{"id":41122,"date":"2016-11-05T15:54:58","date_gmt":"2016-11-05T18:54:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=41122"},"modified":"2016-11-05T15:54:58","modified_gmt":"2016-11-05T18:54:58","slug":"quatro-projetos-de-brasil-e-suas-relacoes-com-a-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/quatro-projetos-de-brasil-e-suas-relacoes-com-a-america-latina\/","title":{"rendered":"Quatro projetos de Brasil e suas rela\u00e7\u00f5es com a Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><u><strong>Bruno Lima Rocha<\/strong> &#8211; Professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<br \/>\n<\/u><br \/>\nSe pensarmos tanto em termos geopol\u00edticos, como nas teorias do desenvolvimento tardio, n\u00e3o encontraremos especificamente as chaves de interpreta\u00e7\u00e3o para o processo incompleto pelo qual o Brasil atravessa. Temos de ir al\u00e9m das reprodu\u00e7\u00f5es de manuais produzidos nos pa\u00edses do centro do capitalismo, EUA, Europa e os pa\u00edses anglo-sax\u00f5es. Assim, partindo dessas afirma\u00e7\u00f5es, neste breve texto de car\u00e1ter ensa\u00edstico, exponho o problema da colonialidade das identidades, da coloniza\u00e7\u00e3o do poder de Estado e o sentido de pertencimento esquizofr\u00eanico que organiza as elites dirigentes e classes dominantes nacionais ou atuando no Brasil.<br \/>\n<span class=\"intertit\"><strong>Brasil e Am\u00e9rica Latina, um processo inacabado\u00a0 <\/strong><\/span><br \/>\nDentro do Sistema Internacional (SI), os Estados e seus dom\u00ednios territoriais formalizados s\u00e3o os agentes preferenciais \u2013 mas n\u00e3o exclusivos \u2013 dos grandes foros e inst\u00e2ncias. Entre Estados \u2013 e n\u00e3o apenas governos de turno \u2013 se constroem alian\u00e7as, acordos de coopera\u00e7\u00e3o e processos de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dentro dos marcos do capitalismo. As rela\u00e7\u00f5es internacionais terminam sendo confundidas com rela\u00e7\u00f5es interestatais ou ent\u00e3o entre Estados e suas transnacionais (TNCs). Infelizmente, o que vale para o c\u00e1lculo pol\u00edtico externo acaba sendo revalidado para o c\u00e1lculo dom\u00e9stico, sendo o efeito ainda mais nefasto.<br \/>\nMesmo com todas as cr\u00edticas \u2013 merecidas por sinal \u2013 a Teoria da Depend\u00eancia nos aporta uma constata\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m do envio de lucro e da subordina\u00e7\u00e3o dentro da Divis\u00e3o Internacional do Trabalho (DIT), a reprodu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia \u00e9 intrinsecamente ligada aos dom\u00ednios internos. Assim, pela triste tradi\u00e7\u00e3o dos europeus de Am\u00e9rica, os antigos s\u00faditos dos reis de Portugal e Espanha, ao ocuparem os postos-chave das institui\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais, terminam aprofundando a depend\u00eancia externa, trocando de metr\u00f3pole e mantendo a base de economia prim\u00e1ria ou de industrializa\u00e7\u00e3o incompleta. No Brasil ocorre isso, sendo que o Imp\u00e9rio Luso-brasileiro substitui no s\u00e9culo XIX e depois no XX, a pot\u00eancia diante da qual nosso pa\u00eds se subordinava. Primeiro fomos avassalados da Inglaterra e depois dos Estados Unidos, sendo que em termos de sistemas culturais, a Fran\u00e7a ocupou um espa\u00e7o privilegiado do per\u00edodo do Reino Unido at\u00e9 os anos \u201830.<br \/>\nA partir da d\u00e9cada de 1930, com a fase da Industrializa\u00e7\u00e3o pela Substitui\u00e7\u00e3o de Importa\u00e7\u00f5es (ISI), nossos pa\u00edses entraram na aventura do desenvolvimento tardio, sendo que este era confundido com pol\u00edticas de moderniza\u00e7\u00e3o baseadas em ind\u00fastria, urbaniza\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o massiva e agricultura de intensidade. Al\u00e9m dos fatores econ\u00f4micos, o desenvolvimento implicava na constru\u00e7\u00e3o de um aparelho de Estado que coordenasse o caminho do \u201cprogresso\u201d, tomando a natureza (os biomas) como inimiga, e tendo como meta permanente a conquista do territ\u00f3rio para garantir o dom\u00ednio do Estado sobre as dimens\u00f5es do pa\u00eds. A utopia do desenvolvimento, marco do nacionalismo estatista, atravessa o conjunto da Am\u00e9rica Latina, tendo como express\u00f5es m\u00e1ximas a Vargas no Brasil (1930-1945 e depois entre 1951 e 1954), Per\u00f3n na Argentina (1946-1955, o segundo governo, de 1973 a 1974 realmente n\u00e3o conta como sendo desenvolvimentista) e L\u00e1zaro C\u00e1rdenas no M\u00e9xico (1934-1940).<br \/>\nEste foi o paradigma m\u00e1ximo do \u201cdesenvolvimento\u201d \u2013 Estado, ex\u00e9rcito, ind\u00fastria, fronteiras agr\u00edcolas, substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, burguesia nacional &#8211; cujo problema foi aprofundado por brilhantes intelectuais latino-americanos, como Celso Furtado, que destoava da m\u00e9dia por reconhecer a categoria de cultura como chave para o futuro coletivo de nosso pa\u00eds. Podemos, sem exageros, aplicar as generaliza\u00e7\u00f5es vulgares e comparar o mapa pol\u00edtico do Brasil p\u00f3s-golpe branco de 2016 e seus alinhamentos com os poderes externos. Tomando como base a dualidade metr\u00f3pole-col\u00f4nia e centro-periferia, vemos alguns projetos conflitivos coexistindo j\u00e1 dentro do per\u00edodo lulista: o entreguismo transnacional; o crescimento liberal-perif\u00e9rico; o desenvolvimento estrat\u00e9gico dentro do capitalismo e os projetos emancipat\u00f3rios.