{"id":40309,"date":"2016-10-11T16:59:13","date_gmt":"2016-10-11T19:59:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=40309"},"modified":"2016-10-11T16:59:13","modified_gmt":"2016-10-11T19:59:13","slug":"meu-voto-nulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/meu-voto-nulo\/","title":{"rendered":"Meu voto nulo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">L. A. T. Grassi<\/span><br \/>\n<span class=\"descreve\">Engenheiro<\/span><br \/>\nQuando escrevo, faz poucos minutos que foi aprovada em primeira vota\u00e7\u00e3o, pela C\u00e2mara Federal, a PEC 141, tamb\u00e9m chamada PEC da Morte ou da Paralisia, que subordina aos interesses das finan\u00e7as internacionais, o crescimento da economia e o resgate social brasileiros. \u00c9 mais um lance da grande opera\u00e7\u00e3o destinada a repor o Brasil na rota determinada pelo Imp\u00e9rio, executada interiormente pela vis e subservientes \u201celites\u201d parlamentar, judici\u00e1ria, policial, financeira e empresarial com o apoio da imprensa servil.<br \/>\nH\u00e1 poucos dias, foi a entrega do petr\u00f3leo e, com ele, todas as expectativas de reden\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e da previd\u00eancia social.<br \/>\nE antes, o processo que abriu caminho para tudo isso, o golpe travestido de rito legal enfeitado com missangas judici\u00e1rias e rotos v\u00e9us pseudolegais.<br \/>\nA consolida\u00e7\u00e3o do governo ileg\u00edtimo e do cumprimento de seus desmandos foi favorecido com a coincid\u00eancia n\u00e3o t\u00e3o ocasional com o per\u00edodo das campanhas eleitorais dos munic\u00edpios. Essas pr\u00f3prias campanhas j\u00e1 tinham sido, com a \u201cmini-reforma pol\u00edtica\u201d, reduzidas aos prop\u00f3sitos despolizantes dos novos poderosos (com o impedimento de verdadeiro debate pol\u00edtico) e com a campanha midi\u00e1tica em favor dos \u201cnovos gestores\u201d, com seu \u00edcone m\u00e1ximo, o prefeito eleito de S\u00e3o Paulo. O processo eleitoral municipal ofereceu, al\u00e9m da distra\u00e7\u00e3o, para o eleitorado, da preocupa\u00e7\u00e3o com o grande desmanche nacional, o espet\u00e1culo de, mais uma vez, as esquerdas perderem a oportunidade de avan\u00e7ar para uma unidade, mesmo que provis\u00f3ria, em termos de prioridades comuns e tentativas de alian\u00e7as que efetivamente fizessem frente ao avan\u00e7o do retrocesso.<br \/>\nNo segundo turno, seguem as elei\u00e7\u00f5es municipais a ocupar o lugar privilegiado no debate pol\u00edtico. Segue a disputa entre os defensores do \u201c\u00fatil\u201d com os que defendem a nega\u00e7\u00e3o de voto a qualquer um dos candidatos da direita. Os graves e sucessivos acontecimentos nacionais ficam em segundo plano.<br \/>\nDefendi, imediatamente ap\u00f3s a vit\u00f3ria, em Porto Alegre, dos candidatos identificados com o lado golpista, que o mais sensato e politicamente oportuno seria um movimento unit\u00e1rio, suprapartid\u00e1rio, em favor de um voto nulo bem definido, politicamente, contra esse retrocesso que nos leva \u00e0s piores previs\u00f5es. Os dois candidatos e seus apoiadores representam exatamente a mesma reprova\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o de todos os esfor\u00e7os, de todas as medidas, de todas as conquistas e de todas as expectativas vividas nos \u00faltimos treze anos. O processo do segundo turno poderia oportunizar a den\u00fancia do que eles representam, as outras faces da trag\u00e9dia pol\u00edtica que vivemos e uma alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 retomada da mobiliza\u00e7\u00e3o e, de outra parte, das discuss\u00f5es e reflex\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia. O voto nulo poderia sinalizar, coletivamente, a oposi\u00e7\u00e3o a cada uma das medidas j\u00e1 tomadas, ou por tomar, para destruir o projeto de um pa\u00eds mais inclusivo e menos injusto.<br \/>\nAs diversas fases do processo de impeachment oportunizaram, contra todas as dificuldades, a\u00e7\u00f5es e movimentos de mobiliza\u00e7\u00e3o e de conscientiza\u00e7\u00e3o (com todos os percal\u00e7os, com os pequenos ganhos e com as grandes derrotas que ocorreram). Movimentos sociais despolitizados, atores pol\u00edticos subordinados ao pragmatismo dos acordos e uma milit\u00e2ncia adormecida, quase toda uma gera\u00e7\u00e3o encantada por avan\u00e7os sociais efetivos e indicadores econ\u00f4micos animadores, muitos desses atores ou segmentos foram despertados, a partir do movimento golpista, para um renascimento de participa\u00e7\u00e3o e de reencontro com o protagonismo pol\u00edtico.<br \/>\nO susto do processo do impeachment, vestido de legalismo e alimentado pelo messianismo lava-jatista e pela m\u00eddia comprometida, trouxe \u00e0 tona uma nova vitalidade da esquerda que j\u00e1 esquecera o que \u00e9 luta social.