{"id":37819,"date":"2016-08-14T23:22:41","date_gmt":"2016-08-15T02:22:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=37819"},"modified":"2016-08-14T23:22:41","modified_gmt":"2016-08-15T02:22:41","slug":"o-imperio-da-sucata-e-a-soberania-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/o-imperio-da-sucata-e-a-soberania-nacional\/","title":{"rendered":"O imp\u00e9rio da sucata e a soberania nacional"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Fernando Rosa &#8211; jornalista<\/strong><\/em><br \/>\nEm janeiro de 2009, o embaixador dos EUA no Brasil Clifford Sobel enviou telegramas ao governo Norte-Americano\u00a0com duras cr\u00edticas ao Plano Nacional de Defesa do Brasil, anunciado em dezembro de 2008 pelo presidente Lula, segundo noticiou o jornal Estad\u00e3o, na \u00e9poca. A informa\u00e7\u00e3o tinha como fonte um conjunto de telegramas vazados pelo site Wikileaks, tamb\u00e9m respons\u00e1vel por vazar trocas de informa\u00e7\u00f5es entre o atual presidente Michel Temer e autoridades dos EUA. Segundo a mat\u00e9ria, o relato destacava a preocupa\u00e7\u00e3o com \u201co interesse do Brasil em controlar tecnologia nos setores espacial, cibern\u00e9tico e nuclear\u201d.<br \/>\nOs telegramas tamb\u00e9m evidenciavam a preocupa\u00e7\u00e3o \u2013 e uma certa ironia \u2013 de Sobel com a palavra \u201cindepend\u00eancia\u201d que, segundo ele, demonstravam a vontade do Brasil em controlar a produ\u00e7\u00e3o de armamentos, e com prioridade para alian\u00e7as com pa\u00edses que transferissem\u00a0tecnologia. Sobel tamb\u00e9m destacava a preocupa\u00e7\u00e3o dos brasileiros com as descobertas de petr\u00f3leo no mar e a sua utiliza\u00e7\u00e3o como raz\u00e3o urgente para melhorar a seguran\u00e7a mar\u00edtima. \u201cEssa preocupa\u00e7\u00e3o se fundiu \u00e0 busca de duas d\u00e9cadas do Brasil por desenvolver um submarino nuclear, dando um novo \u00edmpeto \u00e0 pesquisa sobre um pequeno reator para propuls\u00e3o naval\u201d.<br \/>\nO embaixador norte-americano tamb\u00e9m manifestava contrariedade ao Plano pelo\u00a0seu car\u00e1ter mais amplo de vis\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a nacional. Para ele, \u201calgumas das propostas do plano t\u00eam menos a ver em melhorar a estrutura militar e mais com a integra\u00e7\u00e3o da Seguran\u00e7a Nacional com o desenvolvimento do Pa\u00eds\u201d. Em sua \u201can\u00e1lise\u201d, o plano batizado com o nome de \u201cPaz e Seguran\u00e7a para o Brasil\u201d, dava\u00a0\u00eanfase em benef\u00edcios sociais \u201cem detrimento ao profissionalismo no servi\u00e7o militar\u201d com o objetivo de\u00a0minimizar \u201ca capacidade dos militares de se envolverem na \u00e1rea\u201d.<br \/>\nAo contr\u00e1rio das especula\u00e7\u00f5es do embaixador americano, e do tom de intriga perseguido, o Plano afirmava que \u201ca disposi\u00e7\u00e3o para mudar \u00e9 o que a Na\u00e7\u00e3o est\u00e1 a exigir agora de seus marinheiros, soldados\u00a0e aviadores. N\u00e3o se trata apenas de financiar e de equipar as For\u00e7as Armadas. Trata-se de transform\u00e1-las, para melhor defenderem o Brasil\u201d. Nesse sentido, o Plano definia que \u201cprojeto forte de defesa favorece projeto forte de desenvolvimento. Forte \u00e9 o projeto\u00a0de desenvolvimento que, sejam quais forem suas demais orienta\u00e7\u00f5es, se guie pelos\u00a0seguintes princ\u00edpios:<br \/>\n<em>a) Independ\u00eancia nacional, efetivada pela mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos f\u00edsicos, econ\u00f4micos e humanos, para o investimento no potencial produtivo do Pa\u00eds. Aproveitar a poupan\u00e7a estrangeira, sem dela depender;<\/em><br \/>\n<em>b) Independ\u00eancia nacional, alcan\u00e7ada pela capacita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica aut\u00f4noma, inclusive nos estrat\u00e9gicos setores espacial, cibern\u00e9tico e nuclear. N\u00e3o \u00e9 independente quem n\u00e3o tem o dom\u00ednio das tecnologias sens\u00edveis, tanto para a defesa como para o desenvolvimento;<\/em><br \/>\n<em>e ) Independ\u00eancia nacional, assegurada pela democratiza\u00e7\u00e3o de oportunidades educativas e econ\u00f4micas e pelas oportunidades para ampliar a participa\u00e7\u00e3o popular nos processos decis\u00f3rios da vida pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Pa\u00eds. O Brasil n\u00e3o ser\u00e1 independente enquanto faltar para parcela do seu povo condi\u00e7\u00f5es para aprender, trabalhar e produzir.