{"id":79036,"date":"2021-02-09T22:08:27","date_gmt":"2021-02-10T01:08:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/?p=79036"},"modified":"2021-03-31T12:30:56","modified_gmt":"2021-03-31T15:30:56","slug":"a-mobilizacao-gaucha-por-vlado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-mobilizacao-gaucha-por-vlado\/","title":{"rendered":"Naqueles tempos em que mataram Vlado"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha*<\/p>\n<p>O telefone tocou na sucursal da revista <em>Veja<\/em> em Porto Alegre e ecoou a voz firme, mas sempre cordial:<\/p>\n<p>\u2013 Bom dia, companheiro Luiz Cl\u00e1udio. Aqui \u00e9 o Aud\u00e1lio Dantas!<\/p>\n<p>Nem precisava se identificar. A voz inconfund\u00edvel do jornalista de 46 anos ainda preservava um doce e sedutor sotaque alagoano, que n\u00e3o esqueceu suas origens nem quando o menino de Tanque D\u2019Arca, no \u00e1rido agreste de Alagoas, trocou aos 12 anos sua terra natal de apenas 5 mil habitantes pela mais populosa cidade do continente, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Era um telefonema improv\u00e1vel naquela manh\u00e3, na segunda quinzena de dezembro de 1975. Improv\u00e1vel porque, naqueles dias tormentosos, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo tinha, com certeza, coisas mais importantes a fazer do que telefonar para o sul do pa\u00eds. Naquele momento Aud\u00e1lio liderava, com firmeza, serenidade e coragem, o sentimento de indigna\u00e7\u00e3o e revolta que envolvia a morte, sob torturas, do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, nos por\u00f5es do DOI-CODI do II Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79038\" aria-describedby=\"caption-attachment-79038\" style=\"width: 1257px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79038 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem1.jpg\" alt=\"\" width=\"1257\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem1.jpg 1257w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem1-300x82.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem1-1024x281.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem1-768x211.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem1-1200x329.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1257px) 100vw, 1257px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79038\" class=\"wp-caption-text\">Outubro de 1975: Aud\u00e1lio Dantas, desolado diante do caix\u00e3o do amigo Vlado, assassinado no DOI-CODI<\/figcaption><\/figure>\n<p>O fim inesperado do diretor de jornalismo da TV Cultura, horas ap\u00f3s se apresentar espontaneamente para um depoimento no centro da repress\u00e3o paulista, em 25 de outubro de 1975, marcava o auge da investida da fac\u00e7\u00e3o mais radical da direita militar, em aberta hostilidade ao quarto presidente da ditadura, general Ernesto Geisel.<\/p>\n<p>Herzog era o 22\u00ba jornalista morto ou at\u00e9 hoje desaparecido pela repress\u00e3o do regime. S\u00f3 nos dois anos iniciais do Governo Geisel, a ditadura tinha registrado cerca de 60 desaparecidos pol\u00edticos. Na escalada de viol\u00eancia de outubro de 1975, Herzog era o 12\u00ba jornalista preso no espa\u00e7o de uma semana s\u00f3 na cidade de S\u00e3o Paulo, varrida por uma onda de deten\u00e7\u00f5es que atingiu mais de 200 pessoas \u2013 incluindo l\u00edderes sindicais, m\u00e9dicos, estudantes, professores universit\u00e1rios, advogados e membros da oposi\u00e7\u00e3o legal, reunidos no MDB.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>V\u00edtima de um falso \u2018suic\u00eddio\u2019, segundo a fantasiosa nota oficial do II Ex\u00e9rcito, Herzog, judeu nascido na Iugosl\u00e1via em 1937, foi sepultado dois dias depois, na segunda-feira, 27, na \u00e1rea do Cemit\u00e9rio Israelita do Butant\u00e3 reservada aos mortos comuns, os honrados, n\u00e3o no espa\u00e7o distante onde a f\u00e9 judaica garantia espa\u00e7o aos suicidas, execrados pelo juda\u00edsmo. A congrega\u00e7\u00e3o do Chevrah Kadisha, que administra o cemit\u00e9rio, n\u00e3o encontrou nenhum ind\u00edcio de suic\u00eddio no corpo de Herzog, descartando assim o enterro segregado.<\/p>\n<p>As vozes da solidariedade, como lembrou Aud\u00e1lio Dantas, come\u00e7aram a ecoar a partir de segunda-feira, dia do enterro. A Federa\u00e7\u00e3o Internacional dos Jornalistas (FIJ) e a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional dos Jornalistas (OIJ), que na \u00e9poca representavam mais de 230 mil profissionais de imprensa de todo mundo, protestaram. Mas, o medo ainda calava a maioria no Brasil. Dos 25 sindicatos de jornalista do pa\u00eds, apenas 11 se manifestaram contra o assassinato de Vlado \u2013 entre eles, o de Porto Alegre.