{"id":44081,"date":"2017-02-02T15:45:27","date_gmt":"2017-02-02T18:45:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=44081"},"modified":"2017-02-02T15:45:27","modified_gmt":"2017-02-02T18:45:27","slug":"a-ideia-de-comunismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-ideia-de-comunismo\/","title":{"rendered":"A ideia de comunismo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Jorge Barcellos<\/span><br \/>\n<span class=\"descreve\">Doutor em Educa\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nA reflex\u00e3o da esquerda frente a ascens\u00e3o da direita passa pela revis\u00e3o de seus conceitos mais fundamentais como o de comunismo. Desde a publica\u00e7\u00e3o de L\u2019id\u00e9e du comunism (Lignes, 2010), colet\u00e2nea das confer\u00eancias realizadas em Londres em 2009 e publicada recentemente na Fran\u00e7a, o conceito continua sendo central para o pensamento de esquerda. Organizado por Slavoj Zizek e Alain Badiou, a obra \u00e9 organizada em 16 cap\u00edtulos entregues a fina flor da intelectualidade. Zizek \u00e9 o famoso filosofo e cr\u00edtico cultural esloveno, conhecido por sua leitura lacaniana da cultura popular. Na verdade, h\u00e1 um primeiro Zizek mais voltado para a psican\u00e1lise e o cinema, e um segundo Zizek, ainda praticamente desconhecido, voltado para uma pr\u00e1tica da an\u00e1lise pol\u00edtica propriamente dita &#8211; provavelmente refor\u00e7ada por sua fracassada candidatura \u00e0 Presidente da Eslov\u00eania. Badiou tamb\u00e9m \u00e9 um leitor de Lacan, mas a isto se acrescenta Nietzsche e toda a viv\u00eancia do maio de 68 franc\u00eas que o transformaram num dos mais atuais analistas revolucion\u00e1rios, ou como prefere Badiou, apenas algu\u00e9m que deseja mostrar o potencial de inova\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o de cada situa\u00e7\u00e3o. Para Yannis Stavrakakis, em <em>Una esquerda lacaniana <\/em>(FCE,2010, j\u00e1 esgotado), o m\u00e9rito de desde novo lacano-marxismo \u00e9 questionar, em curto-circuito, os pressupostos de funcionamento do Capital.<br \/>\nAinda que pouco conhecido, L&#8217;id\u00e9e de communism constitui um ponto de partida e renova\u00e7\u00e3o importante para a esquerda no s\u00e9culo XXI. Como se sabe, desde a d\u00e9cada de noventa a esquerda tem presenciado derrotas a n\u00edvel mundial. Pol\u00edticas sociais dos estados de bem-estar social retrocederam, a integra\u00e7\u00e3o das economias socialistas ao mundo capitalista e a regress\u00e3o dos movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o do terceiro mundo parecem sinalizar que o tempo da emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica radical chegou ao fim.\u00a0 Mas n\u00e3o \u00e9 bem isto que veem os autores da colet\u00e2nea. Para eles a ideia do capitalismo liberal como a nova ordem natural sofreu reveses com os ataques de 11 de setembro e a crise financeira de 2008 e, por esta raz\u00e3o, a necessidade de repensar os fundamentos da emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nunca foram t\u00e3o atuais.<br \/>\nA primeira conclus\u00e3o dos autores \u00e9 que a esquerda como proposta de partido estalinista est\u00e1 enterrada. E tamb\u00e9m a nova esquerda, como se apresenta hoje a dita democr\u00e1tica, apenas prop\u00f5e a reforma do sistema de pensamento, o que n\u00e3o \u00e9 suficiente se n\u00e3o se pensar em reformar a estrutura da democracia representativa. \u00c9 preciso outra esquerda que busque no que resta do comunismo, no horizonte de projetos de emancipa\u00e7\u00e3o radical, os conceitos para orientar suas pesquisas e a ferramenta para expor seus fracassos pol\u00edticos \u2013 da pr\u00f3pria esquerda-\u00a0 para construir novas perspectivas para a a\u00e7\u00e3o.\u00a0 Esta discuss\u00e3o abre, sem d\u00favida, um campo de possibilidades pol\u00edticas, o que faz seus autores valorizarem ainda mais o comunismo como conceito filos\u00f3fico.