{"id":40567,"date":"2016-10-18T20:59:07","date_gmt":"2016-10-18T23:59:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=40567"},"modified":"2016-10-18T20:59:07","modified_gmt":"2016-10-18T23:59:07","slug":"sobre-hegemonia-e-a-derrota-ideologica-da-ex-esquerda-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/sobre-hegemonia-e-a-derrota-ideologica-da-ex-esquerda-no-brasil\/","title":{"rendered":"Sobre hegemonia e a derrota ideol\u00f3gica da ex-esquerda no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha &#8211; Professor de ci\u00eancia pol\u00edtica e de rela\u00e7\u00f5es internacionais<br \/>\n<span class=\"intertit\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nAinda estamos de ressaca com o golpe branco recebido pela centro-esquerda. Refor\u00e7o a dimens\u00e3o da ressaca, pois al\u00e9m da mudan\u00e7a de regime \u00e0 f\u00f3rceps, insisto que o partido de governo (PT) abandonou \u2013 ao menos parcialmente &#8211; o par\u00e2metro de comportamento e pretens\u00e3o de operadores pol\u00edticos que n\u00e3o eram reprodutores das piores pr\u00e1ticas olig\u00e1rquicas no Brasil. Centro-esquerda \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o apropriada tamb\u00e9m porque ao abandonar o conflito social como forma primeira de obter conquistas coletivas, a coaliz\u00e3o do lulismo \u2013 com o PT \u00e0 frente \u2013 fez tudo o que afirmou que jamais faria quando se constituiu como ampla for\u00e7a reformista parcialmente radicalizada no final dos anos \u201970. Seguindo esta l\u00f3gica, a cr\u00edtica dos antigos partidos stalinistas seria correta em 1980. Se fosse para reproduzir o comportamento politico como se portara trinta anos depois, n\u00e3o haveria nem raz\u00e3o \u00e0 \u00e9poca para fundar o PT. Bastaria para os veteranos militantes se juntarem ao MDB (como o faziam de forma clandestina, mas tolerada, o antigo PCB e o PC do B) e aos ent\u00e3o ainda aut\u00eanticos sindicalistas, compor a frente entre stalinistas e pelegos, respaldando o sistema federativo com Joaquinz\u00e3o, Magri, Medeiros e outros pelegos hist\u00f3ricos.<br \/>\nO inverso se dera no per\u00edodo da Abertura pol\u00edtica (justificando a escolha pela funda\u00e7\u00e3o do PT) e ap\u00f3s o golpe parlamentar (afirmando as raz\u00f5es para as cr\u00edticas aqui contidas), caminhando a lideran\u00e7a hist\u00f3rica para a tenebrosa pinguela da saga orwelliana: \u201cquatro patas ruim duas patas bom\u201d. Nada disso \u00e9 novidade e este caminho que hoje parece inexor\u00e1vel, come\u00e7ou a ser tra\u00e7ado em 2003, aprofundou em 2005 e mergulhou de cabe\u00e7a na alian\u00e7a pol\u00edtica tra\u00e7ada pela dire\u00e7\u00e3o petista ao final de 2010. Acreditavam os dirigentes hist\u00f3ricos que bastaria se comportar como os \u201caliados\u201d olig\u00e1rquicos e fortalecer os la\u00e7os pol\u00edticos e empresariais, acomodando for\u00e7as e distribuindo cargos e prebendas, a exemplo da quase totalidade dos gestores do Estado brasileiro. Deu tudo errado e ao contr\u00e1rio. Levanto aqui uma hip\u00f3tese para esta trag\u00e9dia. Come\u00e7o pela equivocada e superficial concep\u00e7\u00e3o de \u201chegemonia\u201d. Talvez este seja o conceito mais poliss\u00eamico e tautol\u00f3gico de toda a tradi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da esquerda. Quase todas as for\u00e7as e formuladores o evocam, quase ningu\u00e9m o pratica com profundidade.<br \/>\nEngana-se quem imagina o debate sobre hegemonia restrito a ocupa\u00e7\u00e3o de postos-chave por aliados ou correligion\u00e1rios. Como as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito mais fortes do que a conduta da maioria dos indiv\u00edduos, logo, um debate de hegemonia de longo prazo teria de, necessariamente, visar democratizar os \u00f3rg\u00e3os de Estado (em tr\u00eas n\u00edveis de governo e distintos regimes jur\u00eddicos) que atendam fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. E, simultaneamente, quebrar a espinha dorsal das institui\u00e7\u00f5es de Estado que operam o entulho autorit\u00e1rio ou s\u00e3o garantidoras de ordem e privil\u00e9gio (como as for\u00e7as policiais ou mesmo \u00f3rg\u00e3os \u201cindependentes\u201d).