{"id":72106,"date":"2019-01-04T13:23:54","date_gmt":"2019-01-04T15:23:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=72106"},"modified":"2019-01-04T13:23:54","modified_gmt":"2019-01-04T15:23:54","slug":"os-tarados-e-taradas-do-brasil-pos-socialismo-imaginario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/os-tarados-e-taradas-do-brasil-pos-socialismo-imaginario\/","title":{"rendered":"Os tarados e taradas do Brasil p\u00f3s-socialismo imagin\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">MAR\u00cdLIA VER\u00cdSSIMO VERONESE<\/span><br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-72109 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/ilustra-190x216.png\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"216\" \/>Impressionante como as pessoas que recentemente assumiram o poder executivo no Brasil \u2013 as quais nem consigo adjetivar, pois ainda n\u00e3o inventaram termo adequado para defini-las \u2013 t\u00eam \u00f3bvios pontos de fixa\u00e7\u00e3o, taras, deliram com fantasias sexuais constantes. Eles \u201cs\u00f3 pensam naquilo\u201d, como dizia a personagem D. Bela, que Zez\u00e9 Macedo interpretava na Escolinha do Professor Raimundo. Tudo se resume a uma obsess\u00e3o por \u00f3rg\u00e3os genitais; \u00e9 mamadeira de piroca, kit gay, um mundo de fantasias sexuais constantemente em ebuli\u00e7\u00e3o. Ando pensando que terei de voltar aos estudos de psican\u00e1lise e reler o texto <em>Tr\u00eas Ensaios sobre a Sexualidade<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> (antes que seja queimado em pra\u00e7a p\u00fablica e proibido pelo <em>index<\/em> bolsonarista), para ver se o velho Sigmund me ajuda a entender essa gente. Nessa obra ele analisa as pervers\u00f5es sexuais.<br \/>\nMas acho que nem Freud explica tamanha monomania. Preocupad\u00edssimos com o que as pessoas t\u00eam entre as pernas, n\u00e3o dormem a noite, caraminholando o que v\u00e3o fazer para controlar a sexualidade alheia. Como se o valor de um ser humano se resumisse ao uso mec\u00e2nico de seus genitais e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de uma identidade fixa e imut\u00e1vel, divinamente determinada. N\u00e3o podem olhar para uma crian\u00e7a sem pensar na pequena genit\u00e1lia daquele serzinho em forma\u00e7\u00e3o, fr\u00e1gil porquanto ainda dependente de cuidados e ensinamentos? \u201cTem pipi ou tem perereca? Usa rosa ou usa azul?\u201d exaltam-se eles, babando e rugindo, os olhos e as mentes fixados, ensandecidos. Dizem-se religiosos, crist\u00e3os. O Deus deles valoriza tanto assim a genit\u00e1lia humana?!<br \/>\nNa l\u00f3gica desses depravados, uma pessoa n\u00e3o vale o que sua personalidade singular acrescenta ao mundo que a cerca; n\u00e3o vale pela sua intelig\u00eancia ou talentos pessoais; n\u00e3o vale por sua exist\u00eancia humana; vale apenas se agir conforme normas r\u00edgidas estabelecidas por gente tacanha, em cuja mente estreita tudo \u00e9 determinado pela apar\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os sexuais. Fico pensando se n\u00e3o seriam todos ped\u00f3filos em potencial, ardendo de desejo doentio pelos pequenos corpos que querem dominar, vigiar e punir (caso n\u00e3o sigam sua obsess\u00e3o heteronormativa). Essa gente \u00e9 t\u00e3o assustadora que \u00e9 uma hip\u00f3tese plaus\u00edvel&#8230; a medonhice<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> deles n\u00e3o parece ter limites.<br \/>\nImposs\u00edvel, al\u00e9m de evocar Freud, n\u00e3o me referir tamb\u00e9m a Foucault. O fil\u00f3sofo e historiador franc\u00eas estudou em detalhe os meios de coer\u00e7\u00e3o e supl\u00edcio utilizados ao longo da hist\u00f3ria para subjugar mentalidades e corpos. Quanta maldade o ser humano pode praticar contra seus iguais? No livro <em>Vigiar e punir: o nascimento da pris\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, o I cap\u00edtulo, intitulado \u201cOs corpos dos condenados\u201d, abre com a seguinte descri\u00e7\u00e3o, obtida na pesquisa do autor em documentos hist\u00f3ricos:<\/p>\n<ul