{"id":33309,"date":"2016-05-25T01:00:20","date_gmt":"2016-05-25T04:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=33309"},"modified":"2016-05-25T01:00:20","modified_gmt":"2016-05-25T04:00:20","slug":"algumas-notas-de-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/algumas-notas-de-politica\/","title":{"rendered":"Algumas Notas de Pol\u00edtica \u2013 contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 leitura do contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p>[avatar user=&#8221;X-CDD &#8211; Sonia M M Ogiba&#8221; size=&#8221;medium&#8221; align=&#8221;left&#8221; \/]<br \/>\n<span class=\"assina\">Sonia Mara M. Ogiba*<\/span><br \/>\nPerplexos pelo avan\u00e7o nos \u00faltimos tempos na pol\u00edtica brasileira de movimentos conservadores de direita, nos campos da cultura e da educa\u00e7\u00e3o, movimentos esses movidos por uma onda crescente de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia para com as diferen\u00e7as de toda ordem, e pela recusa de valores hist\u00f3ricos, somos instados a dar um lugar para nossa ang\u00fastia pela via da palavra, e do pensamento. Por que as palavras e o pensamento?<br \/>\nAs palavras s\u00e3o nossas \u201cmetralhadoras\u201d, como j\u00e1 nos transmitiram escritores e poetas, em todas as \u00e9pocas, lembrando apenas dois, Mallarm\u00e9, no s\u00e9culo XIX, ou Pier Paolo Pasolini, no s\u00e9culo XX.<br \/>\nPasolini, nascido em 1922 e morto em 1975, est\u00e1 pr\u00f3ximo dos que buscaram n\u00e3o se deixar cegar pelas luzes e holofotes dos movimentos contempor\u00e2neos de cunho fascista, crescentes n\u00e3o somente no Brasil, no Mundo, mas em escala planet\u00e1ria. \u00c9 inevit\u00e1vel n\u00e3o se lembrar de Pasolini, poeta, romancista, italiano. Al\u00e9m de cr\u00edtico de arte e de literatura, foi jornalista, teatr\u00f3logo, cineasta. Sua Italietta (Italinha, no diminutivo carinhoso), nos \u00faltimos anos de sua vida, era uma It\u00e1lia anacr\u00f4nica, provinciana, racista, discriminat\u00f3ria. Ele por ser algu\u00e9m que l\u00ea o seu tempo com uma agudeza critica impressionante est\u00e1 entre aqueles que s\u00e3o tidos como diagnosticadores dos tempos que viriam. Soube como poucos \u201cidentificar os sinais de mudan\u00e7as no mundo e buscar respostas novas, na condi\u00e7\u00e3o de homem, artista e pensador\u201d.<br \/>\nE o pensamento? Bem, evocaremos Hanna Arendt, na leitura que faz George Didi-Huberman, para lembrar com ela a necessidade de que a atividade do pensamento seja diagonal em rela\u00e7\u00e3o ao passado e ao futuro. Ao situar o pensamento enquanto for\u00e7a diagonal, e n\u00e3o como fechamento sobre si mesmo, esse n\u00e3o se separa da a\u00e7\u00e3o, da potencia da contesta\u00e7\u00e3o, sendo sua dire\u00e7\u00e3o determinada pelo passado e pelo futuro.<br \/>\nAinda na leitura realizada por Didi-Huberman, podemos encontrar em sua tocante obra chamada Sobreviv\u00eancia dos Vaga-lumes, uma tal resist\u00eancia do pensamento, como tamb\u00e9m dos signos e das imagens a isto que Walter Benjamin refletiu acerca da \u201cdestrui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia\u201d na Modernidade. Destrui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o significa destrui\u00e7\u00e3o simplesmente, diz Didi-Huberman, mas uma paradoxal ressurg\u00eancia, e que Hanna Arendt parece ter expressado magnificamente em \u201cDa humanidade em tempos sombrios\u201d, um elogio a Gotthold E. Lessing, poeta, dramaturgo e fil\u00f3sofo alem\u00e3o no s\u00e9culo XVIII, ao afirmar que \u201cessa liberdade de fazer aparecerem os povos apesar de tudo, apesar das censuras do reino e das luzes ofuscantes da gl\u00f3ria\u201d.<br \/>\nMas \u00e9 tamb\u00e9m na associa\u00e7\u00e3o feita com Sigmund Freud, em sua Traumdeutung \u2013 A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, de 1900, que Didi-Huberman ilustra, quer a n\u00e3o \u201cdestrui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia\u201d, quer a \u201cfor\u00e7a diagonal\u201d do pensamento, em sua faculdade de fazer aparecer o desejo como o indestrut\u00edvel por excel\u00eancia. Nas palavras freudianas: \u201cesse futuro, presente para o sonhador, \u00e9 modelado, pelo desejo indestrut\u00edvel, \u00e0 imagem do passado\u201d.<br \/>\n\u00c9, pois, essa faculdade de fazermos aparecer o desejo como indestrut\u00edvel, nas palavras de Didi-Huberman, e de nos imbuir diuturnamente de um esp\u00edrito diagnosticador do nosso tempo, na esteira dos pensadores que mencionamos acima (e de muitos outros, pois exemplos n\u00e3o faltariam em todas as culturas e \u00e9pocas), que podemos observar se erguerem em nossas sociedades contempor\u00e2neas, movimentos de rea\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia ao avan\u00e7o dos assim chamados regimes pol\u00edticos de exce\u00e7\u00e3o, aos ataques a democracia e aos direitos humanos, a emerg\u00eancia da discrimina\u00e7\u00e3o social e cultural, aos fundamentalismos, e as explicitas tentativas de se rasgar a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira nos \u00faltimos acontecimentos do m\u00eas de abril do corrente ano.