{"id":34557,"date":"2016-06-11T01:38:42","date_gmt":"2016-06-11T04:38:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=34557"},"modified":"2016-06-11T01:38:42","modified_gmt":"2016-06-11T04:38:42","slug":"meritocracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/meritocracia\/","title":{"rendered":"Meritocracia"},"content":{"rendered":"<p><i>Meritocracia<\/i>: eis uma palavra que temos ouvido bastante nos \u00faltimos tempos. Como conceito, a <i>meritocracia<\/i> tem sido usada, por um lado, para avalizar, no campo sociol\u00f3gico e \u00e9tico, o <i>neoliberalismo<\/i> enquanto solu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e estrutural para o pa\u00eds; por outro lado, de forma complementar, a <i>meritocracia<\/i> surge ainda, reiteradamente, como argumento contra pol\u00edticas p\u00fablicas que almejem reduzir qualquer forma de desigualdade social.<\/p>\n<p class=\"western\">Convidado para participar deste ciclo sobre <i>L\u00edngua, Literatura e Autoridade<\/i>, considerei que seria interessante usar o termo como objeto orientador de nossas considera\u00e7\u00f5es, pois me parece que poucas palavras t\u00eam mais for\u00e7a hoje, no ide\u00e1rio conservador e neoliberal, do que a no\u00e7\u00e3o de <i>meritocracia<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">Mas que no\u00e7\u00e3o \u00e9 essa exatamente?<\/p>\n<p class=\"western\">Procurando por uma defini\u00e7\u00e3o de <i>meritocracia<\/i> pelo senso comum, encontrei, no <i>site<\/i> do <i>Instituto Mises Brasil<\/i>, uma mat\u00e9ria escrita, em 2015, por Joel Pinheiro da Fonseca, mestre em Filosofia pela USP (2014). O artigo de Fonseca, \u201cN\u00e3o \u00e9 a meritocracia; \u00e9 o valor que se cria\u201d, serve muito bem \u00e0 nossa discuss\u00e3o, visto que n\u00e3o s\u00f3 exp\u00f5e sua vis\u00e3o (neo)liberal sobre o assunto, mas, em adi\u00e7\u00e3o, parte exatamente do senso comum para tentar explicar (no caso dele, elogiosamente) o que \u00e9 a <i>meritocracia<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">Fonseca inicia seu texto a partir de uma imagem, compartilhada nas redes sociais, em que se v\u00ea um homem velho sentado no ch\u00e3o, ao lado de uma bengala improvisada, pedindo dinheiro com a m\u00e3o estendida. Nessa imagem, leem-se ainda os seguintes dizeres: \u201cSEGUNDO A MERITOCRACIA QUE OS REA\u00c7AS TANTO DEFENDEM ESSE HOMEM \u00c9 POBRE PORQUE N\u00c3O SE ESFOR\u00c7OU O SUFICIENTE\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\">Essa cr\u00edtica, posta na imagem, Fonseca nos afirma que ocorre porque alguns liberais defendem a ideia de que o mercado \u00e9 gerido por uma l\u00f3gica meritocr\u00e1tica. A desconstru\u00e7\u00e3o desse argumento, como o pr\u00f3prio Fonseca mostra, \u00e9 muito f\u00e1cil de ser feita. Ele diz: \u201c[&#8230;] ser\u00e1 verdade que o mercado premia justamente o m\u00e9rito? Se for, caro liberal, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 obrigado a defender que Gugu Liberato e Faust\u00e3o t\u00eam mais m\u00e9rito do que um professor realmente excelente e que realmente ensine coisas \u00fateis.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\">Para livrar-se desse problema, Fonseca defende duas ideias principais: (i) meritocracia n\u00e3o \u00e9 algo inerente \u00e0 l\u00f3gica de mercado, mas, sim, um modelo de gest\u00e3o (e n\u00e3o sem seus problemas e v\u00edcios internos, como o pr\u00f3prio autor admite); (ii) o mercado n\u00e3o premia o m\u00e9rito, mas sim a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i>. Assim, um excelente professor \u00e9 menos premiado do que Gugu ou Faust\u00e3o pelo fato de que ele tem um alcance muito pequeno (algumas centenas de alunos por ano), ao passo que essas celebridades teriam um alcance muito maior e gerariam muit\u00edssimo <i>valor<\/i> para seus empregadores.