style=\"list-style-type: none\">\n<li>\u201c[Damiens fora condenado, a 2 de mar\u00e7o de 1757], a pedir perd\u00e3o publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carro\u00e7a, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carro\u00e7a, na pra\u00e7a de Greve, e sobre um pat\u00edbulo que a\u00ed ser\u00e1 erguido, atenazado nos mamilos, bra\u00e7os, coxas e barrigas das pernas, sua m\u00e3o direita segurando a faca com que cometeu o dito parric\u00eddio, queimada com fogo de enxofre, e \u00e0s partes em que ser\u00e1 atenazado se aplicar\u00e3o chumbo derretido, \u00f3leo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo ser\u00e1 puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lan\u00e7adas ao vento. Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d\u2019Amsterdam]. Essa \u00faltima opera\u00e7\u00e3o foi muito longa, porque os cavalos utilizados n\u00e3o estavam afeitos \u00e0 tra\u00e7\u00e3o; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso n\u00e3o bastasse, foi necess\u00e1rio, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas&#8230;\u201d<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os supl\u00edcios e castigos eram medonhos. Os reformadores dos s\u00e9culos XVIII e XIX iriam demandar o fim dos castigos f\u00edsicos em pra\u00e7a p\u00fablica. N\u00e3o era algo compat\u00edvel com o \u201cesp\u00edrito das luzes\u201d, as expectativas morais do iluminismo, das novas ideias desenvolvidas na Europa sob a \u00e9gide da tr\u00edade Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Curioso que o soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos tenha dito, em recente palestra, que esses governos reacion\u00e1rios tipo Trump, Duterte, Bolsonaro etc, queiram justamente retroceder a um tempo pr\u00e9-iluminista, pr\u00e9-revolu\u00e7\u00e3o francesa. N\u00e3o \u00e0 toa, pois, que exaltem a tortura.<br \/>\nO livro de cabeceira do presidente do Brasil foi escrito por um torturador, j\u00e1 reconhecido como tal pelo Estado brasileiro ap\u00f3s investiga\u00e7\u00f5es que n\u00e3o deixam d\u00favidas. Assassino (mais de 60 pessoas morreram sob seu comando ou a\u00e7\u00e3o direta, no DOI-CODI em S\u00e3o Paulo), era claramente um s\u00e1dico, um psicopata. Brilhante Ustra foi processado v\u00e1rias vezes por ocultar cad\u00e1veres, especialmente em valas comuns do cemit\u00e9rio de Perus, na capital paulista. Algu\u00e9m, certamente, muito pr\u00e9-reformas do s\u00e9culo XIX na Europa, que clamaram pela extin\u00e7\u00e3o das sev\u00edcias e fim das torturas nos manic\u00f4mios, asseverando que deviam ser substitu\u00eddas pelo \u201ctratamento moral\u201d \u00e0 l\u00e1 Philippe Pinel. Pois ent\u00e3o, caros e caras.<br \/>\nTalvez estejamos diante da tentativa de revoga\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio do Direito Internacional, a proibi\u00e7\u00e3o da tortura. Trata-se de uma norma imperativa, de aplica\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Sendo a pr\u00e1tica da tortura um ato proibido por lei, \u00e9 considerada crime e deve ser punida. Contudo, os tarados sexuais fixados em piroca e perereca s\u00e3o declaradamente favor\u00e1veis a ela. Os adolescentes trint\u00f5es, filhos do presidente da rep\u00fablica, usam camisetas impressas com odes a Ustra. O buf\u00e3o presidencial declarou em rede nacional sua admira\u00e7\u00e3o pelo torturador assassino. Mesmo assim, foi eleito. \u00c9 a banaliza\u00e7\u00e3o do mal descrita por Hannah Arendt. \u00c9 o mal praticado e exaltado, aos zurros, no Parc\u00e3o e em outros lugares onde moram as supostas \u201celites\u201d.