{"id":38739,"date":"2016-09-06T11:59:39","date_gmt":"2016-09-06T14:59:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=38739"},"modified":"2016-09-06T11:59:39","modified_gmt":"2016-09-06T14:59:39","slug":"legalidade-e-legitimidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/legalidade-e-legitimidade\/","title":{"rendered":"Legalidade e legitimidade"},"content":{"rendered":"<p>Gilmar Zampieri &#8211; Fil\u00f3sofo e Professor<br \/>\nPensa melhor quem melhor distingue. Quem generaliza e confunde, se engambela e gira em c\u00edrculo sem dire\u00e7\u00e3o. A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 a festa do pensamento. Onde o senso comum v\u00ea como igual, o pensador precisa socorr\u00ea-lo e ajud\u00e1-lo a ver melhor. N\u00e3o \u00e9 pecado pensar. Pecado \u00e9 errar e fazer o mal por banalidade e por pregui\u00e7a de pensamento. Viver n\u00e3o \u00e9 preciso, distinguir \u00e9 preciso..!<br \/>\nPenso aqui na confus\u00e3o que incorremos constantemente ao identificar legal com leg\u00edtimo, legal com justo, legal com \u00e9tico. Os legalistas, positivistas e fundamentalistas talvez n\u00e3o aceitem, mas o que a lei diz, nem sempre \u00e9 o que deve ser feito.<br \/>\nO que d\u00e1 legitimidade a uma norma legal e positiva \u00e9 a conex\u00e3o que ela tem com uma norma moral. S\u00f3 o que uma comunidade hist\u00f3rica real considerar moral, pode ser leg\u00edtimo legalmente. A lei Maria da Penha, por exemplo, que protege a v\u00edtima da viol\u00eancia dom\u00e9stica e pune o violento, a meu ver, \u00e9 legal e leg\u00edtima porque n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o considerar que n\u00e3o seja boa para toda a sociedade. O trabalho livre, n\u00e3o escravizado, com correspondente pagamento na forma de sal\u00e1rio e com todos os encargos sociais e todos os direitos conquistados pelo trabalhador, por exemplo, f\u00e9rias e d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio, s\u00e3o legais e s\u00e3o leg\u00edtimos. Sem entrar no m\u00e9rito se o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 justo, pois a\u00ed talvez a discuss\u00e3o seja exatamente o contr\u00e1rio. \u00c9 bom que se diga, de passagem, que o bom, o justo e o leg\u00edtimo n\u00e3o s\u00e3o conceitos un\u00edvocos e sem ambig\u00fcidades e at\u00e9 imprecis\u00f5es. Talvez, por isso, os legalistas prefiram a letra fria da lei acreditando que o justo \u00e9 o que a lei determina e ponto.<br \/>\nSabemos, contudo, que nem sempre o legal \u00e9 justo e leg\u00edtimo. O caso de Ant\u00edgona \u00e9 paradigm\u00e1tico. Ant\u00edgona \u00e9 o nome de um livro de S\u00f3focles, o mesmo autor que escreveu \u00c9dipo Rei e \u00c9dipo em Colono. Ant\u00edgona \u00e9 uma personagem que d\u00e1 nome ao livro. Ela \u00e9 filha de \u00c9dipo com Jocasta. \u00c9dipo \u00e9 filho de Laio e Jocasta. \u00c9dipo mata o pai (Laio) e casa com a m\u00e3e (Jocasta) e tem quatro filhos com a pr\u00f3pria m\u00e3e. Uma das duas filhas \u00e9 Ant\u00edgona. Quando \u00c9dipo descobre que a trag\u00e9dia acontecida em Atenas foi por sua causa, por ter matado o pai e casado com a m\u00e3e, ele vaza os pr\u00f3prios olhos e as filhas (Ant\u00edgona e Ism\u00eania) o levam para fora da cidade. A m\u00e3e e esposa de \u00c9dipo, Jocasta, se suicida ao saber que ela tinha sido esposa do pr\u00f3prio filho e com ele tinha tido quatro filhos.<br \/>\nEm Tebas permanecem os dois irm\u00e3os de Ant\u00edgona (Et\u00e9ocles&lt;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Et%C3%A9ocles\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Et%C3%A9ocles<\/a>&gt; e Polinice&lt;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Polinice\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Polinice<\/a>&gt;). Depois da sa\u00edda de \u00c9dipo quem assume o reino de Tebas \u00e9 Creonte. Creonte envolto em guerras internas determina em um edito que todos os que lutarem contra seu reino e forem mortos, ser\u00e3o jogados \u00e0 beira do caminho aos abutres, sem sepultura.<br \/>\nOs dois irm\u00e3os de Ant\u00edgona eram de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas diferentes. Um lutava ao lado do rei e outro contra. Numa batalha um mata o outro. Um recebe honrarias militares e funerais dignos. Outro \u00e9 jogado ao ar livre na beira da estrada. Ant\u00edgona n\u00e3o aceita o edito do rei e recolhe o corpo do irm\u00e3o jogado na lixeira na beira do caminho e lhe d\u00e1 sepultura com ritos f\u00fanebres condizentes. O rei Creonte descobre o feito de Ant\u00edgona e a chama para o pal\u00e1cio para lhe dar o castigo correspondente por ter transgredido o edito do rei. O castigo \u00e9 a morte. O filho de Creonte que era apaixonado por Ant\u00edgona tentou intervir e dissuadir o pai de executar a lei, mas foi em v\u00e3o. Ent\u00e3o se mata. A mulher de Creonte, vendo o filho morto, tamb\u00e9m se suicida. Trag\u00e9dia total.<br \/>\nNa defesa que Ant\u00edgona faz do ato de ter tirado o irm\u00e3o da sarjeta e lhe dado sepultura ela diz que o que fizera foi por obedi\u00eancia a uma lei superior a lei dos homens, isto \u00e9, ela fez o que fez por causa da lei divina, da tradi\u00e7\u00e3o, o que hoje chamamos voz da consci\u00eancia \u00e9tica. Por obedi\u00eancia a \u00e9tica, desobedece a lei jur\u00eddica. Ant\u00edgona n\u00e3o reconhece legitimidade na lei, no edito, do rei Creonte e em nome de outra lei, mostra a n\u00e3o legitima\u00e7\u00e3o da lei positiva. Nem sempre o legal \u00e9 moral. Nem sempre o legal \u00e9 leg\u00edtimo.<br \/>\nO impeachment \u00e9 legal, mas \u00e9 ileg\u00edtimo, injusto e imoral. Se, pelos menos, reconhecessem que vazar os pr\u00f3prios olhos seria uma atitude digna, mas n\u00e3o. Hip\u00f3critas e sepulcros caiados julgam sem serem julgados. Hoje, temos um novo governo e um poder legal, mas ileg\u00edtimo e imoral. O que d\u00e1 legitimidade a um governo democr\u00e1tico \u00e9 o voto popular. Golpe nenhum pode ser leg\u00edtimo. Pode ser legal, mas n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilmar Zampieri &#8211; Fil\u00f3sofo e Professor Pensa melhor quem melhor distingue. 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