<br \/>\nAo inv\u00e9s disso, a centro-esquerda entra com as duas patas no Poder Executivo e reproduz as piores pr\u00e1ticas olig\u00e1rquicas de sempre. Logo, a distribui\u00e7\u00e3o de certa melhoria material n\u00e3o veio acompanhada de elementos ideol\u00f3gicos de contesta\u00e7\u00e3o, mas sim de refor\u00e7o dos valores vigentes. Eis uma hip\u00f3tese para a brecha que corroeu o apoio da ex-presidenta e, diante do desafio estrat\u00e9gico, seu partido opta em 2013 a seguir na alian\u00e7a olig\u00e1rquica ao inv\u00e9s de romper primeiro, apostando na reforma pol\u00edtica com elementos de democracia direta.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O desmonte do Estado Social de Direito e a incapacidade de rea\u00e7\u00e3o imediata<\/span><br \/>\nA brecha aumentou at\u00e9 entrar em met\u00e1stase da nova direita (da\u00ed o viralatismo em sua vers\u00e3o coxinha e cibern\u00e9tico) e corroer a legitimidade do segundo governo Dilma Rousseff. Da corros\u00e3o ao cerco sobre o governo reeleito e a consuma\u00e7\u00e3o do golpe institucional foram passos lentos e seguros, dados pelos conspiradores, e com o aval e supervis\u00e3o do Departamento de Estado do Imp\u00e9rio.<br \/>\nA corros\u00e3o sobre e da centro-esquerda conseguiu colocar em pr\u00e1tica no Brasil o discurso da necessidade do austeric\u00eddio e a conten\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos. Esta agenda macabra est\u00e1 em andamento com a aprova\u00e7\u00e3o da PEC 241 em primeiro turno na segunda dia 10 de outubro e por maioria absoluta de 366 votos de deputados \u201cconvencidos\u201d pelo governo Temer e 111 contr\u00e1rios, totalizando votos de centro-esquerda e do reformismo (legitimo) do PSOL. Esta vota\u00e7\u00e3o \u00e9 uma parte do rolo compressor por vir e, o momento do pa\u00eds \u00e9 realmente grave. A urg\u00eancia \u00e9 tamanha que n\u00e3o cabe em um debate trivial e ultrapassa a dimens\u00e3o t\u00e1tica das agrupa\u00e7\u00f5es e as for\u00e7as pol\u00edticas na agenda eleitoral da subdemocracia, al\u00e9m do dia a dia da disputa de entidades esvaziadas ou conflito por migalhas de poder entre correntes pol\u00edtico-sindicais ou estudantis. O problema \u00e9 estrutural e \u00e9 preciso compreender a etapa.<br \/>\nEstamos em um momento de desmonte do Estado Social de Direito, o que efetivamente implica em retirar direitos atrav\u00e9s de um j\u00e1 conhecido pacote de leis regressivas. A dimens\u00e3o substantiva do golpe \u00e9 vis\u00edvel, e mesmo quando corretamente \u00e9 lembrado o fato de que a agenda regressiva j\u00e1 estava em andamento no segundo governo de Dilma Rousseff, a celeridade do andamento das pautas e o descaramento dessa montagem de maioria d\u00e1 a entender que o governo golpista vai aprovar tudo o que quiser ou puder. Logo, refor\u00e7ar a etapa de resist\u00eancia, para que os direitos n\u00e3o regridam e seja poss\u00edvel garantir os direitos sociais conquistados a partir de 1988, ou antes com a regula\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho, \u00e9 algo consensual.<br \/>\nMas, a etapa de resist\u00eancia tamb\u00e9m implica em construir outro projeto popular, ultrapassando o pacto de classes e a ilus\u00e3o de ocupar parcelas do Poder Executivo do Estado Burgu\u00eas e P\u00f3s-Colonial sem ter condi\u00e7\u00f5es de organizar um contragolpe ou avan\u00e7ar al\u00e9m da coaliz\u00e3o esp\u00faria com as oligarquias nefastas. Se n\u00e3o adentrarmos neste debate, fazendo uma profunda cr\u00edtica e exigindo a correspondente autocr\u00edtica de quem ainda tem perfil e compromisso militante mas mant\u00e9m os v\u00ednculos com o modelo anterior, simplesmente a possibilidade de gerar uma falsa hegemonia de centro-esquerda conciliat\u00f3ria \u00e9 muito grande.<br \/>\nEtapa de Resist\u00eancia e Cr\u00edtica por Esquerda ao Lulismo: dois passos fundamentais e concomitantes para reconstruir uma din\u00e2mica social de luta popular e protagonismo de quem mais precisa e est\u00e1 lutando para sobreviver.