<br \/>\nMas a mobiliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das manifesta\u00e7\u00f5es de rua, de ocupa\u00e7\u00f5es, de manifestos e de atos culturais, como debates, palestras, lan\u00e7amento de livros, de comunica\u00e7\u00e3o pelas redes sociais etc, tudo isso, que pode e deve continuar, tamb\u00e9m apresenta seus limites. O \u201cFora Temer\u201d pode ser ainda v\u00e1lido, mas n\u00e3o basta por si s\u00f3. Nesse contexto, o movimento pelo voto nulo, como oportunidade de mobiliza\u00e7\u00e3o ganharia sentido de alimentar, em Porto Alegre e algumas outras cidade, uma nova fase da luta contra o golpe e, mais ainda, contra a opera\u00e7\u00e3o mencionada inicialmente, de reocupa\u00e7\u00e3o dos destinos nacionais por interesses externos.<br \/>\nA essas alturas, j\u00e1 ficou bem evidente que a dita opera\u00e7\u00e3o j\u00e1 obteve mais um \u00eaxito, ocasional ou n\u00e3o, ao menos em termos locais. O \u201cgrande debate\u201d, a \u201cgrande luta\u201d foi substitu\u00edda pela disputa entre os \u201cpragm\u00e1ticos\u201d e os \u201cnulistas\u201d (em evidente deprecia\u00e7\u00e3o do que poderia at\u00e9 ser um debate instrutivo, se auto-limitado).<br \/>\nE ganha destaque n\u00e3o o debate sobre a trag\u00e9dia crescente, mas a compara\u00e7\u00e3o entre o grau de preju\u00edzo local de cada um dos candidatos. Discutem-se seus curr\u00edculos pol\u00edticos, ideol\u00f3gicos, administrativos, suas biografias e at\u00e9 a heran\u00e7a paterna do pretensamente mais moderno. Coteja-se o grau de \u201cpopulismo\u201d ou de \u201celitismo\u201d de cada um. Importam os apoios e a possibilidade de contradi\u00e7\u00f5es nas chapas (em uma; a conviv\u00eancia entre o partido que fez o golpe e o que foi contra; em outra, entre o partido que quer se implantar no estado e o que j\u00e1 est\u00e1 implantado mas n\u00e3o na capital).. Sup\u00f5e-se que o \u201cmenos pior\u201d poder\u00e1 mudar os rumos de uma pol\u00edtica local que tem representado a proje\u00e7\u00e3o local dos desmandos estaduais e nacionais.<br \/>\nFaz-se o progn\u00f3stico de que, sem os votos de esquerda, ganhar\u00e1 o \u201cmais pior\u201d, embora n\u00e3o haja nenhuma pesquisa que aponte o favorito.\u00a0 E se j\u00e1 houver esse favorito, n\u00e3o se sabe porqu\u00ea os ditos votos de esquerda poder\u00e3o inverter a situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA essas alturas, mais uma vez as esquerdas (\u00e9 sintom\u00e1tico que se as nomeie assim, enquanto se fala em \u201ca\u201d direita) est\u00e3o conseguindo o consenso da desuni\u00e3o. Faltando uns vinte dias para o segundo turno, obviamente perdeu-se a oportunidade de um movimento unit\u00e1rio de resist\u00eancia ao bloco biface que representa, localmente, todas as for\u00e7as contra as quais a milit\u00e2ncia, movimentos sociais e muita gente que foi tocada pela gravidade do golpe foi \u00e0s ruas, reuniu-se, comunicou-se, lutou e, acima de tudo, manteve as esperan\u00e7as.<br \/>\nCertamente, ganhe quem ganhar, mesmo seu projeto local n\u00e3o contemplar\u00e1 mais participa\u00e7\u00e3o, gest\u00e3o ambiental, qualifica\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica habitacional justa, pol\u00edtica urbana n\u00e3o subordinada aos interesses especulativos, sistema de transporte coletivo adequado, redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, atendimento a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua etc. Qualquer das chapas concorrente est\u00e1 longe de corresponder a essas expectativas. E no contexto da pol\u00edtica de austeridade, de nega\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e de privatiza\u00e7\u00e3o incentivadas pelo poder central, essa nega\u00e7\u00e3o da democracia participativa ser\u00e1 acentuada e demandar\u00e1 mais resist\u00eancia, den\u00fancia e oposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nResta a expectativa de que, passadas as elei\u00e7\u00f5es, a cidade volte a ser motivada por todos que lutam contra os golpes contra a educa\u00e7\u00e3o, a previd\u00eancia social, a sa\u00fade e, com toda a probabilidade dentro em pouco, contra outros atentados \u00e0 legalidade democr\u00e1tica e aos direitos de cidadania. E que, mesmo os que votaram contra \u201co menos pior\u201d, tenha ganhado ou n\u00e3o, possam voltar a incluir, nas lutas de n\u00edvel nacional ou estadual, a luta por uma cidade que possa voltar a ser a cidade da esperan\u00e7a e do \u201coutro mundo poss\u00edvel\u201d que j\u00e1 foi um dia.<br \/>\nMeu voto nulo tem esse significado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L. A. T. 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