{"id":41286,"date":"2016-11-13T12:18:34","date_gmt":"2016-11-13T15:18:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=41286"},"modified":"2016-11-13T12:18:34","modified_gmt":"2016-11-13T15:18:34","slug":"o-passado-e-o-presente-ideologias-classicas-reflexoes-contemporaneas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/o-passado-e-o-presente-ideologias-classicas-reflexoes-contemporaneas\/","title":{"rendered":"O passado e o presente: ideologias cl\u00e1ssicas, reflex\u00f5es contempor\u00e2neas"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7o esse texto, sobre o momento que vivemos \u2013 ressaca eleitoral 2016, PEC 241 \/ 55, elei\u00e7\u00e3o de Trump nos EUA etc. \u2013, lembrando tr\u00eas ideologias cl\u00e1ssicas da modernidade ocidental, tentando estabelecer uma ponte com o passado, ou entender no que ele ainda nos influencia hoje: <b>liberalismo, conservadorismo e socialismo<\/b>. O primeiro emerge, em suas tr\u00eas dimens\u00f5es (filos\u00f3fica, pol\u00edtica e econ\u00f4mica), no \u00e2mbito da revolu\u00e7\u00e3o francesa, situando meio grosseiramente numa linha de tempo simplificada.<br \/>\nA burguesia ascendente queria poder pol\u00edtico, uma vez que o econ\u00f4mico j\u00e1 estava conquistando; John Locke foi o contratualista respons\u00e1vel por elaborar a justificativa filos\u00f3fica para o ac\u00famulo de lucro, ligando a propriedade privada ao direito natural; e tamb\u00e9m \u00e0 liberdade, sendo essa conex\u00e3o levada a um extremo de fundir ambos os conceitos num s\u00f3, como se fossem sin\u00f4nimos (propriedade privada = liberdade). Esse processo \u00e9 justamente a preponder\u00e2ncia do liberalismo econ\u00f4mico sobre as duas outras dimens\u00f5es, \u00e0s quais a ideia de igualdade de oportunidades e de direitos pol\u00edticos era cara.<br \/>\nO estado liberal organizou-se, assim, de forma excludente; pela liberdade e igualdade, mas prioritariamente \u2013 ou seria somente? &#8211; dos propriet\u00e1rios, da \u201ccasta superior\u201d que detinha propriedade privada. Mesmo que esta tivesse se constitu\u00eddo por um processo violento de expropria\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o familiar, artesanal, camponesa e corporativa, na dissolu\u00e7\u00e3o da sociedade feudal; e por outro lado atrav\u00e9s de saques, especula\u00e7\u00e3o comercial, tr\u00e1fico de escravos e monop\u00f3lios mercantis, que foram enormes oportunidades de enriquecimento r\u00e1pido para uma parcela da burguesia em ascens\u00e3o. Mas o que \u00e9 feio, o capitalismo sempre escondeu; como hoje esconde a sonega\u00e7\u00e3o das grandes empresas, a exemplo da m\u00eddia local que nada noticia sobre a opera\u00e7\u00e3o Zelotes. Ou que 45% do or\u00e7amento nacional no Brasil vai para os rentistas, via juros e amortiza\u00e7\u00f5es da \u201cd\u00edvida p\u00fablica\u201d. Psiu&#8230;! Temos que vender a ideia de que quem \u00e9 muito rico o \u00e9 por merecimento, muito trabalho, qualidades excepcionais&#8230;!<br \/>\nMas esse neg\u00f3cio vem de antes do capitalismo ser \u201cinventado\u201d, a bem da verdade. A \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d da concentra\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios para os \u201csuperiores\u201d vem desde os tempos da democracia grega, que era <i>para poucos<\/i>, apenas <b>homens brancos<\/b>, <b>livres<\/b> e <b>atenienses<\/b>, que n\u00e3o precisavam ocupar-se do trabalho bra\u00e7al efetuado pelos escravos, ou de reprodu\u00e7\u00e3o da vida, efetuado pelas mulheres, podendo dedicar-se \u00e0 delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na sua \u00c1gora por horas a fio. Tsc, tsc,tsc&#8230; parece que o nosso mundo ocidental n\u00e3o consegue mesmo se livrar da sua obsess\u00e3o exclusivista