{"id":37052,"date":"2016-07-26T21:29:41","date_gmt":"2016-07-27T00:29:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=37052"},"modified":"2016-07-26T21:29:41","modified_gmt":"2016-07-27T00:29:41","slug":"protestos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/protestos\/","title":{"rendered":"Protestos"},"content":{"rendered":"<p>Jorge Barcellos \u2013 Historiador, Mestre e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o. Mant\u00e9m a coluna Democracia e Pol\u00edtica, do Jornal O Estado de Direito. \u00c9 chefe da A\u00e7\u00e3o Educativa do Memorial da C\u00e2mara Municipal de Porto Alegre e autor de \u201cEduca\u00e7\u00e3o e Poder Legislativo\u201d (Aedos Editora, 2014). \u00c9 colaborador dos jornais Estado de Direito, Sul21, Zero Hora, Le Monde Diplomatique Brasil, Lamula (Peru) e Sapo (Portugal) e Medium (EUA).<br \/>\nVivemos uma era de protestos. Neste m\u00eas, professores, servidores p\u00fablicos e operadores do aplicativo Uber fizeram protestos no Gin\u00e1sio Gigantinho, na capital. Mas como funcionam? Como se organizam? Como escolhem suas pautas?<br \/>\nO tema \u00e9 objeto de \u201cProtesto, uma introdu\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais\u201d, (Zahar,2016), de autoria de James M. Jasper. \u201cGovernos s\u00e3o sempre atraentes como alvos de protestos\u201d, afirma o autor e a ideia n\u00e3o poderia ser mais adequada ao momento brasileiro. A obra se apresenta como um manual sobre a din\u00e2mica dos movimentos sociais, mas \u00e9 mais do que isso. Jaspers \u00e9 professor de sociologia no Centro de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da City Univesity of New York, uma das mais prestigiadas dos EUA, e o ex-estudante de economia de Harvard descobriu em seus estudos que os movimentos sociais queriam saber como poderiam serem melhores estrategistas. Ent\u00e3o, a partir dos anos 2000, come\u00e7ou a cruzar leituras de diplomacia, rela\u00e7\u00f5es internacionais, teoria dos jogos e dos conflitos e se prop\u00f4s o desafio de criar uma alternativa cultural e institucional a teoria dos jogos. Autor de obras como A arte do protesto moral, Leitura dos movimentos sociais, Contexto de leitura, Politica Apaixonada , O Dilema da Identidade (tradu\u00e7\u00e3o livre), Protesto \u00e9 sua primeira obra publicada no Brasil.<br \/>\nA atualidade do tema \u00e9 evidente. Com a instala\u00e7\u00e3o do governo provis\u00f3rio de Michel Temer, estamos vivenciando uma nova onda de protestos como os de 2012 e junho de 2013 de norte a sul do pa\u00eds. Jaspers cita-os logo de partida em seu estudo: \u201dEm (tais) conflitos pol\u00edticos, cada ator reage a outros atores, numa cadeia sem fim de intera\u00e7\u00f5es e inova\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas\u201d. Sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 identificar os elementos dos protestos contra decis\u00f5es dos governos e aponta que, no Brasil, foi caracter\u00edstico o fato de que diversos movimentos de protesto conflu\u00edram entre si contra a f\u00f3rmula neoliberal que distribui pouco para os pobres \u201cEste \u00e9 o cerne da democracia: o Estado trabalha para si mesmo ou para o povo?\u201d questiona Jarspes que v\u00ea nas obras da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimp\u00edadas (2016) o s\u00edmbolo de um governo mais preocupado \u201ccom suas conex\u00f5es internacionais do que com o povo\u201d.<br \/>\nSurpreende o grau de detalhamento das caracter\u00edsticas dos movimentos sociais por todo o mundo que o autor det\u00e9m. Do movimento Occupy \u00e0 Primavera \u00c0rabe, dos protestos na Bulg\u00e1ria ao caso brasileiro, Jaspers recupera com vivacidade o movimento de organiza\u00e7\u00e3o social em cada pais. Seus dados chegam at\u00e9 mar\u00e7o de 2016 com os novos protestos que sacudiram o o pais contra a corrup\u00e7\u00e3o e a descri\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es contra e a favor do impeachment da presidente Dilma \u201cO protesto nunca vai terminar, a menos que, por milagre, o mundo se transforme num lugar perfeito. At\u00e9 l\u00e1, os manifestantes ser\u00e3o aqueles que v\u00e3o apontar os problemas e exigir sua solu\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nA renova\u00e7\u00e3o de seu estudo deve-se ao fato de concentrar-se menos em estruturas de base e mais nas pessoas, nos indiv\u00edduos, suas intera\u00e7\u00f5es, sentimentos e entendimentos. Ao tornar v\u00edvidos os choques morais, a vergonha e os dilemas dos movimentos sociais, sua principal conclus\u00e3o \u00e9, contrariando as teorias cl\u00e1ssicas da pol\u00edtica, de que os movimentos sociais em sua natureza, expectativas, decis\u00f5es e pr\u00e1ticas s\u00e3o integrantes da cultura e suas a\u00e7\u00f5es \u201cbaseiam-se no modo como entendemos o mundo, em nossos esfor\u00e7os para persuadir outras pessoas, nos sentimentos gerados pelas intera\u00e7\u00f5es\u201d. A