<\/p>\n<p class=\"western\">Apesar dessas distin\u00e7\u00f5es que Fonseca opera em seu texto, permanece uma confus\u00e3o conceitual. Por um lado, ele diz que a l\u00f3gica do mercado n\u00e3o \u00e9 a de premiar o <i>m\u00e9rito<\/i>, mas sim a de premiar a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i>. Por outro lado, usando uma compara\u00e7\u00e3o com a qual estamos dispostos a concordar (Gugu\/Faust\u00e3o vs algum \u00f3timo professor), Fonseca faz um malabarismo com a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 \u201cm\u00e9rito\u201d, sem jamais definir o que seja. Ele inicia seu pr\u00f3prio texto exatamente nessa incerteza, dizendo: \u201cMeritocracia \u00e9 uma palavra bonita. N\u00e3o. \u00c9 uma palavra que remete a uma coisa bonita: que cada um receba de acordo com seu m\u00e9rito, que em geral \u00e9 igual a esfor\u00e7o, dedica\u00e7\u00e3o; \u00e0s vezes se inclui a intelig\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p class=\"western\">Como Fonseca jamais define o que entende por <i>m\u00e9rito <\/i>ou <i>meritocracia<\/i>, devemos tentar abstrair uma defini\u00e7\u00e3o a partir do exemplo por ele usado. Na compara\u00e7\u00e3o entre Gugo\/Faust\u00e3o e algum excelente professor imagin\u00e1rio \u201cque realmente ensine coisas \u00fateis\u201d, ficamos dispostos a concordar, pela ideia de <i>excel\u00eancia<\/i> e <i>utilidade<\/i>, que o professor \u00e9 mais <i>merit\u00f3rio<\/i>, ainda que tenha um menor sal\u00e1rio. Fonseca cria, desse modo, uma equa\u00e7\u00e3o que pode ser resumida da seguinte forma: a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> \u00e9 igual \u00e0 <i>qualidade do servi\u00e7o\/produto<\/i> multiplicado por seu <i>alcance<\/i>. Assim, ainda que concordemos que o professor seja mais <i>merit\u00f3rio<\/i> do que os apresentadores de TV, visto que o servi\u00e7o que ele presta tem melhor <i>qualidade<\/i> do que o daqueles, precisamos concordar tamb\u00e9m que a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> dos apresentadores, no sentido financeiro, seja superior \u00e0 do professor, pois d\u00e3o muit\u00edssimo mais lucro em virtude de seu <i>alcance<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">Com isso, Fonseca nos leva a crer que <i>m\u00e9rito<\/i>, ent\u00e3o, tenha a ver apenas com uma parte da equa\u00e7\u00e3o, a <i>qualidade do servi\u00e7o ou do produto<\/i> que oferecemos, sua <i>excel\u00eancia<\/i> e <i>utilidade<\/i>. Se esse servi\u00e7o ou produto n\u00e3o alcan\u00e7a ningu\u00e9m (seja por indisponibilidade de oferta ou por falta de interesse em consumi-lo), nossa <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> ser\u00e1 nula, mesmo que sejamos <i>merit\u00f3rios<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">Assim, somos levados fazer a seguinte substitui\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"western\">de<\/p>\n<p class=\"western\"><i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> = <i>qualidade do servi\u00e7o\/produto<\/i> x <i>alcance<\/i>,<\/p>\n<p class=\"western\">para<\/p>\n<p class=\"western\"><i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> = <i>m\u00e9rito<\/i> x <i>alcance<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">Entretanto, com esse salto, ocultamos um problema conceitual, que tamb\u00e9m Fonseca oculta em seu texto. Explico.