{"id":35920,"date":"2016-07-04T20:24:07","date_gmt":"2016-07-04T23:24:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=35920"},"modified":"2016-07-04T20:24:07","modified_gmt":"2016-07-04T23:24:07","slug":"ditadura-golpista-e-apartheid-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/ditadura-golpista-e-apartheid-social\/","title":{"rendered":"Ditadura golpista e apartheid social"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart &#8211;\u00a0Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE.<br \/>\nO regime pol\u00edtico ditatorial que o Brasil vive atualmente tem grav\u00edssimas consequ\u00eancias sociais. N\u00e3o restam d\u00favidas de que a chegada dos golpistas ao poder representa a ruptura da Constitui\u00e7\u00e3o, a dissolu\u00e7\u00e3o da Democracia e o fim do Estado de Direito. Est\u00e1 instalada uma ditadura jur\u00eddico\/parlamentar\/midi\u00e1tica com a finalidade de impor ao Brasil um projeto econ\u00f4mico que segue rigorosamente a cartilha neoliberal. Como consequ\u00eancia desta nova ditadura, \u00e9 vis\u00edvel que se estabeleceu no Brasil uma cis\u00e3o social radical a que podemos denominar de apartheid social.<br \/>\nComo ainda somos um modelo econ\u00f4mico capitalista, h\u00e1 em nossa sociedade uma elite dominante profundamente ego\u00edsta e concentradora de renda. Enquanto perdura o sistema capitalista de produ\u00e7\u00e3o, o mundo estar\u00e1 cindido entre ricos e pobres, uma assimetria social distribu\u00edda em n\u00edvel global e no interior dos pa\u00edses, particularmente de terceiro mundo. A elite burguesa capitalista n\u00e3o admite que os mais pobres ascendam socialmente e integrem os mais variados espa\u00e7os da sociedade. A elite burguesa se considera dona do mundo diante da qual os mais pobres e as classes sociais exclu\u00eddas s\u00e3o odiadas.<br \/>\nDurante os anos do governo Lula e o primeiro de Dilma houve o fen\u00f4meno jamais visto e imaginado no Brasil da ascens\u00e3o social, quando milh\u00f5es de miser\u00e1veis sa\u00edram da mis\u00e9ria e outros milh\u00f5es entraram na classe m\u00e9dia. Esta gigantesca massa historicamente exclu\u00edda come\u00e7ou a aparecer nas pra\u00e7as, nas lojas e supermercados, nas Universidades, nos avi\u00f5es, nas ruas das cidades, nos espa\u00e7os de trabalho etc. Come\u00e7aram a ocupar os mesmos espa\u00e7os da elite dominante e concorrer com os seus privil\u00e9gios.<br \/>\nIsto se torna ainda mais acentuado quando se trata de classes historicamente exclu\u00eddas como os negros, os \u00edndios, as mulheres e grupos de outras op\u00e7\u00f5es sexuais. Al\u00e9m da divis\u00e3o social provocada pelo modelo econ\u00f4mico capitalista, isto vem acrescido do racismo, como express\u00e3o de \u00f3dio e preconceito contra os negros e \u00edndios, do machismo, como o tradicional dom\u00ednio do homem sobre a mulher. Estas formas de exclus\u00e3o e rebaixamento ficam evidenciadas na configura\u00e7\u00e3o do governo golpista, que n\u00e3o tem mulheres e negros nos mais elevados escal\u00f5es do governo.<br \/>\nO apartheid social brasileiro \u00e9 protagonizado pela elite burguesa dominante. Isto fica vis\u00edvel quando, por exemplo, pais ricos ficam enfurecidos quando seus filhos s\u00e3o obrigados a estudar nas escolas e Universidades nas mesmas salas onde se encontram negros. Os ricos ficam enfurecidos quando se deparam com a infelicidade de sentar ao lado de um pobre no avi\u00e3o, que jamais deveria pisar nestes espa\u00e7os. A burguesia dominante fica furiosa quando s\u00e3o antecipados pelos mais pobres nas filas dos bancos e atrasam os seus compromissos em fun\u00e7\u00e3o dos vagabundos que s\u00f3 atrapalham. A classe rica branca fica enfurecida porque espa\u00e7os como o trabalho, o protagonismo social, a posse da riqueza s\u00e3o amea\u00e7ados de divis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que mais s\u00e3o odiados. A classe dominante vive o \u00f3dio porque as \u201criquezas produzidas pelo suor de seu trabalho e pela sua capacidade de gerenciamento s\u00e3o destinadas a uma massa vagabunda que n\u00e3o trabalha\u201d.