{"id":37308,"date":"2016-07-31T21:14:58","date_gmt":"2016-08-01T00:14:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=37308"},"modified":"2016-07-31T21:14:58","modified_gmt":"2016-08-01T00:14:58","slug":"escola-sem-partido-e-doutrinacao-de-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/escola-sem-partido-e-doutrinacao-de-ditadura\/","title":{"rendered":"Escola sem partido e doutrina\u00e7\u00e3o de ditadura"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Jo\u00e3o Alberto Wohlfart<\/span><\/p>\n<p style=\"margin: 0 60% 20px 0;padding: 0\"><span style=\"font-size: 12px;line-height: 14px;margin: 0 60% 20px 0;padding: 0;font-style: italic\">Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE<\/span><\/p>\n<p>Est\u00e1 em discuss\u00e3o o projeto de transformar as escolas num espa\u00e7o sem partidos pol\u00edticos. Se a educa\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 n\u00e3o tem qualidade suficiente para assegurar a liberdade e a cidadania aos alunos e acad\u00eamicos que a frequentam, essas prerrogativas educacionais tendem a desaparecer. Isto significa dizer que n\u00e3o se poder\u00e1 mais falar em movimentos sociais, Direitos Humanos, Reforma Agr\u00e1ria, pol\u00edticas para negros, integra\u00e7\u00e3o social das minorias, pol\u00edticas populares etc. Do ponto de vista te\u00f3rico, isto significa proibir falar de Hegel, de Marx, de Paulo Freire, de Leonardo Boff, de Einstein e de tantos outros intelectuais progressistas e libert\u00e1rios. Paradoxalmente, os idealizadores do projeto pretendem introduzir o ensino do criacionismo nas escolas.<br \/>\nUma escola sem partido n\u00e3o tem como objeto evitar nas escolas poss\u00edveis conflitos entre professores e entre alunos no que tange a posturas que envolvem partidos pol\u00edticos de esquerda e de direita. Seria algo equivalente a chacotas e brigas entre torcedores do Gr\u00eamio e do Internacional, do Flamengo e do Fluminense, do Cruzeiro e do Atl\u00e9tico Mineiro etc. O objeto desta quest\u00e3o \u00e9 muito mais radical no sentido de que exclui das escolas quest\u00f5es \u00e9ticas, pol\u00edticas e sociais para se transformar numa esp\u00e9cie de doutrinamento dogm\u00e1tico e conteud\u00edstico sem cr\u00edtica social.<br \/>\nUma escola sem partido retira dela o debate e a discuss\u00e3o de quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais. Nestas situa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o interessa a origem social do aluno e as suas condi\u00e7\u00f5es de aprendizagem, mas o perigo \u00e9 que os alunos se transforma\u00e7\u00e3o numa massa indiferenciada destinada a receber puros conte\u00fados a serem interiorizados como verdades absolutas. Os conhecimentos a serem trabalhados nas escolas tendem a ser neutros, com ocultamento sist\u00eamico da sua vincula\u00e7\u00e3o com a sociedade, com a pol\u00edtica e com a cultura em diferentes n\u00edveis de express\u00e3o. Forma-se uma esp\u00e9cie de pensamento \u00fanico, sem discuss\u00e3o e sem contradi\u00e7\u00e3o, e sem o processo de media\u00e7\u00e3o social do conhecimento e da aprendizagem. Na escola sem partido desaparece a implica\u00e7\u00e3o da origem social do aluno e a preocupa\u00e7\u00e3o com os desdobramentos desta condi\u00e7\u00e3o fundamental no conhecimento, na aprendizagem e nas rela\u00e7\u00f5es entre sujeitos escolares.