{"id":44159,"date":"2017-02-04T16:24:07","date_gmt":"2017-02-04T19:24:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=44159"},"modified":"2017-02-04T16:24:07","modified_gmt":"2017-02-04T19:24:07","slug":"sobre-autoelogios-de-um-brioso-magistrado-de-piso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/sobre-autoelogios-de-um-brioso-magistrado-de-piso\/","title":{"rendered":"Sobre (auto)elogios de um brioso magistrado de piso"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Eug\u00eanio Arag\u00e3o<\/span><br \/>\n<span class=\"descreve\">Ex-ministro da Justi\u00e7a da Presidenta Dilma Rousseff, advogado e Professor Adjunto da Universidade de Bras\u00edlia.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nLi hoje que o Sr. S\u00e9rgio Moro, juiz federal de piso no Estado do Paran\u00e1, fez distribuir nota com um elogio p\u00fablico do sorteio do Ministro Edson Fachin para a relatoria dos feitos relacionados com a chamada &#8220;<em>Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato<\/em>&#8220;.<br \/>\nEis o teor da nota, chocante pelo estilo burocr\u00e1tico e canhestro, indigno de um magistrado e surpreendente num professor com doutorado:<br \/>\n<em>&#8220;Diante do sorteio do eminente Ministro Edson Fachin como Relator dos processos no Supremo Tribunal Federal da assim chamada Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e diante de solicita\u00e7\u00f5es da imprensa para manifesta\u00e7\u00e3o, tomo a liberdade, diante do contexto e com humildade, de expressar que o Ministro Edson Fachin \u00e9 um jurista de elevada qualidade e, como magistrado, tem se destacado por sua atua\u00e7\u00e3o eficiente e independente. Curitiba, 02 de fevereiro de 2017. S\u00e9rgio Fernando Moro, Juiz Federal\u201d.<\/em><br \/>\nO juiz de piso escreveu uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o. Como o destinat\u00e1rio declarado, o Ministro Fachin, dela n\u00e3o carece, conclui-se que o verdadeiro destinat\u00e1rio \u00e9 o pr\u00f3prio S\u00e9rgio Moro. Tal impress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 desfeita pelas refer\u00eancias \u00e0s &#8220;solicita\u00e7\u00f5es da imprensa&#8221; ou ao autoproclamado car\u00e1ter &#8220;humilde&#8221; da iniciativa, desculpas esfarrapadas para seu autor aparecer. Nem \u00e9 preciso dizer que o juiz desconhece seu lugar. Inebriou-o a celebridade constru\u00edda \u00e0s custas da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia dos seus arguidos e da demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de justiceirismo populista.<br \/>\nCom a simplicidade e sabedoria do sertanejo do Paje\u00fa, meu pai, de saudosa mem\u00f3ria, ensinou-me que n\u00e3o se elogia um superior na hierarquia funcional. Faz\u00ea-lo pode parecer sabujice ou soberba. Elogio se faz a subalterno ou, quando muito, a colega. Um elogio do Sr. S\u00e9rgio Moro ao Ministro Fachin nada acrescenta \u00e0 condi\u00e7\u00e3o dest&#8217;\u00faltimo, que \u00e9, ou n\u00e3o, um \u201c<em>jurista de elevada qualidade<\/em>\u201d independentemente da opini\u00e3o do juiz singular, pois o Sr. Moro n\u00e3o \u00e9 igual nem superior ao Ministro por ele elogiado.<br \/>\nQuanto \u00e0s &#8220;solicita\u00e7\u00f5es da imprensa&#8221;, melhor seria que o juiz singular n\u00e3o as tornasse p\u00fablicas, pois se j\u00e1 \u00e9 feio um juiz receber tais solicita\u00e7\u00f5es &#8211; tecer ju\u00edzos sobre ministros do STF -, muito mais feia \u00e9 a sua avidez em atend\u00ea-las. Um magistrado de piso n\u00e3o existe para julgar, para a m\u00eddia, os magistrados de inst\u00e2ncia superior. Ainda que lhe perguntem, n\u00e3o conv\u00e9m que responda. Suponhamos, s\u00f3 para argumentar, que o Sr. Moro considere o Ministro Fachin um desqualificado; ser\u00e1 que &#8220;toma a liberdade&#8221; e dir\u00e1 isso \u00e0 imprensa? Claro que n\u00e3o, a n\u00e3o ser que seja doido varrido. Logo, dizer que o Ministro Fachin \u00e9 qualificado sempre levantar\u00e1 a d\u00favida sobre a sinceridade do ju\u00edzo, carente de alternativa assertiva. Por isso, dizem os antigos: em boca fechada n\u00e3o entra mosca!<br \/>\nQuanto \u00e0 humildade, quem deve qualificar nossas atitudes como tais s\u00e3o os outros. Autoqualific\u00e1-las \u00e9, por excel\u00eancia, uma autoexalta\u00e7\u00e3o e, portanto, a nega\u00e7\u00e3o da humildade.