<br \/>\nEsta forma de colocar o tema do comunismo surgiu primeiro com Alain Badiou, em sua duas de suas \u00faltimas obras \u201cL\u2019hipothese comunist \u201c (Lignes, 2009) e \u201cDe quoi Sarkozy est-il le nom\u201d (Lignes, 2007) onde o autor, desejando enumerar alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos para a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, defende a ideia de que n\u00e3o podemos confiar nas empresas para produzir solidariedade social j\u00e1 que a economia de mercado produz uma democracia atrofiada onde persistem as desigualdades indesej\u00e1veis. Para Badiou e Zizek, aceitamos com muita naturalidade que o capitalismo \u00e9 nosso destino final: precisamos nos revoltar com o desperd\u00edcio irracional de recursos, com o valor econ\u00f4mico dado \u00e0s guerras, etc., etc. Para os autores, e a\u00ed est\u00e1 uma quest\u00e3o pol\u00eamica da obra, se as experi\u00eancias reais comunistas foram sangrentas, n\u00e3o podem ser comparadas aos massacres levados a efeito pelo capitalismo, em sua f\u00faria predat\u00f3ria pelo mundo inteiro. A situa\u00e7\u00e3o dos povos africanos e asi\u00e1ticos \u00e9 apenas um exemplo.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-44082 \" src=\"http:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/soviet-219x300.jpg\" alt=\"soviet\" width=\"310\" height=\"422\" \/>Quando o Semin\u00e1rio de que trata o livro foi realizado, em 2009, o Jornal The Guardian chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que se tratava de um evento mais \u201cquente\u201d que um jogo de futebol ou o show de uma cantora pop. A descri\u00e7\u00e3o tinha sua raz\u00e3o de ser. Realizada na Universidade de Birkbeck, em Londres, atraiu participantes de todos os continentes, Estados Unidos, da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e Austr\u00e1lia, que foram ouvir os grandes pensadores de esquerda. Todos queriam respostas para seus problemas pr\u00e1ticos, mas s\u00f3 ouviram dos organizadores que que se tratava de \u201cuma reuni\u00e3o de fil\u00f3sofos que ia lidar com o comunismo como um conceito filos\u00f3fico, defendendo uma tese precisa e forte: a partir de Plat\u00e3o, o comunismo \u00e9 a \u00fanica ideia pol\u00edtica digna de um fil\u00f3sofo.&#8221;<br \/>\nQue \u00e0 \u00e9poca houvessem tantos interessados em discutir a teoria do comunismo, \u00e9 indicador da import\u00e2ncia que o tema tem para a esquerda.\u00a0 Convite a pensar que mant\u00e9m inquestion\u00e1vel o valor da obra. Terry Eagleton parte do Rei Lear, de Shakespeare, para mostrar o valor da utopia, comparando a todo o momento com os Grundrisse, de Marx; Michel Hardt faz a cr\u00edtica das estrat\u00e9gias neoliberais de privatiza\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias para retomar, mais adiante, o conceito de propriedade comum t\u00e3o caro ao marxismo; Tony Negri retoma os pressupostos do materialismo hist\u00f3rico que dizem que a hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes para descobrir o valor da \u00e9tica de esquerda baseada no valor do comum; Jacques Ranci\u00e8re, retoma da hip\u00f3tese comunista de Alain Badiou para refor\u00e7ar o valor de emancipa\u00e7\u00e3o humana contida no conceito de comunista, bem diferente da ressignifica\u00e7\u00e3o que o levou a ser tratado como um \u201cmonstro\u201d do passado; Gianni Vattimo, num texto curto, enumera nove teses entre as quais a ideia paradoxal que em realidade, capitalismo e comunismo padecem da mesma dissolu\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, aproximando-se pelos seus sucessivos fracassos semelhantes. Os demais autores, integrantes da colet\u00e2nea, ainda contribuem com suas an\u00e1lises espec\u00edficas: Susan Morss, Peter Hallward, Jean Luc-Nancy, Alessandro Russo e Alberto Toscano tratam desde as formas do comunismo at\u00e9 a filosofia e a revolu\u00e7\u00e3o cultural sob o regime. Talvez a curiosidade seja a presen\u00e7a de Minqi Li e Wang Hui, que apresentam as vis\u00f5es do extremo oriente, em especial sobre os acontecimentos recentes na China \u2013 faz falta aqui um breve resumo do curr\u00edculo dos autores, t\u00e3o comum em colet\u00e2neas do g\u00eanero.