<br \/>\nH\u00e1 um indicativo claro de ruptura da rela\u00e7\u00e3o fundamental entre escola e sociedade. Em outras palavras, se partimos do pressuposto de que a escola deve estabelecer as condi\u00e7\u00f5es para a efetiva transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, porque ela problematiza as estruturas sociais e p\u00f5e as condi\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas para pens\u00e1-las diferente, ela se transforma em ocultadora das rela\u00e7\u00f5es sociais. Depois de um longo processo de discuss\u00e3o na perspectiva de uma escola problematizadora, transformadora e libertadora, atrav\u00e9s de uma epistemologia cr\u00edtica e uma pedagogia libertadora, est\u00e1 de volta um modelo de escola que n\u00e3o se preocupa com as quest\u00f5es sociais. Ao se posicionar como neutra diante da sociedade e os seus conflitos, ela rep\u00f5e a condi\u00e7\u00e3o social ao ocultar a sua estrutura e os seus pressupostos e legitimar um sistema econ\u00f4mico e um modelo social hegem\u00f4nico.<br \/>\nA alega\u00e7\u00e3o para um projeto de escola sem partido, sem d\u00favida, concentra-se na elimina\u00e7\u00e3o da ideologia. Mas neste racioc\u00ednio, a escola se transforma numa ideologia de excel\u00eancia, sem conhecimento e sem subjetividade social. Sabe-se da pluriversalidade e interculturalidade social, como se sabe das m\u00faltiplas concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e pedag\u00f3gicas que circulam na interioridade das rela\u00e7\u00f5es e estruturas sociais. Aprendemos que estas quest\u00f5es devem aparecer estruturalmente na escola e se transformar nas rela\u00e7\u00f5es entre os diferentes sujeitos educacionais e em componentes curriculares e epistemol\u00f3gicos. Na escola sem partido \u00e9 ocultada a pluridimensionalidade social e ela ser\u00e1 uma exclusiva institui\u00e7\u00e3o social de um pequeno grupo hegem\u00f4nico e de sustenta\u00e7\u00e3o de seus interesses. A escola sem partido e sem ideologia se transforma numa propriedade social de um \u00fanico partido e de uma \u00fanica ideologia, a da classe dominante.<br \/>\nDepois de conhecermos a Pedagogia Libertadora, de Paulo Freire, e as Pedagogias Hist\u00f3rico Cr\u00edticas, destinadas a desenvolver uma educa\u00e7\u00e3o eminentemente problematizadora e transformadora, a tend\u00eancia \u00e9 a volta de uma escola cuja finalidade \u00e9 a mera transmiss\u00e3o de conhecimentos dogmaticamente estabelecidos e sem cr\u00edtica social. Paulo Freire j\u00e1 chamou aten\u00e7\u00e3o acerca da educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria produzida pela mera a\u00e7\u00e3o de transmiss\u00e3o de conte\u00fados e de assimila\u00e7\u00e3o acr\u00edtica dos mesmos, como se a intelig\u00eancia humana fosse uma deposit\u00e1ria de conte\u00fados dogm\u00e1ticos. A consequ\u00eancia desta epistemologia objetivista e desta pedagogia autorit\u00e1ria \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de sujeitos passivos e acr\u00edticos diante das estruturas sociais e econ\u00f4micas, resultando inexoravelmente numa sociedade de dominadores e dominados, de ricos e de pobres, de sabedores e de muitos que n\u00e3o sabem, dos que t\u00eam m\u00e9ritos e dos que n\u00e3o t\u00eam.<br \/>\nA proposta da escola sem partido configura-se como uma das formas eficazes de pulverizar uma das miss\u00f5es fundamentais da escola. \u00c9 o desenvolvimento do debate entre os profissionais da educa\u00e7\u00e3o no sentido de evidenciar as posturas, as concep\u00e7\u00f5es de mundo, as concep\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o, as concep\u00e7\u00f5es de conhecimento etc. Faz parte do processo educativo a confronta\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es para que os profissionais da educa\u00e7\u00e3o sejam capazes de fazer a sua autocr\u00edtica e entre eles produzir novas s\u00ednteses. Isto induz no docente a convic\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o e da atualiza\u00e7\u00e3o permanente ao evidenciar novas perspectivas epistemol\u00f3gicas, capacidade de di\u00e1logo e de confronta\u00e7\u00e3o com posi\u00e7\u00f5es diferentes e a constru\u00e7\u00e3o da sistem\u00e1tica da interdisciplinaridade. A escola sem partido n\u00e3o considera a import\u00e2ncia das posturas diferenciadas dos docentes e os transforma em especialistas em determinados conhecimentos a serem simplesmente repassados.