{"id":43205,"date":"2017-01-11T08:40:43","date_gmt":"2017-01-11T11:40:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=43205"},"modified":"2017-01-11T08:40:43","modified_gmt":"2017-01-11T11:40:43","slug":"entao-ta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/entao-ta\/","title":{"rendered":"Ent\u00e3o t\u00e1&#8230;\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Eug\u00eanio Arag\u00e3o<\/span><br \/>\nVamos todos fingir que \u00e9 normal o presidente do Tribunal Superior Eleitoral pegar carona com um sedizente presidente da rep\u00fabli<span class=\"text_exposed_show\">ca (com letras min\u00fasculas mesmo) para ir a Lisboa, supostamente para participar das cerim\u00f4nias funerais do maior democrata portugu\u00eas da contemporaneidade. \u00c9 normal\u00edssimo, porque o tal presidente do tribunal \u00e9 quem vai pautar um processo que pode significar o fim do que se usou chamar, na m\u00eddia comercial, de &#8220;mandato&#8221; do sedizente presidente da rep\u00fablica. O tal presidente de tribunal \u00e9 inimigo not\u00f3rio da companheira de chapa do sedizente presidente que urdiu um golpe para derrub\u00e1-la. Mas, claro, tem toda isen\u00e7\u00e3o do mundo para julgar ambos.\u201cNada haver\u00e1 de suspeito\u201d, como diria o insuspeito jornalista Ricardo Noblat. Quem ousaria dizer o contr\u00e1rio?<\/span><\/p>\n<div class=\"text_exposed_show\">\nA carona (ou boleia, como diriam nossos irm\u00e3os lusos) veio a calhar. \u00c9, antes de mais nada, uma bela viagem 0800, com todos custos cobertos por mim, por voc\u00ea, por n\u00f3s, obsequiosos bob\u00f5es. A ideia \u00e9 s\u00f3 aproximar r\u00e9u e julgador e \u2013 por que n\u00e3o? \u2013 usufruir um pouquinho do que a capital portuguesa tem de melhor a oferecer: as tabernas, o fado, as ginjinhas, as pataniscas de bacalhau ou os famosos past\u00e9is de Bel\u00e9m. Nestes tempos bicudos, nada melhor que uma \u201cescapadela\u201d para enfrent\u00e1-los com maior disposi\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. As ex\u00e9quias do democrata lusitano certamente s\u00e3o a menor das preocupa\u00e7\u00f5es do r\u00e9u e de seu julgador, pois v\u00ea-los prestar suas \u00faltimas homenagens ao gigante da pol\u00edtica portuguesa parece t\u00e3o obsceno quanto fosse ver Lula prest\u00e1-las a Augusto Pinochet.<br \/>\nVamos todos fingir que neste pa\u00eds chamado Brasil h\u00e1 um patri\u00f3tico chefe do minist\u00e9rio p\u00fablico, que faz muito bem em ir a Davos. L\u00e1 vai cantar uma ode ao combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o que se usou chamar de sist\u00eamica ou organizada pelas bandas de c\u00e1. Ou, qui\u00e7\u00e1, at\u00e9 de uma forma de governan\u00e7a. Isso tamb\u00e9m \u00e9 normal\u00edssimo, porque em Davos se re\u00fanem bancos e fundos de envergadura global para tra\u00e7ar estrat\u00e9gias sobre novos investimentos e analisar a conjuntura pol\u00edtica e econ\u00f4mica no planeta. Claro, faz sentido. Com as proezas ditas de si e de seu poderoso \u00f3rg\u00e3o acusador, vai atrair enorme interesse por investimentos nobres em seu pa\u00eds. Finjamos que grandes empresas adoram investir em economias tingidas de corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, certificada pelo chefe da acusa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO poderoso \u00f3rg\u00e3o de acusa\u00e7\u00e3o, regiamente sustentado com nossos impostos, como \u00e9 sabido tamb\u00e9m, sacrificou no altar da moral purgat\u00f3ria mais de um milh\u00e3o de empregos e p\u00f4s fim a um projeto de desenvolvimento nacional e de uma sociedade inclusiva. Mas, claro, tudo com a melhor das inten\u00e7\u00f5es. Fez um nobre servi\u00e7o \u00e0 democracia do tal Brasil, permitindo ao r\u00e9u a caminho de Lisboa instalar-se no poder sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os de seu julgador caroneiro, para liquidar, num verdadeiro off-sale, os ativos econ\u00f4micos do pa\u00eds, as j\u00f3ias da fam\u00edlia. Disso empres\u00e1rios em busca de lucros gostam. Mas esse deve ser o menor problema do chefe do minist\u00e9rio p\u00fablico, pois v\u00ea-lo em Davos parece t\u00e3o obsceno quanto ver George Soros num Encontro Nacional dos Procuradores da Rep\u00fablica em Comandatuba.