{"id":39719,"date":"2016-09-23T11:18:16","date_gmt":"2016-09-23T14:18:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=39719"},"modified":"2016-09-23T11:18:16","modified_gmt":"2016-09-23T14:18:16","slug":"a-moralizacao-dos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-moralizacao-dos-pobres\/","title":{"rendered":"A moraliza\u00e7\u00e3o dos pobres"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"><strong>\u00a0<\/strong>Marilia Verissimo Veronese <\/span><br \/>\n<span class=\"descreve\">Doutora em Psicologia Social pela PUCRS.\u00a0Professora e pesquisadora do\u00a0Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da UNISINOS<\/span><br \/>\nAs classes m\u00e9dias e altas est\u00e3o sempre prontas a uma cruzada pela moraliza\u00e7\u00e3o dos pobres. Para elas, existe o bom pobre e o mau pobre: o primeiro \u00e9 humilde, servil, respeitoso com \u201cos de cima\u201d, aceita trabalhar \u00e0 exaust\u00e3o por uma remunera\u00e7\u00e3o baix\u00edssima, n\u00e3o reclama da sua condi\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 sempre agradecido\/a pelo (pouco) que lhe concedem os mais aquinhoados.<br \/>\nSe ganha roupas que sa\u00edram do arm\u00e1rio de seus patr\u00f5es (mais para liberar espa\u00e7o do que para aquecer algu\u00e9m), fica agradecido e deixa-os com a sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel de serem boa gente, gente caridosa. Toma o elevador de servi\u00e7o, exclusivamente, e concorda que mobilidade social s\u00f3 atrav\u00e9s de muito trabalho duro (sem, obviamente, comentar que trabalha dur\u00edssimo a vida toda e a mobilidade raramente vem). Se for religioso e atribuir \u00e0 vontade de deus a desigualdade social, tanto melhor! E se contar como, na favela ou periferia onde reside, alguns de seus vizinhos s\u00e3o pregui\u00e7osos e n\u00e3o gostam de servi\u00e7o pesado, passam o dia a tomar cerveja fiada no boteco e por isso \u00e9 que n\u00e3o v\u00e3o pra frente, ganha o pr\u00eamio de \u201cpobre ideal\u201d! Ningu\u00e9m comenta que ele\/a trabalha duro pra caramba e tamb\u00e9m mora ali, n\u00e3o conseguindo se mudar para mais perto do trabalho. E toma \u00f4nibus lotado e demorado todo dia.<br \/>\nAs m\u00e3es de filhos de pais diferentes s\u00e3o apontadas como respons\u00e1veis pelo abandono dos homens com quem se envolveram, afinal, \u201cn\u00e3o se deram ao respeito\u201d. Se, desesperada e exausta, ela apela para um aborto clandestino na oitava gravidez e morre de hemorragia, dir\u00e3o: \u201cBem feito. Assassina\u201d. Poucos falam do homem que a abandonou, e ningu\u00e9m comenta que a filha ou esposa do patr\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 fizeram aborto, pagando 5.000 reais na cl\u00ednica chique do doutor rico que sai nas colunas sociais; para essas, afinal, est\u00e1 liberado. E segue a hipocrisia. As classes abastadas s\u00e3o protegidas por v\u00e1rios privil\u00e9gios, como uso de sofisticados \u2013 e caros &#8211; recursos jur\u00eddicos para evitar a imputabilidade de crimes*. N\u00e3o por acaso as pris\u00f5es est\u00e3o cheias de pobres. Tolamente, acredita o senso comum que pobre comete mais crime. Tsc, tsc, tsc&#8230; a ingenuidade beira a idiotice, \u00e0s vezes.