{"id":78549,"date":"2019-10-23T06:00:28","date_gmt":"2019-10-23T09:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=78549"},"modified":"2019-10-23T06:00:28","modified_gmt":"2019-10-23T09:00:28","slug":"guilem-rodrigues-da-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/guilem-rodrigues-da-silva\/","title":{"rendered":"Guilem Rodrigues da Silva"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_78550\" aria-describedby=\"caption-attachment-78550\" style=\"width: 190px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-78550 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Guilem-Rodrigues-da-Silva-190x233.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"233\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-78550\" class=\"wp-caption-text\">Guilem Rodrigues da Silva<\/figcaption><\/figure><br \/>\nResistente \u00e0 ditadura, foi refugiado pol\u00edtico em Montevid\u00e9u durante dois anos, sendo o primeiro asilado da Am\u00e9rica Latina na Su\u00e9cia em 1966. Condenado \u00e0 revelia em 1968, participou ativamente dos trabalhos de solidariedade \u00e0 Am\u00e9rica Latina em Lund \u2013 Su\u00e9cia, sendo eleito vereador e Juiz do Tribunal de Contas do mesmo munic\u00edpio. Escritor de 15 livros, escritor de letras de can\u00e7\u00f5es, tradutor de pe\u00e7as teatrais para o Teatro Real de Estocolmo, tradutor de v\u00e1rios filmes do portugu\u00eas para o sueco e vice-versa, e tradutor de poemas do franc\u00eas para o portugu\u00eas. Detentor de in\u00fameros pr\u00eamios na Su\u00e9cia e na Fran\u00e7a, entre os quais \u201dPour l\u00b4ensamble de ses oevres po\u00e9tiques\u201d Universit\u00e9 de La Sorbonne e \u201dMedaille de la Academie des Arts Sciences et Lettres\u201d em Paris, recebeu da Prefeitura de Rio Grande (RS) o t\u00edtulo de Comendador da Ordem de Silva Paes.<br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<span class=\"intertit\">A jaula <\/span><br \/>\nHoje \u00e9 o anivers\u00e1rio da solid\u00e3o<br \/>\nSem alegria nas faces maceradas<br \/>\nAs roupas da pris\u00e3o rasgadas<br \/>\nEm seu mundo de doze metros<br \/>\nDe dist\u00e2ncia por doze de largura<br \/>\nE um longo corredor ao sol<br \/>\nSol que nasce \u00e0s tr\u00eas horas<br \/>\nE morre \u00e0s quatro horas<br \/>\nHoje faz anivers\u00e1rio a solid\u00e3o<br \/>\nSem alegria nas faces da tristeza<br \/>\nNingu\u00e9m na Ilha das Flores<br \/>\nAtreve-se cantar \u00e0 liberdade<br \/>\nIn\u00fameros olhos famintos<br \/>\nEsperam que o vento sopre<br \/>\nO vento \u00e9 livre<br \/>\nNingu\u00e9m pode obrig\u00e1-lo a confessar<br \/>\nNem pode ser torturado<br \/>\nMesmo que sopre da esquerda<br \/>\nO t\u00e9trico alfaiate chega<br \/>\nO indescrit\u00edvel alfaiate<br \/>\nQue procura fazer uma veste<br \/>\nDe prisioneiro para o vento\u2026<br \/>\n<em>(m\u00fasica de Georg Riedel, o compositor vivo<br \/>\n<\/em><em>mais conhecido da Su\u00e9cia)<\/em><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<span class=\"intertit\">Claros son\u00e2mbulos da noite <\/span><br \/>\nMulher amada, n\u00f3s os que sa\u00edmos<br \/>\nTe queremos mais do que tu pensas<br \/>\nNa aus\u00eancia<br \/>\nTemos seguido de perto<br \/>\nTuas tristezas<br \/>\nTuas poucas alegrias<br \/>\nNa dist\u00e2ncia<br \/>\nTemos estado presentes<br \/>\nDormindo duramente em cama alheia<br \/>\nNunca nos acostumamos<br \/>\nAos arames farpados das fronteiras<br \/>\n\u00c0 falta dos sabi\u00e1s e das palmeiras<br \/>\nSaudade \u00e9 para n\u00f3s mais que palavra bela<br \/>\nCont\u00e9m inverno c\u00e9u cinzento branca neve<br \/>\nOlhares esculturados nas janelas<br \/>\nSomos claros son\u00e2mbulos numa noite longa<br \/>\nVoltando sempre \u00e0 tua cama<br \/>\nMas ao chegarmos perto<br \/>\nQuase tocando teu seio<br \/>\nManh\u00e3 estranha nos desperta<br \/>\nEm leito alheio<br \/>\nAinda e sempre em viagem<br \/>\nMulher amada<br \/>\nN\u00f3s os que sa\u00edmos<br \/>\nN\u00e3o te amamos menos<br \/>\nDo que os que ficaram<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Com desesperada raiva <\/span><br \/>\nMudas minhas m\u00e3os<br \/>\nMeus p\u00e9s dormem inquietos<br \/>\nG\u00e9lido fogo sobe em minhas pernas<br \/>\nConsumindo meus joelhos<br \/>\nProcuro pensar nos p\u00e1ssaros<br \/>\nAcuso-os de terem deixado de cantar<br \/>\n\u00c9 fim de agosto<br \/>\nO ver\u00e3o na Su\u00e9cia foi miser\u00e1vel<br \/>\nO fogo continua sua escalada<br \/>\n\u00c9 como se eu afundasse<br \/>\nNun desses lagos g\u00e9lidos da Lap\u00f4nia<br \/>\nRecordo Ver\u00edssimo<br \/>\nGato preto em campo de neve<br \/>\nMeus joelhos n\u00e3o existem mais<br \/>\nJoelhos surdos insens\u00edveis<br \/>\nGolpeio meus reflexos<br \/>\nA culpa \u00e9 minha<br \/>\nNingu\u00e9m espera quinze anos<br \/>\nSeria imposs\u00edvel parar<br \/>\nEsse passar de carros sobre mim?<br \/>\nCarros de combate<br \/>\nCarros de passeio<br \/>\nBarcos de guerra<br \/>\nBarcos \u00e0 vela<br \/>\nUma vela se acende<br \/>\nPara quem?<br \/>\nPara mim?<br \/>\nQuem morre em Rio Grande?<br \/>\nQuem morre em Lund?<br \/>\nE esse malito gelo que sobe<br \/>\nEu subi por muitas escadas da vida<br \/>\nSenti muitas mortes<br \/>\nChorei muitas pris\u00f5es<br \/>\nAQUI ESTOU MALDITOS!<br \/>\nPRETENDO ESCULTURAR<br \/>\nEM GRANITO IMPEREC\u00cdVEL<br \/>\nMINHA RAIVA<br \/>\nMEU GRITO<br \/>\nPARA QUE TODO AQUELE QUE PASSAR<br \/>\nPOR ESTAS RUAS DO EXILIO<br \/>\nPOSSA LER SOBRE O CRIME<br \/>\nCOMETIDO EM NOSSAS ALMAS<br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Sobre o Brasil minha pequena<br \/>\n<\/strong><em style=\"font-weight: 300\">(para minha filha Zoyra-Lya, nascida no ex\u00edlio)<\/em><br \/>\nSobre o Brasil quero contar-te<br \/>\nminha pequena<br \/>\na terra bem amada<br \/>\ncheia de paz de sol e de beleza<br \/>\nonde uma generosa natureza<br \/>\ndesenhou rios vales e montanhas<br \/>\nNo Brasil minha pequena<br \/>\nS\u00e3o todos felizes<br \/>\nAli h\u00e1 justi\u00e7a trabalho p\u00e3o e escolas<br \/>\nA mis\u00e9ria e o analfabetismo<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o existem pertencem ao passado<br \/>\nNenhum estudante desaparece nas cidades<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 mais presos pol\u00edticos<br \/>\ne reina a liberdade<br \/>\nAs companhias estrangeiras n\u00e3o s\u00e3o mais<br \/>\npropriet\u00e1rias<br \/>\ndos nossos enormes recursos naturais<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais golpes de estado nem<br \/>\ntorturas<br \/>\ne em suas casernas e quart\u00e9is os nossos<br \/>\ngenerais<br \/>\nesqueceram h\u00e1 muito os atos institucionais<br \/>\nPara ti minha filhinha que nasceste no ex\u00edlio<br \/>\ne brincaste na neve longe de nossa P\u00e1tria<br \/>\neu escrevo estes versos cheios de esperan\u00e7a<br \/>\noxal\u00e1 quando os