{"id":38012,"date":"2016-08-20T17:16:29","date_gmt":"2016-08-20T20:16:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=38012"},"modified":"2016-08-20T17:16:29","modified_gmt":"2016-08-20T20:16:29","slug":"uma-brecha-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/uma-brecha-no-mundo\/","title":{"rendered":"Uma brecha no mundo"},"content":{"rendered":"<p>Marino Boeira<br \/>\nO mundo est\u00e1 muito chato.<br \/>\nN\u00f3s o criticamos e ele n\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima import\u00e2ncia.<br \/>\nMas, quem \u00e9 o mundo?<br \/>\n\u00c9 o mundo em que vivem aquelas pessoas que, por alguma raz\u00e3o obscura, gostar\u00edamos de influenciar.<br \/>\nNossos amigos, os brasileiros, os pobres, os oprimidos.<br \/>\nE quem somos n\u00f3s?<br \/>\nSomos aqueles sujeitos nascidos a partir da segunda metade do s\u00e9culo passado.<br \/>\nSomos aquelas pessoas que se dizem intelectuais, porque leram alguns livros.<br \/>\nSomos os que pensam ser de esquerda, s\u00f3 porque costumavam votar no Partid\u00e3o, quando ele ainda existia e que agora votam no PT.<br \/>\nSomos aqueles que, em algum momento, pensaram que poderiam ajudar a melhorar o mundo para os nossos amigos, para os brasileiros, para os pobres, para os oprimidos.<br \/>\nQuanto fizemos em rela\u00e7\u00e3o a isso?<br \/>\nPouco, muito pouco.<br \/>\nPossivelmente, nada.<br \/>\nTalvez, como agora, apenas escrever uma cr\u00edtica que poucos v\u00e3o ler.<br \/>\nQuer\u00edamos mudar esse mundo, mas sempre o tratamos com um certo desprezo, como se f\u00f4ssemos os \u00fanicos que conhecem a porta de sa\u00edda.<br \/>\nNo mais das vezes, olhamos com indiferen\u00e7a esse mundo em que n\u00e3o quer\u00edamos entrar, pois como no inferno de Dante, a condi\u00e7\u00e3o para entrar \u00e9 deixar toda a esperan\u00e7a do lado de fora.<br \/>\nMas desde quando o mundo ficou assim t\u00e3o chato para o nosso gosto?<br \/>\nNum artigo que escreveu esta semana, Tarso Genro, ao comentar o livro de Schiller, \u201c A educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do homem\u201d, deu uma pista.<br \/>\nO mundo ficou assim porque n\u00e3o soubemos seguir a proposta do fil\u00f3sofo alem\u00e3o, segundo a qual, a sabedoria e o sentimento \u2013 corretamente ajustados para saber contemplar de maneira adequada uma obra de arte \u2013 possibilitariam aos seres humanos chegarem a um estado moral que permitiria exercer todas suas virtudes cidad\u00e3s.<br \/>\nVamos pensar um pouco na hist\u00f3ria do Brasil dentro dessa \u00f3tica que Tarso pin\u00e7ou no livro de Schiller.<br \/>\nAt\u00e9 1964, viv\u00edamos uma \u00e9poca de intensa agita\u00e7\u00e3o cultural que, partindo dos segmentos mais intelectualizados da sociedade brasileira, de alguma forma contaminava toda a popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nBasta fazer um paralelo com os dias de hoje para percebermos a diferen\u00e7a.<br \/>\nOs meios de comunica\u00e7\u00e3o e principalmente o teatro e o cinema punham na ordem do dia a discuss\u00e3o sobre o melhor sistema social e pol\u00edtico em que dever\u00edamos viver.<br \/>\nA favor do socialismo ou contra, todos (pelo menos pensavam que era assim) tinham espa\u00e7o para expor suas opini\u00f5es.<br \/>\nHoje as redes sociais, como o facebook, s\u00e3o espa\u00e7os cativos para toda sorte de banalidades. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele v\u00eddeo da cadela que alimenta sete gatinhos, do \u201cnude\u201d daquele cantor de rock ou aquela frase profundamente idiota, mas na qual muitos enxergam um pensamento profundo, tipo \u201csempre existir\u00e1 um amanh\u00e3\u201d.<br \/>\nQuem falava de \u00e9tica e compromisso social era, no passado, Jean Paul Sartre. Hoje \u00e9 o juiz S\u00e9rgio Moro. Um abismo intelectual imenso separa as duas figuras, mas s\u00e3o elas que, ontem e hoje, servem como refer\u00eancias.<br \/>\nPara toda uma gera\u00e7\u00e3o de brasileiros, a \u00faltima oportunidade foi dada em 1964. Um divisor, que deixou na esquerda os que n\u00e3o aceitaram o golpe; na direita, os que o aplaudiram, e num imenso espa\u00e7o no meio, os que, n\u00e3o concordando, preferiram a omiss\u00e3o.