{"id":45384,"date":"2017-03-09T16:32:26","date_gmt":"2017-03-09T19:32:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=45384"},"modified":"2017-03-09T16:32:26","modified_gmt":"2017-03-09T19:32:26","slug":"extincao-da-zoobotanica-e-vinganca-de-ana-pellini-diz-professor-buckup","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/extincao-da-zoobotanica-e-vinganca-de-ana-pellini-diz-professor-buckup\/","title":{"rendered":"&#034;Extin\u00e7\u00e3o da Zoobot\u00e2nica \u00e9 vingan\u00e7a de Ana Pellini&#034;, diz professor Buckup"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"><strong>Cleber Dioni Tentardini e Geraldo Hasse<\/strong><\/span><br \/>\nAos 85 anos, o professor Ludwig Buckup nunca imaginou que depois de mais de meio s\u00e9culo trabalhando pela sustentabilidade dos recursos naturais do Rio Grande do Sul veria o governo estadual extinguir a Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica (FZB), a mais importante institui\u00e7\u00e3o de estudos e pesquisas ambientais do territ\u00f3rio ga\u00facho.<br \/>\nPor isso, pensa em mover uma a\u00e7\u00e3o p\u00fablica contra o governador Jos\u00e9 Ivo Sartori. S\u00f3 n\u00e3o o fez ainda por n\u00e3o dispor de recursos para contratar advogado e sustentar o processo.<br \/>\nAl\u00e9m disso, h\u00e1 um precedente desanimador: dez anos atr\u00e1s, Buckup viu ser arquivada por \u201cfalta de provas\u201d uma a\u00e7\u00e3o judicial movida por ele e outros ambientalistas contra Ana Pellini, presidente da Fepam no governo Yeda Crusius, acusada de improbidade administrativa por descartar o Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS), documento preparado por t\u00e9cnicos da FZB para normatizar a implanta\u00e7\u00e3o de projetos de silvicultura\u00a0no Estado.<br \/>\nNa vis\u00e3o de Buckup, o fechamento da FZB configura a vingan\u00e7a final de Ana Pellini, atual secret\u00e1ria do Ambiente e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (nome da SEMA), contra a autonomia t\u00e9cnica da funda\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelo Jardim Bot\u00e2nico, o Zool\u00f3gico e o Museu de Ci\u00eancias Naturais, com 60 anos de exist\u00eancia. Com 193 funcion\u00e1rios (43 pesquisadores), alguns j\u00e1 lotados na SEMA &#8211; entre eles se destaca a bi\u00f3loga Luiza Chomenko, considerada uma das herdeiras ideol\u00f3gicas de Jos\u00e9 Lutzenberger -, a Zoobot\u00e2nica pesa apenas 0,046% nas despesas estaduais de 2017.<br \/>\n\u00c9 certo que seu fechamento obrigar\u00e1 o governo a contratar na iniciativa privada os servi\u00e7os normalmente prestados pela FZB a baixo custo. Por exemplo, em 2015 a funda\u00e7\u00e3o cobrou R$ 176 mil pelo plano de manejo dos 14 mil hectares da \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Ambiental do Delta do Jacu\u00ed; por um plano para 8 mil hectares da mesma \u00e1rea, uma empresa privada apresentou um or\u00e7amento de R$ 948 mil. H\u00e1 in\u00fameras pend\u00eancias na agenda ambiental dos pr\u00f3ximos anos: em 2019, \u00e9 preciso cumprir a obriga\u00e7\u00e3o legal de atualizar a lista da flora e fauna amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o no Estado, tarefa tradicional da FZB.<br \/>\nNesta entrevista ao J\u00c1, o professor Buckup exp\u00f5e sua preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro da preserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do Estado. Nascido em S\u00e3o Paulo, ele vive em Porto Alegre desde 1951, quando chegou para cursar Hist\u00f3ria Natural na UFRGS. Em 1958, concluiu o doutorado em Zoologia pela Universidade de Tubingen, na Alemanha. Foi docente e pesquisador na UFRGS de 1959 a 1990. Exerceu o cargo de pr\u00f3-reitor de extens\u00e3o nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1990. Como especialista em crust\u00e1ceos, orientou alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no RS e no PR. Foi consultor de funda\u00e7\u00f5es e conselhos de pesquisa nacionais, como o CNPq e Capes.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>J\u00c1 &#8211; \u00c9 poss\u00edvel reverter esse processo de extin\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\n<strong>Prof. Buckup &#8211;<\/strong> Com essas bancadas que votam a cabresto, n\u00e3o tem volta. Essa turma leva uma gigantesca incompet\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 capaz de entender as quest\u00f5es ambientais, a import\u00e2ncia da diversidade biol\u00f3gica.