<br \/>\nEnfim, o bom\/a boa pobre entra quietinho\/a pela porta dos fundos, limpa a privada da madame e n\u00e3o reclama nunca. Faz hora extra sem receber pagamento extra nem adicional noturno, vai no s\u00e1bado \u201cquebrar um galho\u201d lavando a lou\u00e7a na festa pela qual receber\u00e1 pouco e&#8230; pronto! Medalha no peito pelos servi\u00e7os prestados \u00e0 ideologia justificadora da realidade social baseada numa falsa meritocracia \u2013 que na verdade \u00e9 muito mais por heran\u00e7a do que por esfor\u00e7o. E n\u00e3o me refiro somente \u00e0 heran\u00e7a em bens ou dinheiro, casas e carros; mas tamb\u00e9m a heran\u00e7a de um capital social\/cultural e de um preparo para \u201cvencer na vida\u201d que come\u00e7a quando se est\u00e1 ainda dentro do \u00fatero materno. Desde ent\u00e3o, em classes favorecidas socioeconomicamente, j\u00e1 est\u00e1 sendo planejado para o beb\u00ea que vai nascer um futuro, uma forma\u00e7\u00e3o cuidadosa e seguran\u00e7a afetivo-financeira. Isso tudo ser\u00e1 transmitido pelo afeto, no cotidiano, antes da idade escolar. O valor atribu\u00eddo pelo sujeito a si mesmo &#8211; ou suas expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao que pode alcan\u00e7ar na vida &#8211; s\u00e3o constru\u00eddos nesse processo, desde muito cedo, interiorizadas nas disposi\u00e7\u00f5es profundas de cada um\/a (o <em>habitus<\/em> de Pierre Bordieu).<br \/>\nA outros\/as, por\u00e9m, caber\u00e1 um lugar desqualificado e desprotegido no mundo, na divis\u00e3o social do ensino formal e do trabalho. Apesar da abissal diferen\u00e7a entre a qualidade das escolas que frequentar\u00e3o, haver\u00e1 quem diga que o sucesso escolar s\u00f3 depende do aluno e do esfor\u00e7o pessoal nos estudos. Come\u00e7ando a trabalhar cedo, sem tempo para aprimorar-se e submetido a uma dura rotina, ser\u00e1 mesmo que o pobre disputar\u00e1 com o rico, por exemplo, uma vaga na universidade em igualdade de condi\u00e7\u00f5es? Eu acredito que a resposta \u00e9 um rotundo <strong>N\u00c3O<\/strong>. Ah, mas \u201ccotas\u201d \u00e9 discrimina\u00e7\u00e3o, repetir\u00e3o solenemente, acreditando-se paladinos da justi\u00e7a e da igualdade de oportunidades.<br \/>\nExistem exce\u00e7\u00f5es? Por certo que sim. Existe mesmo quem n\u00e3o queira trabalhar ou esfor\u00e7ar-se, entre os pobres (e entre os ricos!); assim como existem os her\u00f3is que conseguem a mobilidade social pelo trabalho dur\u00edssimo e muito sacrif\u00edcio (caminhou 10 km ap\u00f3s o trabalho, \u00e0 noite, para estudar&#8230; carregou pedras, chorou sangue e venceu na vida&#8230; e outras hist\u00f3rias, narradas sob som de violinos, que trazem l\u00e1grimas aos olhos das gentes de boa-f\u00e9 que n\u00e3o tiveram de passar por isso). Mas a <strong><em>condi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> desses her\u00f3is \u2013 \u201co marido da prima da minha vizinha era engraxate e agora \u00e9 empres\u00e1rio bem-sucedido e bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1&#8230;\u201d \u2013 <strong><em>confirma a regra<\/em><\/strong> que rege a reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades materiais e imateriais. E a imensa maioria dever\u00e1 seguir seu destino de \u201cvida de gado\u201d, servindo aos interesses dos de cima e sendo cordatos, puros, servis e humildes.