{"id":78112,"date":"2019-10-20T06:00:29","date_gmt":"2019-10-20T09:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=78112"},"modified":"2019-10-20T06:00:29","modified_gmt":"2019-10-20T09:00:29","slug":"emanuel-medeiros-vieira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/emanuel-medeiros-vieira\/","title":{"rendered":"Emanuel Medeiros Vieira"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_78565\" aria-describedby=\"caption-attachment-78565\" style=\"width: 203px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-78565 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Emanuel-Medeiros-Vieira-e1571765697554.jpg\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"261\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-78565\" class=\"wp-caption-text\">Emanuel Medeiros Vieira<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNatural de Florian\u00f3polis (SC, 1945), formado na UFRGS em Direito, 1969, participou ativamente da milit\u00e2n\u00adcia estudantil. Escritor de romances, poesias e mem\u00f3rias, com vinte e tr\u00eas livros publicados, participou de mais de cinquenta colet\u00e2neas no Brasil e no exterior. Membro da AP (A\u00e7\u00e3o Popular), esteve preso durante meses na OBAN (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes) e no DOPS (Delegacia de Ordem Pol\u00edtica e Social), em S\u00e3o Paulo, seguindo posteriormente ao ex\u00edlio. Foi vendedor de livros, editor, professor e redator de discursos. Seu romance \u201cOlhos Azuis &#8211; Ao Sul do Ef\u00eame\u00adro\u201d (2009) -, foi contemplado com o Pr\u00eamio Internacional de Literatura, concedido pela UBE (Uni\u00e3o Brasileira de Es\u00adcritores).<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Desterro<\/span><br \/>\nDesterro cumpriu-me<br \/>\ne cumpriu-se.<br \/>\nO rio come\u00e7ava atr\u00e1s de casa<br \/>\n(como eu),<br \/>\ne foi embora \u2013 afluentes.<br \/>\nVento sul, Campo do Manejo, Rita<br \/>\nMaria, Rio da Avenida, Miramar,<br \/>\nbala queimada, Catecipes, Praia do Muller,<br \/>\nprociss\u00e3o do Senhor Morto, Cine Rox,<br \/>\ngibis, Grupo Escolar Dias Velho,<br \/>\nChico Barriga D\u2019\u00c1gua, paix\u00e3o camuflada pela menina<br \/>\nda Rua de Cima \u2013 ela nunca soube.)<br \/>\nS\u00f3 enuncio: acumulo \u2013 sobrecarregado.<br \/>\nO rio foi embora.<br \/>\nCasa demolida, m\u00e3e na soleira da porta, pitanga no<br \/>\nquintal, regata na Ba\u00eda Sul, matracas, tur\u00edbulos, trapiche da<br \/>\nPraia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,<br \/>\nfog\u00e3o de lenha, beliches, p\u00e9 de amora.<br \/>\nPerdeu-se o rio: n\u00e3o sei do seu delta.<br \/>\nPerdi-me: tiro certeiro na gaivota.<br \/>\nA rua pequena, era a maior do mundo \u2013 cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesterro inunda-me:<br \/>\noutrora\/agora.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Masmorras<\/span><br \/>\nClandestinidades, fugas na boca da noite<br \/>\nDormir cada dia num lugar<br \/>\nPens\u00f5es, pulgas, esconderijos, dinheiro contado, pratos<br \/>\n[feitos, uma pinga para o consolo provis\u00f3rio.<br \/>\nPalavras apenas &#8211; e foi na carne que doeu.<br \/>\nTudo j\u00e1 foi ditado, mastigado, expelido.<br \/>\nFoi?<br \/>\nO Primeiro Interrogat\u00f3rio.<br \/>\nO Segundo Interrogat\u00f3rio.<br \/>\nO Quarto Interrogat\u00f3rio.