leias no entardecer dos meus anos<br \/>\nn\u00e3o mais sejam quimera nem v\u00e3 utopia<br \/>\nmas se eu te minto perdoa<br \/>\nquero apenas que durmas<br \/>\nembalada em meus sonhos<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>(escrito no duro ano de ex\u00edlio de 1968)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<span class=\"intertit\">Varia\u00e7\u00f5es sobre um tema brasileiro <\/span><br \/>\n<strong>I<\/strong><br \/>\nQuem te encontrar\u00e1 entre essas pedras<br \/>\nPara quem ser\u00e1 teu sonho areia \u00famida<br \/>\nPassos em tua busca<br \/>\nDonde ningu\u00e9m lembra tuas pisadas<br \/>\nPara ti as balas<br \/>\nQue te buscaram na morte<br \/>\nPara ti o medo da noite<br \/>\nSoturno a\u00e7oite<br \/>\nDonde a inenarr\u00e1vel dor se esconde<br \/>\nAh! E quando voltares teu olhar<br \/>\nMorto estar\u00e1 o deus da tua esperan\u00e7a<br \/>\nPara ti o inverno<br \/>\nEsperavas algo diferente em tua \u00e2nsia?<br \/>\n<strong>II <\/strong><br \/>\nComo um fantasma<br \/>\nAs recorda\u00e7\u00f5es te buscam<br \/>\nSorrindo \u00e0s vezes<br \/>\nChorando \u00e0s vezes<br \/>\nA luta na fronteira<br \/>\nAs l\u00e1grimas na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nEu que nunca vi meu pai chorar<br \/>\nEu o recordo<br \/>\nEntre o milharal frondoso<br \/>\nPara cada melancia<br \/>\nEle tinha um nome<br \/>\nPara cada arbusto<br \/>\nAs laranjas douravam nossa exist\u00eancia<br \/>\nAt\u00e9 o dia quando os defensores da P\u00e1tria<br \/>\nEscureceram o sol<br \/>\nProibiram a chuva de acariciar o milharal<br \/>\nObrigaram-nos \u00e0 in\u00e9rcia<br \/>\nE n\u00f3s<br \/>\nPobres seres<br \/>\nVimos nosso sorriso ser encarcerado<br \/>\n<strong>III <\/strong><br \/>\nTu que estavas presente<br \/>\nQuando os uniformes marcharam<br \/>\nTu que gritaste teu desespero<br \/>\nTu que levantaste tua m\u00e3o<br \/>\nComo bandeira<br \/>\nFoste atingido por cem balas<br \/>\nQue perfuraram tua alma<br \/>\nNesta noite agora e aqui<br \/>\nPonho teu nome<br \/>\nNa pra\u00e7a mais bela<br \/>\nDa minha terra natal<br \/>\nDe maneira que ningu\u00e9m<br \/>\nEsque\u00e7a teu sacrif\u00edcio<br \/>\nNem o teu nome<br \/>\nTu meu amigo de inf\u00e2ncia<br \/>\nAinda hoje<br \/>\nOuve-se o teu riso contagiante<br \/>\nNas ruas de Rio Grande<br \/>\nEu sou teu poeta assassinado<br \/>\nLembras-te de mim em teu c\u00e9u?<br \/>\nA morte veio no m\u00eas de mar\u00e7o<br \/>\nPela noite<br \/>\nQuando ningu\u00e9m esperava<br \/>\nQuando as crian\u00e7as dormiam<br \/>\nE com ang\u00fastia mantinham<br \/>\nA fome em suas m\u00e3os<br \/>\nNos campos dormia o trigo<br \/>\nEmbalado pela suave brisa<br \/>\nAs esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio<br \/>\nEstavam povoadas de botas militares<br \/>\nTu e eu est\u00e1vamos despertos<br \/>\nLembro-me bem<br \/>\nMas quem foi assassinado nessa noite<br \/>\nFoste tu?<br \/>\nFui eu?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resistente \u00e0 ditadura, foi refugiado pol\u00edtico em Montevid\u00e9u durante dois anos, sendo o primeiro asilado da Am\u00e9rica Latina na Su\u00e9cia em 1966. Condenado \u00e0 revelia em 1968, participou ativamente dos trabalhos de solidariedade \u00e0 Am\u00e9rica Latina em Lund \u2013 Su\u00e9cia, sendo eleito vereador e Juiz do Tribunal de Contas do mesmo munic\u00edpio. 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