<\/p>\n<p>Aud\u00e1lio se mostrou surpreso e desalentado com a falta de apoio dos sindicatos oper\u00e1rios, incluindo os do vibrante ABC paulista. At\u00e9 o Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo, onde despontava um l\u00edder barbudo em ascens\u00e3o chamado Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, calado estava, calado ficou. O estrondoso e constrangedor sil\u00eancio do ABC sindical brotou na morte de Vlado, em outubro de 1975 e perdurou, de forma ainda mais embara\u00e7osa, tr\u00eas meses depois, em janeiro de 1976, quando Manoel Fiel Filho, oper\u00e1rio como eles, apareceu tamb\u00e9m \u2018suicidado\u2019 no mesmo DOI-CODI que matou Herzog.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p class=\"intertit\">O \u2018probleminha\u2019 da tortura<\/p>\n<p>A crise no cora\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o do regime for\u00e7ou a ida de Geisel a S\u00e3o Paulo na quinta-feira, 30, v\u00e9spera do tenso culto ecum\u00eanico na catedral da Pra\u00e7a da S\u00e9, centro maior da Igreja Cat\u00f3lica na capital. O aparelho repressivo n\u00e3o queria nem mesmo investigar a morte do jornalista. Confrontado pelos generais Ednardo d\u2019Avila Mello, comandante do II Ex\u00e9rcito, e pelo general Sylvio Frota, ministro do Ex\u00e9rcito, Geisel bateu p\u00e9 pela investiga\u00e7\u00e3o de um inqu\u00e9rito policial-militar, o IPM. \u201cN\u00e3o pode haver crime, ou morte, dentro de uma organiza\u00e7\u00e3o militar sem ser apurado\u201d, trovejou o presidente, segundo Elio Gaspari, em <em>A ditadura encurralada<\/em>.<\/p>\n<p>Rendido, naquele mesmo dia Ednardo informou, em nota, a instaura\u00e7\u00e3o de um IPM para \u201capurar as circunst\u00e2ncias em que ocorreu o suic\u00eddio do jornalista Vladimir Herzog\u201d. O detalhe bizarro \u00e9 que antes de mesmo de come\u00e7ar, o IPM j\u00e1 apontava sua teimosa conclus\u00e3o dos fatos ainda n\u00e3o apurados: \u2018suic\u00eddio\u2019.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79040\" aria-describedby=\"caption-attachment-79040\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79040 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem2-1024x535.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem2-1024x535.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem2-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem2-768x401.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem2-1200x627.jpg 1200w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem2.jpg 1244w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79040\" class=\"wp-caption-text\">General Ernesto Geisel e o seu \u2018probleminha\u2019: Herzog e a simula\u00e7\u00e3o de suic\u00eddio no DOI-CODI<\/figcaption><\/figure>\n<p>A suspeita precipita\u00e7\u00e3o n\u00e3o incomodou Geisel, que parecia no in\u00edcio interessado na correta apura\u00e7\u00e3o do crime. Duas d\u00e9cadas depois, em 1997, Geisel definiu tudo aquilo como um \u2018probleminha\u2019:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">N\u00e3o sei se o inqu\u00e9rito estava certo ou n\u00e3o, mas o fato \u00e9 que apurou que o Herzog tinha se enforcado. A partir da\u00ed o problema do Herzog, para mim, acabou. (&#8230;). \u00c9 poss\u00edvel que aquilo tenha sido feito para encobrir a verdade. Mas o inqu\u00e9rito tem seus tr\u00e2mites normais, suas normas de a\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o iria interferir no resultado. (&#8230;). \u00c9 preciso ver o seguinte: o presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o pode passar dias, ou semanas, com um probleminha desses. \u00c9 um probleminha em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto de problemas que ele tem.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>A farsa do IPM durou 47 dias, carimbando como \u2018suic\u00eddio\u2019 a morte de um jornalista mo\u00eddo sob torturas num enredo fantasioso que desperdi\u00e7ou 299 folhas de papel imprest\u00e1vel. O IPM foi conclu\u00eddo em 12 de dezembro, uma sexta-feira, mas os seus p\u00edfios resultados s\u00f3 foram divulgados uma semana depois, dia 19, a sexta-feira seguinte.