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>\u00c9 verdade que o governador Jos\u00e9 Ivo Sartori foi seu aluno?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nQuando me encontra, ele me chama de professor, mas eu n\u00e3o lembro porque havia mais de mil alunos por ano no Curso Mau\u00e1, que ajudei a fundar e do qual fui professor por muitos anos, inclusive na nossa filial em Caxias. Ent\u00e3o deve ter sido l\u00e1 que dei aula para o atual governador. Acontece que Sartori nem sabe o que acontece na Funda\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 da turma dos comedores de passarinho de Caxias. Foi a secret\u00e1ria Ana Pellini quem mandou ele fechar a Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica. N\u00e3o tenho d\u00favidas.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>Por qu\u00ea?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nEla tem um ressentimento profundo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o porque l\u00e1 sempre foi um lugar de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com equipes totalmente isentas de posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas em seus trabalhos, e de l\u00e1 surgiram os argumentos que se op\u00f5em \u00e0quilo que a secret\u00e1ria, desde o governo Yeda, sempre quis: acabar com as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 livre explora\u00e7\u00e3o dos recursos ambientais, sem qualquer no\u00e7\u00e3o de sustentabilidade.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<figure id=\"attachment_45402\" aria-describedby=\"caption-attachment-45402\" style=\"width: 665px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45402 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Secretaria-Ana-Pellini_SEMA-e-FEPAM-na-audiencia-publica-das-Subcomiss\u00f5es-dos-C\u00f3digos-de-Meio-Ambiente-e-Florestal2_foto-Marcelo-Bertani-AgALRS.jpg\" alt=\"Secretaria Ana Pellini na Subcomiss\u00e3o dos C\u00f3digos de Meio Ambiente e Florestal da ALRS\/foto Marcelo Bertani\/AgALRS\" width=\"665\" height=\"800\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45402\" class=\"wp-caption-text\">Secretaria Ana Pellini em audi\u00eancia p\u00fablica na ALRS\/foto Marcelo Bertani\/Ag.ALRS<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<b>Restri\u00e7\u00f5es s\u00e3o as regras de licenciamento ambiental?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nEla come\u00e7ou substituindo t\u00e9cnicos da Fepam, da qual foi e voltou a ser presidente. O ressentimento da secret\u00e1ria teve in\u00edcio na \u00e9poca da expans\u00e3o da silvicultura no Estado. H\u00e1 uns doze anos atr\u00e1s, os t\u00e9cnicos da Fepam se socorreram dos servidores da Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica para elaborar o Zoneamento Ambiental da Silvicultura, o ZAS. Era um vasto relat\u00f3rio com normas para que se regulasse o uso do espa\u00e7o riograndense para a silvicultura com a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o afetar ambientes ecologicamente sens\u00edveis, como restos de matas, campos, banhados e assim por diante. O ZAS fez o mapeamento das \u00e1reas que poderiam ser usadas para a silvicultura e as outras que deveriam ser preservadas. Esse relat\u00f3rio foi para as reuni\u00f5es do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) e l\u00e1 o governo Yeda retirou esse ZAS e mandou elaborar outro documento, fabricado pelo gabinete da secret\u00e1ria. Bom, praticamente abriu as porteiras do Rio Grande para os empreendimentos da silvicultura. Por conta disso, institui\u00e7\u00f5es como Agapan e IGR\u00c9 processaram a secret\u00e1ria por improbidade administrativa. O juiz tomou o depoimento dos t\u00e9cnicos da Fepam e da secret\u00e1ria e decidiu por n\u00e3o acolher a den\u00fancia por falta de provas.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>A inten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, seria acabar com o conhecimento cient\u00edfico da FZB como oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s estrat\u00e9gias do governo?