{"id":33570,"date":"2016-05-27T06:00:47","date_gmt":"2016-05-27T09:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=33570"},"modified":"2016-05-27T06:00:47","modified_gmt":"2016-05-27T09:00:47","slug":"o-ambiente-do-golpe-o-brasil-midiatizado-e-colonialista-e-dois-filmes-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/o-ambiente-do-golpe-o-brasil-midiatizado-e-colonialista-e-dois-filmes-atuais\/","title":{"rendered":"O ambiente do golpe: o Brasil midiatizado e colonialista e dois filmes atuais"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Guilherme Castro*<\/span><br \/>\nO ambiente cultural em que prosperou o golpe mostra o Brasil altamente conectado nas m\u00eddias de hoje, mas alienado. Um pa\u00eds t\u00e3o \u2018dentro\u2019 do mundo contempor\u00e2neo e, ao mesmo tempo, ainda colonialista.<br \/>\nO papel e os efeitos da m\u00eddia na crise pol\u00edtica brasileira v\u00e3o al\u00e9m e s\u00e3o mais profundos do que a manipula\u00e7\u00e3o direta e generalizada pr\u00f3 golpe das grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Uma das maiores estranhezas desses dias \u00e9 perceber nas pr\u00f3prias redes sociais, entre debates e mesmo em manifesta\u00e7\u00f5es de rua, os efeitos do que est\u00e1 sendo chamado de \u2018a bolha midi\u00e1tica\u2019. Os espa\u00e7os de contato e debates entre diferentes s\u00e3o m\u00ednimos, e conversamos sempre entre iguais. A sociedade midi\u00e1tica \u00e9 radical ao dar forma ao Brasil de hoje: atua um estranho e contempor\u00e2neo efeito de impermeabilidade e transpar\u00eancia da diferen\u00e7a. \u00c9 o que explica o prof. Gelson Santana em <em>Representa\u00e7\u00e3o e formas da diferen\u00e7a na cultura midiatizada de hoje <\/em>(2016): \u00a0\u201ca experi\u00eancia do saber desaparece no fluxo incessante de informa\u00e7\u00e3o\u201d e, complementa, a estrat\u00e9gia \u00e9 \u201csermos encapsulados pela midiatiza\u00e7\u00e3o da cultura\u201d. Esses tra\u00e7os sens\u00edveis marcam o Brasil e a crise atual: a esp\u00e9cie de \u2018revolu\u00e7\u00e3o de direita\u2019 que pretendem em pleno 2016 se ampara na ampla massifica\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o. \u00c9 presente, por exemplo, que a maioria dos alunos chegue \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o com quase total desconhecimento da hist\u00f3ria e da realidade brasileira, por mais pr\u00f3xima que esteja.<br \/>\nA resist\u00eancia, por isso, \u00e9 tamb\u00e9m e sobretudo entender os acontecimentos hist\u00f3ricos e ter mem\u00f3ria &#8211; papel e valor centrais da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Dois filmes recentes, <em>O mercado de Not\u00edcias<\/em> (Jorge Furtado, 2014) e <em>Que horas ela volta?<\/em> (<a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/personalidades\/personalidade-207534\/\">Anna Muylaert<\/a>, 2015), nos ajudam a entender o ambiente cultural e midi\u00e1tico da crise pol\u00edtica que o Brasil atravessa.<br \/>\nExpress\u00e3o do estilo e modo de pensar de Furtado, <em>O Mercado de Not\u00edcias<\/em> mistura document\u00e1rio, fic\u00e7\u00e3o, g\u00eaneros e ironias ao tema de fundo: o filme procura desvendar o papel do jornalismo na sociedade brasileira atual. H\u00e1 duas linhas narrativas principais: a s\u00e9rie de entrevistas com grandes nomes da imprensa, e a representa\u00e7\u00e3o e ensaios da pe\u00e7a teatral <em>O Mercado de Not\u00edcias<\/em> (<em>The staple of News<\/em>), escrita pelo ingl\u00eas Ben Jonson, que em 1626 j\u00e1 ironizava e criticava as mazelas do incipiente e rec\u00e9m surgido jornalismo.<br \/>\nO filme <em>O Mercado de Not\u00edcias<\/em> vai ao ponto: qual o poder pol\u00edtico e como operam o jornalismo e a grande m\u00eddia no Brasil? Narrando casos conhecidos de erros ou manipula\u00e7\u00f5es grosseiras da m\u00eddia (exemplos do falso Picasso na reparti\u00e7\u00e3o do INSS, em Bras\u00edlia, e da Escola Base de S\u00e3o Paulo) e com as entrevistas sobre o dia-a-dia da profiss\u00e3o, o longa tra\u00e7a um quadro em que vigora o mau jornalismo, cujo resultado not\u00e1vel \u00e9 uma massa de pessoas desinformadas. \u00a0A apura\u00e7\u00e3o, a dif\u00edcil busca da certeza, da objetividade e da isen\u00e7\u00e3o, o compromisso \u00e9tico com os envolvidos e com o p\u00fablico, tornam a profiss\u00e3o do jornalismo altamente pulsante no dia-a-dia. Mas essas pr\u00e1ticas profissionais, que j\u00e1 eram raras, desaparecem das grandes m\u00eddias. Fica evidenciada a crise da profiss\u00e3o. \u00a0Quando o jornalismo mercadoria abandona qualquer disfarce e se joga ao golpe, hoje, dois anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento, <em>O Mercado de Not\u00edcias<\/em> se torna uma obra essencial, um excelente filme sobre o nosso tempo.