{"id":35253,"date":"2016-06-21T00:33:50","date_gmt":"2016-06-21T03:33:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=35253"},"modified":"2016-06-21T00:33:50","modified_gmt":"2016-06-21T03:33:50","slug":"crise-politica-e-marxismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/crise-politica-e-marxismo\/","title":{"rendered":"Crise pol\u00edtica e marxismo"},"content":{"rendered":"<p>Diante da crise pol\u00edtica que vivemos, colocamos a pergunta a respeito do que Marx e o marxismo t\u00eam a ver com isto? J\u00e1 se escutou falar por a\u00ed que Marx seria o culpado pela crise que o Brasil atravessa no momento. Parece-nos evidente que Marx tem algo a ver com a crise global do capitalismo internacional, e com a crise brasileira em particular. Sem entrarmos nas distin\u00e7\u00f5es entre a filosofia do velho Karl Marx, marxismo e as causas marxistas que se concentram nas conhecidas esquerdas, tais como as quest\u00f5es vinculadas ao trabalho, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social, \u00e0 luta de classes e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Uma distin\u00e7\u00e3o entre estes v\u00e1rios aspectos levaria o texto longe demais, o que n\u00e3o \u00e9 o prop\u00f3sito deste artigo.<br \/>\nA crise pol\u00edtica \u00e9 provocada pela onda conservadora do neoliberalismo cujos ventos voltaram a soprar forte sobre o territ\u00f3rio brasileiro. Sabe-se que este modelo econ\u00f4mico, fortemente reinstaurado no Brasil com a posse do poder central por um governo golpista e conspirador, tem na privatiza\u00e7\u00e3o da economia, no grande empresariado e na retirada dos direitos sociais os seus dogmas fundantes. Na contram\u00e3o desta tend\u00eancia, uma no\u00e7\u00e3o social de inspira\u00e7\u00e3o marxiana tem na valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito social, na economia solid\u00e1ria e na igualdade social, na coletiviza\u00e7\u00e3o dos bens e na constitui\u00e7\u00e3o do fundamento universal do bem comum os seus valores fundamentais.<br \/>\nDada a radical antinomia entre os dogmas do neoliberalismo e os fundamentos sociais da filosofia de Marx, entre o privatismo e os fundamentos sociais de base, Karl Marx e os marxistas aparecem como um bando de dem\u00f4nios inimigos do desenvolvimento econ\u00f4mico e vagabundos que vivem do trabalho dos que det\u00e9m propriedade privada. Para os neoliberais, a crise econ\u00f4mica \u00e9 causada pela significativa margem de recursos e de capital aplicado nas quest\u00f5es sociais, numa massa de \u201cvagabundos\u201d que n\u00e3o produzem e que consomem a riqueza dos que trabalham e produzem. Nesta l\u00f3gica, \u00e9 preciso retornar ao capital e aos produtores de riqueza tudo o que lhes \u00e9 de direito, e tirar dos \u201cvagabundos\u201d tudo aquilo que provoca desequil\u00edbrios econ\u00f4micos.<br \/>\nFacilmente se escuta dizer que Marx n\u00e3o serve de refer\u00eancia para a leitura cr\u00edtica e interpreta\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que atualmente vivemos. Na contram\u00e3o desta investida, sustentamos que depois da grande crise econ\u00f4mica que solapou as bases do capitalismo mundial em 2008 e a crise que afeta o Brasil atualmente, t\u00eam na filosofia marxista uma de suas bases mais profundas para a sua compreens\u00e3o. O que vivemos na atualidade, numa simples palavra, pode ser resumido na usurpa\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico por parte de uma elite capitalista que imp\u00f5e o seu projeto econ\u00f4mico. O projeto econ\u00f4mico que os golpistas liderados por Cunha e Temer est\u00e3o impondo ao Brasil \u00e9 o mesmo que foi duramente criticado por Marx, que faliu em 2008 e que imp\u00f5e ao mundo uma onda de destrui\u00e7\u00e3o da natureza, do homem e de si pr\u00f3prio. Assim como denunciou Marx no s\u00e9culo XIX, o capitalismo atual est\u00e1 sucumbindo \u00e0 sua pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o interna, cujo pre\u00e7o est\u00e1 recaindo diretamente sobre os recursos naturais do Brasil e sobre o povo brasileiro.<br \/>\nO Capital, obra sistem\u00e1tica de maturidade do velho e barbudo Karl Marx, nos mostra suficientemente que n\u00e3o s\u00e3o os marxistas e trabalhadores os culpados pela crise atual, e que o seu pensamento \u00e9 referencial para a compreens\u00e3o de qualquer crise capitalista. Aqui, junto com o velho Marx, denunciamos a a\u00e7\u00e3o do governo golpista de fazer recair sobre os trabalhadores e a base social a responsabilidade, fazendo a classe trabalhadora pagar a conta dela. \u00c9 evidente que o grande capital, cuja l\u00f3gica Marx esbo\u00e7ou de forma sistem\u00e1tica e met\u00f3dica em sua obra o Capital (das Kapital), apresenta o grande sujeito do capital que sobrevive \u00e0 custa do trabalho explorado e da mais valia, expropriando a for\u00e7a f\u00edsica e espiritual do trabalhador. O grande capital somente sobrevive com o trabalho dos trabalhadores, cuja subjetividade \u00e9 expropriada at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias. Acontece sistematicamente aquilo que os golpistas imp\u00f5em de forma clara: o grande capital expropria os trabalhadores, com a necessidade absoluta do fundamento que ele pr\u00f3prio nega. Os golpistas dizem que os pobres, a classe trabalhadora, os pequenos agricultores, as mulheres e os negros s\u00e3o vagabundos, justamente aqueles \u201cvagabundos\u201d que com o seu trabalho sustentam materialmente a posse material dos ricos e machos golpistas.