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nA secret\u00e1ria deve ter dito ao governador que o primeiro passo era fechar a Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica. Ela sabe que o trabalho feito l\u00e1 vai contra a pol\u00edtica de licenciamento fr\u00e1gil, solto e livre que ela tentou implementar desde o governo Yeda e hoje o faz com alegria. Ent\u00e3o essas s\u00e3o as raz\u00f5es. At\u00e9 porque o argumento da redu\u00e7\u00e3o de custos \u00e9 rid\u00edculo. O or\u00e7amento da Zoobot\u00e2nica representa uns 0,04% do total do Estado.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>Segundo os servidores, \u00e9 o terceiro menor or\u00e7amento ambiental entre os estados.<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nImagina. Tem muitos outros \u00f3rg\u00e3os que gastam bem mais e s\u00e3o inteiramente desnecess\u00e1rios.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>Ser\u00e1 que se aplica o mesmo racioc\u00ednio para a Fepagro, Cientec, FEE&#8230;<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nN\u00e3o posso afirmar assim sem subs\u00eddios. A Fepagro sempre desempenhou um papel important\u00edssimo para o campo da agropecu\u00e1ria. Agora, nunca se sabe realmente a press\u00e3o exercida pelas empresas ligadas aos setores sobre o governo. Mas isso s\u00e3o hip\u00f3teses. O que eu posso afirmar mesmo \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Zoobot\u00e2nica.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>Se falar s\u00f3 de pesquisa e conserva\u00e7\u00e3o, quem vai cuidar do cact\u00e1rio, do serpent\u00e1rio, das cole\u00e7\u00f5es do Museu de Ci\u00eancias Naturais?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nA iniciativa privada, as universidades, por exemplo, n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o, dinheiro nem pessoal para absorver todas as atividades da Zoobot\u00e2nica. E o problema \u00e9 o seguinte: o governo n\u00e3o discutiu com ningu\u00e9m a extin\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o, nem com os antigos dirigentes nem com os servidores mais antigos, bi\u00f3logos consagrados como Benck, Malabarba, Grazia, Miriam Becker, gente que passou por l\u00e1. Da\u00ed conclui-se que o governo n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para o que vai acontecer com o gigantesco e valios\u00edssimo acervo documental da diversidade biol\u00f3gica riograndense. Essa \u00e9 a grande preocupa\u00e7\u00e3o. Um acervo biol\u00f3gico, por exemplo, embora esteja morto, tem que ser conservado, examinado e tratado quase que diariamente. A cole\u00e7\u00e3o de insetos, por exemplo, cria mofo. O herb\u00e1rio, da mesma forma. O Museu tem tecnologias apropriadas para garantir a sobreexist\u00eancia. E mais do que isso, s\u00e3o materiais \u2018tipo\u2019, que em zoologia significa que serviram de base para identifica\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies novas. D\u00e1 nome, identifica, caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas, geogr\u00e1ficas, import\u00e2ncia econ\u00f4mica, ambiental, para a sa\u00fade&#8230; Est\u00e3o l\u00e1, conservadas, como testemunho que um dia existiram em determinado lugar, em determinadas circunst\u00e2ncias. Quem vai cuidar disso.<br \/>\n<figure id=\"attachment_45394\" aria-describedby=\"caption-attachment-45394\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45394 size-medium\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Buckup-2-e1489501773939-300x231.jpg\" alt=\"O in\u00edcio no Museu de Ci\u00eancias Naturais \" width=\"300\" height=\"231\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45394\" class=\"wp-caption-text\">Buckup no in\u00edcio no Museu de Ci\u00eancias Naturais<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<b>O senhor foi um dos fundadores do Museu de Ci\u00eancias Naturais?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\n\u00c9 preciso contar uma hist\u00f3ria. Tudo isso nasceu por iniciativa de um dos mais ilustres pol\u00edticos do Rio Grande, que se chamava Jos\u00e9 Mariano de Freitas Beck. Ele foi secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do governo do general Ernesto Dornelles. Mas de Cultura s\u00f3 havia o Museu Julio de Castilhos. Ent\u00e3o ele criou a Divis\u00e3o de Cultura e tr\u00eas subdiretorias, e nomeou para a diretoria de Ci\u00eancias o padre jesu\u00edta Baldu\u00edno Rambo. A Divis\u00e3o de Cultura come\u00e7ou num pr\u00e9dio na Pra\u00e7a Dom Feliciano onde funcionava o V Comar (da Aeron\u00e1utica). Eu, rec\u00e9m-formado, fui um dos auxiliares do padre Rambo. Ent\u00e3o sugeri a ele que criasse