<\/p>\n<p class=\"western\">Pensemos no exemplo de um artista cujas obras ontem eram ignoradas, mas hoje s\u00e3o descobertas como verdadeiros tesouros. Ontem, ningu\u00e9m tinha interesse em comprar um de seus quadros; hoje, todos querem. Cada um desses quadros, enquanto objeto pass\u00edvel de ser possu\u00eddo individualmente, permanece com o mesmo alcance, 1. Entretanto, para quem vende esses quadros, sua <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> \u00e9 imensamente maior. Se o <i>alcance<\/i> n\u00e3o mudou, teria mudado ent\u00e3o a <i>qualidade<\/i>?<\/p>\n<p class=\"western\">Certamente n\u00e3o. O quadro permanece o mesmo. Suas qualidades s\u00e3o as mesmas. O que mudou foi o <i>valor<\/i> que atribu\u00edmos a essas qualidades. Logo, somos for\u00e7ados a admitir que <i>m\u00e9rito<\/i> n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico \u00e0 <i>qualidade<\/i> de um servi\u00e7o ou de um produto, mas, sim, ao <i>valor que se atribui \u00e0 qualidade<\/i> daquele servi\u00e7o ou produto.<\/p>\n<p class=\"western\">Numa sociedade moldada pelo fetichismo, como a nossa, da noite para o dia, um produto ou servi\u00e7o pode ter um enorme salto de valor, pois, mediante propaganda e manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, a percep\u00e7\u00e3o do que seja sua qualidade pode ser facilmente alterada. Ao mudar-se a percep\u00e7\u00e3o do que seja a qualidade desse produto ou desse servi\u00e7o, muda-se tamb\u00e9m seu valor. A melhor acep\u00e7\u00e3o, portanto, que podemos dar \u00e0 palavra <i>m\u00e9rito<\/i>, dentro desse contexto, \u00e9 a de <i>valor<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">\u00c9 interessante, ali\u00e1s, notar que <i>m\u00e9rito<\/i> vem do Latim <i>meritum<\/i>, um derivado do verbo <i>mereo<\/i>, que indica a ideia de <i>ser digno de algo<\/i>. A partir dessa ideia inicial, <i>mereo<\/i> passa a ter outras deriva\u00e7\u00f5es de sentido, para expressar tamb\u00e9m o ato de <i>receber algo<\/i> ou mesmo de <i>comprar algo<\/i>. De <i>mereo<\/i>, herdamos a palavra <i>meritum<\/i>, que indica <i>aquilo de que algu\u00e9m \u00e9 digno<\/i>, por uma <i>equival\u00eancia de valor<\/i>. Voc\u00ea \u00e9 <i>digno<\/i> de uma recompensa, de ter seu terreno, sua casa, ou o que for, por haver uma <i>equival\u00eancia de<\/i> <i>valor<\/i> entre sua pessoa e a coisa em quest\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\">Na equa\u00e7\u00e3o que encontramos dentro do discurso de Fonseca, dissemos que a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> (ou seja, o quanto de dinheiro as pessoas lhe pagam pelo que voc\u00ea faz) equivale ao <i>m\u00e9rito<\/i> de seu servi\u00e7o ou de seu trabalho (ou seja, o <i>valor<\/i> que se atribui a esse servi\u00e7o ou trabalho) multiplicado pelo <i>alcance<\/i> que ele tem (ou seja, quantas pessoas pagar\u00e3o por ele).<\/p>\n<p class=\"western\">Ao dizer que a <i>meritocracia<\/i> \u00e9, na verdade, um modelo de gest\u00e3o em que se premia o <i>m\u00e9rito<\/i> de cada um, Fonseca parece dar a entender que ela \u00e9 algo alheio \u00e0 l\u00f3gica do mercado. Devemos supor, ent\u00e3o, que o <i>m\u00e9rito<\/i> idealmente premiado na <i>meritocracia<\/i> seja diferente daquele encontrado na f\u00f3rmula de <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i>? Se \u00e9 a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> que orienta o mercado, como