<\/p>\n<p>Nasceu da\u00ed a ideia de contestar o falso IPM. Todos sabiam que um confronto direto com os militares poderia dar a eles o pretexto de uma interven\u00e7\u00e3o no sindicato, sujeito \u00e0 dura legisla\u00e7\u00e3o que submetia o sindicalismo aos humores do Minist\u00e9rio do Trabalho. A solu\u00e7\u00e3o seria transformar o sindicato em mero intermedi\u00e1rio de uma contesta\u00e7\u00e3o ao IPM organizada e assinada pelos jornalistas, uma a\u00e7\u00e3o coletiva que protegeria a entidade presidida por Aud\u00e1lio Dantas de qualquer amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o. O manifesto, \u2018Em Nome da Verdade\u2019, come\u00e7ou ent\u00e3o a sua \u00e9pica jornada de coleta de assinaturas, com \u00eanfase central em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Bras\u00edlia e Porto Alegre, que concentravam a maioria dos jornalistas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Era essa a explica\u00e7\u00e3o para o inesperado telefonema que atendi na sucursal ga\u00facha de <em>Veja<\/em>.<\/p>\n<p>Aud\u00e1lio, diante da urg\u00eancia do caso, me deu o prazo de uma semana para colher as assinaturas dos jornalistas de Porto Alegre. O ato de assinar um documento de aberta contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 mentirosa vers\u00e3o do falso suic\u00eddio de Herzog era um gesto de coragem e dignidade dos jornalistas, a primeira contenda p\u00fablica com o regime militar desde o advento do AI-5, em dezembro de 1968, exatos sete anos antes. O risco de repres\u00e1lias era elevado. Como havia d\u00favidas se os jornais publicariam o manifesto, os signat\u00e1rios de S\u00e3o Paulo e Rio, al\u00e9m da coragem, contribu\u00edam com uma caixinha para custear a sua eventual publica\u00e7\u00e3o como mat\u00e9ria paga, um texto \u2018a pedido\u2019.<\/p>\n<p>Os grandes jornais, ao contr\u00e1rio dos jornalistas, ainda mantinham uma postura de apoio, velada simpatia, disfar\u00e7ada indiferen\u00e7a ou calculado sil\u00eancio diante da for\u00e7a e da censura do regime que eles sustentaram, antes e depois do golpe militar de 1\u00bade abril de 1964, uma data coerente com o \u2018suic\u00eddio\u2019 de Herzog.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Uni\u00e3o na conspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, antes mesmo do golpe, a conspira\u00e7\u00e3o conseguira unir os tr\u00eas grandes concorrentes da imprensa carioca: <em>O Globo<\/em>, o <em>Jornal do Brasil<\/em> e os <em>Di\u00e1rios Associados<\/em>.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> \u00a0Roberto Marinho, Nascimento Brito e Assis Chateaubriand fundaram, em 26 de outubro de 1963, a cinco meses da derrubada de Jo\u00e3o Goulart, a \u2018Rede da Democracia\u2019, que ecoava em transmiss\u00e3o conjunta das r\u00e1dios Jornal do Brasil, Globo e Tupi uma catilin\u00e1ria em cadeia nacional contra a \u2018amea\u00e7a vermelha\u2019 e a iminente tomada do poder pelos comunistas ligadas ao presidente Jango.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79041\" aria-describedby=\"caption-attachment-79041\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-79041\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem3-1024x387.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem3-1024x387.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem3-300x113.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem3-768x290.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem3-1200x453.jpg 1200w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem3.jpg 1268w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79041\" class=\"wp-caption-text\">Marinho, Brito e Chateaubriand: O Globo, JB e Associados, advers\u00e1rios, mas unidos em rede pelo golpe<\/figcaption><\/figure>\n<p>No dia seguinte ao golpe vitorioso, 2 de abril de 1964, o <em>Globo<\/em> de Roberto Marinho festejava em editorial a interven\u00e7\u00e3o militar: \u201cRessurge a Democracia!\u201d. Em um trecho, tentava dar o amparo do Art. 176 da Constitui\u00e7\u00e3o para o uso do arb\u00edtrio, definindo dessa forma as For\u00e7as Armadas: \u201cS\u00e3o institui\u00e7\u00f5es permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do presidente da Rep\u00fablica E DENTRO DOS LIMITES DA LEI\u201d. Assim mesmo, em mai\u00fasculas de tom quase verde-oliva, para camuflar a viol\u00eancia e vender a ideia de que o fora-da-lei era o presidente Goulart.