um museu para reunirmos acervo biol\u00f3gico a fim de fazer pesquisas. Esbo\u00e7amos um projeto bem simples, foi aprovado pelo secretario Mariano Beck e mandamos para a Assembleia, que em uma semana aprovou por unanimidade, gra\u00e7as \u00e0 lideran\u00e7a do deputado Siegfried Heuser, um pol\u00edtico excepcional. Criado o Museu Riograndense de Ci\u00eancias Naturais, sa\u00edmos a campo para coletar material. Fui falar com o historiador Dante de Laytano para recolher o material zool\u00f3gico do Museu Julio de Castilhos. Ele nos cedeu uma cole\u00e7\u00e3o famosa de borboletas, uma s\u00e9rie grande de obras sobre ci\u00eancias e assim por diante. Fundamos uma revista chamada Iher\u00edngia, em homenagem ao naturalista Hermann von Ihering. Em cinco anos era considerado o terceiro melhor Museu de Ci\u00eancias Naturais do Brasil. A\u00ed mudamos para a rua Coronel Vicente, voltamos para a Pra\u00e7a Feliciano e depois fomos para um andar no antigo pr\u00e9dio da Mesbla. De l\u00e1 eu sa\u00ed para assumir o magist\u00e9rio na universidade.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<figure id=\"attachment_45397\" aria-describedby=\"caption-attachment-45397\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45397 size-medium\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Rambo-1-e1489501825510-300x264.jpg\" width=\"300\" height=\"264\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45397\" class=\"wp-caption-text\">Padre Baldu\u00edno Rambo<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<b>Especula-se muito sobre os interesses imobili\u00e1rios em cima da \u00e1rea f\u00edsica do Jardim Bot\u00e2nico&#8230;<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nD\u00e9cadas atr\u00e1s j\u00e1 pensaram em transformar em um grande centro de conven\u00e7\u00f5es. Outro pensou em instalar l\u00e1 uma tev\u00ea educativa. No final da d\u00e9cada de 50, a convite do padre Baldu\u00edno Rambo, fui acompanhado do ent\u00e3o secret\u00e1rio de Obras, Jo\u00e3o Caruso, olhar aquela \u00e1rea destinada ao Jardim Bot\u00e2nico. Estendia-se da avenida Ipiranga \u00e0 atual Salvador Fran\u00e7a, e no outro lado, a Cristiano Fischer. No per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o, o Ex\u00e9rcito tomou uma parte, a Brigada tomou outra, o Hospital da \u00a0 PUC levou a parte baixa, a mais f\u00e9rtil, \u00famida. Os t\u00e9cnicos at\u00e9 que conseguiram utilizar parte do solo mais seco. Agora, qualquer vegeta\u00e7\u00e3o mais parecida com os solos \u00famidos do Rio Grande do Sul n\u00e3o vinga. A poda de \u00e1reas f\u00edsicas culmina agora com a extin\u00e7\u00e3o do Jardim Bot\u00e2nico. Qualquer cidade civilizada do mundo tem um jardim bot\u00e2nico.<b> <\/b>Um grande atrativo popular e educacional. As plantas est\u00e3o identificadas. Hoje a juventude n\u00e3o tem outro local, sen\u00e3o a FZB, para saber o que \u00e9 um pau brasil, a canjerana, o cedro. As peculiaridades das esp\u00e9cies, como e onde crescem melhor, isso tudo vai acabar, inclusive vai desaparecer o produtor de mudas nativas que cede material para reflorestamento. Agora, eucalipto e pinus a secret\u00e1ria poder\u00e1 oferecer para todo mundo. Os Campos de Cima da Serra v\u00e3o mudar para Pinus de Cima da Serra. De Ausentes at\u00e9 Canela, est\u00e1 tapado de pinus, \u00e1rvore que nem h\u00famus forma. \u00c9 material que n\u00e3o se decomp\u00f5e. Aquilo \u00e9 uma lavoura, n\u00e3o floresta. N\u00e3o existe sub-bosques, nada cresce embaixo. O problema \u00e9 a mentalidade dos administradores no Rio Grande do Sul e em outros estados que s\u00f3 pensam em gerar receita.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>E como ficam as pesquisas em andamento na FZB, algumas com aporte financeiro de institui\u00e7\u00f5es internacionais?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nPois \u00e9, isso \u00e9 o mais lament\u00e1vel, as pesquisas da Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica tinham forte apoio das entidades de pesquisa do Brasil e do exterior. O Museu \u00e9 uma dos mais conceituados junto \u00e0 Capes, \u00e0 Finep e outros \u00f3rg\u00e3os de financiamento. S\u00e3o pesquisas que o Estado nunca teve que pagar.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>Sem a institui\u00e7\u00e3o, as fontes de pesquisas ir\u00e3o acabar.<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nClaro.