e de particularismos excludentes. O capitalismo, ao tornar-se hegem\u00f4nico, traz, contudo, algumas novidades a essa tend\u00eancia at\u00e1vica da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<br \/>\nO processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital possibilitou a expropria\u00e7\u00e3o das terras e meios de produ\u00e7\u00e3o dos camponeses e dos artes\u00e3os, que viraram o famoso proletariado, possuidor apenas da sua for\u00e7a de trabalho, concentrando nas m\u00e3os de uma parcela minorit\u00e1ria a propriedade da riqueza. Bom, alguns passaram a considerar injusta e irracional a economia de mercado capitalista, competitiva e excludente. Foram os <b>socialistas ut\u00f3picos<\/b>, que acreditavam na fraternidade universal e na vida em comunidades. Depois veio o intitulado <b>socialismo cient\u00edfico<\/b> de Marx e Engels, que alguns procuradores hoje confundem com Hegel, aquele elitista, mas que tanto influenciou Marx (risos!).<br \/>\nMeu professor de filosofia, Carlos Roberto Cirne Lima, contava em aula que no tempo da ditadura foi interrogado pela pol\u00edcia, agressivamente, e perguntado que hist\u00f3ria era aquela de fazer uma tese sobre Hegel, \u201cesse aluno de Marx\u201d! Ele respondeu, \u201cOlha, \u00e9 mais ou menos o contr\u00e1rio, e ainda tinha o Feuerbach no meio&#8230;\u201d (Mais risos!).<br \/>\nO objetivo do capitalista \u00e9 a procura do maior lucro poss\u00edvel e quanto maior for o capital, mais elevados ser\u00e3o os lucros, sendo <b>a acumula\u00e7\u00e3o<\/b> o meio para atingir esse fim. Esta caracter\u00edstica distingue o capitalismo dos sistemas anteriores de sacanagem institucionalizada e legitimada como \u201cmerecimento\u201d \u2013 seja por heran\u00e7a, seja por esperteza &#8211; da \u201ccasta superior\u201d.<br \/>\nAs ideias de liberdade \u2013 esta identificada com a propriedade privada &#8211; tinham de ser defendidas por um novo regime pol\u00edtico, diferente do teocr\u00e1tico e absolutista, que se fundamentava na ideia da origem divina do poder e da justi\u00e7a. Mas o objetivo era garantir a ordem e a conserva\u00e7\u00e3o da propriedade privada, e os ecos desse passado a gente ainda ouve hoje, quando a Regina Duarte vai na m\u00eddia dizer que \u201co direito \u00e0 propriedade \u00e9 inalien\u00e1vel\u201d\u00b9, com a tragicidade costumeira de suas personagens&#8230;!<br \/>\nO conceito de liberdade, aqui, \u00e9 fundamental de ser discutido; a liberdade de cunho liberal \u00e9 <i>negativa<\/i>, limitando-se \u00e0 aus\u00eancia de interfer\u00eancia. A liberdade <i>positiva <\/i>relaciona-se com a <i>cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es<\/i> para que as pessoas sejam livres, e implica em fazer algo, em participar e agir. A concep\u00e7\u00e3o de Amartya Sen permite complementaridade entre as abordagens, trazendo tanto a ativa\u00e7\u00e3o das capacidades, quanto a aus\u00eancia de depend\u00eancia e de interfer\u00eancia, envolvendo uma pluralidade de conceitos inter-relacionados, como liberdades substantivas, capacidades e oportunidades. Para ele uma <b>teoria da justi\u00e7a<\/b> pode atentar para todos esses aspectos. O autor tenta buscar fundamentos do que seria uma sociedade <b>justa<\/b> (Locks Filho, 2014).