{"id":44086,"date":"2017-02-02T16:32:13","date_gmt":"2017-02-02T19:32:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=44086"},"modified":"2017-02-02T16:32:13","modified_gmt":"2017-02-02T19:32:13","slug":"os-rumos-do-mundo-notas-sobre-a-midia-o-relatorio-da-oxfam-e-a-era-dos-super-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/os-rumos-do-mundo-notas-sobre-a-midia-o-relatorio-da-oxfam-e-a-era-dos-super-ricos\/","title":{"rendered":"Os rumos do mundo: notas sobre a m\u00eddia, o relat\u00f3rio da OXFAM e a era dos super-ricos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Mar\u00edlia ver\u00edssimo Veronese<\/span><br \/>\nDiante dos horrores que vivemos no Brasil hoje, do sombrio futuro que se desenha, da ascens\u00e3o conservadora que naturaliza a desigualdade \u2013 o relat\u00f3rio da OXFAM sobre o quadro geral das desigualdades no mundo, recentemente divulgado, traz informa\u00e7\u00f5es contundentes e est\u00e1 sendo bastante comentado<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> -, tenho me perguntado sobre os rumos do mundo. Minha filha est\u00e1 em idade de \u201centrar no mercado de trabalho\u201d. A express\u00e3o me causa calafrios, considerando que oito bilion\u00e1rios possuem a mesma riqueza que 3,6 bilh\u00f5es de pessoas ou a metade mais pobre da humanidade, conforme o referido relat\u00f3rio. No Brasil, os seis maiores bilion\u00e1rios concentram a mesma riqueza que mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o, ou mais de 100 milh\u00f5es de pessoas.\u00a0Nos \u00faltimos dois anos (2015-16), as dez maiores corpora\u00e7\u00f5es privadas do mundo tiveram receita superior \u00e0 de 180 pa\u00edses juntos.<br \/>\nEm Davos, as \u201cautoridades\u201d presentes garantem que se preocupam com este quadro&#8230; e se comprometem a tentar revert\u00ea-lo. Ufa, que al\u00edvio, n\u00e9?! Imaginem se n\u00e3o se preocupassem e n\u00e3o se comprometessem!!!<br \/>\nNo Brasil, a perda de direitos provocada pelos \u201cpacotes\u201d do governo golpista e ileg\u00edtimo \u00e9 \u201ccomemorada\u201d por quem perde os direitos trabalhistas, socioecon\u00f4micos etc., como se isso significasse alguma \u201ceconomia\u201d para o Estado. A m\u00eddia corporativa afirma repetidas vezes que um Estado deve ser gerido como uma unidade dom\u00e9stica, \u201ceconomizando e n\u00e3o gastando mais que ganha\u201d. A fal\u00e1cia e o rid\u00edculo dessa compara\u00e7\u00e3o j\u00e1 foram apontados por diversos autores dos campos econ\u00f4mico e jur\u00eddico. Um deles, o economista Rober \u00c1vila, explica que as fun\u00e7\u00f5es do Estado dizem respeito a elementos fundamentais da vida em sociedade, como a seguran\u00e7a p\u00fablica, o reequil\u00edbrio distributivo e o est\u00edmulo \u00e0 vida produtiva e saud\u00e1vel dos cidad\u00e3os. N\u00e3o \u00e9 racional deixar os cidad\u00e3os morrerem \u00e0 m\u00edngua, sem emprego e sem servi\u00e7os de sa\u00fade, para \u201cequilibrar as contas\u201d. Se fazem quest\u00e3o da compara\u00e7\u00e3o, seria mais ou menos como uma fam\u00edlia dizer assim \u201cquerida, precisamos cortar despesas m\u00e9dicas. Nosso filho vai morrer, mas devemos ficar dentro do nosso or\u00e7amento, isso \u00e9 o que importa\u201d. Absurdos como esse s\u00e3o repetidos \u00e0 exaust\u00e3o nos jornais e na TV e ajudam a formar conceitos profundamente equivocados quanto ao papel do Estado na vida coletiva e na promo\u00e7\u00e3o da cidadania, bem como sobre in\u00fameras outras quest\u00f5es relevantes ao pa\u00eds.