<br \/>\nDilma Rousseff, com todos os erros de sua a\u00e7\u00e3o como Presidente, tem uma gl\u00f3ria que nunca \u00e9 demais lembrar: ela tomou em armas contra os estupradores da nossa fr\u00e1gil democracia de ent\u00e3o.<br \/>\nEla fez aquilo que Karl Marx disse uma vez que era a miss\u00e3o dos novos fil\u00f3sofos: n\u00e3o mais explicar o mundo, mas tentar mud\u00e1-lo.<br \/>\nN\u00f3s, os que agora acham o mundo muito chato, preferimos mudar nossas vidas pessoais, alguns ganhando muito dinheiro, outros apenas sobrevivendo, concentrando nossos esfor\u00e7os e alegrias nas vit\u00f3rias dos nossos times de futebol.<br \/>\nOs que conseguiram ganhar dinheiro, honestamente ou nem tanto assim, puderam justificar suas omiss\u00f5es com a desculpa que, enquanto foi poss\u00edvel, tentaram fazer sua parte.<br \/>\nUm deles, disse uma vez com certa ironia, quando sua conta banc\u00e1ria come\u00e7ou a crescer: \u201ceu lutei muito pela chegada do comunismo, mas agora que come\u00e7o a ficar rico, ele pode, j\u00e1 que demorou tanto a chegar, esperar mais um pouco\u201d.<br \/>\nVoltando as conclus\u00f5es de Tarso sobre sua leitura de Schiller: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir uma sociedade democr\u00e1tica, tendente \u00e0 igualdade social, sem conhecimento, sem educa\u00e7\u00e3o, sem uma cultura que democratize o conhecimento para todas as classes sociais.<br \/>\nExiste outra quest\u00e3o que o texto otimista de Tarso n\u00e3o aborda: como romper a imensa conspira\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio de todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o sobre qualquer proposta de ruptura da atual \u201cpax americana&#8221;?<br \/>\nAo lado de uma imensa massa de conformados, o que se v\u00ea em oposi\u00e7\u00e3o a uma ordem, injusta socialmente, \u00e9 o desespero das absurdas a\u00e7\u00f5es terroristas sob o ponto de vista coletivo ou a a\u00e7\u00e3o delet\u00e9ria de delinquentes, sob a \u00f3tica individual.<br \/>\nNenhuma das duas gera algum tipo de avan\u00e7o social. Pelo contr\u00e1rio, aumentam a for\u00e7a dos poderosos de hoje.<br \/>\nResta o campo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\nMas um olhar sobre essa \u00e1rea (e estamos voltando ao ponto de partida desse texto), nos mostra que s\u00e3o poucas as possibilidades de mudar este mundo chato em que vivemos.<br \/>\nNo caso brasileiro, as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas parecem se restringir hoje ao \u201cVolta Dilma\u201d, para provavelmente repetir todos os seus erros do passado, ou \u201cFica Temer\u201d, para completar sua obra de entrega das riquezas do Brasil ao capital internacional.<br \/>\nTarso diz no seu texto que o mais importante \u00e9 a defesa de uma forma democr\u00e1tica (poder-se-ia dizer uma est\u00e9tica democr\u00e1tica), que inaugure uma nova hegemonia no \u00e2mbito das solu\u00e7\u00f5es para as crises da democracia representativa: elas\u00a0devem ser resolvidas, sempre, com mais democracia, n\u00e3o com menos democracia.<br \/>\nMas, quem quer mais democracia? N\u00e3o ser\u00e3o Temer e o que Tarso chama com ironia de Confedera\u00e7\u00e3o de Investigados e Denunciados. N\u00e3o ser\u00e3o os grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que comungam de uma vis\u00e3o muito peculiar do que chamam de democracia. N\u00e3o ser\u00e3o os banqueiros, nem os empres\u00e1rios, nem os pol\u00edticos conservadores.<br \/>\nComo p\u00f3s 64, ser\u00e1 novamente uma pequena minoria.<br \/>\nAcreditar que ela possa mudar a realidade brasileira pode ser uma utopia, mas parece ser a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que nos restar para tentar abrir uma brecha nesse mundo chato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marino Boeira O mundo est\u00e1 muito chato. N\u00f3s o criticamos e ele n\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima import\u00e2ncia. Mas, quem \u00e9 o mundo? \u00c9 o mundo em que vivem aquelas pessoas que, por alguma raz\u00e3o obscura, gostar\u00edamos de influenciar. Nossos amigos, os brasileiros, os pobres, os oprimidos. 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