{"id":41590,"date":"2016-11-21T21:48:41","date_gmt":"2016-11-22T00:48:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=41590"},"modified":"2016-11-21T21:48:41","modified_gmt":"2016-11-22T00:48:41","slug":"a-religiao-e-o-opio-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-religiao-e-o-opio-do-povo\/","title":{"rendered":"A religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo?"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart &#8211; Professor de Filosofia<br \/>\nNum contexto de ruptura institucional e num pa\u00eds mergulhado numa ditadura parlamentar-jur\u00eddico-midi\u00e1tica, \u00e9 preciso questionar acerca do papel das religi\u00f5es neste contexto. O velho fil\u00f3sofo Karl Marx, novamente odiado pelos golpistas, afirmou em seu tempo que a religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo. No contexto do s\u00e9culo XIX, o fil\u00f3sofo observou que em tempos de crise econ\u00f4mica, de fome e de mis\u00e9ria, a religi\u00e3o aparece como um consolo porque volta os olhos para outro mundo e impede a leitura e interpreta\u00e7\u00e3o da realidade.<br \/>\nA religi\u00e3o oficial desembarcou em terras brasileiras com os primeiros colonizadores. Isto n\u00e3o significa dizer que os povos origin\u00e1rios n\u00e3o tivessem religi\u00e3o, mas ela foi negada e reprimida. Os colonizadores do velho continente implantaram em terras brasileiras o colonialismo, o imperialismo, a religi\u00e3o oficial, a cruz e a espada. Todos estes componentes foram aqui estabelecidos num casamento perfeito que deveria durar eternamente. Esta condi\u00e7\u00e3o para o Brasil e para a Am\u00e9rica Latina seria uma condi\u00e7\u00e3o imut\u00e1vel inscrita na mente e na vontade divina, portanto os homens e mulheres mortais n\u00e3o deveriam sequer pensar em modific\u00e1-la.<br \/>\nUm intelecto minimamente esclarecido e com posicionamento cr\u00edtico diante do cen\u00e1rio nacional e internacional que se desenha aos nossos olhos, deve olhar com outros olhos a postura da religi\u00e3o oficial diante dos s\u00e9culos de escravagismo que obscureceram a Hist\u00f3ria do Brasil. A religi\u00e3o oficial aben\u00e7oou o escravagismo como algo natural, necess\u00e1rio e como uma lei natural inscrita no interior da pr\u00f3pria sociedade. Sabe-se que os \u00edndios e os negros eram tidos como uma esp\u00e9cie humana de qualidade inferior, raz\u00e3o pela qual seria leg\u00edtima a sua escravid\u00e3o. Como se n\u00e3o bastasse, os \u00edndios eram tidos como uma ra\u00e7a sem alma e vistos como selvagens e incivilizados.<br \/>\nConsiderando um longo caminho hist\u00f3rico de casamento da Religi\u00e3o com a monarquia patriarcal, ela sempre esteve do lado da monarquia, do patriarcalismo, do colonialismo, do racismo etc. Na \u00e9poca do Brasil Col\u00f4nia e Imp\u00e9rio, as b\u00ean\u00e7\u00e3os divinas foram abundantemente derramadas para a sustenta\u00e7\u00e3o de tal estrutura social e como express\u00e3o m\u00e1xima de introdu\u00e7\u00e3o da cultura e da Religi\u00e3o europeia. Foi preciso neutralizar a cultura ind\u00edgena e africana, consideradas pecaminosas e supersticiosas por natureza, para implantar e impor a doutrina verdadeira e os costumes do centro do mundo. Ainda no tempo cronol\u00f3gico do s\u00e9culo XX, os negros n\u00e3o eram admitidos \u00e0 casta do sacerd\u00f3cio cat\u00f3lico porque eram considerados incapazes de assumir as virtudes de santidade de tal condi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nParece evidente de que as religi\u00f5es pressup\u00f5em uma vis\u00e3o dualista de mundo, de homem e de sociedade. Alguns s\u00e3o os detentores da gra\u00e7a divina, enquanto outros s\u00e3o naturalmente incapazes e impotentes para tal d\u00e1diva. Alguns levam uma vida de perfei\u00e7\u00e3o segundo a l\u00f3gica da alma e do esp\u00edrito, enquanto outros s\u00e3o submetidos \u00e0s inclina\u00e7\u00f5es da carne e do corpo. Alguns s\u00e3o religiosos abertos \u00e0 gra\u00e7a divina, enquanto outros se deixam arrastar pela l\u00f3gica do pecado e do mundo. Com estes requisitos, a religi\u00e3o sacramentou uma estrutura social absolutamente imut\u00e1vel e constitu\u00edda segundo a vontade divina. Trata-se de uma esp\u00e9cie de racionalidade fundamental, de contornos teol\u00f3gicos e religiosos, que naturaliza o patriarcalismo, o colonialismo, o racismo e do machismo. E como Deus \u00e9 o prot\u00f3tipo da ordem masculina, as mulheres n\u00e3o passam de reprodutoras e contaminadoras do sagrado.