n\u00e3o seria tamb\u00e9m a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i> aquilo que a <i>meritocracia<\/i> premiaria? Mesmo quando se premia o <i>m\u00e9rito<\/i> potencial de algu\u00e9m, independentemente de seu <i>alcance<\/i>, n\u00e3o se faz esse pr\u00eamio justamente pensando no <i>alcance<\/i> que o trabalho desse indiv\u00edduo pode ter? Ou se um empregador premia um funcion\u00e1rio pelo <i>alcance<\/i> de seu trabalho, esperando qualific\u00e1-lo para melhorar a <i>qualidade<\/i> de seu servi\u00e7o\/produto, seu <i>m\u00e9rito<\/i>, isso tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 inserido na mesma l\u00f3gica descrita por Fonseca, que visa otimizar a <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i>?<\/p>\n<p class=\"western\">Para al\u00e9m do senso comum, o que Fonseca n\u00e3o nos diz \u00e9 que o termo <i>meritocracia<\/i> foi cunhado em 1958 por Michael Young, em seu livro <i>The Rise of the Meritocracy<\/i>, a partir do termo latino <i>meritum<\/i>, que em Portugu\u00eas nos legou \u201cm\u00e9rito\u201d, e o termo grego <span lang=\"el-GR\"><i>\u03ba\u03c1\u1f71\u03c4\u03bf\u03c2<\/i><\/span> (<i>kr\u00e1tos<\/i>), \u201cfor\u00e7a\u201d. Apesar da ado\u00e7\u00e3o positiva que a palavra teve tanto em Ingl\u00eas como em Portugu\u00eas, \u00e9 importante notar que ela surge, no livro de Young, dentro de um ambiente sat\u00edrico, ambientado em uma sociedade dist\u00f3pica obcecada em identificar e premiar, desde cedo, por meio de uma educa\u00e7\u00e3o especial, as pessoas mais inteligentes e esfor\u00e7adas.<\/p>\n<p class=\"western\">Pouco antes de morrer, em 2002, Young escreveu um artigo para o jornal <i>The Guardian<\/i> falando de sua frustra\u00e7\u00e3o em ver como a ideia de <i>meritocracia<\/i> foi usurpada por pessoas como o ent\u00e3o primeiro-ministro Tony Blair, que a usavam como um ideal a ser perseguido. A argumenta\u00e7\u00e3o de Young nesse momento, j\u00e1 no fim da vida, era a de que, tomada da forma como foi, a ideia de <i>meritocracia<\/i> apenas serviu para fazer com que as pessoas que j\u00e1 detinham riqueza e poder se sentissem ainda mais legitimadas em recompensar-se tanto quanto poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"western\">A ideia do soci\u00f3logo ingl\u00eas, que j\u00e1 era dist\u00f3pica em sua forma original, foi aproveitada de forma parcial e ainda mais distopicizante: adotou-se a recompensa do <i>m\u00e9rito<\/i> e passou-se a alienar cada vez mais as massas de um acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e aos processos que selecionariam os mais inteligentes e esfor\u00e7ados. Reitero: mesmo se tivesse sido adotada do modo que Young a descrevia, a <i>meritocracia<\/i> era algo reservado para um futuro <i>dist\u00f3pico<\/i>. Adotadas a palavra e a ideia como foram, a realidade se tornou pior do que o pesadelo ficcional.<\/p>\n<p class=\"western\">Sendo <i>valor <\/i>uma unidade subjetiva, dependente da opini\u00e3o das pessoas, devemos entender a <i>meritocracia<\/i> simplesmente como o processo de refor\u00e7o e manuten\u00e7\u00e3o de uma determinada <i>ordem de valores<\/i>. Os liberais, como Fonseca, acreditam que essa <i>ordem de valores<\/i> \u00e9 imposta ao mercado por demandas racionais das pessoas, ignorando o poder que o mercado tem, por meio da publicidade, da propaganda, das formas de arte que ele pr\u00f3prio fomenta, de definir esses valores, bem como de levar as pessoas a tomar escolhas irracionais.