cr\u00edtica do autor \u00e9 contra a teoria dos jogos, modelo de origem matem\u00e1tica tornado c\u00e9lebre pelo filme Uma mente brilhante, na qual procura-se determinar as raz\u00f5es das decis\u00f5es de atores em intera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA obra \u00e9 composta de oito cap\u00edtulos que tratam dos movimentos sociais, seus significados, infraestrutura, formas de recrutamento e sustenta\u00e7\u00e3o e sua capacidade de decis\u00e3o e de envolvimento de outros atores. Jaspers observa que os manifestantes mudam seus repert\u00f3rios por meio de intera\u00e7\u00f5es com outros atores pois o objetivo \u00e9 sempre surpreender e inovar. Estruturas sociais n\u00e3o tem motivos para mudar, o choque \u00e9 inevit\u00e1vel e as arenas politicas est\u00e3o sempre em mudan\u00e7a. A descoberta de Jaspers \u00e9 que toda t\u00e1tica tem implica\u00e7\u00f5es morais: \u201cGrupos n\u00e3o violentos n\u00e3o adotariam a viol\u00eancia mesmo se isso garantisse a vit\u00f3ria; grupos da classe trabalhadora sentem-se mais confort\u00e1veis marchando juntos num piquete do que fazendo lobby\u201d. Para o autor, a quest\u00e3o \u00e9 que diferentes pessoas tem diferentes inclina\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas e por esta raz\u00e3o, \u00e9 rara a inova\u00e7\u00e3o nas estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm dos pontos curiosos da obra \u00e9 o destaque para o car\u00e1ter de divertimento que assumem as reuni\u00f5es dos movimentos sociais \u201cMuita coisa acontece tamb\u00e9m nos encontros fora do palco. Pode-se paquerar, flertar, seduzir ou sair de l\u00e1 com uma namorada. Se as reuni\u00f5es fossem tediosas, n\u00e3o haveria movimentos sociais\u201d. O ponto \u00e9 sempre a cultura de grupo mobilizada pelos protestos, e nesse sentido, a an\u00e1lise do autor assemelha-se mais a uma vers\u00e3o pol\u00edtica das propostas sociol\u00f3gicas de Michel Mafessoli, especialmente de \u201cO Tempo das Tribos\u201d.<br \/>\nBoa parte da import\u00e2ncia do livro adv\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o do papel dado \u00e0s teorias da escolha racional. Neste campo, o processo de tomada de decis\u00e3o \u00e9 baseado no c\u00e1lculo racional \u201cem que todos se sentam numa sala e debatem as melhores op\u00e7\u00f5es\u201d. Para o autor esta explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficiente, o ponto de Jasper \u00e9 que sempre os atores levam consigo suas emo\u00e7\u00f5es, concordam mais com pessoas de que gostam e confiam e discordam daquelas que as desagradam. Cultivam rancor, possuem momentos de boa disposi\u00e7\u00e3o, convivem com sentimentos de admira\u00e7\u00e3o, amor e inveja. Seu aprendizado nunca \u00e9 apenas racional, mas acontece de forma intuitiva, o que significa, a capacidade de pensar com rapidez e de forma inconsciente \u201dOs rep\u00f3rteres est\u00e3o perdendo o interesse? Fa\u00e7a alguma coisa que nunca tenham visto\u201d, afirma.<br \/>\nTodo protesto \u00e9 um misto de c\u00e1lculos e emo\u00e7\u00f5es e por isto \u00e9 sempre complicado quando os atores tem muitas expectativas no campo social. A pol\u00edtica \u00e9 justamente isso, a capacidade de criar um campo de negocia\u00e7\u00e3o entre atores em disputa, n\u00e3o vencem e nem perdem tudo, isto \u00e9, n\u00e3o conseguem realizar tudo o que desejam mas conseguem alguma coisa, podem afetar a opini\u00e3o p\u00fablica e auxiliar na mudan\u00e7a das vis\u00f5es de mundo. Para Jaspers, o protesto est\u00e1 em toda parte, entranhando a democracia, dos direitos humanos \u00e0s formas de cultura, movimentos sociais fazem cultura, fazem futuro, d\u00e3o express\u00e3o a inspira\u00e7\u00f5es. A grandeza dos movimentos sociais est\u00e1 na capacidade de fazer emergir uma s\u00f3 voz, mas \u00e9 sempre fr\u00e1gil e nem todos os movimentos s\u00e3o bons, como provou o fascismo. Sua grandeza est\u00e1 em responder afirmativamente a quest\u00e3o de \u201ccomo as pessoas podem confiar uma nas outras e colocar projetos coletivos acima de seus interesses pessoais e familiares\u201d?<br \/>\nA li\u00e7\u00e3o de Jaspers \u00e9 que protestos dependem de redes sociais e m\u00eddias para exercerem press\u00e3o sobre pol\u00edticos e autoridades e obt\u00e9m vit\u00f3rias e derrotas em arenas diferentes. Ag\u00eancias governamentais podem manter diferentes rela\u00e7\u00f5es com atores de protestos mas a principal espa\u00e7o de manobra para os protestos \u00e9 que o pr\u00f3prio Estado, raramente \u00e9 um ator unificado e sim um conjunto de atores secund\u00e1rios muitas vezes em confronto. E com isto com que contam os movimentos sociais para fazerem vitoriosos seus protestos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Barcellos \u2013 Historiador, Mestre e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o. 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