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Resist\u00eancia contra o golpe e cr\u00edtica por esquerda ao lulismo<\/span><br \/>\nPara realizar a segunda parte do que foi aqui predicado, \u00e9 necess\u00e1rio realmente aprofundar no debate e superar a superficialidade de uma pol\u00edtica marcada pelo senso comum. Uma vis\u00e3o equivocada de hegemonia e guerra de posi\u00e7\u00f5es \u00e9 quando uma for\u00e7a pol\u00edtica de centro-esquerda &#8211; ou seja, um partido que abdica de priorizar a luta e o antagonismo de classe &#8211; se contenta em ser coadministradora do Estado Capitalista ao inv\u00e9s de criar anteparos para que os estamentos tecnocr\u00e1ticos consigam impor suas vontades. Ao confundir a indica\u00e7\u00e3o para postos-chave com a redefini\u00e7\u00e3o do aparelho de Estado p\u00f3s-colonial, a centro-esquerda se torna ainda mais estatista, e como tal confunde &#8211; ou esquece &#8211; o interesse da maioria com a simples defesa do Estado p\u00f3s-colonial tal como ele \u00e9 ou est\u00e1.<br \/>\nO Estado Latino-Americano, como um todo, \u00e9 tanto p\u00f3s-Colonial (portanto, racista e anti-ecol\u00f3gico) como Burgu\u00eas (operando como defesa \u00faltima do status quo). Entre o nacionalismo popular e a defesa de interesses de classe dominante, as elites dirigentes do Estado majoritariamente optam pela segunda, em detrimento da proje\u00e7\u00e3o de poder deste pa\u00eds, mesmo que tenha de cortar na pr\u00f3pria carne, como na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato a partir da Opera\u00e7\u00e3o Pontes, bem debaixo do nariz da ABIN e dos sistemas de intelig\u00eancia das For\u00e7as Armadas.<br \/>\nAs escolhas do lulismo sempre foram no sentido da acomoda\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e coaliz\u00e3o de classes, confundindo a guerra de posi\u00e7\u00e3o com a disputa pela ocupa\u00e7\u00e3o de postos-chave e as grandes linhas de pol\u00edtica econ\u00f4mica, como na Nova Matriz de Guido Mantega. Ao fazer uma inflex\u00e3o maior do modelo, durante o primeiro mandato de Dilma, o lulismo esticou a corda ao m\u00e1ximo, sem contar com um plano B, e abrindo da rebeldia popular de 2013, ao criminalizar esta luta e se posicionar ao lado de indefens\u00e1veis e indecentes aliados circunstanciais olig\u00e1rquicos, tendo como pior exemplo o ex-governador do Rio de Janeiro S\u00e9rgio Cabral Filho (PMDB, mas ele pr\u00f3prio tendo cinco mandatos legislativos pelo PSDB do Rio). No Rio Grande do Sul, o ex-governador Tarso Genro viveu seu pesadelo Spartaquista, quando optou pela repress\u00e3o pol\u00edtica contra a esquerda a contrapor interesses da oligarquia local, com a RBS \u00e0 frente.<br \/>\n2013 foi o ano da virada; ao n\u00e3o acompanhar a inflex\u00e3o \u00e0 esquerda da rebeli\u00e3o popular por mais direitos, o primeiro governo Dilma corroeu sua pr\u00f3pria legitimidade, enterrada definitivamente nos primeiros meses do segundo mandato. Com a corda esticada e a Lava Jato em pleno andamento, a hegemonia superficial do PT e do lulismo s\u00f3 se verifica sobre a esquerda restante (incluindo a Frente Brasil sem Medo, o PSOL, a Coordena\u00e7\u00e3o Anarquista, as for\u00e7as de orienta\u00e7\u00e3o mao\u00edstas), isolando a luta social da luta ideol\u00f3gica. A hegemonia superficial mostrou-se falsa e a guerra de posi\u00e7\u00f5es com maioria de mercen\u00e1rios provou-se fr\u00e1gil quando o modelo econ\u00f4mico comodificado come\u00e7a a ruir.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Conclus\u00e3o: um movimento em dois tempos<\/span><br \/>\nA meta substantiva do golpe j\u00e1 dado, agora est\u00e1 em marcha acelerada, embora sua vers\u00e3o embrion\u00e1ria j\u00e1 existia no fat\u00eddico e tr\u00e1gico ano de 2015, com Eduardo Cunha manobrando \u00e0 vontade na C\u00e2mara dos Deputados. Agora a etapa exige resist\u00eancia, mas refor\u00e7ando a necessidade de fazer a cr\u00edtica da supera\u00e7\u00e3o ao lulismo e a falsa ideia de hegemonia superficial.<br \/>\n(<a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com <\/a>para E-mail e Facebook)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha &#8211; Professor de ci\u00eancia pol\u00edtica e de rela\u00e7\u00f5es internacionais Introdu\u00e7\u00e3o Ainda estamos de ressaca com o golpe branco recebido pela centro-esquerda. 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