{"id":35960,"date":"2016-07-06T00:00:25","date_gmt":"2016-07-06T03:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=35960"},"modified":"2016-07-06T00:00:25","modified_gmt":"2016-07-06T03:00:25","slug":"esquerda-direita-ou-centro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/esquerda-direita-ou-centro\/","title":{"rendered":"Esquerda, Direita ou Centro?"},"content":{"rendered":"<p>Leonardo Antunes<br \/>\nVivemos, no Brasil de hoje, um momento curioso em que todos, de repente, resolveram politizar-se. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, vigorava um senso comum de que n\u00e3o valeria a pena discutir a respeito de pol\u00edtica, porque, afinal de contas, pol\u00edticos s\u00e3o todos corruptos. Opini\u00e3o pol\u00edtica era considerada uma coisa t\u00e3o pessoal, que n\u00e3o era de bom tom perguntar a respeito disso a ningu\u00e9m, assim como n\u00e3o se perguntaria quanto uma pessoa ganha ou qual seria a sua f\u00e9 (ou ao menos assim ditavam os bons costumes).<br \/>\nAgora, em especial no que concerne \u00e0 pol\u00edtica, j\u00e1 n\u00e3o me parece que as coisas s\u00e3o assim. Um maior acesso a informa\u00e7\u00e3o (de todos os tipos e proced\u00eancias), aliado \u00e0 abertura de um novo canal de di\u00e1logo nas redes sociais, tem feito com que as pessoas passem mais frequentemente a dar voz \u00e0s suas opini\u00f5es, entrando, por isso mesmo, muitas vezes em confronto com conhecidos e familiares. Nisso, h\u00e1 um agravante: justamente por n\u00e3o termos pr\u00e1tica de debater a respeito de pol\u00edtica, h\u00e1 uma enorme confus\u00e3o de conceitos dentro do que hoje constitui o di\u00e1logo pol\u00edtico m\u00e9dio no Brasil, o que em nada ajuda a mitigar a situa\u00e7\u00e3o de confronto.<br \/>\nEssa confus\u00e3o de conceitos \u2013 creio eu \u2013 n\u00e3o \u00e9 acidental. Ela n\u00e3o \u00e9 apenas fruto do estado prec\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds, mas, sim, adv\u00e9m de um esfor\u00e7o consciente, das v\u00e1rias partes envolvidas, para desinformar as pessoas. Que esse esfor\u00e7o exista em n\u00e3o apenas um lado do embate pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 algo que eu ignore. Se \u00e9 maior de um lado ou de outro, n\u00e3o cabe a mim julgar. Entretanto, \u00e9 not\u00f3rio que tenha havido, recentemente, um crescimento no n\u00famero de pessoas que se identificam como de direita (sabendo bem o que \u00e9 isso ou n\u00e3o). Esse crescimento tem ocorrido n\u00e3o sem um enorme esfor\u00e7o de desinformar muitas dessas mesmas pessoas a respeito do que \u00e9 ser de esquerda (e, por extens\u00e3o, tamb\u00e9m a respeito do que \u00e9 ser de direita).<br \/>\nPor conta disso, vejo-me, mais frequentemente do que gostaria, na triste necessidade de n\u00e3o apenas ter de explicar meus pontos de vista, mas tamb\u00e9m de tentar \u2013 muitas vezes em v\u00e3o \u2013 desfazer confus\u00f5es conceituais e preconceitos que meus interlocutores trazem a partir de sua exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 hiperinforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 em vista dessa necessidade que eu me ponho a escrever este texto, esperando que ele possa informar, de alguma maneira e em algum grau, o que \u00e9 ser de esquerda, o que \u00e9 ser de direita e o que \u00e9 ser de centro.<br \/>\nReitero o car\u00e1ter pessoal deste texto por um motivo simples: n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica acep\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do que \u00e9 ser de esquerda ou ser de direita. Isso ocorre evidentemente porque existe um espectro de possibilidades entre o m\u00e1ximo da esquerda e o m\u00e1ximo da direita. Mais do que isso, esse espectro n\u00e3o \u00e9 uma simples linha horizontal, mas, no m\u00ednimo, pode ser representado pelo entrecruzamento de dois eixos que condicionam os diversos elementos da vida pol\u00edtica.1<br \/>\nDentro de uma sociedade humana organizada, a vida pol\u00edtica envolve quest\u00f5es atuantes (se as organizarmos em um modelo minimalista) em dois eixos, o econ\u00f4mico e o social, que caracterizam, mediante leis (da parte do governo) e costumes (da parte da sociedade), a exist\u00eancia humana em comum. Cada um desses eixos abrange uma pluralidade de quest\u00f5es, as quais, por vezes, t\u00eam participa\u00e7\u00e3o em ambos os eixos simultaneamente.