<\/p>\n<p class=\"western\">A <i>meritocracia <\/i>como a temos nada mais \u00e9 do que o foco extremo em premiar cada um pelo seu <i>m\u00e9rito<\/i>, entendido como <i>valor<\/i> dentro de uma equa\u00e7\u00e3o de <i>gera\u00e7\u00e3o de valor<\/i>, ignorando os processos pelos quais definimos esses valores. Mais do que isso, ousaria dizer que a <i>meritocracia<\/i> \u00e9 exatamente o <i>dom\u00ednio da determina\u00e7\u00e3o de valores<\/i>. No mundo meritocr\u00e1tico, aqueles que conseguem dobrar a opini\u00e3o dos outros, que conseguem alterar a ordem de valores a seu favor, s\u00e3o exatamente os mais poderosos.<\/p>\n<p class=\"western\">A <i>meritocracia<\/i> \u00e9 o <i>poder do valor<\/i>.<\/p>\n<p class=\"western\">Ep\u00edlogo<\/p>\n<p class=\"western\">A Gr\u00e9cia antiga foi um dos primeiros lugares no mundo em que algu\u00e9m fincou uma pedra ou uma estaca no ch\u00e3o e disse: \u201ceste terreno \u00e9 meu\u201d. Esse acontecimento, aparentemente banal, d\u00e1 origem a algo revolucion\u00e1rio: a partir disso, sugiram as primeiras cercas e a pr\u00f3pria ideia de propriedade privada, ainda no neol\u00edtico, por volta de 9.000 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"western\">Esse passo est\u00e1 intimamente ligado com o desenvolvimento da agricultura e com a necessidade de assentar-se em um lugar e proteg\u00ea-lo, para cultivar a terra, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida n\u00f4made de ca\u00e7a e coleta. Essa mudan\u00e7a de modo de vida, como aponta Joseph Campbell, ilustre estudioso de mitologia comparada, conduz tamb\u00e9m a uma mudan\u00e7a de modo de pensar, de concep\u00e7\u00e3o de mundo, de mitos e cren\u00e7as que expliquem o funcionamento da realidade e o sentido da exist\u00eancia. Tais mudan\u00e7as, como podemos esperar, efetuam-se no plano da linguagem, onde deixam marcas sens\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"western\">Curiosamente, a mesma raiz de <i>mereo<\/i>, o verbo latino que nos legou <i>m\u00e9rito<\/i>, tamb\u00e9m existe em Grego, onde d\u00e1 origem, por exemplo, \u00e0 palavra <span lang=\"el-GR\"><i>\u03bc\u1f73\u03c1\u03bf\u03c2<\/i><\/span> (<i>m\u00e9ros<\/i>), que designa a por\u00e7\u00e3o devida a cada um. Esse termo vem do verbo <span lang=\"el-GR\"><i>\u03bc\u03b5\u1f77\u03c1\u03bf\u03bc\u03b1\u03b9<\/i><\/span> (<i>me\u00edromai<\/i>), <i>dividir<\/i>. A mesma raiz dessas palavras origina tamb\u00e9m a palavra <span lang=\"el-GR\"><i>\u03bc\u03bf\u1fd6\u03c1\u03b1<\/i><\/span> (<i>mo\u00eera<\/i>), que por vezes traduzimos por \u201cdestino\u201d, \u201csorte\u201d, \u201cfado\u201d, \u201cquinh\u00e3o\u201d ou \u201clote\u201d. A palavra <span lang=\"el-GR\"><i>\u03bc\u03bf\u1fd6\u03c1\u03b1<\/i><\/span> refere-se \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o do destino individual dado a cada indiv\u00edduo. A tradu\u00e7\u00e3o de <span lang=\"el-GR\"><i>\u03bc\u03bf\u1fd6\u03c1\u03b1<\/i><\/span> por <i>lote<\/i> \u00e9 especialmente interessante, por ligar a ideia de um <i>destino dado<\/i> tamb\u00e9m \u00e0 ideia de <i>posse territorial<\/i>, pois chamamos um <i>terreno<\/i> cercado tamb\u00e9m de <i>lote<\/i>. Assim, <i>lote<\/i> pode se referir tanto \u00e0 <i>terra<\/i> como ao <i>destino<\/i> que se tem. Essa tradu\u00e7\u00e3o ajuda a evidenciar como o <i>destino<\/i> de uma pessoa est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 <i>por\u00e7\u00e3o de propriedade<\/i> que lhe \u00e9 cabida, \u00e0 sua <i>\u03bc\u03b5\u03c1\u03b9\u03c4\u03b5\u03af\u03b1<\/i> (<i>merite\u00eda<\/i>) \u2013 termo que designa a \u201cdistribui\u00e7\u00e3o de terra\u201d. Quem n\u00e3o tem terra, por essa l\u00f3gica, n\u00e3o tem destino.