{"id":78308,"date":"2019-10-15T04:30:20","date_gmt":"2019-10-15T07:30:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=78308"},"modified":"2019-10-15T04:30:20","modified_gmt":"2019-10-15T07:30:20","slug":"apresentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/apresentacao\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Pois aquele que hoje<br \/>\n<\/em><em>Derrama seu sangue comigo,<br \/>\n<\/em><em>Ser\u00e1 meu irm\u00e3o.<\/em><br \/>\n<strong>William Shakespeare,<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #333333;font-style: normal;font-weight: 300\">em <em>\u201cHenrique V\u201d, ato IV, cena 3<\/em><\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"assina\">Raul Ellwanger<\/span><br \/>\n<figure id=\"attachment_42061\" aria-describedby=\"caption-attachment-42061\" style=\"width: 156px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-42061 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/raul-ellwanger-162x250.jpg\" alt=\"\" width=\"156\" height=\"240\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-42061\" class=\"wp-caption-text\">Raul Ellwanger<\/figcaption><\/figure><br \/>\nAp\u00f3s mais de cinco d\u00e9cadas do golpe patronal-militar de 1964, a revela\u00e7\u00e3o das atrocidades oficiais e a mem\u00f3ria da resist\u00eancia popular tem trazido \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica fatos, nomes, documentos e revela\u00e7\u00f5es que ajudam a recompor a verdade daqueles anos dolorosos. Cada gr\u00e3o dessas lembran\u00e7as vai somando na constru\u00e7\u00e3o do verdadeiro quadro social e cultural da \u00e9poca, desde o grande evento medi\u00e1tico dos tiranos (paradas militares, manchetes jornal\u00edsticas, inaugura\u00e7\u00f5es), at\u00e9 pequenos gestos de solidariedade e amor esquecidos na sombra dos calabou\u00e7os ou silenciados no abrigo dos lares. Fazer luz sobre a \u00e9poca ditatorial permite ao cidad\u00e3o de hoje orientar sua participa\u00e7\u00e3o pessoal e pol\u00edtica, fazendo da pedagogia da mem\u00f3ria uma ferramenta para aperfei\u00e7oar a vida atual.<br \/>\nO presente volume quer trazer \u00e0 luz um aspecto especial e peculiar da vida dos resistentes, com a edi\u00e7\u00e3o de poemas criados em situa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a, coer\u00e7\u00e3o, dor f\u00edsica, desamparo e amedrontamento. Com sua carga de beleza e fantasia, de ilus\u00e3o pol\u00edtica, de devaneios e amores, de reflex\u00f5es e autocr\u00edticas pessoais, estas obras urgentes misturam o poder natural da palavra po\u00e9tica com a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o de vida daquelas mo\u00e7as e mo\u00e7os.<br \/>\nOra na clandestinidade ou sob tortura, ora em sequestro inc\u00f3gnito ou no ex\u00edlio, ora na arriscada vida cotidiana, a opositora e o opositor ao regime recorreram \u00e0 poesia para se expressar. Seria o jogo po\u00e9tico um lenitivo para suas dores, seriam suas odes can\u00e7\u00f5es de esperan\u00e7a, seriam suas rimas gritos de liberdade, seriam somente o derrame de suas tristezas, seriam apenas um consolo ante o andar lento do tempo encarcerado, seriam simples voca\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas e nada mais?<br \/>\nAlguns foram cantores de uma s\u00f3 can\u00e7\u00e3o, outros seguiram no generoso of\u00edcio de poetar. Alguns deitaram suas estrofes sob amea\u00e7a de viol\u00eancia imediata, no interior mesmo de pris\u00f5es, na antessala do choque el\u00e9trico. Outros, durante intermin\u00e1veis dias e noites de longas condena\u00e7\u00f5es ilegais nos insalubres pres\u00eddios e quart\u00e9is, na revista corporal indecorosa. Alguns ter\u00e3o entornado em ocultos papelotes de cigarro seus sonetos de amor por um noivo ou uma visitante solid\u00e1ria. Houve mesmo rabiscos de grampos no reboco de paredes. Alguns escreveram no bojo de jornadas de lutas de rua, em confronto f\u00edsico com os esbirros. Decerto tamb\u00e9m escreveram na calada da noite, em seus lares \u00e0 pouca luz, ocultando estrofes na frincha dos colch\u00f5es.