<br \/>\nCaso n\u00e3o aceitem ocupar esse lugar e mostrem seu descontentamento de v\u00e1rias formas, legais e ilegais, a\u00ed se transformar\u00e3o nos \u201cmaus pobres\u201d. S\u00e3o aqueles que n\u00e3o t\u00eam um comportamento \u201ccertinho\u201d como descrito acima. Bebem, v\u00e3o a bailes funks, tem comportamento sexual livre (esse \u00faltimo ponto, como desqualifica\u00e7\u00e3o, vale especialmente para as mulheres, claro). N\u00e3o aceitam trabalhar arduamente numa atividade que consome a sa\u00fade, remunera mal e exige horas em transportes coletivos apinhados de gente. N\u00e3o admitem humilha\u00e7\u00f5es, reagindo a elas; v\u00e3o \u00e0 praia em lugares \u201cde gente de bem\u201d, atrapalhando o lazer destas com sua \u201cfeiura de pobre\u201d e o potencial \u201cperigo\u201d que representam. Falam alto, fazem \u201cbarraco\u201d, n\u00e3o \u201cse enxergam\u201d. Podem at\u00e9 vender droga para os filhos das elites que adoram se chapar ou mesmo fazer arrast\u00e3o em Ipanema, no Leblon e outros lugares reservados aos bem aquinhoados da sociedade. Pobre bom \u00e9 pobre que faz fila pra receber sop\u00e3o, de cabe\u00e7a baixa, l\u00e1 na periferia onde \u201c\u00e9 seu lugar\u201d.<br \/>\nMas pobre politizado tamb\u00e9m pode ser um mau pobre. Caso exija direitos b\u00e1sicos \u2013 como acesso \u00e0 terra, trabalho e moradia e se una a movimentos sociais, &#8211; \u00e9 demonizado pela \u201cousadia\u201d e chamado de \u201cvagabundo\u201d que quer mamar nas tetas do Estado ou de algum empres\u00e1rio ou fazendeiro rico, \u201cdireito\u201d. Curioso que estes \u00faltimos, ao receberem polpudos incentivos fiscais por parte do Estado, ao terem suas d\u00edvidas perdoadas, ao sonegarem impostos necess\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais, n\u00e3o s\u00e3o tidos como sanguessugas de nada. Ao contr\u00e1rio, teriam \u201cdireito\u201d por serem \u201cdos grandes\u201d que \u201cchegaram l\u00e1\u201d. Algu\u00e9m j\u00e1 viu panela batendo para a n\u00e3o reconhecida corrup\u00e7\u00e3o presente no rentismo, que corr\u00f3i o or\u00e7amento nacional via juros da d\u00edvida e vampiriza a riqueza produzida por todos que \u00e9 concentrada por poucos?* N\u00e3o. As panelas s\u00f3 batem quando a m\u00eddia corporativa fala em corrup\u00e7\u00e3o, especialmente de quem tentou minorar ao menos um pouco a desigualdade que castiga o pa\u00eds h\u00e1 cinco s\u00e9culos. E que seja bem espetacularizada, para lavar a alma do pessoal rico e fino de camisa da CBF, que pode se achar novamente super honesto.<br \/>\nNos anos 80 foi cunhado o Termo \u201cBel\u00edndia\u201d: poucos vivendo como na B\u00e9lgica, muitos vivendo como na \u00cdndia. Ali\u00e1s, isso me lembra uma hist\u00f3ria, contada alegremente por um sujeito <em>bon-vivant<\/em>, em casa de parentes, ap\u00f3s uma viagem dele ao belo pa\u00eds asi\u00e1tico. Relatava, encantado, que hospedado em casa de amigos, ao chegarem de um passeio as 4 horas da manh\u00e3, com fome, os donos da casa acordaram os empregados para fazerem sandu\u00edches. \u201cEles est\u00e3o aqui para isso\u201d, justificaram os patr\u00f5es. O h\u00f3spede abastado adorou, achou o m\u00e1ximo da gentileza e hospitalidade!<br \/>\nEu s\u00f3 teria a dizer pra ele o seguinte: Quer um sandu\u00edche as 4 da manh\u00e3, man\u00e9? Vai pra cozinha e faz! Trabalhador tem direito a uma noite de sono para descansar da jornada. Escravid\u00e3o \u00e9 uma coisa profundamente imoral e indigna, e quem contribui conscientemente com ela, ou com uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga, idem. Condi\u00e7\u00f5es degradadas e humilhantes de exist\u00eancia humana t\u00eam quase sempre a participa\u00e7\u00e3o ou aquiesc\u00eancia das \u201cgentes de bem\u201d, por que ser\u00e1?