<br \/>\nIgualmente revelador, embora de forma muito diferente, \u00e9 \u00a0<em>Que horas ela volta?<\/em>, de <a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/personalidades\/personalidade-207534\/\">Anna Muylaert<\/a>. O filme narra a situa\u00e7\u00e3o de conflito que se cria quando a filha da empregada dom\u00e9stica Val\/Regina Caz\u00e9 \u00e9 recebida e se h\u00f3speda na casa dos patr\u00f5es (a fam\u00edlia de Dona B\u00e1rbara\/Karine Teles). O filme teve grande repercuss\u00e3o porque o p\u00fablico se identifica com as personagens do microcosmo social que a narrativa constr\u00f3i, muito t\u00edpico e revelador do Brasil de hoje. Na fam\u00edlia burguesa, a empregada dom\u00e9stica convive no dia-a-dia, numa rela\u00e7\u00e3o de trabalho que possivelmente s\u00f3 exista nesse pa\u00eds e envolve fortes vest\u00edgios do servilismo t\u00edpico das sociedades coloniais &#8211; situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de explicar a um estrangeiro, mas que todos aqui conhecem. Entre os conflitos do filme, a filha de Val, vinda do interior do Nordeste, \u00e9 inteligente, curiosa, focada, e, por isso, passa no dif\u00edcil vestibular que faz, em contraste \u00e0 falta de motiva\u00e7\u00e3o e infantilidade do jovem filho dos donos da casa. <em>Que horas ela volta?<\/em> mostra o que talvez seja a maior de todas as novidades trazidas pelas pol\u00edticas sociais: a possiblidade de ascens\u00e3o entre classes, e o desgosto que causa nos que se apegam, mesmo que simbolicamente, a privil\u00e9gios arcaicos.<br \/>\nO filme constr\u00f3i o ponto de vista raro da cozinha da casa; pelo olhar simples, mas s\u00e1bio, da dom\u00e9stica Val, conhecemos o vazio de afetos em que se tornou a fam\u00edlia burguesa de B\u00e1rbara. \u00c9 um drama social, profundo e at\u00e9 dif\u00edcil de digerir, por certeiro na cr\u00edtica que faz, mas o tom \u00e9 jocoso, ir\u00f4nico e leve.<br \/>\nA diretora Muylaert apreendeu algo que infelizmente constitui um tra\u00e7o muito atrasado do Brasil. A personagem B\u00e1rbara tem<em> o rei na barriga<\/em>, express\u00e3o de uso corrente, que expressa um comportamento t\u00edpico. Revela um estranho vest\u00edgio material do tempo do Imp\u00e9rio, ainda um pensamento escravocrata, que ficou em nossa cultura com grandes consequ\u00eancias tamb\u00e9m na pol\u00edtica.<br \/>\nUm dos motivos do golpe, a rejei\u00e7\u00e3o, por parcela importante, de qualquer a\u00e7\u00e3o de Governo que diminua a enorme desigualdade social hist\u00f3rica do pa\u00eds est\u00e1 ligado tamb\u00e9m a esse tra\u00e7o pr\u00e9-republicano ainda t\u00e3o marcante.<br \/>\nO Brasil entrou no contempor\u00e2neo, est\u00e1 inteiro no mundo midi\u00e1tico, tomado e fortemente constitu\u00eddo por um novo tipo de sociedade e cultura. Ao mesmo tempo e de modo paradoxal segue colonialista, no \u00e2mago. Essa for\u00e7a do passado tenta se sobrepor ao presente. \u00a0Que seja esp\u00e9cie de \u00faltimo suspiro, e que a supera\u00e7\u00e3o do golpe, que acontece sobretudo nas ruas e nas m\u00eddias, traga avan\u00e7os muito maiores na constru\u00e7\u00e3o da Democracia. H\u00e1 essa chance.<br \/>\n<em>[avatar user=&#8221;X-CDD &#8211; Guilherme Castro&#8221; size=&#8221;thumbnail&#8221; align=&#8221;left&#8221; \/]* Guilherme Castro \u00e9 cineasta e jornalista, professor na ULBRA, e doutorando em cinema na Universidade Anhembi Morumbi\/SP. Presidiu o Conselho Estadual de Cultura e a Associa\u00e7\u00e3o de Cineastas do RGS (APTC-RS).<\/em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"gI\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Castro* O ambiente cultural em que prosperou o golpe mostra o Brasil altamente conectado nas m\u00eddias de hoje, mas alienado. 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