<\/p>\n<p>O <em>Jornal do Brasil<\/em> conseguiu ser mais r\u00e1pido que <em>O Globo <\/em>no gatilho da adula\u00e7\u00e3o. Na v\u00e9spera, 1\u00ba de abril, o jornal de Nascimento Brito saudou a vit\u00f3ria da democracia \u201ccontra a amea\u00e7a de uma rep\u00fablica sindicalista\u201d ou \u201ca implanta\u00e7\u00e3o de um regime comunista\u201d, o que dava no mesmo. O <em>JB<\/em> j\u00e1 dava o movimento militar como vitorioso, enquanto os tanques dos generais Olympio Mour\u00e3o Filho e Carlos Lu\u00eds Guedes ainda rodavam de Juiz de Fora em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro. No dia seguinte, 2 de abril, os dois jornais trombaram no seu entusiasmo. \u201cFugiu Goulart e a democracia est\u00e1 sendo restabelecida\u201d, mentiu <em>O Globo, <\/em>desmentido na manchete daquele dia do <em>Jornal do Brasil<\/em>: \u201cGoulart resiste no sul e o Congresso empossa Mazzilli\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>O apoio ao golpe no <em>JB<\/em> n\u00e3o era restrito aos donos da empresa, condessa Pereira Carneiro e seu genro, Nascimento Brito. A c\u00fapula do jornal \u2013 Alberto Dines (editor-chefe de 1962 a 1973), Carlos Lemos (chefe de reda\u00e7\u00e3o), Wilson Figueiredo (editorialista) e Luiz Orlando Carneiro (chefe de reportagem) \u2013, respons\u00e1vel pelo que era publicado, tamb\u00e9m festejou a derrubada de Jango, em franca oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do <em>JB<\/em>, na maioria integrada ou por simpatizantes do governo ou militantes da esquerda.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Daqueles quatro, doze anos depois, s\u00f3 aparece o nome de Alberto Dines no manifesto dos 1004 jornalistas contestando o \u2018suic\u00eddio\u2019 de Herzog.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79042\" aria-describedby=\"caption-attachment-79042\" style=\"width: 1274px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79042\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem4.jpg\" alt=\"\" width=\"1274\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem4.jpg 1274w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem4-300x78.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem4-1024x268.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem4-768x201.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem4-1200x314.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1274px) 100vw, 1274px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79042\" class=\"wp-caption-text\">Alberto Dines, Carlos Lemos, Wilson Figueiredo e Luiz Orlando, a c\u00fapula do JB em 1964: apoio ao golpe<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma d\u00e9cada ap\u00f3s o golpe, Alberto Dines era um bravo defensor de Vladimir Herzog contra as perf\u00eddias cometidas por jornalistas a servi\u00e7o dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, numa campanha s\u00f3rdida de dela\u00e7\u00e3o contra a dire\u00e7\u00e3o de jornalismo da TV Cultura de S\u00e3o Paulo, que Vlado assumira em setembro de 1975, quase dois meses antes de morrer sob torturas no II Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Um colunista do jornal <em>Shopping News, <\/em>Cl\u00e1udio Marques, que ecoava notas e rumores oriundos dos por\u00f5es militares, costumava fazer piadas sobre os h\u00f3spedes for\u00e7ados do \u2018Tutoia Hilton\u2019, refer\u00eancia maliciosa ao endere\u00e7o do DOI-CODI da rua Tutoia. Outro desafeto ostensivo de Vlado e da TV Cultura era Lenildo Tabosa Pessoa, militante extremista da direita cat\u00f3lica e colunista do <em>Jornal da Tarde. <\/em>\u00a0Os torpedos canalhas dos dois jornalistas eram regularmente replicados, de forma combinada, por dois deputados da Arena, o partido da ditadura, na Assembleia paulista: Wady Helou e Jos\u00e9 Maria Marin. Na sua coluna semanal do \u2018Jornal dos Jornais\u2019, na <em>Folha de S.Paulo, <\/em>Dines era uma trincheira permanente de defesa de Vlado contra os libelos maldosos da dupla Marques-Pessoa e seus aliados.<\/p>\n<p>Um outro grande jornal carioca da \u00e9poca, o <em>Correio da Manh\u00e3, <\/em>conhecido pela hist\u00f3rica tradi\u00e7\u00e3o como liberal e independente, surpreendeu por sua mete\u00f3rica ades\u00e3o na hora crucial do golpe. Tr\u00eas anos antes, o <em>Correio <\/em>apoiara a posse de Jango, contestada pelos ministros militares diante da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em agosto de 1961. O jornal sustentou a posse de Juscelino Kubitschek em 1955, desafiada por focos militares de amotinados, e criticou a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, maior bandeira de JK.