<br \/>\nO apartheid social brasileiro fica vis\u00edvel em v\u00e1rias esferas, em v\u00e1rias \u00e1reas do saber e em m\u00faltiplas inst\u00e2ncias. Ainda n\u00e3o conseguimos avan\u00e7ar historicamente para que as distintas classes sociais tenham condi\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia e de solidariedade. Em tempos de profunda crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica estas quest\u00f5es ficam explicitadas e se tornam claras como o dia. Para a sist\u00eamica cis\u00e3o social constituem for\u00e7as determinantes a economia, a pol\u00edtica e o judici\u00e1rio. A economia capitalista \u00e9 concentradora de renda com a cis\u00e3o do mundo em ricos e pobres; a pol\u00edtica atende aos interesses de uma minoria e o judici\u00e1rio legitima o sistema econ\u00f4mico estabelecido. A atua\u00e7\u00e3o do judici\u00e1rio \u00e9 escandalosa porque se mostra seletiva, protege a direita pol\u00edtica e criminaliza sistematicamente os movimentos sociais.<br \/>\nNos \u00faltimos tempos assistimos fatos e eventos que apontam para os interesses de uma pequena elite, em detrimento da grande popula\u00e7\u00e3o que tende a ser reduzida a uma massa informe e a uma for\u00e7a indiferenciada de trabalho. Quando em Universidades p\u00fablicas \u00e9 discutida a Democracia, as Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior s\u00e3o objeto de repress\u00f5es e de restri\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, quando uma sociedade democr\u00e1tica proporciona plena autonomia para realizar este tipo de discuss\u00e3o. Pr\u00e1ticas radicalmente antidemocr\u00e1ticas de divis\u00e3o social dizem respeito \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e \u00e0 condena\u00e7\u00e3o de suas lideran\u00e7as. Nas periferias de nossas cidades os negros e pobres ainda s\u00e3o objeto direto de persegui\u00e7\u00e3o policial, de cassetete, de pris\u00e3o e de fuzilamento seletivo. Um modelo pol\u00edtico ditatorial como o nosso n\u00e3o tolera manifesta\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, reprime movimentos sociais e enche as cadeias de gente oriunda do universo da exclus\u00e3o social.<br \/>\nA recente ocupa\u00e7\u00e3o das escolas pelos alunos refor\u00e7a a constata\u00e7\u00e3o da cis\u00e3o social. Percebem o descalabro e o descaso com a educa\u00e7\u00e3o, ocupam as escolas e o que lhes espera \u00e9 a puni\u00e7\u00e3o policial. A justi\u00e7a pune e prende as lideran\u00e7as populares, as lideran\u00e7as de for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda e inviabilizam o aprofundamento da Democracia. A justi\u00e7a sustenta e protege um pequeno mundo social altamente elitizado, em detrimento da popula\u00e7\u00e3o que lhe foi negada a Democracia e rasgada a Constitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO governo ileg\u00edtimo erigido pelo golpe branco \u00e9 uma s\u00edntese de todas as express\u00f5es hist\u00f3ricas de machismo, racismo, patriarcalismo, patrimonialismo, criacionismo, sexismo, autoritarismo, xenofobismo etc. Estes preconceitos sociais que atravessam a hist\u00f3ria brasileira retornaram com toda a for\u00e7a e est\u00e3o presentes em todos os recantos da sociedade, quando teriam que ter sido superados com o advento do novo mil\u00eanio. A sociedade est\u00e1 sistematicamente dominada por estas express\u00f5es protagonizadas por homens de bem, por brancos ricos, pela burguesia capitalista, por moralizadores do bem e por vis\u00f5es ultraconservadoras de mundo, de pol\u00edtica e de religi\u00e3o. Vivemos um momento hist\u00f3rico no qual os ismos aqui citados ressuscitam com toda a for\u00e7a e s\u00e3o amplamente suscitados pela ditadura golpista, pelo judici\u00e1rio, pela m\u00eddia e pela grande elite econ\u00f4mica.