<br \/>\nMas voltando \u00e0 \u00e9poca passada em quest\u00e3o, diante das mudan\u00e7as que revolucionavam e tentavam enterrar o Anci\u00e9n R\u00e9gime, o <b>conservadorismo<\/b> buscava por sua vez afirmar que havia uma \u201cordem natural das coisas\u201d; que a sociedade <b>n\u00e3o<\/b> era fruto da constru\u00e7\u00e3o humana, mas sim da vontade divina ou da tend\u00eancia natural e inata dos homens, a depender da cren\u00e7a do conservador em quest\u00e3o. Desse modo, tentar transform\u00e1-la \u2013 ainda mais radicalmente -, era imoral, err\u00f4neo e at\u00e9 criminoso. Era subverter a natureza das coisas; e o <i>subverter<\/i> tinha de ser transformado em <i>crime<\/i>. A constru\u00e7\u00e3o da figura do \u201csubversivo\u201d talvez tenha come\u00e7ado com Edmund Burke, o \u201cpai do conservadorismo\u201d&#8230;<br \/>\nPara os conservadores, a sociedade e as formas de vida s\u00e3o calcadas na autoridade da ordem vigente. As no\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia, propriedade, p\u00e1tria, religi\u00e3o, s\u00e3o \u201ceternas\u201d, n\u00e3o devem mudar e expressam a \u201creal\u201d inclina\u00e7\u00e3o humana. A autoridade \u00e9 imanente e deve ser cultuada, para a ordem das coisas prosperar (\u201cordem e progresso\u201d diz algo pra vcs, lembra o governo golpista atualmente instalado no Brasil? Isso que nem vou citar o positivismo de Auguste Comte nesse texto. Fica pra um pr\u00f3ximo&#8230;).<br \/>\nO arqu\u00e9tipo geral do autoritarismo pode ser identificado com a direita pol\u00edtica. A direita n\u00e3o gosta de mudan\u00e7as, muito menos das radicais e n\u00e3o planejadas pelas elites. Agora vou estabelecer uma \u00f3bvia rela\u00e7\u00e3o entre o conservadorismo e um tipo especifico de liberalismo (existem v\u00e1rios, assim como existem v\u00e1rios socialismos), hostil \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da igualdade de oportunidades: o neoliberalismo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Hayek e Burke s\u00e3o tidos como irm\u00e3os de alma e pensamento: os caras tinham muito em comum\u00b2. Reivindicavam um tipo de \u201cacesso privilegiado ao real\u201d, o \u201crealismo\u201d que simplesmente <i>sabia como as coisas s\u00e3o<\/i>! E como s\u00e3o <b>naturalmente <\/b>determinadas. Por isso que o neoliberalismo de Hayek parte de uma vis\u00e3o de ser humano determinada: somos ego\u00edstas e buscamos maximizar nosso lucro. Nossa natureza \u00e9 esta. E como alterar uma ordem natural? Imposs\u00edvel! A ordem natural \u00e9 imut\u00e1vel, sendo tolice ou ingenuidade tentar faz\u00ea-lo. Neoconservadores jovens costumam ficar ofendidos quando os nomeio como \u201cconservadores\u201d. \u201cSomos libertarianos\u201d, clamam, indignados! Ah, essas ideias sociais e seus paradoxos e ambiguidades. Saudades de ministrar essa disciplina no curso de Economia. O curso de meu pensamento parece um tanto ca\u00f3tico, r\u00e1pido demais?<br \/>\n\u00c9 que eu acho tudo isso fascinante, pois adoro \u2013 embora seja imposs\u00edvel estudar tudo &#8211; hist\u00f3ria, filosofia, sociologia, antropologia, ci\u00eancia pol\u00edtica, economia e psicologia social. Minha vida como docente e pesquisadora gira em torno de estudar esses campos e analisar a realidade atrav\u00e9s de diferentes lentes te\u00f3ricas. Gosto muito da minha vida de professora universit\u00e1ria, que segue apesar dos pesares da pol\u00edtica institucional e da virada conservadora, embora a recess\u00e3o econ\u00f4mica prejudique as universidades, evidentemente; e a liberdade de c\u00e1tedra esteja cada vez mais amea\u00e7ada pela nova direita, pelo neoconservadorismo (defendido inclusive por quem <b>n\u00e3o<\/b> se beneficia dele).<br \/>\nResta saber se os moradores da Restinga em Porto Alegre, que elegeram majoritariamente Marchezan, o filhote da ditadura; ou os do Morro do Alem\u00e3o, no Rio de Janeiro, que votaram no \u201cbispo\u201d Crivella, est\u00e3o satisfeitos com suas vidas tamb\u00e9m.