<\/p>\n<p>Mas, nas 48 horas decisivas para a derrubada de Jango, o jornal produziu dois sucessivos editorais de impacto no v\u00f3rtice da crise. O primeiro, \u201cBasta! \u201d, saiu no 31 de mar\u00e7o. O segundo, \u201cFora! \u201d, no dia seguinte, 1\u00b0 de abril, quando Jango ainda permanecia presidente no Pal\u00e1cio Laranjeiras, no Rio. Dali, s\u00f3 por volta das 13h, Jango tomou o rumo da Base A\u00e9rea do Gale\u00e3o e, de l\u00e1, voou para Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>J\u00e1 no final da manh\u00e3 de 1\u00b0 de abril, o Forte de Copacabana mudou de lado e, legalista, virou golpista, como relata o rep\u00f3rter M\u00e1rio Magalh\u00e3es. O quartel ao lado, o QG da Artilharia de Costa, foi tomado \u00e0s 11h30, pouco antes da decolagem do avi\u00e3o presidencial para Bras\u00edlia. Nos seus \u00faltimos momentos no Pal\u00e1cio do Planalto, Jango percebeu que a situa\u00e7\u00e3o militar se deteriorava e, na noite daquela quarta-feira, 1\u00ba de abril, o Dia da Mentira, embarcou para Porto Alegre, onde aterrissou j\u00e1 na madrugada de quinta-feira, dia 2.<\/p>\n<p>A tensa reuni\u00e3o da madrugada na resid\u00eancia do comandante do III Ex\u00e9rcito, general Lad\u00e1rio Telles, mostrava ao insone presidente que a tropa decisiva do Sul estava dividida. Jango s\u00f3 desistiu de fazer uma reuni\u00e3o com os generais no pr\u00f3prio QG do Ex\u00e9rcito ao ser informado que, se fosse l\u00e1, seria preso. Decidido a n\u00e3o resistir, Jango perambulou nas horas seguintes por algumas de suas fazendas na regi\u00e3o de S\u00e3o Borja, na fronteira com a Argentina, at\u00e9 voar definitivamente em 4 de abril para o Uruguai. S\u00f3 voltaria ao Brasil doze anos depois, morto, num caix\u00e3o oriundo do ex\u00edlio argentino.<\/p>\n<p>O \u201cFora!\u201d, editorial de 40 linhas e 475 palavras da quarta-feira, 1\u00ba de abril, do <em>Correio da Manh\u00e3 <\/em>\u00a0foi publicado, portanto, quando Jango ainda permanecia no Pal\u00e1cio Laranjeiras. Nas primeiras cinco linhas, as 57 palavras iniciais resumiam o resto: \u201cFora! A Na\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais suporta a perman\u00eancia do Sr. Jo\u00e3o Goulart \u00e0 frente do governo. Chegou ao limite final a capacidade de toler\u00e1-lo por mais tempo. N\u00e3o resta outra sa\u00edda ao Sr. Jo\u00e3o Goulart que n\u00e3o a de entregar o governo ao seu leg\u00edtimo sucessor. S\u00f3 h\u00e1 uma coisa a dizer ao Sr. Jo\u00e3o Goulart: Saia!\u201d.<\/p>\n<p>O presidente, desalentado e surpreso, leu o editorial e comentou com um amigo: \u201cOlha o que o <em>Correio da Manh\u00e3<\/em> est\u00e1 dizendo aqui&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ainda hoje n\u00e3o se sabe, com certeza, quem escreveu os dois editoriais que transformaram o Jango protegido de 1961 no Jango execrado de 1964, na soleira do abandono pol\u00edtico. Quase 15 anos ap\u00f3s o golpe de 1964, o redator-chefe, Edmundo Moniz, negou \u00e0 <em>Folha de S. Paulo<\/em> ter sido o autor dos textos que dramatizaram o div\u00f3rcio entre o presidente acuado e a m\u00eddia engajada no golpe: \u201cEu s\u00f3 sou autor daquilo que eu assino&#8230; O artigo foi feito pela reda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso dizer o autor dos artigos, eles s\u00e3o de responsabilidade do jornal. Os dois editoriais talvez fossem escritos por muita gente. Toda a reda\u00e7\u00e3o mexeu. N\u00e3o escrevi o artigo, mas o alterei\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79061\" aria-describedby=\"caption-attachment-79061\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-79061\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem004a-1024x499.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"409\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem004a-1024x499.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem004a-300x146.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem004a-768x374.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem004a.jpg 1036w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79061\" class=\"wp-caption-text\">Edmundo Moniz, o editorial sem autor, e Cony: um corte aqui, uma altera\u00e7\u00e3o ali, uma pequena frase<\/figcaption><\/figure>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o toda, na verdade, n\u00e3o mexeu, mas o time de editorialistas, sim. A equipe liderada pelo trotskista Moniz era integrada por intelectuais do n\u00edvel de Otto Maria Carpeaux, Osvaldo Peralva, Carlos Heitor Cony e Newton Rodrigues. O pr\u00f3prio Cony esclareceu, na sua coluna na <em>Folha<\/em>, em novembro de 2002: \u201cMinha participa\u00e7\u00e3o limitou-se a cortar um par\u00e1grafo e acrescentar uma pequena frase. Hora e meia mais tarde, Moniz telefonou-me outra vez, lendo o texto final que absorvia a colabora\u00e7\u00e3o dos editorialistas, e, embora o conte\u00fado fosse o piloto elaborado por Carpeaux, a linguagem tra\u00eda o estilo espartano do pr\u00f3prio Muniz\u201d. <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Nos meses seguintes, apesar dos seus candentes \u201cBasta!