<br \/>\nSubversiva por natureza, foi a poesia com frequ\u00eancia vitimada pelos totalitarismos. S\u00e3o figuras emblem\u00e1ticas alguns magn\u00edficos poetas, como Federico Garcia Lorca executado na Espanha, Nazim Hikmet prisioneiro na Turquia, Pablo Neruda exilado do Chile e Juan Gelman exilado da Argentina, Mario Benedetti exilado e Liber Falco assassinado no Uruguai, Otto Ren\u00e9 Castillo incinerado na Guatemala, Jos\u00e9 Mart\u00ed mutilado e assassinado em Cuba, o catal\u00e3o Joaqu\u00edn Amat Piniella e seus poemas encontrados com sessenta anos de atraso, tamb\u00e9m Javier Heraud morto no Per\u00fa, os assassinados na Argentina Tilo Wenner e Roberto Santoro, Ernesto Cardenal oprimido na Nicar\u00e1gua, incluindo a Roque Dalton \u201cjusti\u00e7ado\u201d por companheiros em El Salvador. Desde a \u00e9poca da Inconfid\u00eancia Mineira at\u00e9 o regime de 1964, nossos vates sentiram o peso da persegui\u00e7\u00e3o, como Thiago de Mello e Ferreira Gullar que provaram o p\u00e3o amargo do ex\u00edlio nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como Fernando Batinga (preso no Est\u00e1dio Nacional de Santiago) e Jos\u00e9 Falc\u00f3n no Chile, onde este \u00faltimo termina por suicidar-se.<br \/>\nNa presente sele\u00e7\u00e3o, onde as lacunas s\u00e3o inevit\u00e1veis, destacamos a figura do poeta cachoeirense Nilton Rosa da Silva, assassinado no Chile, e de Manoel Raymundo Soares, militar paraense vitimado em Porto Alegre, de quem publicamos trechos de cartas \u00e0 esposa. Aqueles que ofereceram seu sangue pela liberdade, se tornam carne e unha de seus povos, ainda mais quando o fizeram longe de seu torr\u00e3o.<br \/>\nDois poetas prisioneiros se destacam no Brasil: Alex Polari e Pedro Tierra. Sob grave sev\u00edcia e amea\u00e7a de vida, encontraram a fortaleza espiritual para registrar o sentimento coletivo de toda uma \u00e9poca e a percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de sua delicada situa\u00e7\u00e3o pessoal. Entregaram \u00e0 sociedade brasileira e mundial seu brado de protesto, sua den\u00fancia das desumanidades, sua perplexidade juvenil ante um mundo b\u00e1rbaro e, acima de tudo, ofertaram toda a imensa beleza guardada em seus cora\u00e7\u00f5es. Contaram para isso com a coragem de m\u00e3es e pais, amigos companheiros e advogados, que sob grave risco escoavam prec\u00e1rios manuscritos at\u00e9 solid\u00e1rias m\u00e3os, para salv\u00e1-los e tentar public\u00e1-los. Assim, estes bra\u00e7os fraternos velaram pelo nascimento e exist\u00eancia de obras que hoje s\u00e3o p\u00e9rolas da cultura democr\u00e1tica do Brasil.<br \/>\nA sele\u00e7\u00e3o que se re\u00fane neste volume abdica de qualquer valora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Busca apenas redescobrir e colocar ao alcance do p\u00fablico atual a faceta quase perdida de alguns dos nossos \u201cpoetas da dura noite\u201d. Nem poderia a persegui\u00e7\u00e3o ser crit\u00e9rio de excel\u00eancia art\u00edstica. Ambicioso seria esperar de todo versejador amea\u00e7ado que realizasse a fa\u00e7anha de Jos\u00e9 Hernandez, poeta argentino que no ex\u00edlio rio-grandense construiu seu \u00e9pico \u201cMartin Fierro\u201d, marco da poesia popular e tel\u00farica do extremo meridional da Am\u00e9rica. Nos basta com dizer da bondade, da beleza e da generosidade de homens e mulheres que ousaram atrever-se a lutar e vencer no terreno da arte durante os momentos mais terr\u00edveis de suas vidas fr\u00e1geis e desamparadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Porto Alegre, junho de 2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois aquele que hoje Derrama seu sangue comigo, Ser\u00e1 meu irm\u00e3o. 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