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel (e extremamente comum) estar parcialmente \u00e0 esquerda e parcialmente \u00e0 direita dentro de um mesmo campo da vida pol\u00edtica. A bem da verdade (e \u00e9 de suma import\u00e2ncia notar que), dentro de uma democracia pr\u00f3spera e saud\u00e1vel,2 a maioria das pessoas se encaixa em uma postura de centro, adotando ora uma posi\u00e7\u00e3o mais \u00e0 esquerda em rela\u00e7\u00e3o a um problema espec\u00edfico, ora uma posi\u00e7\u00e3o mais \u00e0 direita em rela\u00e7\u00e3o a outro, ou mesmo se abstendo de opinar em determinada quest\u00e3o. Um n\u00famero menor de pessoas se posiciona mais para a esquerda e um n\u00famero mais ou menos semelhante se posiciona mais para a direita.<br \/>\nContudo, h\u00e1 momentos em que determinadas quest\u00f5es ganham maior destaque e import\u00e2ncia dentro de um momento hist\u00f3rico espec\u00edfico. Nesses momentos, \u00e9 compreens\u00edvel (e not\u00e1vel) que a massa das pessoas, normalmente de centro, se divida em dois ou mais grupos de opini\u00f5es divergentes. Apesar de cada pessoa ter uma conforma\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as \u00fanica, nesses momentos a identidade de grupo acaba sendo reduzida a alguns poucos pontos centrais, que podem, temporariamente, criar uma deforma\u00e7\u00e3o no que \u00e9 entendido como ser de esquerda ou ser de direita.3<br \/>\nNovamente, aponto para o car\u00e1ter \u00fanico da conforma\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as de um indiv\u00edduo. Mesmo dentro de um grupo de mesma identidade cultural (por exemplo, os crist\u00e3os), n\u00e3o h\u00e1 univocidade de opini\u00f5es. As opini\u00f5es dos membros da Opus Dei certamente n\u00e3o s\u00e3o as mesmas dos crist\u00e3os orientados pela Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Mesmo dentro desses grupos, tamb\u00e9m n\u00e3o haver\u00e1 perfeita uniformidade de opini\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a como pensar todas as quest\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Certamente, \u00e9 mais prov\u00e1vel que membros de um mesmo grupo tenham opini\u00f5es mais pr\u00f3ximas umas das outras. Por\u00e9m, isso n\u00e3o significa que todos pensem de modo igual.<br \/>\nFa\u00e7o essas considera\u00e7\u00f5es propositalmente antes de tentar definir o que \u00e9 ser de esquerda e o que \u00e9 ser de direita. O car\u00e1ter proposital dessas considera\u00e7\u00f5es gira em torno da afirma\u00e7\u00e3o de que, numa democracia pr\u00f3spera e saud\u00e1vel, a maior parte das pessoas \u00e9 de centro. Com essa afirma\u00e7\u00e3o, que fique compreendido que minha inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u201cconverter\u201d as pessoas a uma opini\u00e3o de esquerda, mas, sim, apontar que a maioria delas t\u00eam uma opini\u00e3o de centro e que talvez seja, de fato, melhor assim.<br \/>\nMas o que significa ser de centro?<br \/>\nH\u00e1, basicamente, dois tipos de indiv\u00edduo no centro: os que t\u00eam de fato uma postura comedida e apregoam um posicionamento moderado em todas as quest\u00f5es; e aqueles que simplesmente t\u00eam um posicionamento misto, sem fortes inclina\u00e7\u00f5es nem para um lado nem para o outro. Alguns talvez n\u00e3o tenham interesse em pol\u00edtica; outros podem estar indiferentes com a situa\u00e7\u00e3o atual, sem grandes inten\u00e7\u00f5es de mud\u00e1-la nem de perpetu\u00e1-la; outros ainda podem apenas ser cautelosos e acreditar que \u00e9 preciso modera\u00e7\u00e3o para abordar quest\u00f5es complexas e pol\u00eamicas. De modo geral, portanto, podem ser resumidos como pessoas abertas a mudan\u00e7as desde que muito bem estudadas e planejadas.