<br \/>\nO apartheid social que vivemos atualmente \u00e9 expresso no \u00f3dio social. Vivemos numa cultura de \u00f3dio e de intoler\u00e2ncia radical. S\u00e3o objeto de \u00f3dio os negros que totalizam mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira. S\u00e3o objeto de \u00f3dio os \u00edndios outrora considerados pelos mesmos brancos religiosos homens de bem como selvagens e sem alma. S\u00e3o objeto de \u00f3dio as classes mais pobres rotuladas de vagabundos. Express\u00e3o de \u00f3dio sist\u00eamico \u00e9 o preconceito seletivo contra os nordestinos simplesmente rotulados de \u201cvagabundos\u201d. A pretens\u00e3o de separar a Regi\u00e3o Sul do resto do pa\u00eds \u00e9 consequ\u00eancia da pretendida supremacia cultural e machismo. S\u00e3o objeto de \u00f3dio os estudantes e as suas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o reprimidas em meios judiciais simplesmente porque lutam por uma educa\u00e7\u00e3o mais qualificada. S\u00e3o objeto de \u00f3dio os partidos pol\u00edticos de esquerda e as suas lideran\u00e7as, simplesmente porque proporcionaram uma sociedade mais democr\u00e1tica e porque promoveram uma inclus\u00e3o social m\u00ednima. Os ataques midi\u00e1ticos e judici\u00e1rios s\u00e3o muito conhecidos.<br \/>\nO governo golpista que usurpou o poder por meio do golpe legitimado pelo judici\u00e1rio, pelo legislativo federal, pela grande m\u00eddia, pelo grande empresariado e por grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais tem como consequ\u00eancia uma cis\u00e3o social jamais vista. O golpismo n\u00e3o tem nenhuma sintonia com os negros, \u00edndios, mulheres, trabalhadores, movimentos sociais, movimentos estudantis etc. A tend\u00eancia atual \u00e9 de que o \u00f3dio, a xenofobia e a mixofobia se intensificam e se disseminam pela sociedade inteira. O resultado disto seria uma estrutura social formada pela burguesia isolada nas inst\u00e2ncias pol\u00edticas, nas propriedades particulares, nos neg\u00f3cios econ\u00f4micos e a grande ral\u00e9 objeto de \u00f3dio e exclus\u00e3o social.<br \/>\nA classe especialmente treinada para disseminar \u00f3dio na sociedade n\u00e3o est\u00e1 apenas em Bras\u00edlia ou nos grandes centros de atividade econ\u00f4mica. N\u00e3o s\u00e3o apenas os brancos, ricos, machos e barrigudos que integram as tr\u00eas esferas da rep\u00fablica, mas est\u00e3o presentes na base social. Eles v\u00eam revestidos da condi\u00e7\u00e3o de homens de bem, moralmente corretos, fi\u00e9is \u00e0 b\u00edblia e aos preceitos religiosos, s\u00e3o ricos pela gra\u00e7a de Deus e por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, mas profundamente odiosos ao condenar os de outra cor e condi\u00e7\u00e3o como criminosos, vagabundos, baderneiros, etc.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart &#8211;\u00a0Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE. O regime pol\u00edtico ditatorial que o Brasil vive atualmente tem grav\u00edssimas consequ\u00eancias sociais. N\u00e3o restam d\u00favidas de que a chegada dos golpistas ao poder representa a ruptura da Constitui\u00e7\u00e3o, a dissolu\u00e7\u00e3o da Democracia e o fim do Estado de Direito. 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