<br \/>\nEnquanto isso, segue o caos no Brasil. Avi\u00f5es levando ministros da suprema corte caem, t\u00e9cnicos do TCU morrem afogados, o AVC de uma senhora serve para despertar e difundir o lixo chorumento que habita cora\u00e7\u00f5es e mentes apodrecidos internet afora. Sobre isso, Jean Wyllys comentou hoje nas redes sociais que Reinaldo Azevedo, ap\u00f3s estimular as hienas fascistas na internet e de jog\u00e1-las sobre tantas pessoas decentes (sobrou at\u00e9 pro Chico Buarque), agora pede que se contenham, fechando os coment\u00e1rios da not\u00edcia do aneurisma da Marisa Let\u00edcia e falando em \u201cfascismo\u201d, que casualmente ele mesmo ajudou a criar! \u00c9 o quadro da dor sem moldura.<br \/>\nMas enfim, quem nunca questionou os rumos do mundo com grave preocupa\u00e7\u00e3o? Imaginemos um judeu na Alemanha da d\u00e9cada de 1930&#8230; uma pessoa que prezasse a liberdade e a democracia no Brasil de 1964 ou no Chile de 1973&#8230; ou um estadunidense pacifista e benefici\u00e1rio das pol\u00edticas do <em>welfare state<\/em> no in\u00edcio dos anos de 1980 nos EUA. Apreens\u00e3o total. Previs\u00e3o de sofrimento e perdas. Ent\u00e3o, nada de novo sob o sol.<br \/>\nTenho lido muita coisa e, ao mesmo tempo, estado sem inspira\u00e7\u00e3o para escrever. O momento \u00e9 semi-paralisante. Amigos, conhecidos, intelectuais, cidad\u00e3os \u2013 os que se preocupam com o mundo, claro, n\u00e3o os que vivem apenas para ganhar dinheiro, consumir loucamente no <em>x\u00f3pin<\/em> e adquirir caminhonetes enormes e totalmente inadequadas para circular na cidade, apenas para provar seu poderio financeiro e ostentar \u2013 procuram sa\u00eddas diversas desse labirinto sinistro em que nos metemos. Est\u00e3o consternados, n\u00f3s estamos. Alguns, segundo conversas e declara\u00e7\u00f5es, desacreditam do poder da m\u00eddia hegem\u00f4nica para fazer \u2013 ou pelo menos fomentar &#8211; <em>tanto<\/em> estrago. Consideram que em tempos de internet, ve\u00edculos comunicacionais como a revista Veja e o Jornal Nacional n\u00e3o det\u00eam mais o poder que detiveram um dia. Discordo parcialmente deles: por certo n\u00e3o mais todo o poder de \u201cinformar\u201d sem concorr\u00eancia, mas ainda det\u00eam muito poder.<br \/>\nO jornalista Lucio de Castro disse, com a autoridade de quem viveu no est\u00f4mago da besta (reda\u00e7\u00f5es importantes no pa\u00eds), que na <strong>escolha da pauta<\/strong> se define o que ser\u00e1 \u201cfato\u201d e o que n\u00e3o ser\u00e1. Se s\u00e3o escolhidas dez pautas para detonar quem se quer detonar e nenhuma para explodir o bandido de estima\u00e7\u00e3o, o leitor no dia seguinte vai presumir que s\u00f3 tem esc\u00e2ndalo daquele sujeito citado repetidas vezes, enquanto o outro \u00e9 puro como um anjo, quando na verdade apenas foi poupado na pauta. E mostra como \u00e9 enganosa a ideia de que \u201cbasta ler o jornal para saber do que est\u00e1 acontecendo\u201d. Isso \u00e9, no m\u00ednimo, uma ingenuidade imensa.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 um lugar que eu frequente e tenha de ficar esperando \u2013 de sal\u00f5es de cabeleireiro a consult\u00f3rios m\u00e9dicos, passando por bares e cantinas universit\u00e1rios \u2013 onde n\u00e3o haja uma televis\u00e3o ligada na Globo. Fa\u00e7a o teste: preste aten\u00e7\u00e3o nisso. Se for pela manh\u00e3, depois dos jornais \u201cnoticiosos\u201d, ter\u00e1 de aguentar Ana Maria Braga ou F\u00e1tima Bernardes. Se for a tarde, depois dos jornais do almo\u00e7o, periga ter de encarar v\u00eddeo show ou sess\u00e3o da tarde. E \u00e9 a\u00ed que as pautas s\u00e3o definidas, \u00e9 disso que o cidad\u00e3o comum vai falar e nisso que vai acreditar.