{"id":40714,"date":"2016-10-23T10:21:47","date_gmt":"2016-10-23T13:21:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=40714"},"modified":"2016-10-23T10:21:47","modified_gmt":"2016-10-23T13:21:47","slug":"por-que-tanta-dor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/por-que-tanta-dor\/","title":{"rendered":"Por que tanta dor?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jorge Barcellos<\/strong> \u2013 Doutor em Educa\u00e7\u00e3o\/UFRGS<br \/>\nO suic\u00eddio de Pl\u00ednio Zalewski Vargas aponta para a urg\u00eancia de rever o modo como Porto Alegre faz pol\u00edtica.<br \/>\nConhecia Pl\u00ednio Zalewski Vargas h\u00e1 mais de 30 anos. Sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica e intelectual impec\u00e1vel e seu humor caracterizavam um cidad\u00e3o que amava a vida, sua fam\u00edlia e a cidade. Seu suic\u00eddio precisa ter sentido, pensei imediatamente quando soube da trag\u00e9dia.\u00a0 Fui pesquisar o assunto: na base Scielo encontramos 235 artigos a respeito do tema e n\u00e3o encontrei nenhum estudo que trate de motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do suic\u00eddio. Nenhum. Alguns apontam pessoas vi\u00favas e aquelas ocupadas na agropecu\u00e1ria com um \u00edndice maior; outros apontam o aumento dos suic\u00eddios na popula\u00e7\u00e3o masculina para homens com menos de 40 anos mas as idades variam conforme os estudos; outros defendem como fatores determinantes o desemprego, o estresse econ\u00f4mico e a instabilidade familiar.\u00a0 Pl\u00ednio n\u00e3o se enquadrava em nenhuma delas \u201cO suic\u00eddio enquanto objeto de reflex\u00e3o te\u00f3rica apresenta-se como um universo avesso a classifica\u00e7\u00f5es excessivamente constritivas\u201d afirma Meneguel (2004).<br \/>\nMesmo os estudos que associam o suic\u00eddio com depress\u00e3o n\u00e3o encaixam no caso de Pl\u00ednio ou os que optam por linhas de investiga\u00e7\u00e3o menos formal, ditos \u201cp\u00f3s-modernos\u201d. Moraes (2006) tentou identificar as caracter\u00edsticas da mente suicida a partir da narrativa do filme \u201cAs horas\u201d de Stephen Daldry que trata de pessoas com quadros depressivos em diferentes \u00e9pocas. Mesmo a personagem Laura Brown, interpretada por Juliane Moore, opta por um suic\u00eddio por ingest\u00e3o de comprimidos como forma de n\u00e3o sentir dor ou ferimentos, ao contr\u00e1rio de Pl\u00ednio. No entanto, estudos apontam que pelo menos 10% da pessoas que cometem suic\u00eddio s\u00e3o aparentemente normais e os psiquiatras denominam de \u201caut\u00f3psia psicol\u00f3gica\u201d o diagn\u00f3stico a partir de depoimentos de fontes pr\u00f3ximas.Os depoimentos de amigos nos jornais tem dificuldade de acreditar no que aconteceu.<br \/>\nEnt\u00e3o como isso foi poss\u00edvel? A melhor hip\u00f3tese que encontrei para mim foi a dada por Flavia Pinhal de Carlos e Marta Regina de Le\u00e3o D\u2019Agord em seu estudo \u201cO lugar obsceno do suic\u00eddio\u201d. Se o obsceno \u00e9 o que n\u00e3o pode ser mostrado, a ideia \u00e9 que o suic\u00eddio pode ter um lugar obsceno. Como na sexualidade, o obsceno \u00e9 o \u201cmomento m\u00edtico, onde uma narrativa \u00e9 criada para dar conta desse real inapreens\u00edvel\u201d. Fora de cena, o que n\u00e3o pode ser mostrado, o que n\u00e3o pode ser falado, a cena fantasm\u00e1tica \u00e9 o que \u201cdistingue os registros do mundo e da cena\u201d. Toda a vida de Pl\u00ednio foi marcada pelo significante pol\u00edtico, era o mundo da urbe e da civitas que davam os marcos de seu mundo: sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade era sua forma de n\u00e3o sucumbir na vida e a defesa da civilidade era o anteparo que funcionava como um fantasma que n\u00e3o deixava seu mundo cair. Mas o mundo pol\u00edtico que Plinio vislumbrou nas elei\u00e7\u00f5es era totalmente diverso, estava al\u00e9m da cena a qual estava acostumado, era, numa palavra, obsceno.