{"id":37940,"date":"2016-08-18T17:40:38","date_gmt":"2016-08-18T20:40:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=37940"},"modified":"2016-08-18T17:40:38","modified_gmt":"2016-08-18T20:40:38","slug":"os-efeitos-danosos-do-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/os-efeitos-danosos-do-golpe\/","title":{"rendered":"Os efeitos danosos do golpe"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart &#8211; Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE<br \/>\nO golpe aplicado na Presidente Dilma Rousseff pela oligarquia pol\u00edtica do congresso nacional, pela m\u00eddia dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o social, pelo judici\u00e1rio direitista ultraconservador e por grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas evidencia os seus efeitos em todos os espa\u00e7os e em todos os setores. O que acontece no epicentro do poder em Bras\u00edlia, os interesses que se escondem e as for\u00e7as de poder se disseminam por toda a sociedade. Abordaremos no artigo que segue alguns desdobramentos sist\u00eamicos do golpe e que sentimos duramente em todas as esferas nas quais nos encontramos.<br \/>\nO golpe tem um vi\u00e9s econ\u00f4mico que tem tudo a ver com o capitalismo internacional e nacional. Os atores do golpe s\u00e3o grandes elites capitalistas nacionais e internacionais diretamente interessadas em nossas riquezas naturais, tais como a Amaz\u00f4nia, o Pr\u00e9-sal, os min\u00e9rios, as terras etc. O fundo do golpe \u00e9 uma nova fase do imperialismo capitalista internacional que visa transformar o Brasil em uma das col\u00f4nias privilegiadas da voracidade devoradora da imensa fome capitalista. Diante desta for\u00e7a devoradora das grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas, qualquer projeto nacionalista, que envolve algumas das pol\u00edticas adotadas pelos governos Lula e Dilma fogem aos interesses privatistas dos golpistas. Este \u00e9 um dos motivos basilares pelos quais a elite dominante dep\u00f5e a Presidente Dilma e deseja acabar como PT.<br \/>\nA crise econ\u00f4mica que o pa\u00eds atravessa nos \u00faltimos tempos tem as marcas da elite golpista. Como o Brasil estava emergindo como uma nova pot\u00eancia mundial, impulsionada por algumas pol\u00edticas estatais estruturantes, desestabilizaram mundialmente os pre\u00e7os do petr\u00f3leo, dos min\u00e9rios, da soja e outros produtos agr\u00edcolas, o que inevitavelmente colocou o pa\u00eds em crise. Soma-se a isto a crise h\u00eddrica que causou uma profunda restri\u00e7\u00e3o no setor el\u00e9trico, provocando o aumento consider\u00e1vel do pre\u00e7o da energia el\u00e9trica. Uma significativa classe social, amplamente beneficiada por Lula e Dilma, sentiu profundamente os efeitos de contingenciamentos e os meios de comunica\u00e7\u00e3o aproveitaram o descontentamento destas classes e incendiaram um onda de protestos contra Dilma. Assim, a profunda crise pol\u00edtica na qual o Brasil atualmente est\u00e1 mergulhado inviabiliza qualquer perspectiva de retomada da atividade econ\u00f4mica em curto prazo, com a qual o povo sofre profundamente.<br \/>\nO golpe em curso tem efeitos danosos na pol\u00edtica. Definitivamente, a pol\u00edtica deixou de ser o poder do povo para o povo. Como a \u00e9tica e a pol\u00edtica foram cindidos, a pol\u00edtica se transformou numa estrat\u00e9gia de dom\u00ednio de uma pequena classe de privilegiados que explora a grande massa da popula\u00e7\u00e3o. Vimos no golpe em curso a for\u00e7a em coro de um grupo elitista nacional e internacional, atrav\u00e9s de um processo parlamentar que envolve o congresso nacional, o judici\u00e1rio, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, para inviabilizar a efetiva\u00e7\u00e3o de qualquer projeto democr\u00e1tico. Os poderes do Estado, constitu\u00eddos para salvaguardar a Constitui\u00e7\u00e3o e a Democracia, s\u00e3o os primeiros a violent\u00e1-las e dissolv\u00ea-las. Em fun\u00e7\u00e3o da cis\u00e3o estabelecida entre estes poderes e o povo brasileiro, transformaram-se em articuladores do golpe, numa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de extrema direita. As vozes do povo que emanam dos mecanismos pol\u00edticos legitimamente estabelecidos se perdem e a pol\u00edtica se transforma na voz dos mais fortes, tudo na legitimidade parlamentar e jur\u00eddica.