<br \/>\nSegundo disseminada sabedoria popular, conselho bom \u00e9 para ser vendido, n\u00e3o dado. Mas este ofere\u00e7o de gra\u00e7a ao Sr. Moro: fale menos e trabalhe mais discretamente. Fale nos autos. Evite notinhas. N\u00e3o jogue para a plat\u00e9ia. N\u00e3o fa\u00e7a m\u00e1 pol\u00edtica, mas administre a boa e cabal justi\u00e7a. Defenda a autonomia do Judici\u00e1rio e n\u00e3o aceite ser pautado pela imprensa, que n\u00e3o o ama, apenas o usa e o descartar\u00e1 quando n\u00e3o for mais \u00fatil. Se n\u00e3o acreditar em mim, pergunte ao colega Luiz Francisco Fernandes de Souza, aquele procurador t\u00e3o ass\u00edduo nas p\u00e1ginas de jornais durante o governo FHC, hoje relegado ao ostracismo de um parecerista em inst\u00e2ncia de apela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm juiz n\u00e3o deve ser um <em>pop star<\/em>. Na esteira do velho Foucault, o Judici\u00e1rio deve cultivar a timidez e o recato atribu\u00eddos pela revista VEJA \u00e0 Sra. Marcela Temer. Isso vale <em>a fortiori<\/em> para a justi\u00e7a penal. Seu objetivo p\u00f3s-iluminista n\u00e3o \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o de um bife humano esquartej\u00e1vel em pra\u00e7a p\u00fablica, mas a suposta \u201crecupera\u00e7\u00e3o\u201d do cidad\u00e3o que cai em sua malha. No Brasil, mui distante da Noruega, isso \u00e9 uma quimera, mas \u00e9 tamb\u00e9m a meta, sem a qual nunca poderemos sonhar com a redu\u00e7\u00e3o do elevado grau de criminalidade. O imputado exposto \u00e9 um imputado destru\u00eddo, sem nada a perder e, portanto, de dif\u00edcil reacolhimento social, com ou sem culpa. Conduzido &#8220;de bara\u00e7o e preg\u00e3o pelas ruas da vila&#8221;, exposto \u00e0 execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica no pelourinho, \u00e9 mais prov\u00e1vel que se considere injusti\u00e7ado e n\u00e3o consiga ver legitimidade na atua\u00e7\u00e3o do seu juiz. D\u00ea-se o respeito, Sr. Moro, para que todos possam respeit\u00e1-lo (e n\u00e3o apenas os membros do seu f\u00e3-clube, com a cachola detonada pelo \u00f3dio persecut\u00f3rio). Ju\u00edzos ostensivos sobre magistrados de inst\u00e2ncias superiores n\u00e3o contribuem para tanto.<br \/>\n\u00c9 bom lembrar, por \u00faltimo, ao Tribunal Regional Federal da 4\u00aa Regi\u00e3o, que sobra tempo ao juiz Moro. Dedica-se o magistrado de piso a tert\u00falias com a imprensa, reda\u00e7\u00e3o de notinhas, palestras no Brasil e no exterior, verdadeiras <em>tourn\u00e9es<\/em> de um artista buscando aplauso. Para tudo isso, recebeu, afora passagens e, qui\u00e7\u00e1, cach\u00eas ou di\u00e1rias, o direito reconhecido pela corte regional, de funcionar, com exclusividade, nos processos da \u201c<em>Lava-Jato<\/em>\u201d, sem qualquer outra distribui\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, n\u00f3s contribuintes estamos pagando por esse exibicionismo, sem que sejamos compensados com servi\u00e7o em monta equivalente. No mais, fere-se, com essa pr\u00e1tica de privil\u00e9gio, o princ\u00edpio do ju\u00edzo natural, ao dispensar-se, esse juiz, da distribui\u00e7\u00e3o geral da mat\u00e9ria de compet\u00eancia de seu of\u00edcio. O excesso de trabalho, com certeza, n\u00e3o \u00e9 motivo cr\u00edvel para tratamento t\u00e3o excepcional. Antes pelo contr\u00e1rio: como, a todo tempo, parece se confirmar, no seu caso, o aforismo \u201ccabe\u00e7a vazia \u00e9 oficina do Diabo\u201d, melhor seria devolver-lhe urgentemente a jurisdi\u00e7\u00e3o plena por distribui\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria, para que se abstenha de notinhas t\u00e3o degradantes para a magistratura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eug\u00eanio Arag\u00e3o Ex-ministro da Justi\u00e7a da Presidenta Dilma Rousseff, advogado e Professor Adjunto da Universidade de Bras\u00edlia. &nbsp; Li hoje que o Sr. S\u00e9rgio Moro, juiz federal de piso no Estado do Paran\u00e1, fez distribuir nota com um elogio p\u00fablico do sorteio do Ministro Edson Fachin para a relatoria dos feitos relacionados com a chamada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":44161,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[71],"class_list":["post-44159","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-debates","tag-imprensa"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44159","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44159"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44159\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}