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>O Minist\u00e9rio P\u00fablico tem se pronunciado contra o esvaziamento das atividades da Zoobot\u00e2nica enquanto os funcion\u00e1rios estiverem l\u00e1. O que mais poderia ser feito junto ao MP?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nJ\u00e1 me passou pela cabe\u00e7a isso. Acho que \u00e9 preciso mover uma a\u00e7\u00e3o p\u00fablica contra o governador do Estado. Mas a gente se sente t\u00e3o impotente frente a essa m\u00e1quina montada pelo governador, um Legislativo que apoia qualquer coisa que venha do Piratini. N\u00e3o h\u00e1 ades\u00e3o ideol\u00f3gica. Como funciona no Congresso Nacional, \u00e9 praticamente tudo em troca de cargos no governo e de outras benesses. E outro detalhe, para mover uma a\u00e7\u00e3o judicial, tem que constituir advogado, que custa caro. Se perder, eu tenho que pagar sozinho.<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<figure id=\"attachment_45387\" aria-describedby=\"caption-attachment-45387\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-45387 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Ludwig-Buckup-recebe-t\u00edtulo-de-professor-em\u00e9rito-da-UFRGS_foto-Gustavo-Diehl.jpg\" alt=\"Em 2006, Buckup recebeu t\u00edtulo de professor em\u00e9rito da UFRGS_foto Gustavo Diehl\" width=\"725\" height=\"480\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-45387\" class=\"wp-caption-text\">Buckup recebeu t\u00edtulo de professor em\u00e9rito da UFRGS\/foto Gustavo Diehl<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<b>A municipaliza\u00e7\u00e3o dos licenciamentos ambientais entrou nesse pacote para fragilizar as leis de controle?<u><\/u><u><\/u><\/b><br \/>\nSim. Imagina se o munic\u00edpio vai ter condi\u00e7\u00f5es de executar atividades espec\u00edficas que os t\u00e9cnicos altamente qualificados da Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica realizam. N\u00e3o sei como vai ser. Os rios, os campos, o uso indiscriminado de agrot\u00f3xicos&#8230; Sabe que a Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica \u00e9 respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de todos os parques estaduais, cerca de 20. No Parque Estadual do Turvo, no Alto Uruguai, existem as \u00faltimas cinco on\u00e7as pintadas no Estado, dois machos e tr\u00eas f\u00eameas. Est\u00e3o l\u00e1 porque existem seguran\u00e7as, sen\u00e3o os fazendeiros j\u00e1 teriam matado. Pra eles, \u00e9 mais f\u00e1cil matar uma on\u00e7a do que recolher as ovelhas de noite para a on\u00e7a n\u00e3o comer. No planalto virou esporte matar o nosso le\u00e3o baio, o puma. Porque ele come mesmo as ovelhas, devido \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o escassa nas matas.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<u><\/u><u><\/u><br \/>\n<b>O senhor acha poss\u00edvel recuperar o terreno perdido na quest\u00e3o ambiental?<\/b><br \/>\nSem d\u00favida, estamos sendo derrotados pela imaturidade pol\u00edtica dessa gente e do povo, que n\u00e3o est\u00e3o preparados para viver uma democracia plena. A pr\u00f3pria pesquisa est\u00e1 contaminada pelo vi\u00e9s econ\u00f4mico dos projetos. O princ\u00edpio da sustentabilidade ambiental n\u00e3o foi inventado agora. Estamos vivendo uma crise cujo grande rem\u00e9dio seria a reeduca\u00e7\u00e3o dos futuros eleitores. Mas voc\u00ea desanima se olha a situa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 priorizada. Por que o eleitor vota em algu\u00e9m sem saber suas propostas? A imprensa tamb\u00e9m n\u00e3o informa direito. N\u00e3o faz muito eu mandei um of\u00edcio por e-mail para um apresentador de jornal corrigindo-o. Ele disse que as praias do Rio Grande do Sul estavam infestadas de \u00e1guas vivas! Mas como se o mar \u00e9 o ambiente delas? Infelizmente, a ignor\u00e2ncia ambiental est\u00e1 no poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleber Dioni Tentardini e Geraldo Hasse Aos 85 anos, o professor Ludwig Buckup nunca imaginou que depois de mais de meio s\u00e9culo trabalhando pela sustentabilidade dos recursos naturais do Rio Grande do Sul veria o governo estadual extinguir a Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica (FZB), a mais importante institui\u00e7\u00e3o de estudos e pesquisas ambientais do territ\u00f3rio ga\u00facho. 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