\u201d e \u201cFora!\u201d, o <em>Correio da Manh\u00e3 <\/em>insistia teimosamente em algemar a palavra \u2018Revolu\u00e7\u00e3o\u2019 de 1964 entre aspas, quase subversivas. Criticava os duros atos institucionais do regime e chegou a denunciar casos de tortura. A dona do jornal, Niomar Moniz Sodr\u00e9 Bittencourt, foi presa por dois meses pela ditadura, em janeiro de 1969. Nove dias depois, os militares deram um \u2018basta\u2019 na propriet\u00e1ria do <em>Correio <\/em>e lhe deram um \u2018fora\u2019 de dez anos da pol\u00edtica, cassando seus direitos pelo AI-5. Descarnado e sem alma, o jornal foi arrendado meses depois a um grupo de empreiteiros, sem jamais recuperar seu prest\u00edgio. Morreu sem choro nem vela em 1974.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o envolvimento dos grandes jornais antecedia o golpe, come\u00e7ando na conspira\u00e7\u00e3o para derrubar Jango. No in\u00edcio de 1962 oficiais das For\u00e7as Armadas, falando em nome de um trio hist\u00f3rico de conspiradores \u2013 o marechal Odylo Denys, o almirante S\u00edlvio Heck e o brigadeiro Gabriel Grun Moss \u2013, foram a S\u00e3o Paulo para um encontro com J\u00falio Mesquita Filho, dono de <em>O Estado de P<\/em>a<em>ulo<\/em>, a quem entregaram um documento sobre as normas que iriam orientar o governo militar ap\u00f3s a queda de Jango.<\/p>\n<p>O grupo, integrado pelos generais Cordeiro de Farias e Orlando Geisel, foi mais expl\u00edcito com o dono do Estad\u00e3o: o regime discricion\u00e1rio teria de ficar no poder por pelo menos cinco anos. Animado com a conversa, Mesquita chegou ao ponto de sugerir oito nomes para o futuro minist\u00e9rio revolucion\u00e1rio, incluindo entre eles Mem de S\u00e1, Roberto Campos, Dario de Almeida Magalh\u00e3es e Milton Campos. Todos os quatro chegaram l\u00e1.<\/p>\n<p>Com o jurista Vicente Rao, advogado da mineradora americana Hanna, Mesquita chegou a fazer o rascunho de um Ato Institucional para fechar o Senado, a C\u00e2mara e todas as Assembleias estaduais e cassar mandatos \u2013 o mesmo instrumento de for\u00e7a que a ditadura anos depois faria seu jornal engolir com o Ato Institucional n\u00ba5, na forma de versos de Cam\u00f5es e receitas de bolo.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 ali [<em>o AI-5<\/em>], n\u00f3s v\u00ednhamos divergindo em caso e n\u00famero, mas n\u00e3o em g\u00eanero, porque sab\u00edamos que o processo tinha que ser aquele, ach\u00e1vamos que devia ser aquele&#8221;, reconheceria anos depois Ruy Mesquita, irm\u00e3o de J\u00falio e tamb\u00e9m diretor de <em>O Estado de S. Paulo.<\/em><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Em entrevista a Aud\u00e1lio Dantas, em 2005, Mesquita foi al\u00e9m: \u201cN\u00e3o s\u00f3 apoiamos, como conspiramos\u201d.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Ao contr\u00e1rio do pai, o jornalista Ruy Mesquita Filho, o <em>Ruyzito<\/em>, um dos herdeiros do Grupo Estado, \u00e9 um dos 1004 signat\u00e1rios do manifesto contra o \u2018suic\u00eddio\u2019.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79043\" aria-describedby=\"caption-attachment-79043\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79043 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem5-1024x379.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"311\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem5-1024x379.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem5-300x111.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem5-768x284.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem5-1200x444.jpg 1200w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem5.jpg 1228w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79043\" class=\"wp-caption-text\">Ruy Mesquita e Ruyzito: o pai, ao contr\u00e1rio do filho, n\u00e3o assinou o manifesto contra a farsa do Ex\u00e9rcito<\/figcaption><\/figure>\n<p>O outro grande jornal paulista, a <em>Folha de S.Paulo, <\/em>tinha um envolvimento at\u00e9 log\u00edstico, al\u00e9m de ideol\u00f3gico, com o golpe militar. As peruas Chevrolet C-14, da frota que transportava jornais para as bancas, muitas vezes foram usadas para levar ou trazer gente torturada na Oban, a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, n\u00facleo integrado da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlos Eug\u00eanio Paz, o chefe do Grupo T\u00e1tico de A\u00e7\u00e3o (GTA) da organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira Alian\u00e7a Libertadora Nacional, refor\u00e7a: &#8220;A ALN queimou v\u00e1rios carros da <em>Folha<\/em> como repres\u00e1lia \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do Grupo Folha no financiamento da repress\u00e3o e ao uso de seus carros na repress\u00e3o direta. Ao fazer isso, atuando na guerra, o Grupo Folha era pass\u00edvel de sofrer as san\u00e7\u00f5es e as repres\u00e1lias da guerra. O Grupo Folha apoiou o golpe de estado, financiou, participou diretamente da repress\u00e3o e jamais fez autocr\u00edtica disso&#8221;.