<br \/>\nO D\u00e9cimo-Quinto Interrogat\u00f3rio<br \/>\n(De manh\u00e3, de tarde, \u00e0 meia-noite, \u00e0s quatro da<br \/>\n[madrugada).<br \/>\nChoques el\u00e9tricos, pau de arara, \u201ccadeira do drag\u00e3o\u201d,<br \/>\n[\u201ctelefones\u201d, palmat\u00f3rias.<br \/>\nO verso de T.S.Eliot na cabe\u00e7a:<br \/>\n\u201cAs palavras se movem, a m\u00fasica se move<br \/>\nApenas no tempo: mas aquilo que apenas vive<br \/>\nPode apenas morrer. As palavras ap\u00f3s a fala, alcan\u00e7am<br \/>\n[o repouso. (&#8230;)<br \/>\nO corpo: n\u00e3o.<br \/>\nUm bafo de morte na soleira da porta.<br \/>\n(O processo, a burocracia, togas pretas, auditorias, fardas.)<br \/>\nE um dia ir embora para plagas n\u00e3o conhecidas<br \/>\nUm dia, voltamos.<br \/>\n(S\u00f3 restar\u00e1 o obl\u00edvio Algu\u00e9m se lembrar\u00e1?)<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Ex\u00edlio<\/span><br \/>\nUm Atl\u00e2ntico nesta separa\u00e7\u00e3o:<br \/>\nbatido cora\u00e7\u00e3o segue as ondas de maio.<br \/>\nDesterros al\u00e9m da anistia,<br \/>\npara l\u00e1 dos poderes.<br \/>\nVelas ao vento,<br \/>\nn\u00e3o bastam os selos,<br \/>\na escrita crispada.<br \/>\nQueria os sinais da tua pele,<br \/>\nvacinas, umidades, penugens,<br \/>\np\u00ealos perdidos no mapa do corpo,<br \/>\no olhar suplicante, solu\u00e7os.<br \/>\nJornadas:<br \/>\nmissas de s\u00e9timo-dia,<br \/>\nretratos arcaicos.<br \/>\nOutro ex\u00edlio:<br \/>\nsem batidas na boca da noite, armas, fardas, medos,<br \/>\nclandestinidades.<br \/>\nSol neste retorno:<br \/>\ncasa, guarda-chuva no por\u00e3o, caneca de barro,<br \/>\n\u00e1lbuns, abra\u00e7o agregador,<br \/>\ncheiro de p\u00e3o, gosto de caf\u00e9,<br \/>\no amanh\u00e3 junta os o dois n\u00f3s da mem\u00f3ria,<br \/>\num menino e o seu outro: estou melhor feito vinho velho.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Pai<\/span><br \/>\nMeu pai cavalgava<br \/>\nabra\u00e7ado \u00e0 sua dor oculta.<br \/>\nNo crep\u00fasculo: s\u00f3 \u2013 na soleira da porta,<br \/>\ncadeira de balan\u00e7o, boina, olhar azul.<br \/>\nAntes do assobio da Inelut\u00e1vel<br \/>\nfoi para a montanha.<br \/>\nComo um elefante em despedida<br \/>\nquis morrer sozinho.<br \/>\nQuando chegar a hora<br \/>\nfarei como meu pai:<br \/>\nsubirei a montanha,<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Madona<\/span><br \/>\nSenhora das horas inconclusas<br \/>\nSenhora do torto parto<br \/>\ndo porto inalcan\u00e7\u00e1vel<br \/>\nMadona da \u00e2nsia infinita<br \/>\nv\u00e3 peregrina\u00e7\u00e3o<br \/>\nSenhora do desassossego<br \/>\nConceda-me o b\u00e1lsamo do olvido<br \/>\npassagem silenciosa<br \/>\ntravessia sem medo<br \/>\nSenhora do in\u00fatil tempo \u2013 que continua queimando<br \/>\nSenhora da veloz juventude<br \/>\nMadona de todas as velhices<br \/>\nOutorga-me o estatuto da aus\u00eancia<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Planalto<\/span><br \/>\nO Planalto \u00e9 sempre \u2013<br \/>\nn\u00f3s \u00e9 que passamos.<br \/>\nUlisses, or\u00e1culo, reaparece<br \/>\n(num tempo que n\u00e3o quer profetas),<br \/>\nPenel\u00f3pe s\u00f3 tece d\u00favidas, eclipsado o sagrado:<br \/>\nmercantis prop\u00f3sitos \u2013 s\u00f3.<br \/>\nO Planalto \u00e9 sempre<br \/>\n\u2013 n\u00f3s \u00e9 que passamos.<br \/>\nA mem\u00f3ria: nossa mat\u00e9ria<br \/>\n\u2013 como lidar com tanto esquecimento?<br \/>\nCarece preparar os rituais de retorno:<br \/>\nsuado feixe de<br \/>\ncarnes\/emo\u00e7\u00f5es?