<br \/>\nAlguns locais, para dar um ar mais \u201csofisticado\u201d, sintonizam na Globonews, e nos submetem aos horrores dos \u201ccomentaristas\u201d e \u201cespecialistas\u201d que s\u00f3 falam o que os entrevistadores \u2013 alinhados com a emissora, geralmente &#8211;\u00a0 querem ouvir. Com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, quando eventualmente estes s\u00e3o pegos de surpresa; e h\u00e1 alguns momentos bem interessantes e at\u00e9 engra\u00e7ados dessa natureza. Selecionei tr\u00eas memor\u00e1veis, os \u00fanicos que tive not\u00edcia ultimamente, e colei os links na nota de rodap\u00e9 para que quem n\u00e3o viu, assista. Vale a pena!<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Tais momentos at\u00e9 poderiam ser compreendidos como uma tentativa de constru\u00e7\u00e3o de efeitos de pluralidade discursiva \u2013 \u201colhem como somos plurais!\u201d -, mas a consterna\u00e7\u00e3o\/embara\u00e7o dos entrevistadores parece apontar para um \u201cdeslize\u201d da produ\u00e7\u00e3o dos programas, mesmo, que n\u00e3o esperavam a \u201crebeldia\u201d do entrevistado.<br \/>\nNenhum fator explica sozinho, obviamente, um fen\u00f4meno da magnitude do caos que vivemos hoje no pa\u00eds. Afirmar isso seria de um simplismo b\u00e1rbaro. S\u00e3o v\u00e1rios os atores sociais, individuais e coletivos, envolvidos no processo. J\u00e1 temos lido exaustivamente sobre o caso, v\u00e1rias an\u00e1lises v\u00e3o tentando dar conta de explicar o (quase) inexplic\u00e1vel.<br \/>\nMas ainda acredito que a m\u00eddia corporativa continue tendo um papel central, prestando um desservi\u00e7o, gerando \u00f3dios, falsos moralismos, conceitos equivocados e, pior de tudo, mentindo descaradamente, n\u00e3o s\u00f3 distorcendo. O caso do suposto \u201ctr\u00edplex do Lula\u201d rendeu manchetes e reportagens durante meses, e quando, ao final do inqu\u00e9rito, outras pessoas foram indiciadas \u2013 n\u00e3o encontraram provas suficientes de que estivesse envolvido \u2013 a not\u00edcia ficou restrita aos ve\u00edculos chamados \u201calternativos\u201d, que para mim tamb\u00e9m variam bastante nos quesitos qualidade e independ\u00eancia.<br \/>\nOs exemplos s\u00e3o in\u00fameros. O JN, por exemplo, que meus pais e tios consideravam a fonte principal de informa\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o nos anos 70, 80 e 90 (\u201co rep\u00f3rter\u201d; \u201co noticioso\u201d), ainda \u00e9 tido como tal por grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, manipulada diuturnamente por vieses e distor\u00e7\u00f5es variadas.<br \/>\nNo livro \u201cOs Sonhos N\u00e3o Envelhecem &#8211; Hist\u00f3rias do Clube da Esquina\u201d, M\u00e1rcio Borges narra a hist\u00f3ria de seu amigo Jos\u00e9 Carlos, militante pela democracia que morreu sob tortura nas garras do Estado brasileiro ditatorial. E de como o JN mentiu desbragadamente para encobrir esse crime, do mesmo modo que parcela significativa da m\u00eddia brasileira antes, durante e depois do per\u00edodo da ditadura militar. Transcrevo aqui parte do texto do autor, e nas refer\u00eancias voc\u00eas podem ver o t\u00edtulo completo da obra, da qual indico a leitura.