<br \/>\nO golpe em curso tem consequ\u00eancias doutrinais e ideol\u00f3gicas. Estamos assistindo a volta de formas de pensamento autorit\u00e1rias e conservadoras. Elas est\u00e3o vindo com toda a for\u00e7a e se destinam a legitimar um estado de coisas existente, inviabilizando qualquer tentativa de transforma\u00e7\u00e3o social. S\u00e3o fundamentalismos econ\u00f4micos, religiosos, pol\u00edticos e sociais. S\u00e3o facilmente percept\u00edveis dogmatismos neoliberais ligados ao privatismo econ\u00f4mico, ao mercado absoluto e dominador, ao individualismo consumista etc. Os dogmatismos religiosos s\u00e3o vis\u00edveis nos muitos fi\u00e9is que ostentam pr\u00e1ticas devocionais, concep\u00e7\u00f5es superadas como o criacionismo e pr\u00e1ticas religiosas separadas da realidade. A leitura fundamentalista da b\u00edblia \u00e9 uma das facetas deste dogmatismo. A faceta mais conservadora do fundamentalismo \u00e9 concentrada num significativo grupo de pol\u00edticos que habita o congresso nacional, que carrega a b\u00edblia embaixo do bra\u00e7o e representa uma das facetas mais conservadoras da pol\u00edtica brasileira. \u00c9 uma forma de encobrir com a santa religi\u00e3o e com discurso moralista um conjunto de interesses econ\u00f4micos.<br \/>\nO golpe protagoniza tens\u00f5es e enfrentamentos extremos. \u00c9 a tens\u00e3o entre a casa grande e a senzala, entre o povo e a oligarquia dominante, entre o patriarcalismo de direita e as esquerdas pol\u00edticas etc. Mas as supremas tens\u00f5es carregam em si mesmas o fen\u00f4meno da indiferencia\u00e7\u00e3o e da indistin\u00e7\u00e3o. Esta indiferen\u00e7a se manifesta na massifica\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica amplamente dominada pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o social, na postura religiosa ultraconservadora, no discurso fascista contra o PT e contra Lula, na voz un\u00edvoca dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, na generaliza\u00e7\u00e3o de um discurso que retrata apenas uma pequena fra\u00e7\u00e3o da realidade, sem permitir que ela apare\u00e7a de forma abrangente. O que circula nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, nas mentes das pessoas e o que \u00e9 comentado no dia a dia caracteriza uma apar\u00eancia imediata que esconde uma realidade muito mais ampla e complexa. Trata-se do fen\u00f4meno do cinismo generalizado e universalizado, expresso principalmente na dogmatiza\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o imediata e parcial da realidade. Em outras palavras, a realidade \u00e9 encoberta por um discurso imediato, n\u00e3o raras vezes expresso numa linguagem de deboche. V\u00ea-se um discurso uniformizado, extremamente superficial, imediato, parcial e fragmentado, que tomou conta de toda a sociedade e se manifesta numa opini\u00e3o p\u00fablica intensamente massificada.<br \/>\nA massifica\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, em forma de cinismo social, \u00e9 um ambiente prop\u00edcio para que os golpistas possam impor o seu projeto. Diante da massifica\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o intensamente interiorizada pela popula\u00e7\u00e3o, as vozes democr\u00e1ticas e os discursos que apontam para outra interpreta\u00e7\u00e3o da realidade ficam sem for\u00e7a. Neste contexto, uma iniciativa de desmistifica\u00e7\u00e3o dos interesses ideol\u00f3gicos que se escondem por debaixo do golpe, n\u00e3o vai ter express\u00e3o na opini\u00e3o p\u00fablica e n\u00e3o ter\u00e1 for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o social. Em outras palavras, um discurso m\u00edstico e parcial toma conta da realidade, enquanto que um discurso mais cr\u00edtico e abrangente fica proibido de ser dito. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o exercem um papel central para que a opini\u00e3o p\u00fablica se configure desta maneira. Talvez seja esta a inten\u00e7\u00e3o de fundo para a implanta\u00e7\u00e3o da dita escola sem partido, para excluir da escola toda a tentativa de gesta\u00e7\u00e3o de um pensamento cr\u00edtico e sistem\u00e1tico.