<br \/>\nA partir da defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser de centro, podemos tentar identificar o que poderia significar ser de esquerda e ser de direita, ao menos em uma defini\u00e7\u00e3o inicial, por mais insuficiente que ela possa ser para um di\u00e1logo mais aprofundado.<br \/>\nPois bem: se ser de centro significa ter uma posi\u00e7\u00e3o, em geral, moderada e estar aberto a mudan\u00e7as desde que muito bem estudadas e planejadas, podemos, temporariamente, definir o m\u00e1ximo da esquerda como estar pronto para empreender mudan\u00e7as a qualquer custo e o m\u00e1ximo da direita como estar pronto para defender o status quo a qualquer custo.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ver que essas posi\u00e7\u00f5es extremas s\u00e3o perigos\u00edssimas. Entretanto, certamente h\u00e1 ocasi\u00f5es em que ambas t\u00eam seu valor: em uma situa\u00e7\u00e3o de extrema injusti\u00e7a e aus\u00eancia de qualquer outra solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 compreens\u00edvel que pessoas adotem uma posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, da mesma forma como \u00e9 compreens\u00edvel que, em uma situa\u00e7\u00e3o de extremo contentamento geral, pessoas estejam prontas para impedir, at\u00e9 por meios violentos, que se estrague o bom funcionamento da sociedade. O grande perigo reside no erro de diagnose, tanto de se fazer a revolu\u00e7\u00e3o quando ela n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria como de se defender a manuten\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o injusta.<br \/>\nMais do que isso: h\u00e1 enorme perigo em n\u00e3o perceber que essas posi\u00e7\u00f5es extremas n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico caminho para se orientar a sociedade mais para a esquerda ou mais para a direita, isto \u00e9, operando mudan\u00e7as sociais a fim de buscar melhorias para a qualidade de vida da maioria (movimento \u00e0 esquerda) ou focando em coibir mudan\u00e7as sociais a fim de preservar o funcionamento atual da sociedade (movimento \u00e0 direita). H\u00e1 que se notar ainda que os dois movimentos podem ser feitos ao mesmo tempo, para \u00e1reas diferentes de nossa sociedade, preservando as leis e tradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o frutuosas, mas dando espa\u00e7o para mudan\u00e7as nos pontos em que elas s\u00e3o necess\u00e1rias.<br \/>\n1 Quando digo vida pol\u00edtica, claro, n\u00e3o me refiro apenas \u00e0 pol\u00edtica como o exerc\u00edcio de cargos governamentais; refiro-me \u00e0 vida do ser humano como organismo pol\u00edtico, isto \u00e9, um organismo part\u00edcipe de uma \u03c0\u1f79\u03bb\u03b9\u03c2 (p\u00f3lis), ou seja, um \u03c0\u03bf\u03bb\u03af\u03c4\u03b7\u03c2 (pol\u00edt\u0113s), um membro de uma sociedade humana organizada.<br \/>\n2 Por democracia pr\u00f3spera e saud\u00e1vel, defino uma sociedade n\u00e3o perfeita, mas em que h\u00e1 o bastante para todos de forma mais ou menos semelhante, a ponto de n\u00e3o haver necessidade para uma revolu\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo, a ponto de ainda haver (como talvez sempre haja) quest\u00f5es sociais e\/ou econ\u00f4micas a serem resolvidas. Antes de estar pensando em um exemplo real, penso aqui em um ideal do qual as diferentes sociedades humanas se aproximam mais ou menos (o que tamb\u00e9m se reflete nos \u00e2nimos pol\u00edticos pr\u00f3prios a cada uma delas).<br \/>\n3 Para dar um exemplo grosseiro, muitas pessoas acabam se definindo como de direita hoje no Brasil apenas por adotaram uma postura anti-PT, como se o PT representasse o todo da esquerda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Antunes Vivemos, no Brasil de hoje, um momento curioso em que todos, de repente, resolveram politizar-se. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, vigorava um senso comum de que n\u00e3o valeria a pena discutir a respeito de pol\u00edtica, porque, afinal de contas, pol\u00edticos s\u00e3o todos corruptos. 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