<br \/>\n\u201cUma farsa estava sendo montada pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, tanto os oficiais quanto os paramilitares (como a famigerada OBAN: opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes) &#8211; que recrutava jovens da classe m\u00e9dia alta para treinamento antiguerrilha e ca\u00e7a aos &#8220;comunistas&#8221;. Na verdade, Jos\u00e9 Carlos j\u00e1 estava morto. Tinha falecido devido \u00e0 crueldade das torturas de que fora v\u00edtima indefesa, nas masmorras da ditadura. S\u00f3 que eles nunca admitiriam isso, evidentemente. \u00a0A primeira face da farsa teve a cara da censura e o v\u00eddeo da TV Globo. Eu estava com Marilton no apartamento que ele alugara em Copacabana e onde estava morando desde pouco tempo, rec\u00e9m-casado com a mineira Maria Carmem. Era hora do Jornal Nacional, mas s\u00f3 prestei aten\u00e7\u00e3o ao locutor Cid Moreira quando seu rosto foi subitamente substitu\u00eddo por uma foto 3&#215;4 que tomou conta de toda a telinha e sua voz adquiriu um tom dram\u00e1tico e aterrador. Na foto reconheci imediatamente o rosto de Jos\u00e9 Carlos, enquanto a voz do locutor narrava para todo o Brasil uma mentira absurda, noticiando que nosso amigo tinha sido baleado e morto durante um tiroteio com a pol\u00edcia, nos arrabaldes de&#8230; Recife, Pernambuco. Minha rea\u00e7\u00e3o foi hist\u00e9rica e infantil. Dei um pulo da cadeira e comecei a bradar, brandindo os punhos na dire\u00e7\u00e3o da imagem de Cid Moreira: \u2014 Mentira! Assassinos! Assassinos! Ele morreu em S\u00e3o Paulo! Torturadores assassinos!!! \u2014 e ca\u00ed sentado, abatido pela revolta, pelo desespero, pelo medo, pela dor, tudo junto.\u201d<br \/>\nEu, que na \u00e9poca era crian\u00e7a ainda, me lembro bem dos \u201ctons aterradores e graves\u201d do Cid Moreira para narrar as coisas, fossem ou n\u00e3o mentirosas. E n\u00e3o tenho ilus\u00f5es de que a realidade tenha mudado muito desde ent\u00e3o. As oculta\u00e7\u00f5es continuam, os vieses manipuladores, a insist\u00eancia com certas pautas e o abandono de outras, as marteladas di\u00e1rias para criar \u201crealidades\u201d de acordo com os interesses midi\u00e1ticos. E quais s\u00e3o esses? Os dos patr\u00f5es, claro; no relat\u00f3rio da OXFAM, temos algumas pistas novamente.<br \/>\nA maximiza\u00e7\u00e3o do lucro, por certo, \u00e9 o principal interesse das grandes corpora\u00e7\u00f5es, midi\u00e1ticas ou de outros setores. Ela se d\u00e1 atrav\u00e9s de mecanismos como a <strong>evas\u00e3o fiscal<\/strong>, o <strong>super-capitalismo dos acionistas<\/strong> (na d\u00e9cada de 1970, no Reino Unido, 10% do lucro das empresas ia para os acionistas; hoje vai 70%) e o <strong>capitalismo da camaradagem<\/strong> (que inclui o controle dos estados-na\u00e7\u00e3o, usando o enorme poder e influ\u00eancia para garantir que regula\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas nacionais e internacionais sejam formuladas de maneira que possibilitem a continuidade dos lucros). O relat\u00f3rio conclui que estamos na era dos super-ricos, na qual a fachada enganosa camufla problemas sociais grav\u00edssimos e muita corrup\u00e7\u00e3o. O estudo que gerou o relat\u00f3rio incluiu todos os indiv\u00edduos com patrim\u00f4nio l\u00edquido acima de US$ 1 bilh\u00e3o.