<br \/>\nParte da popula\u00e7\u00e3o brasileira (e mundial) nunca incorporou os princ\u00edpios iluministas. S\u00e3o toscos. S\u00e3o potencialmente ped\u00f3filos e torturadores. Utilizam massivamente o mecanismo de proje\u00e7\u00e3o, dizendo que os gays \u00e9 que s\u00e3o ped\u00f3filos e pervertidos. Dizem isso enquanto fazem programas com travestis, como publicizado recentemente sobre um pol\u00edtico conservador de direita, em Porto Alegre<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<br \/>\nOt\u00e1vio Germano \u00e9 a cara deles. Votando hipocritamente \u201cpela fam\u00edlia\u201d no congresso nacional, sai dali e vai fazer sexo com travestis, \u00e0s escondidas. Seria bem mais saud\u00e1vel largar a obsess\u00e3o de s\u00f3 pensar naquilo e fazer sexo naturalmente com quem desejasse, sexo consentido e reciprocit\u00e1rio, livre e prazeroso. Sem as taras que possivelmente os atormentam e os fazem assim atormentar os outros.<br \/>\nDeixem as crian\u00e7as em paz, tarados e taradas (Damares vem se revelando das piores taradas\/obcecadas com sexo e com cores, obsess\u00f5es tolas e sem sentido). Parem de enxergar p\u00eanis e vaginas onde devem ver <strong>as crian\u00e7as brasileiras<\/strong>. Deixem-nas ser quem elas s\u00e3o, quem nasceram para ser, herdeiras da infinita diversidade humana, dos milh\u00f5es de singularidades poss\u00edveis. Deem a elas oportunidades de se educarem, de desenvolverem suas aptid\u00f5es, talentos e possibilidades. Ofere\u00e7am a elas oportunidades iguais, educa\u00e7\u00e3o de qualidade (incluindo educa\u00e7\u00e3o sexual, ambiental, midi\u00e1tica, para que possam lidar de maneira saud\u00e1vel com esses aspectos da vida), cuidados em sa\u00fade, protejam-nas de viol\u00eancias e agress\u00f5es, proporcionem-lhes lazer, alegria, espa\u00e7o f\u00edsico digno e adequado. Ensinem-lhes a respeitar os outros, a praticar a benefic\u00eancia e evitar a malefic\u00eancia com humanos e n\u00e3o humanos, com o meio ambiente que as cerca e lhes permite a vida.<br \/>\nUma crian\u00e7a sempre simboliza a esperan\u00e7a no futuro. No nosso imagin\u00e1rio, ela poder\u00e1 ver um mundo melhor do que o que n\u00f3s, adultos, vemos ou ainda poderemos ver. Na medida em que envelhecemos, nos resta cada vez menos tempo. Elas, as crian\u00e7as, nos suceder\u00e3o, passaremos o bast\u00e3o para elas e sucessivamente para as gera\u00e7\u00f5es vindouras.<br \/>\nPois muito bem, adultos ainda l\u00facidos e respons\u00e1veis: temos muito trabalho pela frente nos pr\u00f3ximos anos. Para limpar essa lamban\u00e7a toda e deixar algo mais digno, um futuro no qual nossas crian\u00e7as possam viver e amar livremente, com responsabilidade, tendo a justi\u00e7a e a solidariedade incorporadas como valores fundamentais, como a nossa mais importante heran\u00e7a para elas.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Freud, Sigmund. (1905) <em>Tr\u00eas ensaios sobre a Teoria da Sexualidade<\/em>. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> De <em>Medonho<\/em>: assustador, horripilante, horroroso, disforme, desgra\u00e7ado, sinistro, funesto, aterrador, horr\u00edvel, pavoroso, tem\u00edvel, tenebroso, terr\u00edvel, t\u00e9trico. In: Dicion\u00e1rio de Sin\u00f4nimos. Dispon\u00edvel em:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.sinonimos.com.br\/busca.php?q=medonhice\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.sinonimos.com.br\/busca.php?q=medonhice<\/a><br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Foucault, Michel. <em>Vigiar e punir: nascimento da pris\u00e3o<\/em>. Petr\u00f3polis, Vozes, 1987. 288p. Do original em franc\u00eas: Surveiller et punir.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/travestis-cobram-divida-de-deputado-do-pp-gaucho-que-votou-pelo-impeachment-por-miguel-enriquez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/travestis-cobram-divida-de-deputado-do-pp-gaucho-que-votou-pelo-impeachment-por-miguel-enriquez\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAR\u00cdLIA VER\u00cdSSIMO VERONESE Impressionante como as pessoas que recentemente assumiram o poder executivo no Brasil \u2013 as quais nem consigo adjetivar, pois ainda n\u00e3o inventaram termo adequado para defini-las \u2013 t\u00eam \u00f3bvios pontos de fixa\u00e7\u00e3o, taras, deliram com fantasias sexuais constantes. Eles \u201cs\u00f3 pensam naquilo\u201d, como dizia a personagem D. 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