<br \/>\nE n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os pobres que t\u00eam sua avalia\u00e7\u00e3o severa feita por essas \u201cpessoas de bem\u201d. Os gays (LGBTs em geral) tamb\u00e9m s\u00e3o hierarquizados pela sua atitude diante da sociedade. O bom gay \u00e9 discreto; \u201cfica na dele\/a\u201d; n\u00e3o fala da sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o reivindica igualdade, n\u00e3o deseja trocar carinhos com o parceiro\/a em p\u00fablico, n\u00e3o \u201cofende\u201d os bons costumes pretendendo formar fam\u00edlia, adotar crian\u00e7as que eventualmente h\u00e9teros abandonaram ou n\u00e3o puderam cuidar. Caso seja militante, ocupe a esfera p\u00fablica, demande iguais condi\u00e7\u00f5es de vida e cidadania, lute por direitos civis e dignidade, pelo direito de vivenciar plenamente sua identidade de g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual, ser\u00e1 demonizado, difamado e, em casos extremos, agredido ou at\u00e9 morto. A expectativa de vida entre os travestis \u00e9 de 35 anos, d\u00e1 pra acreditar? Enquanto a m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o brasileira gira em torno de 75 anos! Claro que h\u00e1 a\u00ed profundas desigualdades territoriais, de classe, sexo, g\u00eanero, origem \u00e9tnico-racial (em Alagoas, por exemplo, \u00e9 de 66 anos). Mas 35, nem na rep\u00fablica dos Sarney ou dos Collor. Afirmam alguns, convictos &#8211; embora sem provas &#8211; que n\u00e3o h\u00e1 nada disso, que \u00e9 s\u00f3 mimimi, que h\u00e1 uma \u2018ditadura gay\u2019 em curso etc.<br \/>\nA compreens\u00e3o dos processos hist\u00f3ricos que geram as desigualdades, a solidariedade ampliada (n\u00e3o s\u00f3 para \u201ciguais\u201d, familiares e amigos), a aceita\u00e7\u00e3o da igualdade na diferen\u00e7a como valor central, a promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e de um projeto mais generoso de sociedade, aberto a tod@s, parecem horizontes distantes demais do Brasil atual. O \u201claborat\u00f3rio\u201d desse pa\u00eds \u00e9 visto nas m\u00eddias e redes sociais e em v\u00e1rios contextos que frequentamos diariamente.<br \/>\nPesquisando nesse laborat\u00f3rio real e virtual (que tamb\u00e9m \u00e9 concreto), concluo que muitas pessoas que se consideram a nata da sociedade ajudam a reproduzir, nos seus modos de vida, injusti\u00e7as, segrega\u00e7\u00f5es, elitismos, falsas meritocracias e muito sofrimento humano. A verdade que lhes escapa \u00e9 que s\u00e3o sacol\u00e9 de ki-suco se achando sorvete italiano de alta qualidade, para usar uma met\u00e1fora que eles provavelmente entenderiam. Porque sutileza e sensibilidade n\u00e3o \u00e9 mesmo com eles. E agora a pior not\u00edcia: os sacol\u00e9s podem ser qualquer um\/a de n\u00f3s, \u201cbons cidad\u00e3os e tementes a deus\u201d.<br \/>\n\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8\u00a8<\/p>\n<ul>\n<li>CATTANI, Antonio. Sofismas da riqueza. In: CATTANI, Antonio; OLIVEIRA, Marcelo (orgs). <em>A sociedade justa e seus inimigos<\/em>. Porto Alegre: Tomo, 2012.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Marilia Verissimo Veronese Doutora em Psicologia Social pela PUCRS.\u00a0Professora e pesquisadora do\u00a0Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais da UNISINOS As classes m\u00e9dias e altas est\u00e3o sempre prontas a uma cruzada pela moraliza\u00e7\u00e3o dos pobres. 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