar empresas individuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo geral, a &#8220;Opera\u00e7\u00e3o F\u00faria Econ\u00f4mica&#8221; realmente aumentou os custos e a complexidade do com\u00e9rcio de petr\u00f3leo entre a China e o Ir\u00e3, impondo press\u00e3o operacional a algumas refinarias chinesas. No entanto, seu objetivo principal \u2014 a interrup\u00e7\u00e3o total das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo iraniano \u2014 n\u00e3o foi alcan\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A China invocou pela primeira vez uma lei contra o cumprimento de san\u00e7\u00f5es estrangeiras que considera ileg\u00edtimas, intensificando a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 decis\u00e3o dos EUA de sancionar refinarias chinesas por comprarem petr\u00f3leo iraniano. Tamb\u00e9m os sistemas independentes de liquida\u00e7\u00e3o financeira da China serviram como mecanismos de prote\u00e7\u00e3o eficazes, permitindo que o petr\u00f3leo bruto iraniano continuasse a fluir para o mercado chin\u00eas, embora a custos mais elevados e por meio de canais mais discretos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como prote\u00e7\u00e3o, a China construiu uma enorme reserva de petr\u00f3leo (mais de 1,4 bilh\u00e3o de barris) nos \u00faltimos anos, o que lhe d\u00e1 um colch\u00e3o de seguran\u00e7a para aguentar a press\u00e3o e n\u00e3o ceder imediatamente \u00e0s exig\u00eancias dos EUA. O pa\u00eds est\u00e1 acelerando sua transi\u00e7\u00e3o para energias renov\u00e1veis e ve\u00edculos el\u00e9tricos para diminuir sua depend\u00eancia de importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Corredor internacional<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Ir\u00e3 ocupa uma posi\u00e7\u00e3o central na interse\u00e7\u00e3o entre energia, transporte e seguran\u00e7a regional. Por isso, qualquer mudan\u00e7a profunda em seu posicionamento internacional \u2014 seja uma aproxima\u00e7\u00e3o maior com o Ocidente, seja um agravamento dos conflitos na regi\u00e3o \u2014 teria impactos relevantes sobre os interesses de v\u00e1rios membros dos BRICS, especialmente China, R\u00fassia e \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Possui uma das maiores reservas mundiais de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural e \u00e9 um elo geogr\u00e1fico dif\u00edcil de substituir. Ele conecta R\u00fassia ao Oceano \u00cdndico; \u00c1sia Central ao Golfo P\u00e9rsico; China ao Oriente M\u00e9dio e \u00cdndia \u00e0 R\u00fassia atrav\u00e9s do chamado Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A regi\u00e3o do Ir\u00e3 \u00e9 de grande import\u00e2ncia estrat\u00e9gica para a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota (BRI), a Nova Rota da Seda da China, atuando como um elo geogr\u00e1fico crucial e um parceiro fundamental para a concretiza\u00e7\u00e3o dos objetivos da iniciativa na Eur\u00e1sia. Tamb\u00e9m serve como porta de entrada natural para a Europa e o C\u00e1ucaso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a China, isso se traduz em oportunidades concretas para criar rotas terrestres alternativas, que reduzem a depend\u00eancia de pontos de estrangulamento mar\u00edtimos, como o Estreito de Malaca, no sudeste da \u00c1sia, entre a Mal\u00e1sia e ilha indon\u00e9sia de Sumatra. Iniciativas como a ferrovia que liga a China ao Ir\u00e3 atrav\u00e9s do Afeganist\u00e3o e o trem de carga &#8220;Qom-Yiwu West&#8221; demonstram o esfor\u00e7o para estabelecer uma conectividade que encurta prazos de entrega em compara\u00e7\u00e3o ao transporte mar\u00edtimo tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sistemas paralelos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A China e a R\u00fassia, por necessidade e estrat\u00e9gia, est\u00e3o criando sistemas financeiros e acordos energ\u00e9ticos paralelos para se proteger de um sistema dominado pelos EUA. Portanto, a acelera\u00e7\u00e3o de uma nova ordem multipolar&nbsp;j\u00e1 \u00e9 uma realidade. Para os EUA, a preserva\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia sobre os fluxos globais de energia e a arquitetura financeira internacional se tornou um elemento central da competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com a China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender a import\u00e2ncia do controle sobre a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio \u00e9 preciso analisar dois n\u00fameros: o&nbsp;volume de produ\u00e7\u00e3o sob influ\u00eancia direta estadunidense&nbsp;e a&nbsp;produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o que foi retirada do mercado&nbsp;devido ao conflito contra o Ir\u00e3. O controle sobre a produ\u00e7\u00e3o do Oriente M\u00e9dio se manifesta mais pela capacidade de&nbsp;garantir o fluxo&nbsp;do que pela posse direta dos po\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conflito e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz tiraram de circula\u00e7\u00e3o uma quantidade massiva de petr\u00f3leo. Em abril de 2026, a produ\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como Ar\u00e1bia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados \u00c1rabes Unidos (EAU) foi reduzida em impressionantes\u00a010,5 milh\u00f5es de barris por dia. Antes do fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, a produ\u00e7\u00e3o combinada de petr\u00f3leo bruto da desses pa\u00edses  era de aproximadamente 20\u201321 milh\u00f5es de barris por dia, conforme Ag\u00eancia Internacional de Energia (IEA).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conflito dos Estados Unidos (EUA) e Israel contra o Ir\u00e3, em vez de definir um vencedor claro, parece redesenhar as regras do jogo global, com impactos profundos que v\u00e3o al\u00e9m do controle direto do petr\u00f3leo. 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