<br \/>\nNo entendimento do fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben, em Meios sem fim \u2013 notas sobre a pol\u00edtica, ensaios do ano de 1995, portanto, reflex\u00f5es de quase tr\u00eas d\u00e9cadas atr\u00e1s, est\u00e1 para ser realizada diante dos nossos olhos, onde quer que seja, a \u201cgrande transforma\u00e7\u00e3o\u201d na dire\u00e7\u00e3o do Estado espetacular integrado, j\u00e1 apontado por Guy Deboard, nos anos de 1967, e ao \u201ccapital-parlamentarismo\u201d, proposto por Alain Badiou, vindo a constituir o est\u00e1gio extremo da forma-Estado.<br \/>\nAgamben que faz o alerta acima, ainda nesse ensaio de 1995 avan\u00e7a na compreens\u00e3o de que \u201ca pol\u00edtica contempor\u00e2nea \u00e9 esse experimento devastador, que desarticula e esvazia em todo o planeta institui\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as, ideologias e religi\u00f5es, identidades e comunidades, para voltar depois a repropor a sua forma definitiva nulificada\u201d.<br \/>\nBuscamos em outro ensaio do mesmo pensador, ensaio dos anos de 2006-2007, chamado de O que \u00e9 o contempor\u00e2neo?, algo que a nosso ju\u00edzo tem pot\u00eancia para fazer operar em n\u00f3s todos que acreditamos naquela for\u00e7a diagonal do pensamento e na indestrut\u00edvel for\u00e7a do desejo, antes mencionada, uma terceira for\u00e7a que a essas se entrela\u00e7a, a do \u201csentido de uma a\u00e7\u00e3o\u201d, ainda na esteira de Hanna Arendt. Esse sentido \u201cs\u00f3 \u00e9 revelado quando o pr\u00f3prio agir (&#8230;) se tornou hist\u00f3ria narr\u00e1vel\u201d.<br \/>\nVejamos essa terceira for\u00e7a \u2013 a do sentido do nosso agir \u2013 na reflex\u00e3o que faz Giorgio Agamben no ensaio O que \u00e9 o contempor\u00e2neo?:<br \/>\n\u201c(&#8230;) Todos os tempos s\u00e3o, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contempor\u00e2neo \u00e9, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que \u00e9 capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente. Mas o que significa \u201cver as trevas\u201d, \u201cperceber o escuro\u201d?<br \/>\nEis, ent\u00e3o, uma exig\u00eancia da nossa atualidade: Instrumentalizar-nos na percep\u00e7\u00e3o do escuro do nosso tempo. De que maneira? Reflete Agamben: exercitando nosso olhar na escurid\u00e3o, mergulhando a pena nas trevas do presente. Um agir, certamente, na linha do que Hanna Arendt aponta, ou seja, quando nosso pr\u00f3prio agir se torna hist\u00f3ria narr\u00e1vel.<br \/>\nAcrescentar\u00edamos, ainda, que esse mergulhar a pena nas trevas do presente, implica tamb\u00e9m um \u201cpensar\u201d com os ouvidos, em virtude de que a\u00ed ressoam \u201cvozes da humanidade\u201d.<br \/>\nAssim, seguindo na diretriz que nos sugerem Agamben e Didi-Huberman, nos recortes que fizemos uso nesse texto estamos na urg\u00eancia de um \u201cfixar o olhar\u201d no nosso tempo \u2013 experimenta\u00e7\u00e3o que Agamben v\u00ea no gesto e na escrita do poeta, em um desenvolvimento minucioso que faz no ensaio O que \u00e9 o Contempor\u00e2neo? tendo por mote o poema de Osip Mandelstam \u2013 Vek (O s\u00e9culo), do ano de 1923 \u2013, como um modo de agir no presente para que apare\u00e7am as palavras, e as imagens, em suas resson\u00e2ncias com a temporalidade impura do desejo. Ou ainda, interrogar as \u201cLuzes do poder versus lampejos dos contrapoderes\u201d, como em Didi-Huberman, inspirado na \u201cpequena luz\u201d (lucciola) dos pirilampos, dos vaga-lumes.<br \/>\n* Professora da UFRGS,\u00a0Membro da APPOA \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre e do Instituto APPOA \u2013 clinica, pesquisa e interven\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[avatar user=&#8221;X-CDD &#8211; Sonia M M Ogiba&#8221; size=&#8221;medium&#8221; align=&#8221;left&#8221; \/] Sonia Mara M. Ogiba* Perplexos pelo avan\u00e7o nos \u00faltimos tempos na pol\u00edtica brasileira de movimentos conservadores de direita, nos campos da cultura e da educa\u00e7\u00e3o, movimentos esses movidos por uma onda crescente de \u00f3dio e intoler\u00e2ncia para com as diferen\u00e7as de toda ordem, e pela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[36],"class_list":["post-33309","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-debates","tag-intolerancia"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33309","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33309"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33309\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}