<br \/>\nOs 1.810 bilion\u00e1rios (em d\u00f3lares) inclu\u00eddos na lista da Forbes de 2016 (dos quais 89% s\u00e3o homens), possuem um patrim\u00f4nio de US$ 6,5 trilh\u00f5es \u2013 a mesma riqueza detida pelos 70% mais pobres da humanidade. S\u00f3 a \u00c1frica perde, todos os anos, US$ 14 bilh\u00f5es em receitas em decorr\u00eancia do uso para\u00edsos fiscais por parte dos super-ricos \u2013 segundo c\u00e1lculos da Oxfam, esse valor seria suficiente para prestar assist\u00eancia de sa\u00fade para quatro milh\u00f5es de crian\u00e7as e empregar um n\u00famero suficiente de professores para colocar todas as crian\u00e7as africanas na escola. Ou seja: n\u00e3o h\u00e1 como defender a moralidade dessa situa\u00e7\u00e3o indigna, a despeito dos esfor\u00e7os, inclusive de certa ex-esquerda (que gosta de falar em ex-querda), para anular a quest\u00e3o \u00e9tico-moral a todo pano, usando Nietzsche e Foucault na empreitada, se necess\u00e1rio. Eles tamb\u00e9m gostam de botar a culpa de todos os males do Brasil, do mundo e da gal\u00e1xia na conta do pet\u00ea (Partido dos Trabalhadores), mas a\u00ed j\u00e1 \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<br \/>\nMe limito aqui a comentar o relat\u00f3rio, relacionando-o com o papel da m\u00eddia na situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel que ela ajuda a legitimar e sustentar. Enquanto louvam os super-ricos &#8211; dos quais os donos da m\u00eddia corporativa fazem parte &#8211; como seres plenos de m\u00e9rito, espertos, esp\u00e9cie de \u201cMidas\u201d contempor\u00e2neos, criminalizam violentamente os movimentos sociais, e tem sido assim historicamente. Trecho de artigo sobre o tema, de autoria de Leopoldo Volanin, professor de hist\u00f3ria, d\u00e1 conta dessa historicidade:<br \/>\n\u201cA manchete estampada na Folha da Manh\u00e3 de 26 de novembro de 1935, referindo-se a Intentona Comunista \u201cPernambuco e Rio Grande do Norte agitados por um movimento subversivo de car\u00e1ter extremista\u201d, j\u00e1 indicava um processo de lutas sociais e conflitos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos entre organiza\u00e7\u00f5es de grupos sociais oprimidos e os sistemas dominantes, detentores dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A Revista Veja de 26 de junho de 1985 traz em uma de suas manchetes \u201cF\u00e9rias amea\u00e7adas \u2013 a supergreve nas escolas altera calend\u00e1rio\u201d, apresentando negativamente a greve de professores para a popula\u00e7\u00e3o, omitindo, no entanto, dados fundamentais que os levaram \u00e0 greve, como a desvaloriza\u00e7\u00e3o salarial do professor, o desgaste humano devido a quantidade de atividades que o professor se v\u00ea na conting\u00eancia de realizar, o afetivo, entre outros\u201d.<br \/>\nAqui tamb\u00e9m os exemplos abundariam. Em rela\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais por terra no campo e por moradia nas cidades, a criminaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 intensa e diuturna na m\u00eddia hegem\u00f4nica. O descaso com a fun\u00e7\u00e3o social da terra e da propriedade, a aus\u00eancia de uma pol\u00edtica de Estado s\u00e9ria nesses campos, que atendesse \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, \u00e9 totalmente ignorada pelos ve\u00edculos. Enquanto isso, os militantes que se organizam para fazer press\u00e3o para que se cumpra o que est\u00e1 dito na constitui\u00e7\u00e3o federal s\u00e3o transformados em criminosos no senso comum do cidad\u00e3o m\u00e9dio; este \u00faltimo, geralmente, leitor de jornais escritos e revistas semanais, al\u00e9m de telespectador de \u201cnoticiosos\u201d de TV. Peguei os exemplos acima citados apenas para ilustrar que a coisa n\u00e3o vem de hoje, que j\u00e1 foi \u2013 e continua sendo &#8211; constru\u00eddo um imagin\u00e1rio conservador no Brasil, e que ser\u00e1 muito dif\u00edcil desconstrui-lo para erigir outro mais inclusivo e plural.