<br \/>\nO obsceno \u00e9 caracterizado por uma perda de dist\u00e2ncia e o excesso de proximidade de Pl\u00ednio com os ataques pol\u00edticos, a persegui\u00e7\u00e3o de que foi v\u00edtima, a suposta invas\u00e3o a seu celular e seu computador e as amea\u00e7as a sua fam\u00edlia lhe mostraram que algo estava fora do lugar, do jogo pol\u00edtico \u00a0\u201cO obsceno \u00e9 duplo, se encontra entre dois\u201d, e no caso, entre Pl\u00ednio e seus perseguidores. Como o obsceno, o que mais o afligia era que estes conflitos escapassem, que escorregassem para sua vida privada, exatamente como veio a acontecer nos movimentos das redes sociais \u201cO obsceno \u00e9 aquilo ao qual se d\u00e1 uma olhada e depois se recha\u00e7a\u201d: n\u00e3o foi exatamente assim que reagiu Pl\u00ednio ao v\u00eddeo que circulou nas redes e apontado como motivo de depress\u00e3o e que provocou, para surpresa de seu criador, que se demitisse da assembleia, pois \u201cexibiu o que o espectador n\u00e3o consegue ver, se nega a ver\u201d?<br \/>\nMas h\u00e1 diferen\u00e7as. Enquanto as autoras tecem considera\u00e7\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es entre suic\u00eddio, obsceno e o campo das artes, \u00e9 preciso ver as semelhan\u00e7as do obsceno com a pol\u00edtica.\u00a0 Isso \u00e9 f\u00e1cil. Enquanto o obsceno mostra e for\u00e7a o olhar, a pol\u00edtica seduz, busca convencer. Trata-se portanto, de um encontro poss\u00edvel, j\u00e1 que a pol\u00edtica quer dar ao olhar uma dire\u00e7\u00e3o. Ao vislumbrar a dimens\u00e3o perversa da pol\u00edtica, conflito no campo pessoal que seu olhar n\u00e3o pode apreender, que estava fora \u201cdo campo vis\u00edvel [que] trazem consigo o horror\u201d como o olhar a morte e o sol e que \u201cimplica o desaparecimento do sujeito, na cegueira\u201d. O que isto significa: que Pl\u00ednio vislumbrou o lado obsceno da pol\u00edtica, em maior ou menor grau, de um lado e de outro, algo foi colocado na cena da pol\u00edtica que n\u00e3o poderia ali estar \u201ccomo \u00c9dipo ao ver seus pr\u00f3prios olhos no ch\u00e3o\u201d. Ao contr\u00e1rio do que defende seu diretor, o v\u00eddeo foi sim o disruptor de sua depress\u00e3o: enquanto que para o cinegrafista o v\u00eddeo era \u00a0gozo,\u00a0 o schaulust de que falam os autores, o gozo do espetacular,\u00a0 para Pl\u00ednio era o horror, esse ultrapassamento de todos os limites, foi a vis\u00e3o obscena em que se transformou a pol\u00edtica da capital que o matou, ela se transformou naquilo que ele n\u00e3o podia ver \u201cO signo que conduz a vida, \u00e0 exist\u00eancia, \u00e9 o mesmo que conduz a morte (&#8230;) o evento fatal n\u00e3o \u00e9 aquele que se pode explicar por suas causas, e sim aquele que, em um dado momento, contradiz todas as causalidades, aquele que vem de algum outro lugar (..) mas apelar para as causas a fim de justificar os meios \u00e9 sempre um \u00e1libi: n\u00e3o esgotaremos dessa maneira o sentido, ou a falta de sentido, de um acontecimento\u201d diz o fil\u00f3sofo Jean Baudrillard em Senhas (Difel, 2001).<br \/>\nA campanha pol\u00edtica jogou com a vida de Pl\u00ednio colocando-o numa \u201cexperi\u00eancia silenciosa\u201d (p.47) e ainda que a autora remeta a figuras da psican\u00e1lise, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a \u201cexperi\u00eancia limite\u201d vivida pelo escritor, onde lhe faltaram imagens em que pudesse se reconhecer. Culpa do partido e do candidato que apoiava por n\u00e3o perceber a fragilidade de seu mais devotado apoiador; culpa do partido e do candidato opositor que permitiu que grupos radicais de extrema direita o apoiassem. Assim como o obsceno tem rela\u00e7\u00e3o com o que ataca o pudor, Pl\u00ednio viu uma pol\u00edtica sem pudores, sem regras, uma dimens\u00e3o que nunca havia visto e que n\u00e3o imaginava pudesse existir em tamanha intensidade.