<br \/>\nDe uma longa hist\u00f3ria chegamos ao cen\u00e1rio atual. Em outro artigo destacamos um hiato neste tempo hist\u00f3rico quando a Igreja Cat\u00f3lica, em pleno tempo de ditadura militar, adotou outra postura ao denunciar as atrocidades da ditadura e ao assumir a causa da transforma\u00e7\u00e3o social como carro-chefe de sua a\u00e7\u00e3o evangelizadora. Mas, depois de duras repress\u00f5es advindas do centro do catolicismo, ela abandonou a causa da transforma\u00e7\u00e3o social, de forma que na atualidade \u00e9 irrelevante a sua a\u00e7\u00e3o neste universo.<br \/>\nComo a Religi\u00e3o Cat\u00f3lica se tornou impercept\u00edvel no processo de transforma\u00e7\u00e3o social, com forte refluxo para a sacristia e para os templos, este espa\u00e7o passou a ser ocupado por outras religi\u00f5es, especialmente neopentecostais. Estas religi\u00f5es t\u00eam dupla incid\u00eancia, pois est\u00e3o presentes em todas as esferas da pol\u00edtica, especialmente no congresso nacional, e nas bases populares. A a\u00e7\u00e3o delas em v\u00e1rias inst\u00e2ncias da pol\u00edtica, da economia e da sociedade \u00e9 determinante no refluxo conservador e neoliberal. Os grupos religiosos neopentecostais que somam for\u00e7as gigantescas de manipula\u00e7\u00e3o das massas e de composi\u00e7\u00e3o de um quadro pol\u00edtico nacional ultraconservador, t\u00eam como express\u00e3o final o enriquecimento de uma pequena elite e a exclus\u00e3o de massas sociais das benesses do desenvolvimento econ\u00f4mico.<br \/>\nCom estas coloca\u00e7\u00f5es, como interpretar hoje a frase do velho Karl Marx segundo a qual a \u201creligi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo\u201d? N\u00e3o \u00e9 uma simples frase, ela reflete a posi\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo diante catolicismo do s\u00e9culo XIX. Esta posi\u00e7\u00e3o de Marx enfureceu muita gente \u00e0 sua \u00e9poca, em tempos posteriores e na atualidade. No presente, novamente pesa uma f\u00faria mortal contra o pensador, porque a sua cr\u00edtica contra a estrutura da sociedade capitalista e contra a sua l\u00f3gica interna \u00e9 radical. As contradi\u00e7\u00f5es apontadas por Marx ao capitalismo s\u00e3o basicamente as mesmas que na atualidade est\u00e3o falindo o capitalismo, a sociedade humana e o sistema vida do Planeta Terra.<br \/>\nUma an\u00e1lise cuidadosa do cen\u00e1rio brasileiro atual indica que a postura de Karl Marx \u00e9 de suma atualidade. A evid\u00eancia imediata da atualidade desta posi\u00e7\u00e3o \u00e9 o retorno de fundamentalismos religiosos fan\u00e1ticos e ultraconservadores, inclusive cat\u00f3licos. H\u00e1 posi\u00e7\u00f5es extremamente fechadas que n\u00e3o abrem brechas para di\u00e1logo, nem com outras religi\u00f5es, nem entre religi\u00f5es e nem com outras posi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Mas o universo social est\u00e1 coberto por uma esp\u00e9cie de n\u00e9voa religiosa, que n\u00e3o apenas fecha os olhos do povo diante do golpe e da ditadura, mas os legitima autoritariamente. Por tr\u00e1s de tantos discursos religiosos moralistas e devocionistas, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica de uma ideologia que imp\u00f5e autoritariamente a ordem ditatorial estabelecida. Os fi\u00e9is religiosos mais santos e retos em sua pr\u00e1tica religiosa, tamb\u00e9m oriundos de quadros cat\u00f3licos, falam religiosamente contra a corrup\u00e7\u00e3o, mas a rep\u00f5e e a potencializam em dimens\u00f5es muito mais gigantescas.