<br \/>\nNingu\u00e9m reconstruiu a estrutura da l\u00f3gica capitalista como Karl Marx, especialmente em sua obra o Capital. O grande capital, estruturado pelas determina\u00e7\u00f5es do capital industrial, do capital financeiro e do capital comercial, caracteriza um c\u00edrculo de media\u00e7\u00e3o no qual uma determina\u00e7\u00e3o do capital determina a outra, e todas se determinam reciprocamente na grande l\u00f3gica da autodetermina\u00e7\u00e3o do capital. Mas o movimento de constru\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 sustentado pelo trabalho dos trabalhadores, a grande for\u00e7a que coloca o capital em movimento. Os capitalistas, perfeitamente representados pelos golpistas, n\u00e3o gostam dos trabalhadores e negam a pr\u00f3pria base que construiu o seu capital. Uma vez precarizado o trabalho, a tend\u00eancia \u00e9 de que o capital seja fragilizado.<br \/>\nMarx n\u00e3o apenas reconstr\u00f3i a estrutura dial\u00e9tica das inter-rela\u00e7\u00f5es entre as modalidades de capital dinheiro, capital produtivo e capital comercial, como a l\u00f3gica da grande circularidade do capital global, mas critica outra configura\u00e7\u00e3o que consiste na separa\u00e7\u00e3o entre a estrutura produtiva e a l\u00f3gica especulativa e financeira. O grande causador da crise \u00e9 a financeiriza\u00e7\u00e3o do mundo provocada pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras que recolhem os recursos econ\u00f4micos da base material da sociedade e os concentram em forma de capital financeiro. Este basta a si mesmo para se multiplicar, no melhor estilo autot\u00e9lico de um deus absoluto e incondicional. Como alguns poucos se beneficiam desta l\u00f3gica perversa e lucram com a crise, o sistema econ\u00f4mico material \u00e9 explorado em seus fundamentos quando a car\u00eancia econ\u00f4mica \u00e9 sentida na ind\u00fastria, no com\u00e9rcio, no consumo quotidiano e no trabalho, a financeiriza\u00e7\u00e3o pulveriza a estrutura material e a sua necess\u00e1ria circularidade de produ\u00e7\u00e3o e consumo. Marx \u00e9 um cr\u00edtico contumaz desta l\u00f3gica capitalista financeirista na qual o capital dinheiro adquire a configura\u00e7\u00e3o autot\u00e9lica capaz de expropriar a realidade material e a estrutura social.<br \/>\nPelo vi\u00e9s cr\u00edtico fortemente marxista, a crise que vivemos evidencia uma radical desestrutura\u00e7\u00e3o do tecido social pela coisifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais fortemente impactadas pela l\u00f3gica capitalista. Diretamente acompanhado dela, o sistema da natureza est\u00e1 sendo desintegrado, com a destrui\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, com a polui\u00e7\u00e3o do ar, das \u00e1guas, dos rios, do desmatamento, da explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de recursos naturais, de aplica\u00e7\u00e3o de defensivos agr\u00edcolas em grande escala etc. O sistema capitalista dogmatizado e endeusado pelos golpistas n\u00e3o apenas desintegra a sociedade e a natureza em seus fundamentos, mas estabelece uma ruptura na rela\u00e7\u00e3o fundamental entre o homem e a natureza.<br \/>\nPartindo do legado intelectual proporcionado por Marx, criticamos o projeto desencadeado pela elite golpista que est\u00e1 no poder. Este projeto j\u00e1 faliu o Brasil com o governo Fernando Henrique Cardoso na d\u00e9cada de 90, quando o Brasil acumulou uma d\u00edvida externa impag\u00e1vel, com sucessivos empr\u00e9stimos junto ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional, com um d\u00e9ficit significativo na balan\u00e7a comercial durante os oito anos, e com diminui\u00e7\u00e3o do Produto Interno Bruto. O governo golpista est\u00e1 aplicando irrestritamente a cartilha econ\u00f4mica dogmatizada pela tradi\u00e7\u00e3o neoliberal, que faliu a Europa e os Estados Unidos em 2008 e espalha estruturalmente os efeitos de sua decad\u00eancia no mundo inteiro.<br \/>\nApoiados no pensamento de Marx, criticamos radicalmente o modelo econ\u00f4mico representado pelo governo golpista que usurpou o poder. Ele representa um projeto econ\u00f4mico que retira direitos sociais assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Isto representa uma contradi\u00e7\u00e3o porque o pr\u00f3prio capital nega a sua for\u00e7a estruturante, o trabalho, destruindo-se a si mesmo. Os golpistas representam um projeto que j\u00e1 faliu o mundo, e est\u00e1 matando a natureza, est\u00e1 desintegrando a sociedade, provoca desequil\u00edbrios econ\u00f4micos, ecol\u00f3gicos e sociais globais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante da crise pol\u00edtica que vivemos, colocamos a pergunta a respeito do que Marx e o marxismo t\u00eam a ver com isto? J\u00e1 se escutou falar por a\u00ed que Marx seria o culpado pela crise que o Brasil atravessa no momento. 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