\u00a0 Como a obscenidade que exige uma vontade de mostrar, Pl\u00ednio viu-se diante do horror de imagens e palavras que se dirigiam a ele e sua fam\u00edlia \u201co obsceno seria o que permite jogar com a morte mediante imagens\u201d dizem as autoras, quer dizer, estava tudo ali, a pol\u00edtica colocada para ele mostrava tudo, expunha suas entranhas ao inesperado, as agress\u00f5es \u00e0 fam\u00edlia \u201co que h\u00e1 de obsceno na pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 a pornografia de seus gestos, mas a rela\u00e7\u00e3o com a sua morte que anuncia\u201d.<br \/>\nComo pensar o encontro volunt\u00e1rio com a pr\u00f3pria morte? Essa conting\u00eancia que levou Pl\u00ednio, essa confus\u00e3o dos signos do mundo, do amor \u00e0 pol\u00edtica a recusa ao gozo do Outro repete estruturas apontadas por Ferreira (2012) \u201dquando algo falha, que o desejo n\u00e3o pode ser o desejo do Outro, quando algu\u00e9m n\u00e3o pode fazer o seu desejo como o desejo do Outro, quanto isto falha, isto \u00e9 fatal com respeito ao suic\u00eddio\u201d (p.22). O suic\u00eddio de Pl\u00ednio \u00e9 o alerta a sociedade que, do jeito que a pol\u00edtica est\u00e1 n\u00e3o pode ficar, o que est\u00e1 em jogo no campo simb\u00f3lico de seu gesto \u00e9 o grito de que nossas pr\u00e1ticas pol\u00edticas precisam mudar.\u00a0 Urgentemente. Seu ato \u00e9 um significante para toda uma capital, estamos todos de alguma forma vinculados a sua tr\u00e1gica morte por nossas a\u00e7\u00f5es ou omiss\u00f5es. Seu ato \u00e9 contra esta forma de fazer pol\u00edtica caracterizada por disputa sem limites, \u00e9tica e valores \u201cEsse signo, contudo, n\u00e3o \u00e9 para quem comete o ato, mas sim para os que ficam. Trata-se do signo da exist\u00eancia de algu\u00e9m\u201d (p.51). Nossos \u00f3dios via internet, nossa falta de debate de ideias, nossa falta de respeito, a tudo isto Pl\u00ednio respondeu com seu sil\u00eancio, uma li\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 pol\u00edtica como ela deve ser e que fez da \u00fanica forma que encontrou \u201ca ruptura absoluta, uma n\u00e3o media\u00e7\u00e3o do outro, no sil\u00eancio\u201d. Para Pl\u00ednio, a pol\u00edtica se tornou um horror que s\u00f3 dando esse passo a mais, acessando um horror mais fundamental &#8211; a morte \u2013 ele poderia se tranquilizar. Essa \u00e9 a mensagem: precisamos urgentemente reformar a vida pol\u00edtica na cidade, li\u00e7\u00e3o de um pai amoroso que queria um mundo melhor para seus filhos.<br \/>\nPara as autoras \u201co suic\u00eddio\u00a0 \u00e9 um ato no qual por mais que se pretenda decifrar os motivos que levam a um sujeito a realiz\u00e1-lo, este n\u00e3o est\u00e1 ali para ser interpelado\u201d. \u00a0Se para Pl\u00ednio, como revela seu bilhete, sua inquieta\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele n\u00e3o podia lidar com as consequ\u00eancias de sua a\u00e7\u00e3o \u2013 a tristeza da fam\u00edlia e dos amigos \u2013 cabe aos sobreviventes lidar de alguma forma com os significados dela. Para mim, sua mensagem eterniza na nossa mem\u00f3ria que vivemos tempos de uma pol\u00edtica absurda e que isso tem de parar. Seu gesto molesta a todos n\u00f3s e isso \u00e9 bom, convoca nosso olhar, convoca o olhar dos candidatos e suas equipes e os obrigam a perguntar \u201cporqu\u00ea\u201d: como afirmou Sebasti\u00e3o Melo, o candidato a que dedicou seu trabalho e amizade, sua morte n\u00e3o pode ser em v\u00e3o. Mas em que sentido: ela precisa desvelar a tela que encobre o vazio e a agressividade de nossa pol\u00edtica, ela precisa ser um apelo \u00e0 paz nas campanhas pol\u00edticas, um apelo \u00e0 paz na vida nas cidades e em nosso modo de vida, \u00a0que ele tentou\u00a0 tantas vezes cultivar com suas reflex\u00f5es sobre convivialidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Barcellos \u2013 Doutor em Educa\u00e7\u00e3o\/UFRGS O suic\u00eddio de Pl\u00ednio Zalewski Vargas aponta para a urg\u00eancia de rever o modo como Porto Alegre faz pol\u00edtica. Conhecia Pl\u00ednio Zalewski Vargas h\u00e1 mais de 30 anos. 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