<br \/>\n\u00c9 um fen\u00f4meno curioso que em tempos de ditadura, de ruptura institucional, de perda de direitos historicamente conquistados e de entrega do pa\u00eds para o grande capital, seja um tempo de efervesc\u00eancia religiosa. Os autoritarismos e fundamentalismos religiosos s\u00e3o intensamente evidenciados e pronunciados contra os movimentos sociais, contra a democracia, contra as maiorias historicamente exclu\u00eddas, contra os trabalhadores. As religi\u00f5es est\u00e3o na base de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do atual est\u00e1gio de desenvolvimento do neoliberalismo, que tem como dogmas fundamentais a privatiza\u00e7\u00e3o da economia, a retirada do Estado, a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, a superconcentra\u00e7\u00e3o de renda e a massiva exclus\u00e3o social. H\u00e1 uma proximidade evidente entre a dogmatiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a dogmatiza\u00e7\u00e3o religiosa, em posturas autorit\u00e1rias que tem a mesma plataforma fundamentalista.<br \/>\nPercebe-se, facilmente, que posturas religiosas tipicamente angelicais, devocionais, com os seus discursos fundamentalistas, escondem a afirma\u00e7\u00e3o do projeto golpista neoliberal e a condena\u00e7\u00e3o de qualquer movimento de transforma\u00e7\u00e3o social. Na atualidade, temas como democracia, movimentos populares, reforma agr\u00e1ria, soberania nacional, liberta\u00e7\u00e3o quase n\u00e3o entram nas religi\u00f5es e n\u00e3o fazem parte do discurso religioso. As religi\u00f5es, inclusive a Cat\u00f3lica, incorporam em suas agendas tem\u00e1ticas autorit\u00e1rias, ortodoxas e ultraconservadoras, como a condena\u00e7\u00e3o das esquerdas, dos movimentos feministas, e das quest\u00f5es de g\u00eanero, etc.<br \/>\nA cr\u00edtica de Marx contida na frase \u201ca religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio o povo\u201d \u00e9 muito forte e de permanente validade. Todas as religi\u00f5es incorrem na tend\u00eancia de mediocrizar e infantilizar os seus fi\u00e9is e integrar o poder opressor. Em momentos de crise, de desintegra\u00e7\u00e3o social e de mis\u00e9ria p\u00fablica, a religi\u00e3o ofusca a realidade e impede a sua transforma\u00e7\u00e3o. Na maioria dos pa\u00edses com incid\u00eancia das ditaduras militares, estes tr\u00e1gicos acontecimentos foram amplamente encobertos pelas religi\u00f5es. No momento atual, autoritarismos jur\u00eddicos, parlamentares, midi\u00e1ticos, econ\u00f4micos e pol\u00edticos t\u00eam um fundo de dogmatismo e fundamentalismo religioso. As m\u00faltiplas formas de moralismos sociais amplamente difundidos na atualidade pela burguesia dominante t\u00eam uma sustenta\u00e7\u00e3o religiosa. Os grandes retrocessos na economia, na pol\u00edtica e na \u00e1rea social s\u00e3o amplamente amparados por fanatismos religiosos, como \u00e9 o caso da bancada evang\u00e9lica do congresso nacional. O juridicismo social que criminaliza os movimentos sociais difunde uma onda de condena\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 condena\u00e7\u00e3o das almas ao inferno no apogeu do dom\u00ednio da inquisi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica.<br \/>\nO fen\u00f4meno religioso \u00e9 uma faca de dois gumes. Pode representar uma for\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o social. Pode, tamb\u00e9m, contribuir com a aliena\u00e7\u00e3o social, com a perda da consci\u00eancia cr\u00edtica, com a legitima\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico estabelecido e sustentar ditaduras. Na atualidade, muitas denomina\u00e7\u00f5es religiosas s\u00e3o aliadas do sistema econ\u00f4mico e exploram os fi\u00e9is com proselitismos religiosos. Hoje o Papa Francisco \u00e9 a voz prof\u00e9tica de um novo mundo e de uma nova sociedade, mas os seus quadros hier\u00e1rquicos e fi\u00e9is de base est\u00e3o pouco sintonizados. Salvaguardando estes casos isolados, as religi\u00f5es n\u00e3o t\u00eam perfil de den\u00fancia das injusti\u00e7as e de luta pela transforma\u00e7\u00e3o social.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Alberto Wohlfart &#8211; Professor de Filosofia Num contexto de ruptura institucional e num pa\u00eds mergulhado numa ditadura parlamentar-jur\u00eddico-midi\u00e1tica, \u00e9 preciso questionar acerca do papel das religi\u00f5es neste contexto. O velho fil\u00f3sofo Karl Marx, novamente odiado pelos golpistas, afirmou em seu tempo que a religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo. 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