{"id":73777,"date":"2019-04-19T14:00:51","date_gmt":"2019-04-19T17:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=73777"},"modified":"2020-09-23T19:02:14","modified_gmt":"2020-09-23T22:02:14","slug":"ha-20-anos-ameacas-fermentam-na-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/ha-20-anos-ameacas-fermentam-na-internet\/","title":{"rendered":"H\u00e1 20 anos amea\u00e7as fermentam na internet"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"olho\" style=\"font-weight: 400;\"><span class=\"assina\">Por Tiago Lobo<\/span><\/span><br \/>\n<span class=\"olho\" style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/especiais\/ARO-selo.jpg\" alt=\"\" width=\"170\" height=\"auto\" \/>No f\u00f3rum Dogolachan, localizado na primeira camada da Deep Web, uma parte da internet invis\u00edvel aos motores de busca como o Google, adolescentes intitulados Incels (celibat\u00e1rios involunt\u00e1rios na sua linguagem), trocam informa\u00e7\u00f5es e pedem dicas de forma an\u00f4nima. Os assuntos variam desde a compra facilitada de armas, esquemas de bombas caseiras, tipos de \u00e1cidos para agredir pessoas, at\u00e9 troca de conte\u00fado ped\u00f3filo e dicas para planejar e cometer atentados terroristas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um espa\u00e7o, inclusive, que funciona como um confession\u00e1rio. Um \u201cpadre\u201d responde \u00e0s confiss\u00f5es dos usu\u00e1rios. Um deles pede, por exemplo, ajuda ap\u00f3s 9 dias de celibato para se livrar do v\u00edcio pela masturba\u00e7\u00e3o que teria o tornado \u201cimpuro\u201d&#8230; <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O f\u00f3rum \u00e9 terreno f\u00e9rtil onde apologia ao crime \u00e9 rotina. De l\u00e1 que partiram incentivos para trag\u00e9dias que mobilizam o pa\u00eds desde o final dos anos 90.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 novembro de 1999, \u201ctiroteios em massa\u201d n\u00e3o eram uma realidade no Brasil. Isso era tido como um problema da terra do Tio Sam, nada Tupiniquim. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir de 20 de abril daquele ano o chamado \u201cMassacre de Columbine\u201d inundou a pauta na imprensa internacional: dois adolescentes mataram 12 alunos \u00a0e um professor, feriram outras 21 pessoas para depois se suicidarem em uma escola do Colorado, Estados Unidos. Desde 1996 os adolescentes alimentavam um site onde compartilhavam mapas e estrat\u00e9gias sobre o jogo de tiro \u201cDoom\u201d. No final de 97 j\u00e1 havia conte\u00fado sobre como construir bombas caseiras e postagens que descreviam o \u00f3dio que a dupla sentia da sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na noite de 3 de novembro, pouco mais de 6 meses depois de Columbine, cerca de 30 pessoas assistiam ao filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Clube da Luta <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">na sala 5 do cinema do Shopping Morumbi, em S\u00e3o Paulo. Um estudante de medicina de 24 anos come\u00e7ou a atirar at\u00e9 esvaziar o pente de uma submetralhadora, matando tr\u00eas pessoas e ferindo outras quatro. Ele foi imobilizado quando ficou sem muni\u00e7\u00e3o e logo em seguida foi detido pela pol\u00edcia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Advogados de defesa, na \u00e9poca, tentaram alegar insanidade, o que o tornaria ininput\u00e1vel: algu\u00e9m que n\u00e3o tem discernimento sobre certo e errado, e possibilitaria o cumprimento da pena em um hospital psiqui\u00e1trico. Alegaram tamb\u00e9m que ele havia sofrido influ\u00eancia de um jogo de tiro, o cl\u00e1ssico Duke Nukem: n\u00e3o colou e ele foi condenado a 120 anos e seis meses de pris\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um psiquiatra contratado pela fam\u00edlia afirmou que o jovem sofria de Transtorno de Personalidade Esquizoide (TPE), caracterizado pelo distanciamento e desinteresse no conv\u00edvio social e uma gama limitada de emo\u00e7\u00f5es em seus relacionamentos interpessoais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Membro de fam\u00edlia da classe m\u00e9dia alta de Salvador, o \u201catirador do shopping\u201d come\u00e7ou a apresentar ind\u00edcios de depress\u00e3o e idea\u00e7\u00e3o suicida aos 13 anos: queixava-se \u00e0 m\u00e3e que n\u00e3o tinha amigos. Aos 15, durante um interc\u00e2mbio nos E.U.A, foi mandado de volta pela fam\u00edlia que o acolheu no exterior por conta da sua agressividade e, ao retornar, passou a agredir fisicamente os pr\u00f3prios pais chegando a fraturar a costela de um deles. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, foi morar sozinho em S\u00e3o Paulo, para ter \u201cuma vida social independente\u201d. Na faculdade de medicina (seguindo os caminhos do pai), ingressou como aluno brilhante e foi decaindo. Introspectivo e com rea\u00e7\u00f5es desproporcionais \u00e0s brincadeiras dos colegas foi ficando sozinho. Um professor o definiria como uma pessoa \u201cap\u00e1tica, diferente\u201d. Nas primeiras f\u00e9rias da faculdade tentou suic\u00eddio, depois teve que sair da pens\u00e3o onde morava por agredir um colega, na sequ\u00eancia amea\u00e7ou o porteiro de um apartamento que os pais lhe alugavam e passou a ter alucina\u00e7\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cinco dias antes do crime, resolveu largar a medica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica por conta pr\u00f3pria e fazia uso frequente de coca\u00edna. A pol\u00edcia encontraria 37 papelotes da droga no apartamento do estudante, que n\u00e3o pagava o condom\u00ednio havia dois meses. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tr\u00eas anos depois do julgamento, a pena foi reduzida a 48 anos e nove meses de pris\u00e3o por uma tecnicalidade da legisla\u00e7\u00e3o. Hoje ele segue preso, institucionalizado no Hospital de Cust\u00f3dia e Tratamento de Salvador, destinado a doentes mentais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logo ap\u00f3s ser detido, policiais do 96\u00ba DP perguntaram se havia alguma namorada ou amigos para avis\u00e1-los da situa\u00e7\u00e3o do atirador. \u201cEu n\u00e3o gosto de ningu\u00e9m\u201d, ele respondeu. <\/span><b><\/b><span class=\"intertit\"><b>A primeira escola<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cidade de Tai\u00fava, a 363 km de S\u00e3o Paulo foi o palco para o primeiro tiroteio em massa dentro de uma escola que o Brasil registra. \u00c0s 14h40min do dia 27\/01\/2003, um jovem de 18 anos armado com um rev\u00f3lver calibre 38 e 105 proj\u00e9teis invadiu o p\u00e1tio da sua ex-escola e disparou quinze vezes contra alunos, professores e funcion\u00e1rios. Ap\u00f3s ferir cinco estudantes, zelador e vice-diretora, se matou com um tiro na cabe\u00e7a. Uma das v\u00edtimas ficou tetrapl\u00e9gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O col\u00e9gio estadual Coronel Benedito Ortiz, cena do crime, foi frequentado pelo atirador durante toda sua vida escolar. \u00c0 \u00e9poca a diretora da escola, Maria Luiza Gon\u00e7alves Oliveira disse para a imprensa que eram muito amigos e que &#8220;ele nunca deu problemas, era educado, sempre andou bem vestido&#8221;. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pol\u00edcia concluiu que o atirador teria cometido o crime motivado por revolta, devido ao bullying que sofria por ter \u201cproblemas com peso\u201d. Em 1999, segundo a diretora Oliveira, o jovem conseguiu emagrecer quase 30 quilos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Filho \u00fanico de fam\u00edlia simples, o pai trabalhava no campo e a m\u00e3e dona-de-casa, o atirador de Tai\u00fava era tido como bom aluno, sem problemas com disciplina e sem inimigos. Sa\u00eda pouco e n\u00e3o tinha namorada.<\/span><b><\/b><span class=\"intertit\"><b>Luto nacional <\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O caso que teve maior repercuss\u00e3o na imprensa e como\u00e7\u00e3o p\u00fablica, levando a ent\u00e3o presidente Dilma Roussef a decretar luto nacional, teve in\u00edcio na manh\u00e3 de 7 de abril de 2011. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um rapaz com 23 anos, ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, invadiu a institui\u00e7\u00e3o armado com dois rev\u00f3lveres calibres .32 e .38 e abriu fogo contra alunos deixando 12 crian\u00e7as mortas (10 meninas e 2 meninos) e 17 feridas. Uma sobrevivente que foi entrevistada pela TV Record logo ap\u00f3s o crime revelou que o assassino atirava nas meninas para matar e nos meninos para ferir. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s ser baleado na perna por um policial, o atirador se matou. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os investigadores apuraram que a motiva\u00e7\u00e3o seria vingan\u00e7a por conta do bullying que sofria. O jovem j\u00e1 havia chamado de \u201cirm\u00e3o\u201d \u00a0o atirador que matou 32 pessoas na Universidade Virginia Tech, nos E.U.A., em 2007. Este \u00faltimo venerava os autores de Columbine. O autor do massacre em Realengo tamb\u00e9m se identificava com o atirador de Tai\u00fava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele chegou a deixar um v\u00eddeo onde dizia ter sido v\u00edtima de &#8220;bullying&#8221;. &#8220;Muitas vezes, aconteceu comigo de ser agredido por um grupo e todos os que estavam por perto debochavam, se divertiam com as humilha\u00e7\u00f5es que eu sofria sem se importar com meus sentimentos&#8221;, declarou em a nota suicida. Nela tamb\u00e9m havia instru\u00e7\u00f5es de como deveriam ser feitas a retirada de seu corpo e o sepultamento. Nenhuma pessoa &#8220;impura&#8221; poderia tocar no cad\u00e1ver. An\u00e1lises do computador do jovem mostraram que ele constantemente fazia pesquisas sobre terrorismo e se identificava com Osama Bin Laden. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">15 dias ap\u00f3s o massacre nenhum familiar compareceu ao Instituto M\u00e9dico Legal para liberar o corpo do atirador: ele foi enterrado como indigente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><b style=\"font-size: 1.5em;\">Padr\u00f5es se repetem<\/b><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo com um intervalo de tempo, parece que o efeito de um atentado em massa se desdobra em cascata. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em setembro de 2011, 5 meses ap\u00f3s Realengo, uma crian\u00e7a de 10 anos atirou contra sua professora e, em seguida, cometeu suic\u00eddio na escola Professora Alcina Dantas Feij\u00e3o, no munic\u00edpio de S\u00e3o Caetano do Sul, do ABC paulista. \u00a0O crime ocorreu \u00e0s 15h50min, ap\u00f3s uma discuss\u00e3o em sala de aula. A arma foi um rev\u00f3lver calibre .38 que pertencia ao pai da crian\u00e7a, um guarda civil. Ambos foram socorridos com vida, mas ap\u00f3s duas paradas card\u00edacas o menino foi declarado morto \u00e0s 16h50. A professora sobreviveu. Os investigadores chegaram a afirmar que o menino era \u201cmanco\u201d, que sofria goza\u00e7\u00f5es dos colegas e esta seria a motiva\u00e7\u00e3o do crime, mas abandonaram a tese. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em outubro de 2017 um adolescente de 14 anos matou dois colegas e feriu outros quatro ao disparar uma pistola .40 da m\u00e3e, que assim como o pai, era policial militar. O crime ocorreu no Col\u00e9gio Goyases, em Goi\u00e2nia (GO). Segundo os colegas, o jovem era constantemente chamado de \u201cfedorento\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Este ano, o ataque ocorrido na escola paulista Raul Brasil, em Suzano, no dia 13 de mar\u00e7o, <\/span>deixou 10 mortos e 11 feridos<span style=\"font-weight: 400;\">, por dois jovens encapuzados que abriram fogo nas depend\u00eancias da institui\u00e7\u00e3o. Suspeita-se que os atiradores tenham sido frequentadores do Dogolachan, onde s\u00e3o celebrados como her\u00f3is.<\/span><br \/>\n<a href=\"www.cvv.org.br\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-73791 size-full\" src=\"http:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/cvv_728x90.png\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\" \/><\/a><br \/>\n<span class=\"intertit\"><strong>Acompanhe as reportagens da s\u00e9rie:<\/strong><\/span><\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/wp.me\/panyOw-jbS\">Parte 1: Repress\u00e3o aos crimes virtuais desafia pol\u00edcia ga\u00facha<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tiago Lobo No f\u00f3rum Dogolachan, localizado na primeira camada da Deep Web, uma parte da internet invis\u00edvel aos motores de busca como o Google, adolescentes intitulados Incels (celibat\u00e1rios involunt\u00e1rios na sua linguagem), trocam informa\u00e7\u00f5es e pedem dicas de forma an\u00f4nima. 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