<br \/>\nVamos todos fingir que temos um preocupado ministro da justi\u00e7a que declara publicamente apoio ao governo do Amazonas para debelar, em seu sistema penitenci\u00e1rio, a guerra assassina entre fac\u00e7\u00f5es de traficantes. Normal\u00edssimo, oras. O azarado ministro, de boa-f\u00e9, n\u00e3o se lembrou ter negado o pedido desesperado de uma governadora, de uso da For\u00e7a Nacional que, talvez, pudesse ter salvo a vida de trinta e poucos brasileiros em Roraima, massacrados na vindita de uma fac\u00e7\u00e3o contra outra, que dizimara quase sessenta concidad\u00e3os em Manaus.<br \/>\n\u00c9 aceit\u00e1vel, afinal, que o governador do Amazonas, destinat\u00e1rio do apoio do tal ministro da justi\u00e7a, tenha sido financiado em sua campanha eleitoral pela empresa copiosamente remunerada para administrar a penitenci\u00e1ria onde trucidaram os quase sessenta brasileiros. Faz todo sentido, por isso, que pontifique: &#8220;nenhum dos mortos era santo!&#8221;, como se aplaudisse os padr\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria contratada de seu doador. E faz todo sentido que o tal governador se julgue Deus, para condenar os trucidados ao fogo eterno. N\u00e3o \u00e9 que ele mesmo poderia estar l\u00e1, se fossem levar a s\u00e9rio, no tribunal do julgador caroneiro, o imperativo de cassa\u00e7\u00e3o de seu mandato por compra de votos? Deix\u00e1-lo falar de falta de santidade \u00e9 t\u00e3o obsceno quanto imaginar o cramunh\u00e3o ser canonizado.<br \/>\nA literatura popular alem\u00e3 cont\u00e9m antiqu\u00edssimo anedot\u00e1rio de autoria controvertida sobre uma cidadezinha chamada Schilda. Seus habitantes, os ing\u00eanuos Schildb\u00fcrger, s\u00e3o os prot\u00f3tipos de n\u00e9scios que fazem, com naturalidade, tudo de forma a nada dar certo. Inventaram um papel higi\u00eanico que se pode usar nos dois lados: a prova de sua efici\u00eancia est\u00e1 na m\u00e3o&#8230; O Brasil de nossos fingimentos virou uma enorme Schilda. Fazemos os maiores absurdos, mas n\u00e3o perdemos a esperan\u00e7a ing\u00eanua de acertar. E n\u00e3o entendemos quem ouse n\u00e3o concordar.<br \/>\nUm julgador pegar carona com um r\u00e9u a ser por ele julgado; um chefe do minist\u00e9rio p\u00fablico ir a Davos para ajudar a atrair investimentos numa economia que chama de podre, ou um ministro da justi\u00e7a se esquecer de que negara meios a uma governadora para evitar um massacre, mas que agora, diz, vai d\u00e1-lo a um outro governador que faltou bater palmas para o banho de sangue no xilindr\u00f3 sob sua responsabilidade: tudo isso n\u00e3o \u00e9 muito diferente do uso de papel higi\u00eanico nos dois lados. Mas quem fica com as m\u00e3os borradas somos n\u00f3s que fingimos estar tudo bem.<br \/>\nBem vindos \u00e0 Schilda brasileira!\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eug\u00eanio Arag\u00e3o Vamos todos fingir que \u00e9 normal o presidente do Tribunal Superior Eleitoral pegar carona com um sedizente presidente da rep\u00fablica (com letras min\u00fasculas mesmo) para ir a Lisboa, supostamente para participar das cerim\u00f4nias funerais do maior democrata portugu\u00eas da contemporaneidade. \u00c9 normal\u00edssimo, porque o tal presidente do tribunal \u00e9 quem vai pautar um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":43206,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-43205","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-debates"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43205\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}