<br \/>\nAcusam-me frequentemente de \u201cromantizar as classes populares\u201d. Na verdade eu apenas convivo com elas e admiro a resili\u00eancia e demais qualidades daqueles e daquelas com quem entro em contato. N\u00e3o compartilho, por origem de classe, seus sofrimentos cotidianos causados pela pobreza ou mis\u00e9ria. Mas minha luta pol\u00edtica \u00e9 calcada na ideia de que tod@s deveriam ter iguais condi\u00e7\u00f5es de almejar e construir uma vida boa e digna, de diferentes maneiras. Valores caros ao liberalismo cl\u00e1ssico, n\u00e3o \u00e9? Pois ent\u00e3o! Jeremy Bentham, um dos expoentes dessa perspectiva, dizia que o prop\u00f3sito de nossas vidas \u00e9 o de satisfazer o prazer e de evitar a dor. Ser\u00e1 mesmo, seu Jeremy, se damos tiro no p\u00e9 o tempo todo?! Chamem o Freud pra ajudar nesse ponto!<br \/>\nMe questiono se h\u00e1 uma parcela dos pobres, moradores das periferias e usu\u00e1rios de programas como o Bolsa-fam\u00edlia (nunca esque\u00e7o uma crian\u00e7a, cuja m\u00e3e era usu\u00e1ria do programa, me contando feliz da vida que, quando ela recebia o benef\u00edcio, podia tomar iogurte, comer ma\u00e7\u00e3 e comprar canetinha hidrocor pro col\u00e9gio), que est\u00e1 satisfeita de passar horas em transportes lotados e ruins, que enriquecem barbaramente um punhado de empres\u00e1rios do setor, eternamente mancomunados com prefeituras mantenedoras da ordem vigente; se est\u00e3o satisfeitos com seus sal\u00e1rios, ou com as mortes de seus filhos na \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d; ou com a eventual repress\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica de religi\u00e3o de matriz africana por parte do fundamentalismo neopentecostal.<br \/>\nSer\u00e1 que essa parcela se sente feliz em ficar ref\u00e9m do tr\u00e1fico de drogas, neg\u00f3cio lucrativo para alguns, que precisam manter a proibi\u00e7\u00e3o das drogas para continuar lucrando, mesmo que a juventude pobre esteja sendo encarcerada e morta por causa dela? Afinal, a vida n\u00e3o vale nada diante do lucro; que, lembrem-se, para alguns <i>equivale \u00e0 liberdade<\/i>. Mas somente \u00e0 liberdade de uns poucos que lucram, sendo que milh\u00f5es de outros s\u00e3o condenados \u00e0 aus\u00eancia de liberdade para que possam lucrar.<br \/>\nAparentemente, pelo que digitaram nas urnas nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es municipais, a resposta \u00e9 sim. Parece que seu pragmatismo de \u201cinteresse imediato\u201d tem tudo para prejudicar ainda mais seus interesses, imediatos e futuros. \u00c9 tiro no p\u00e9 e auto-a\u00e7oite com chicote de ponta envenenada pra todo lado, do Sul ao Norte do globo, questionando seriamente a tese de Bentham. Chamem logo o Dr. Freud, que a gente precisa de mais ajuda para entender melhor essa baga\u00e7a.<br \/>\n\u00b9http:\/\/blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br\/2009\/05\/19\/regina-duarte-tem-medo-de-indio\/<br \/>\n\u00b2Locks Filho, Pomp\u00edlio. <b>Liberdade e Justi\u00e7a em Amartya Sen<\/b>. Anais do II Simp\u00f3sio Nacional sobre Democracia e Desigualdades, Bras\u00edlia, 2014. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.sndd2014.eventos.dype.com.br\/arquivo\/download?ID_ARQUIVO=4149\">http:\/\/www.sndd2014.eventos.dype.com.br\/arquivo\/download?ID_ARQUIVO=4149<\/a>.<br \/>\n\u00b3 Raeder, Linda C. <b>The Liberalism\/Conservatism Of Edmund Burke and F. A. Hayek: A Critical Comparison<\/b>, in\u00a0<i>Humanitas<\/i>, Vol. X, N.\u00ba 1, 1997. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.nhinet.org\/raeder.htm\">http:\/\/www.nhinet.org\/raeder.htm<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o esse texto, sobre o momento que vivemos \u2013 ressaca eleitoral 2016, PEC 241 \/ 55, elei\u00e7\u00e3o de Trump nos EUA etc. \u2013, lembrando tr\u00eas ideologias cl\u00e1ssicas da modernidade ocidental, tentando estabelecer uma ponte com o passado, ou entender no que ele ainda nos influencia hoje: liberalismo, conservadorismo e socialismo. 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