{"id":37793,"date":"2016-08-12T13:51:03","date_gmt":"2016-08-12T16:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=37793"},"modified":"2020-09-23T19:08:11","modified_gmt":"2020-09-23T22:08:11","slug":"o-risco-de-disrupcao-na-estrategia-de-aniquilar-o-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/o-risco-de-disrupcao-na-estrategia-de-aniquilar-o-pt\/","title":{"rendered":"O risco de disrup\u00e7\u00e3o na estrat\u00e9gia de aniquilar o PT"},"content":{"rendered":"<p>R\u00f3ber Iturriet \u00c1villa &#8211; Doutor em Economia, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o de Economia e Estat\u00edstica, diretor sindical do SEMAPI.<br \/>\nAl\u00e9m de tirar o PT do poder, os grupos mais conservadores querem banir o partido e tudo o que ele representa. Cabe a reflex\u00e3o do que ocorrer\u00e1 ao Brasil heterog\u00eaneo e desigual caso n\u00e3o haja um substituto \u00e0 altura que, como a sigla, proponha apenas rem\u00e9dios e ajustes para maior justi\u00e7a social e menor desequil\u00edbrio econ\u00f4mico<br \/>\nDesde 2013 o Brasil vive momentos de tens\u00e3o pol\u00edtica e social. Indubitavelmente, o resultado desse processo foi uma derrota pol\u00edtica retumbante do governo Dilma Rousseff, do seu partido, o PT, e da esquerda brasileira de uma maneira geral. Essa altera\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa e envolve uma mir\u00edade de vari\u00e1veis, as quais podem ser categorizadas com profundidade. An\u00e1lise essa que escapa dos objetivos deste pequeno texto.<br \/>\nEntretanto, \u00e9 poss\u00edvel observar que houve uma derrota no campo das ideias e no imagin\u00e1rio da \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d, simbolicamente direcionada ao PT. De forma mais abrangente, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a esquerda brasileira perdeu cora\u00e7\u00f5es e mentes no per\u00edodo recente. A despeito de seus enormes erros na condu\u00e7\u00e3o do partido e dos governos, a transforma\u00e7\u00e3o que se deu no poder foi paulatinamente constru\u00edda pelos conservadores.<br \/>\nAs ideias antag\u00f4nicas foram constantemente plantadas, de maneira n\u00edtida a quem consegue enxergar al\u00e9m das obviedades: seja na m\u00eddia tradicional, seja nos partidos pol\u00edticos, seja no enfoque pontual de problemas estruturais. \u00c9 do jogo. A disputa de ideias e de vers\u00f5es \u00e9 constante em qualquer sociedade minimamente sadia e organizada.<br \/>\nAs disputas entre os \u201cprogressistas\u201d e \u201cconservadores\u201d n\u00e3o conformam uma especificidade do nosso tempo e tampouco do Brasil. O PT apenas encabe\u00e7ou um grupo que possui alguma articula\u00e7\u00e3o desde o PTB, pelo menos. Podemos chamar esse segmento de \u201ccentro-esquerda\u201d, com enraizamento em setores populares. Quer dizer, n\u00e3o s\u00e3o grupos pol\u00edticos e sociais que buscam acabar com o capitalismo, mas compreendem que existem distor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e mesmo do pr\u00f3prio sistema que requerem interfer\u00eancias de pol\u00edticas p\u00fablicas e, portanto, do Estado.<br \/>\nNo campo econ\u00f4mico, particularmente, tais grupos partem da vis\u00e3o de que \u00e9 preciso corre\u00e7\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o porque o livre mercado tende a concentrar a renda e a riqueza. Seja porque uns capitais s\u00e3o maiores do que outros, seja porque h\u00e1 assimetria na rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho, seja porque os pa\u00edses est\u00e3o em est\u00e1gios distintos de ac\u00famulo de capital e, por consequ\u00eancia, de inser\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<br \/>\nNo caso do PT, ao longo dos \u00faltimos governos, houve uma identifica\u00e7\u00e3o de grupos populares com as pol\u00edticas implementadas, como as de transfer\u00eancia direta de renda, eleva\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo em termos reais e pol\u00edticas de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior. Sejam esses grupos mais ou menos conscientes disto, os 13 anos de governo \u201cdo PT\u201d proporcionaram uma inclus\u00e3o social nunca ocorrida no Brasil.<br \/>\nAo redor do mundo, h\u00e1 segmentos mais \u00e0 direita que tamb\u00e9m patrocinam tais pol\u00edticas. N\u00e3o por acaso, desde o s\u00e9culo XIX, tra\u00e7os social-democratas nasciam na direita e no conservadorismo, o caso alem\u00e3o \u00e9 ic\u00f4nico. Remediar os pobres e ampliar direitos sociais, trabalhistas e civis era uma forma de garantir a estabilidade social em um sistema que reproduz cronicamente a desigualdade.