<br \/>\nOs projetos emancipat\u00f3rios \u2013 cujo eixo central \u00e9\u00a0 o controle territorial por comunidades inteiras &#8211; n\u00e3o passaram de alguns momentos de enuncia\u00e7\u00e3o, tendo como auge as t\u00edmidas pol\u00edticas de reconhecimento (como a de cotas). O desenvolvimento estrat\u00e9gico pouco se viu, porque nas cadeias de valor sens\u00edvel, como por exemplo na escolha do padr\u00e3o de TV digital, o pa\u00eds em um per\u00edodo do governo Lula (2006-2007), perdeu a oportunidade de ter ci\u00eancia de ponta e em escala, ao definir por decreto o padr\u00e3o japon\u00eas de alta defini\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o crescimento foi a via escolhida, sem romper com o modelo liberal-perif\u00e9rico, aprofundando a import\u00e2ncia de commodities de exporta\u00e7\u00e3o (como soja, min\u00e9rio de ferro, petr\u00f3leo bruto, a\u00e7\u00facar de cana, caf\u00e9, carne de frango, res\u00edduos de soja e pastas qu\u00edmicas de madeira) e expandindo a fronteira agr\u00edcola para regi\u00f5es como o oeste baiano, o sul do Piau\u00ed e do Maranh\u00e3o e o norte do Tocantins. Na esteira da comodifica\u00e7\u00e3o ainda maior de nossa economia, o latif\u00fandio e o agroneg\u00f3cio ousaram entrar em choque com o marco constitucional onde temos \u2013 ainda \u2013 mais de 40% de nosso territ\u00f3rio preservado (dando andamento na PEC 215, a chamada PEC do genoc\u00eddio) e antes modificando o C\u00f3digo Florestal Brasileiro, em dezembro de 2011. Por fim, o modelo de ades\u00e3o total aos capitais transnacionais, anda lado a lado com o rentismo, sendo que este conviveu com o crescimento liberal-perif\u00e9rico, e agora, na fase p\u00f3s-golpe, ultrapassa o problema da desindustrializa\u00e7\u00e3o e aponta para a desnacionaliza\u00e7\u00e3o de todas as cadeias de valor, incluindo a propriedade de terras agricultur\u00e1veis.<br \/>\nFazendo o paralelo de sistemas culturais com as proje\u00e7\u00f5es de futuro do pa\u00eds \u2013 e por tabela, de nossas estrat\u00e9gicas rela\u00e7\u00f5es dentro da Am\u00e9rica Latina \u2013 identificamos o entreguismo transnacional com o viralatismo cl\u00e1ssico e a ades\u00e3o aos padr\u00f5es estadunidenses, anglo-sax\u00f5es e europeus; j\u00e1 o crescimento liberal-perif\u00e9rico \u00e9 essencialmente euroc\u00eantrico, mas tenta a cria\u00e7\u00e3o de um empresariado com pretens\u00f5es de poder no SI e um Estado que sustente esta expans\u00e3o; o desenvolvimento em termos estrat\u00e9gicos e sist\u00eamicos implica em disputar poder no SI com padr\u00f5es semelhantes aos das pot\u00eancias m\u00e9dias, logo, torna-se uma potencial hostilidade \u00e0 superpot\u00eancia, mesmo que tamb\u00e9m reproduza padr\u00f5es euroc\u00eantricos de sistemas culturais.<br \/>\n<span class=\"intertit\"><strong>O projeto emancipat\u00f3rio \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda de longo prazo<\/strong><\/span><br \/>\nJ\u00e1 os projetos emancipat\u00f3rios s\u00e3o a base do protagonismo popular de um pa\u00eds e Continente que est\u00e1 ao Sul do mundo e tem o perfil indo-afro-latinoamericano. Dentro dos quatro, forma o \u00fanico conjunto que ultrapassa tanto as teses estadoc\u00eantricas como as entreguistas, apontando para o ac\u00famulo de poder popular poss\u00edvel em etapas distintas rumo \u00e0 uma ruptura da reprodu\u00e7\u00e3o da colonialidade e, por consequ\u00eancia, do colonialismo interno que se verifica \u2013 em distintas escalas &#8211; nos tr\u00eas projetos anteriores.<br \/>\nO futuro de nossas sociedades est\u00e1 diretamente vinculado \u00e0 descoloniza\u00e7\u00e3o interna, a valoriza\u00e7\u00e3o dos saberes e fazeres origin\u00e1rios e tradicionais e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das cadeias de valor \u2013 como f\u00e1rmacos e sementes nativas\u00a0 \u2013 que possam ser desenvolvidas a partir destas comunidades decoloniais por sua pr\u00f3pria resist\u00eancia hist\u00f3rica.<br \/>\n(<a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\">www.estrategiaeanalise.com.br<\/a> \/ <a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> para E-mail e Facebook)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha &#8211; Professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Se pensarmos tanto em termos geopol\u00edticos, como nas teorias do desenvolvimento tardio, n\u00e3o encontraremos especificamente as chaves de interpreta\u00e7\u00e3o para o processo incompleto pelo qual o Brasil atravessa. 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