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> <em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79045\" aria-describedby=\"caption-attachment-79045\" style=\"width: 1296px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79045 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem6a.jpg\" alt=\"\" width=\"1296\" height=\"388\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem6a.jpg 1296w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem6a-300x90.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem6a-1024x307.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem6a-768x230.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem6a-1200x359.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1296px) 100vw, 1296px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79045\" class=\"wp-caption-text\">Oct\u00e1vio Frias: a perua da Folha, queimada pela guerrilha, e o vespertino que virou porta-voz da repress\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"intertit\">A reda\u00e7\u00e3o de policiais<\/p>\n<p>O vespertino do grupo, a <em>Folha da Tarde<\/em>, era a ponta avan\u00e7ada do extremismo radical da empresa, o porta-voz oficioso da repress\u00e3o pol\u00edtica. At\u00e9 1968 era um jornal de esquerda, mais inquieto, que concorria diretamente com o irm\u00e3o mais novo do Estad\u00e3o, o <em>Jornal da Tarde<\/em>. No comando da reda\u00e7\u00e3o estava um jornalista egresso da <em>\u00daltima Hora<\/em> janguista, Jorge Miranda Jord\u00e3o, que tinha sob seu comando alguns jornalistas ligados \u00e0 ALN, grupo da luta armada liderada por Carlos Marighella. O advento do AI-5 virou o fio do jornal. Houve uma limpeza na reda\u00e7\u00e3o e, a partir de julho de 1969, a <em>Folha da Tarde<\/em> converteu-se num di\u00e1rio que o jornalista Cl\u00e1udio Abramo resumiu numa palavra: &#8220;S\u00f3rdido&#8221;.<\/p>\n<p>O dono do Grupo Folha, Oct\u00e1vio Frias de Oliveira, trocou o esquerdista Jord\u00e3o por Ant\u00f4nio Aggio Jr., um jornalista especializado em cobertura policial. Um redator da editoria de \u2018Mundo\u2019 cumpria dupla jornada: trabalhava \u00e0 tarde no jornal e, de manh\u00e3, no DOPS comandado pelo delegado S\u00e9rgio Fleury, o mais ilustre nome da m\u00e1quina de tortura brasileira. &#8220;Muitos jornalistas andavam armados na reda\u00e7\u00e3o. O Aggio mesmo circulava com uma maleta em forma de violino. Era uma carabina turca&#8221;, revelou a jornalista Beatriz Kushnir, autora de um livro cortante sobre o colaboracionismo da grande imprensa com a ditadura e a censura.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Os antigos militantes de esquerda foram substitu\u00eddos por policiais que escreviam, mantendo at\u00e9 o duplo emprego entre reda\u00e7\u00e3o e o aparato repressivo. A <em>FT<\/em>, inexpressiva nas bancas, passou a ser conhecida como &#8220;o jornal de maior tiragem&#8221; \u2013 uma piada l\u00fagubre sobre a taxa de \u2018tiras\u2019 (policiais) que infestavam sua reda\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida como \u2018delegacia\u2019.<\/p>\n<p>Assim como Chateaubriand e Marinho no Rio, as fam\u00edlias Mesquita e Frias em S\u00e3o Paulo integravam o centro ideol\u00f3gico da m\u00eddia no golpe, concentrado no IPES. O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, fundado no Rio em novembro de 1961, tr\u00eas meses ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, reunia a nata do empresariado, nacional e multinacional, com todos os nomes, sobrenomes e siglas que ainda hoje enfeitam as listas das maiores empresas do pa\u00eds. Um empres\u00e1rio de origem americana no Rio, Gilbert Huber Jr., dono da ent\u00e3o poderosa Listas Telef\u00f4nicas, articulou-se com um empres\u00e1rio de uma multinacional em S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Batista Leopoldo Figueiredo, ex-presidente do Banco do Brasil no Governo J\u00e2nio e tio do futuro presidente Figueiredo.<\/p>\n<p>Acabaram recrutando militares da reserva \u2013 um deles, o general Golbery do Couto e Silva.