<\/em><br \/>\nA cada dia que passa, mais claras se tornam as evid\u00eancias do envolvimento externo nas opera\u00e7\u00f5es golpistas \u2013 desde as a\u00e7\u00f5es de rua em 2013, passando pela Lava Jato, at\u00e9 o recente \u201cencontro\u201d de John Kerry com Jos\u00e9 Serra. As manifesta\u00e7\u00f5es de rua tentaram reproduzir as \u201cprimaveras\u201d golpistas, a opera\u00e7\u00e3o Lava Jato mirou na Petrobras e no Pr\u00e9-Sal, nas empreiteiras nacionais e no submarino nuclear. Ao mesmo tempo, os chefes do golpe apostam no alinhamento unilateral e suicida aos Estados Unidos, do que n\u00e3o deixa d\u00favidas a imediata visita do senador Aloysio Nunes (PSDB) ao Pent\u00e1gono, logo ap\u00f3s o afastamento da presidenta Dilma Rousseff.<br \/>\nAo mesmo tempo, \u00e9 cada mais temer\u00e1ria a postura belicista norte-americana para impedir o desenvolvimento de pa\u00edses e regi\u00f5es, do que s\u00e3o exemplos a destrui\u00e7\u00e3o do Iraque e da L\u00edbia, e as demais guerras no Oriente M\u00e9dio. Os ex\u00e9rcitos de China, \u00cdndia e R\u00fassia, n\u00e3o por acaso tr\u00eas pa\u00edses do BRICS, por outro lado, junto com EUA e Fran\u00e7a ser\u00e3o as\u00a0for\u00e7as armadas mais poderosas do mundo em 15 anos, segundo publica\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar \u201cThe National Interest\u201d. O que est\u00e1 em jogo, portanto, nesse momento, para os interesses nacionais, geopol\u00edticos e militares, por certo, vai al\u00e9m dos temas da democracia e dos direitos sociais, embora fundamentais.<br \/>\nO povo brasileiro, em boa parte, nas ruas de todo o pa\u00eds, j\u00e1 demonstrou seu total rep\u00fadio ao golpe e aos golpistas interinos; enquanto outra parcela certamente reagir\u00e1 ainda com mais vigor diante do \u201cpacote de maldades\u201d sociais previsto para o p\u00f3s-impeachment, se vingar. O mundo, governos, lideran\u00e7as intelectuais, pol\u00edticos, artistas, at\u00e9 mesmo dos Estados Unidos, e a m\u00eddia internacional em sua grande maioria tamb\u00e9m identificam como um golpe de estado o que est\u00e1 em curso no pa\u00eds.\u00a0A CNBB acaba de perguntar \u201cpara onde vamos?\u201d, advertindo que \u201cdemocracia \u00e9 respeito \u00e0 vontade do povo\u201d e conclamando\u00a0\u201cao di\u00e1logo e \u00e0 busca de solu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas que preservem as conquistas e os direitos do nosso povo\u201d.<br \/>\nEm 1982, a Guerra das Malvinas sepultou a pol\u00edtica de seguran\u00e7a nacional regional e mundial vigente at\u00e9 ent\u00e3o, quando os Estados Unidos negaram muni\u00e7\u00e3o \u00e0 Argentina, deixando os argentinos \u00e0 merc\u00ea da covarde e cruel agress\u00e3o dos ex\u00e9rcitos da Inglaterra. Da mesma forma o que os EUA pretendem agora, em ultima inst\u00e2ncia, \u00e9 transformar\u00a0o Brasil em comprador de suas sucatas e sobras de guerras superadas tecnologicamente. Pode ser uma ironia a visita do secret\u00e1rio de Estado John Kerry \u00e0 equipe americana na Escola Naval, \u00a0durante as Olimp\u00edadas, no Rio de Janeiro, mas n\u00e3o tem nada de casualidade a persegui\u00e7\u00e3o e a absurda pena de 43 anos de pris\u00e3o ao Almirante Othon, respons\u00e1vel pelo desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro.<br \/>\nNos anos 70, o general Ernesto Geisel j\u00e1 havia apostado na multipolaridade, ao abrir rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e comerciais com a China, e na independ\u00eancia tecnol\u00f3gica, ao romper\u00a0o acordo de fornecimento de material b\u00e9lico com os EUA, assinando\u00a0o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, que resultou nas usinas Angra I e II,\u00a0dando in\u00edcio a moderna ind\u00fastria b\u00e9lica nacional. Em sua Pol\u00edtica de Defesa Nacional, sancionada em 2005, pelo presidente Lula, o Brasil definiu\u00a0que \u201ca\u00a0seguran\u00e7a, em linhas gerais, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o em que o Estado, a sociedade ou os indiv\u00edduos\u00a0se sentem livres de riscos, press\u00f5es ou amea\u00e7as, inclusive de necessidades extremas\u201d. Neste\u00a0momento em que tentam destruir o Poder e Estado nacional, assim como povo brasileiro, as FFAA n\u00e3o aceitar\u00e3o o\u00a0papel de \u201ccapit\u00e3es do mato\u201d do Imp\u00e9rio colonial, e honrar\u00e3o a heran\u00e7a de Floriano Peixoto.<br \/>\n<strong><a href=\"http:\/\/www.defesa.gov.br\/projetosweb\/estrategia\/arquivos\/estrategia_defesa_nacional_portugues.pdf\"><u><span style=\"color: #0066cc\">O Plano Nacional de Defesa<\/span><\/u><\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Rosa &#8211; jornalista Em janeiro de 2009, o embaixador dos EUA no Brasil Clifford Sobel enviou telegramas ao governo Norte-Americano\u00a0com duras cr\u00edticas ao Plano Nacional de Defesa do Brasil, anunciado em dezembro de 2008 pelo presidente Lula, segundo noticiou o jornal Estad\u00e3o, na \u00e9poca. 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