<br \/>\nCom quase certeza, a concep\u00e7\u00e3o de conhecimento impl\u00edcita a tal projeto n\u00e3o ser\u00e1 outra coisa que a sua pretensa neutralidade. Nesta acep\u00e7\u00e3o, conhecimento n\u00e3o combina com pol\u00edtica, com quest\u00f5es sociais e com as posi\u00e7\u00f5es dos diferentes sujeitos educacionais. Neste \u00e2mbito extremamente perigoso, n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel pensar no conhecimento como uma estrutura epistemol\u00f3gica historicamente situada, socialmente mediada, economicamente cr\u00edtica e constru\u00eddo a partir de uma situa\u00e7\u00e3o social concreta. Para os golpistas, o conhecimento deve ser determinado como um mero dado, como um universo te\u00f3rico que se basta a si mesmo e interiorizado acriticamente. Nisto, como o conhecimento n\u00e3o passa pelo crivo da discuss\u00e3o e da problematiza\u00e7\u00e3o, se transforma num simples dado te\u00f3rico a ser repassado. Com esta postura, o aluno dificilmente aprende a pensar, desenvolver um racioc\u00ednio cr\u00edtico pr\u00f3prio e a se posicionar teoricamente.<br \/>\nA escola sem partido \u00e9 a faceta te\u00f3rica da ditadura, com vistas \u00e0 doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que legitima um sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico estabelecido. Como se n\u00e3o bastasse, a manipula\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social j\u00e1 desempenha o papel de catequizar as mentes e os cora\u00e7\u00f5es dos fieis seguidores do modelo capitalista e da pol\u00edtica que o legitima. O projeto aqui questionado \u00e9 uma ferramenta que contribui na forma\u00e7\u00e3o de formas de conservadorismos e fundamentalismos sociais, pol\u00edticos, religiosos, doutrinais etc. Nestas condi\u00e7\u00f5es, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 mais o meio para a constru\u00e7\u00e3o da liberdade dos cidad\u00e3os e da cultura de uma na\u00e7\u00e3o, mas retorna o velho ad\u00e1gio popular segundo o qual a educa\u00e7\u00e3o tem como meta a adequa\u00e7\u00e3o das massas aos interesses capitalistas de uma pequena elite.<br \/>\nA proposta da escola sem partido \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o implosiva nela mesma. Os partidos desaparecem das escolas, mas nelas permanecer\u00e1 um \u00fanico partido hegem\u00f4nico e sustentador dos interesses do grande capital. Do ponto de vista da cosmovis\u00e3o, desaparece o debate e o di\u00e1logo entre diferentes vis\u00f5es de mundo e a possibilidade de constitui\u00e7\u00e3o de novas s\u00ednteses te\u00f3ricas, em nome de um pensamento \u00fanico ao qual todos ter\u00e3o que se submeter. Desaparece a escola que desenvolve uma metodologia que visa \u00e0 problematiza\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social, para dar lugar a uma escola que encobre as estruturas sociais e legitima o modelo social estabelecido. Ao inv\u00e9s da aprendizagem no posicionamento pessoal, na argumenta\u00e7\u00e3o, na problematiza\u00e7\u00e3o da realidade, na conviv\u00eancia com as diferen\u00e7as, a escola ser\u00e1 o lugar onde todos repetem os mesmos conte\u00fados dogmaticamente repassados e timidamente assimilados. No lugar de reconstruir criticamente a hist\u00f3ria desde o olhar da periferia e da domina\u00e7\u00e3o, ela ser\u00e1 narrada na \u00f3tica dos dominadores.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE Est\u00e1 em discuss\u00e3o o projeto de transformar as escolas num espa\u00e7o sem partidos pol\u00edticos. 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