<\/p>\n<p class=\"western\">Se compreend\u00eassemos <i>meritocracia<\/i> pela acep\u00e7\u00e3o grega, ter\u00edamos a ideia de <i>poder da propriedade privada<\/i>. Seria apenas uma terr\u00edvel casualidade se essas duas ideias, <i>m\u00e9rito<\/i> e <i>propriedade<\/i>, n\u00e3o tivessem sempre andado de m\u00e3os dados na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Afinal de contas, quem det\u00e9m a terra det\u00e9m tamb\u00e9m o poder e a capacidade de atribuir valor a cada coisa.<\/p>\n<p class=\"western\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p class=\"western\">FONSECA, Joel Pinheiro da. \u201cN\u00e3o \u00e9 a meritocracia; \u00e9 o valor que se cria\u201d. Artigo de 20 de outubro de 2015 para o <i>Instituto Ludwig von Mises Brasil<\/i>. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.mises.org.br\/Article.aspx?id=2054\">http:\/\/www.mises.org.br\/Article.aspx?id=2054<\/a>. <span lang=\"en-US\">Acesso em 20\/05\/2016.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\"><span lang=\"en-US\">YOUNG, Michael. &#8220;Down with meritocracy: The man who coined the word four decades ago wishes Tony Blair would stop using it&#8221;. <\/span>Artigo de 29 de junho de 2001 para <i>The Guardian<\/i>. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/politics\/2001\/jun\/29\/comment.%20Acesso%20em%2020\/05\/2016\">http:\/\/www.theguardian.com\/politics\/2001\/jun\/29\/comment. <span lang=\"en-US\">Acesso em 20\/05\/2016<\/span><\/a><span lang=\"en-US\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\"><span lang=\"en-US\">__________. <\/span><span lang=\"en-US\"><b>The rise of the meritocracy, 1870-2033: An essay on education and inequality<\/b><\/span><span lang=\"en-US\">. London: Thames &amp; Hudson, 1958.<\/span><\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p class=\"western\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-34593\" src=\"http:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Leonardo-Antunes-1-300x173.jpg\" alt=\"Leonardo Antunes\" width=\"300\" height=\"173\" \/><a name=\"_GoBack\"><\/a>C. Leonardo B. Antunes<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>\uf02a<\/sup><\/a><a name=\"_GoBack\"><\/a> <a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">\uf02a<\/a><sup>\uf02a<\/sup> <span style=\"font-size: small\">Professor do Departamento de Letras Cl\u00e1ssicas e Vern\u00e1culas do Instituto de Letras da UFRGS. Palestra proferida no Ciclo: <\/span><span style=\"font-size: small\"><i>L\u00edngua, Literatura e Autoridade: um revide ao golpe<\/i><\/span><span style=\"font-size: small\">, em 08\/06\/2016, no Instituto de Letras.<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meritocracia: eis uma palavra que temos ouvido bastante nos \u00faltimos tempos. Como conceito, a meritocracia tem sido usada, por um lado, para avalizar, no campo sociol\u00f3gico e \u00e9tico, o neoliberalismo enquanto solu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e estrutural para o pa\u00eds; por outro lado, de forma complementar, a meritocracia surge ainda, reiteradamente, como argumento contra pol\u00edticas p\u00fablicas que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":34591,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-34557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-debates"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34557\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}