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o debate propriamente dito encontra-se nos textos dos organizadores. Badiou reitera a cr\u00edtica a ideia de que o capitalismo seja o modelo de emancipa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para a humanidade inteira. Quer retomar o conceito do ponto de vista filos\u00f3fico, afirmativo, como campo de constru\u00e7\u00e3o de um projeto social. Na \u201cIdeia do Comunismo \u201c, que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra, afirma Badiou, est\u00e3o presentes tr\u00eas elementos primitivos: o componente pol\u00edtico, o hist\u00f3rico e o subjetivo. Ap\u00f3s analisar cada um desses elementos, Badiou conclui pela necessidade de ressignificar a ideia de Comunismo, opini\u00e3o que \u00e9 compartilhada por\u00a0 Zizek, por sua vez, no texto que encerra a colet\u00e2nea. Partindo uma hist\u00f3ria de Franz Kafka, sobre Jos\u00e9phine, a cantora, faz da sua an\u00e1lise uma met\u00e1fora da trajet\u00f3ria comunista, por um lado, e por outro, recolhe das perspectivas de Hannah Arendt, Habermas e Horkheimer a necessidade de relocalizar, na cultura comunista, o significado das atitudes subjetivas mais intimas.<br \/>\nPara os autores, ainda \u00e9 preciso da ideia do comunismo para se viver \u201cn\u00e3o vejo qualquer outro&#8221;, diz Badiou. E mais &#8220;Se temos de abandonar essa hip\u00f3tese, ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o vale a pena fazer qualquer coisa no campo da a\u00e7\u00e3o coletiva. Sem o horizonte do comunismo, sem essa ideia, n\u00e3o h\u00e1 nada no hist\u00f3rico e pol\u00edtico a tornar-se de qualquer interesse para um fil\u00f3sofo. \u201d A raz\u00e3o, para Badiou,\u00a0\u00a0 \u00e9 que somente no comunismo podemos defender uma ideia de igualdade pura. Sempre haver\u00e1 espa\u00e7o para pensar na ideia de comunismo enquanto estivermos lutando contra a injusti\u00e7a, e provavelmente, fazendo a cr\u00edtica do Estado. O livro tem m\u00e9rito. Mesmo sem oferecer uma agenda pol\u00edtica imediata, ele \u00e9 um elemento importante para todos os homens de a\u00e7\u00e3o. A ideia central \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem filosofia, e nesse sentido, o comunismo, ao estabelecer a igualdade como um padr\u00e3o para pol\u00edticas que possam vir a surgir, ajuda a diferenciar as m\u00e1s das boas pol\u00edticas. Que os autores retornem a Marx e Hegel, o fazem na busca de um pensamento dial\u00e9tico para a constru\u00e7\u00e3o de um novo projeto pol\u00edtico. Para Zizek, n\u00e3o h\u00e1 mais d\u00favidas de que o Capital se tornou nossa vida real, e para ele vale a m\u00e1xima de L\u00eanin \u201cCome\u00e7ar, desde o in\u00edcio, uma e outra vez\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Barcellos Doutor em Educa\u00e7\u00e3o A reflex\u00e3o da esquerda frente a ascens\u00e3o da direita passa pela revis\u00e3o de seus conceitos mais fundamentais como o de comunismo. Desde a publica\u00e7\u00e3o de L\u2019id\u00e9e du comunism (Lignes, 2010), colet\u00e2nea das confer\u00eancias realizadas em Londres em 2009 e publicada recentemente na Fran\u00e7a, o conceito continua sendo central para o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":44083,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-44081","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-debates"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44081"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44081\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}