<br \/>\nIsso ajuda a explicar aqueles seres ign\u00f3beis que vemos nas redes sociais, xingando, ofendendo, banalizando o mal, desejando a morte de senhoras hospitalizadas em estado grave e muitos outros horrores, que praticam prazenteiros, certos de que s\u00e3o \u201cgente de bem\u201d. Que os c\u00e9us me ajudem e que eu possa ficar segura, a salvo dessas gentes t\u00e3o \u201cdistintas\u201d quanto perigosas na sua tosca ignor\u00e2ncia.<br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<br \/>\n\u00c1VILA, R. I. (2016). <em>N\u00e3o se administra um Estado como uma padaria<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/nao-se-administra-um-estado-como-uma-padaria-por-rober-iturriet-avila\/\">http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/nao-se-administra-um-estado-como-uma-padaria-por-rober-iturriet-avila\/<\/a><br \/>\nBORGES, M. (1996). <em>Os Sonhos N\u00e3o Envelhecem &#8211; Hist\u00f3rias do Clube da Esquina<\/em>. S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial.<br \/>\nCASTRO, L. (2017) <em>Piovani: posso te contar umas coisas que vi nas reda\u00e7\u00f5es? <\/em>Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/24\/piovani-posso-te-contar-umas-coisas-que-vi-nas-redacoes\/\">http:\/\/agenciasportlight.com.br\/index.php\/2017\/01\/24\/piovani-posso-te-contar-umas-coisas-que-vi-nas-redacoes\/<\/a><br \/>\nVOLANIN, L. (2010). <em>Poder E M\u00eddia: A Criminaliza\u00e7\u00e3o dos Movimentos Sociais no Brasil nas \u00daltimas Trinta D\u00e9cadas<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.diaadiaeducacao.pr.gov.br\/portals\/pde\/arquivos\/760-4.pdf\">http:\/\/www.diaadiaeducacao.pr.gov.br\/portals\/pde\/arquivos\/760-4.pdf<\/a><br \/>\nOXFAM (2017). <em>Uma economia para os 99%<\/em>. Relat\u00f3rio dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org.br\/publicacoes\/uma-economia-para-os-99\">https:\/\/www.oxfam.org.br\/publicacoes\/uma-economia-para-os-99<\/a><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org.br\/davos2017\">https:\/\/www.oxfam.org.br\/davos2017<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7ij4x7Dbvqo\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7ij4x7Dbvqo<\/a> (Cartunista Carlos Latuff).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=K6kRpsoqeC8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=K6kRpsoqeC8<\/a> (Professora Gilberta Acselrad).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CxVnQxWraHs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CxVnQxWraHs<\/a> (Jornalista esportivo Tim Vickery).<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00edlia ver\u00edssimo Veronese Diante dos horrores que vivemos no Brasil hoje, do sombrio futuro que se desenha, da ascens\u00e3o conservadora que naturaliza a desigualdade \u2013 o relat\u00f3rio da OXFAM sobre o quadro geral das desigualdades no mundo, recentemente divulgado, traz informa\u00e7\u00f5es contundentes e est\u00e1 sendo bastante comentado[1] -, tenho me perguntado sobre os rumos do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":44088,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[80,43,29],"class_list":["post-44086","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-debates","tag-efeitos","tag-eua","tag-sao-paulo"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44086\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}