<br \/>\n(Qual a sua forma?)<br \/>\nAqui irrompeu o pranto,<br \/>\nn\u00e3o a reden\u00e7\u00e3o.<br \/>\nExpulsos do para\u00edso: vagamos.<br \/>\nRebanhos eletr\u00f4nicos, restos de pompa,<br \/>\nret\u00f3ricas cartor\u00e1rias, tecnocratas com dentes de ouro<br \/>\n[\u2013 e celulares de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Planalto \u00e9 sempre<br \/>\n\u2013 n\u00f3s \u00e9 que passamos.<br \/>\nMas cansou-me o pranto:<br \/>\nO sol inunda esta manh\u00e3<br \/>\np\u00e3o quente, cheiro de caf\u00e9 torrado,<br \/>\no poema arranca algo do ef\u00eamero,<br \/>\nfundo-me no esquecimento<br \/>\n(Tamb\u00e9m somos feitos daquilo que perdemos.)<br \/>\nDeus faz que me esquece:<br \/>\ndepois reaparece.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Hiroshima<\/span><br \/>\nNa manh\u00e3 dominical,<br \/>\na bomba de Hiroshima,<br \/>\na bomba,<br \/>\nt\u00e3o clara,<br \/>\nexata,<br \/>\ncir\u00fargica.<br \/>\nBomba geom\u00e9trica,<br \/>\ncerteira.<br \/>\nA bomba vem do c\u00e9u,<br \/>\nmas n\u00e3o \u00e9 ave.<br \/>\nA bomba vem de cima,<br \/>\nmas n\u00e3o \u00e9 Deus.<br \/>\nDesce fumegante,<br \/>\na bomba n\u00e3o negocia,<br \/>\na bomba n\u00e3o conversa,<br \/>\nc\u00e9lere, impositiva,<br \/>\nacerta o alvo, cai,<br \/>\na bomba queima, a bomba dissolve,<br \/>\na bomba dilacera.<br \/>\nAlgu\u00e9m nasce no ano em que ela cai,<br \/>\ne pensa naquele 1945:<br \/>\na surpresa daqueles milhares de olhos,<br \/>\n\u00e0 espera do l\u00fadico no matinal domingo,<br \/>\nparques, igrejas, passeios, visitas familiares,<br \/>\npercebendo \u2013 sem tempo para a reflex\u00e3o \u2013<br \/>\na chegada da n\u00e3o-ave,<br \/>\nemiss\u00e1ria de Tanatos,<br \/>\nque cai, cai,<br \/>\nna paisagem limpa (cogumelos at\u00f4micos).<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Homem diante do mar<\/span><br \/>\nHomem diante do mar<br \/>\n(inst\u00e2ncia interrogativa).<br \/>\nPrec\u00e1ria caravela.<br \/>\nE finita: a vida<br \/>\nTrapiche:<br \/>\no homem s\u00f3 contempla<br \/>\n(desembarcado).<br \/>\nNo estatuto da mem\u00f3ria:<br \/>\nele se interroga, nunca mais a a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo porto: a rapariga rosada estendeu um len\u00e7o.<br \/>\nLimo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o len\u00e7o.<br \/>\n(M\u00e1tria: sou apenas um homem diante do mar.)<br \/>\nDesterro: instante convertido em sempre.<br \/>\nO homem desembarcado s\u00f3 pode viver de mem\u00f3ria:<br \/>\n[diante do mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natural de Florian\u00f3polis (SC, 1945), formado na UFRGS em Direito, 1969, participou ativamente da milit\u00e2n\u00adcia estudantil. Escritor de romances, poesias e mem\u00f3rias, com vinte e tr\u00eas livros publicados, participou de mais de cinquenta colet\u00e2neas no Brasil e no exterior. Membro da AP (A\u00e7\u00e3o Popular), esteve preso durante meses na OBAN (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes) e no DOPS [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[29],"class_list":["post-78112","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-hotsite-poetas-da-dura-noite","tag-sao-paulo"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78112"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78112\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}