<br \/>\nSob outra perspectiva, pode-se dizer que dominar grupos sociais exige sacrif\u00edcio. Aqueles que exercem o poder precisam de consentimento dos dominados. A domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre mais atrav\u00e9s da for\u00e7a bruta, como era nas sociedades mais primitivas. Os dominados precisam se sentir beneficiados com o sistema para que haja estabilidade. Coloquialmente, essa ideia est\u00e1 na analogia de entregar alguns an\u00e9is e preservar os dedos.<br \/>\nContudo, no caso brasileiro, os grupos pol\u00edticos que emergem ao poder n\u00e3o parecem ter tais inten\u00e7\u00f5es. Os sinais autorit\u00e1rios s\u00e3o claros. Na proibi\u00e7\u00e3o de protestos nos est\u00e1dios, na tentativa de restringir o pensamento cr\u00edtico que contesta a ordem social posta (sob o r\u00f3tulo de \u201cescola sem partido\u201d) , na constante tentativa de criminalizar e desqualificar a esquerda, seus representantes pol\u00edticos e intelectuais.<br \/>\nAl\u00e9m de tirar o PT do poder, os grupos mais conservadores querem aniquilar com o partido e com tudo o que ele representa. O Ministro do STF Gilmar Mendes chegou a ensaiar um pedido de cassa\u00e7\u00e3o do partido, tal qual ocorreu com os \u201ccomunistas\u201d ap\u00f3s o golpe de 1964. Eles n\u00e3o querem advers\u00e1rios que contestem seu poder, sua ordem e o modus operandi na Terra Brasilis.<br \/>\nSuas inten\u00e7\u00f5es no campo da organiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o igualmente claras: privatiza\u00e7\u00f5es, perda de direitos sociais e trabalhistas, enxugamento das pol\u00edticas p\u00fablicas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social, redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, congelamento de gastos e sepultamento da constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<br \/>\nA derrota do PT parece irrevers\u00edvel. \u00c9 bastante prov\u00e1vel que haja uma disputa nas esquerdas pelo seu esp\u00f3lio, ou mesmo internamente, caso o partido sobreviva. Cabe a reflex\u00e3o, entretanto, do que ocorrer\u00e1 caso o partido seja banido e n\u00e3o haja um substituto \u00e0 altura. Ora, o partido nunca foi revolucion\u00e1rio e sempre esteve de acordo com a ordem posta, ele prop\u00f5e apenas rem\u00e9dios e ajustes para que haja maior justi\u00e7a social e menor desequil\u00edbrio econ\u00f4mico. \u00c9 um partido que representa a concilia\u00e7\u00e3o de interesses, a partir da voz dos trabalhadores e dos mais exclu\u00eddos. Sem esse campo pol\u00edtico, sob o nome de \u201cPT\u201d ou sob outro agrupamento, a possibilidade de concilia\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil.<br \/>\nO Brasil \u00e9 um pa\u00eds bastante heterog\u00eaneo, desigual, com um passivo social de 388 anos de escravid\u00e3o, com periferias imensas nas principais capitais. \u00c9 preciso ter em mente que 50% da popula\u00e7\u00e3o recebe menos de R$ 1.300,00 mensais! Na derruba recente, os grupos populares n\u00e3o sa\u00edram em massa \u00e0s ruas para defender o governo, possivelmente por insatisfa\u00e7\u00f5es diversas, j\u00e1 sentindo os efeitos do austeric\u00eddio de 2015.<br \/>\nA partir do momento em que esses grupos sentirem na pele o que representa o aniquilamento da esquerda e sem uma direita consciente de que \u00e9 preciso atender aos dominados, os riscos de disrup\u00e7\u00e3o social n\u00e3o s\u00e3o pequenos. Indaga-se se o caminho escolhido pela elite brasileira de destruir seus advers\u00e1rios \u00e9 mesmo inteligente. Aniquilar a voz e os direitos dos dominados pode ter efeitos delet\u00e9rios sobre os interesses de quem executa essas articula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nArtigo originalmente publicado no\u00a0site <a href=\"http:\/\/brasildebate.com.br\/o-risco-de-disrupcao-na-estrategia-de-aniquilar-o-pt\/\">Brasil Debate<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>R\u00f3ber Iturriet \u00c1villa &#8211; Doutor em Economia, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o de Economia e Estat\u00edstica, diretor sindical do SEMAPI. Al\u00e9m de tirar o PT do poder, os grupos mais conservadores querem banir o partido e tudo o que ele representa. 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