<br \/>\nO fen\u00f4meno social aqui indicado precisa produzir a sua nega\u00e7\u00e3o, a sua oposi\u00e7\u00e3o, a sua contradi\u00e7\u00e3o interna em tens\u00f5es sociais com posi\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas diferentes e opostas. A imensa superficialidade da opini\u00e3o p\u00fablica e o cinismo social precisam ser quebrados e produzir uma nova configura\u00e7\u00e3o e correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Para a quebra da indiferen\u00e7a e imediatez social precisam aparecer novas for\u00e7as de informa\u00e7\u00e3o, novas for\u00e7as pol\u00edticas, novas concep\u00e7\u00f5es sociais, novos discursos capazes de penetrar na estrutura social. E esta oposi\u00e7\u00e3o deve configurar-se em nova s\u00edntese social, em nova estrutura social para redimensionar o Estado e os poderes constitu\u00eddos. Estes fen\u00f4menos devem dar outra fun\u00e7\u00e3o ao congresso nacional e ao supremo tribunal federal, no sentido de recuperarem a vanguarda da Democracia e da vontade popular. Mas, considerando o cen\u00e1rio nacional de hoje, com quase certeza devem aparecer fen\u00f4menos sociais intensos opostos ao que hoje vivenciamos e interpretamos epistemologicamente.<br \/>\nMas os efeitos do golpe n\u00e3o param por a\u00ed. Ele tem consequ\u00eancias locais, nacionais e internacionais. Representa a ruptura de uma s\u00e9rie de tratados internacionais dos quais o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, especialmente no que concerne \u00e0 Democracia e \u00e0 liberdade dos povos. Uma geografia complexa de rela\u00e7\u00f5es internacionais na qual o Brasil figura como um dos atores fundamentais pode ser dissolvida. Neste cen\u00e1rio, corremos o risco de voltar a um modelo de rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia diante das grandes pot\u00eancias do norte e perder a soberania nacional. A plataforma de fundo de um golpe como aquele que estamos assistindo, no qual o que n\u00e3o \u00e9 dito e n\u00e3o aparece na telinha da televis\u00e3o, s\u00e3o os interesses capitalistas internacionais que representam os motivos fundamentais. Todos os dias observamos a tend\u00eancia de dissolu\u00e7\u00e3o de importantes conquistas do povo resultantes de muita luta, suor e sangue de muitas gera\u00e7\u00f5es. A condi\u00e7\u00e3o de importante ator internacional conquistada pelo Brasil nos \u00faltimos anos tende a desaparecer e a se transformar, em pouco tempo, numa republiqueta sem express\u00e3o internacional.<br \/>\nCom estas considera\u00e7\u00f5es, as consequ\u00eancias do golpe aparecem na totalidade da estrutura social, na economia, na pol\u00edtica, na religi\u00e3o, na cultura e no conhecimento. Tem a sua faceta na padroniza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e na consequente massifica\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, que repete em toda a sua abrang\u00eancia um discurso superficial e imediato. Uma poss\u00edvel for\u00e7a de contradi\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o mais cr\u00edtica e sistem\u00e1tica, por ora, n\u00e3o tem muita for\u00e7a. O golpe se transformou num fen\u00f4meno de muitas dimens\u00f5es, pois penetra no interior das rela\u00e7\u00f5es interpessoais mais restritas, no interior das fam\u00edlias, dos grupos, e se estende para o cen\u00e1rio nacional e internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart &#8211; Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE O golpe aplicado na Presidente Dilma Rousseff pela oligarquia pol\u00edtica do congresso nacional, pela m\u00eddia dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o social, pelo judici\u00e1rio direitista ultraconservador e por grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas evidencia os seus efeitos em todos os espa\u00e7os e em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[80,56],"class_list":["post-37940","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-debates","tag-efeitos","tag-pucrs"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37940"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37940\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}