<\/p>\n<p>Parecia um inocente clube de homens de neg\u00f3cios. Mas, na sua face oculta, sob siglas e codinomes, o IPES concentrava a execu\u00e7\u00e3o met\u00f3dica de um pensado plano da burguesia nacional para combater, de forma clandestina, os seus tr\u00eas principais inimigos: o Governo Jango, a alian\u00e7a nacionalista do PTB e o comunismo, que aparentemente resumia tudo aquilo. O bra\u00e7o pol\u00edtico ostensivo do IPES era o IBAD, Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, que apesar do nome tinha liga\u00e7\u00f5es com o MAC, Movimento Anticomunista, e com a organiza\u00e7\u00e3o da direita cat\u00f3lica Opus Dei.<\/p>\n<p>O fundador do IBAD em 1959 foi o integralista Ivan Hasslocher, dono da Promotion, uma ag\u00eancia de publicidade que promovia o lobby do IBAD e seu bra\u00e7o parlamentar, a ADP \u2013 A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Popular, um n\u00facleo conservador de 160 parlamentares da centro-direita no Congresso reunido em torno da UDN, PSD e PSP. A ADP fazia contraponto \u00e0 Frente Parlamentar Nacionalista, que orbitava no universo do PTB e dos aliados da esquerda. Segundo o historiador uruguaio de nascimento Ren\u00e9 Dreifuss, a ADP tinha sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica patrocinada pela esta\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro da CIA, a ag\u00eancia de intelig\u00eancia americana focada em campanhas pol\u00edticas e grupos de press\u00e3o.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>Homens da mesma linha de pensamento e com igual prop\u00f3sito juntaram, a partir de 1962, as duas entidades: nascia o complexo IPES\/IBAD, matriz ideol\u00f3gica e operacional da conspira\u00e7\u00e3o que daria o golpe e, depois, forneceria os quadros e dirigentes do aparato estatal que sustentou o regime militar. O IPES operava como centro estrat\u00e9gico, e o IBAD, como unidade t\u00e1tica. O monstro crescia junto com a conspira\u00e7\u00e3o. Em 1963, os 80 membros originais do IPES pularam para 500. Eram s\u00f3cios 26 dos 36 l\u00edderes da FIESP, a maior federa\u00e7\u00e3o industrial do pa\u00eds. A entidade se espalhava pelas capitais do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Intelectuais a soldo<\/p>\n<p>\u00a0A articula\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios com os militares era feita pelo Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) do IPES, comandado pelo general Golbery, que atuava sobre o I (Rio) e III (Porto Alegre) Ex\u00e9rcitos. A \u2018ordem de servi\u00e7o com calend\u00e1rio\u2019 do GLC, que definia a estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o, tinha uma edi\u00e7\u00e3o limitada de 12 exemplares, que n\u00e3o eram registrados nas atas do IPES. A equipe de Golbery distribu\u00eda nos quart\u00e9is uma circular bimestral mimeografada, sem cita\u00e7\u00e3o da fonte, avaliando a atividade \u2018comunista\u2019 no pa\u00eds, apontando o dedo para subversivos infiltrados no governo e mapeando suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79046\" aria-describedby=\"caption-attachment-79046\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79046 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem7-1024x397.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem7-1024x397.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem7-300x116.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem7-768x298.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem7-1200x465.jpg 1200w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem7.jpg 1205w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79046\" class=\"wp-caption-text\">Golbery e o QG do golpe, no 27\u00ba andar do Avenida Central: 3 mil grampos de telefone s\u00f3 no Rio<\/figcaption><\/figure>\n<p>S\u00f3 no Rio de Janeiro o GLC de Golbery tinha tr\u00eas mil telefones grampeados<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. O grupo do general ocupava quatro das 13 salas que o IPES havia alugado no 27\u00b0 andar do Ed. Avenida Central, na av. Rio Branco, no centro da cidade. A conta do telefone era faturada em nome do general da reserva Henrique Geisel, irm\u00e3o de Ernesto.O GLC escrutinava a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da imprensa do pa\u00eds, um total de 14 mil edi\u00e7\u00f5es no ano, e produzia mensalmente cerca de 500 artigos, disseminados pelos jornais ou divulgados em forma de palestras.<\/p>\n<p>Neste trabalho era fundamental manipular a express\u00e3o da sociedade. O objetivo central do Grupo de Opini\u00e3o P\u00fablica (GOP) do IPES era disseminar seus objetivos na imprensa falada e escrita. Dissimulado, o grupo evitava o nome &#8220;opini\u00e3o p\u00fablica&#8221;, preferindo as express\u00f5es &#8220;divulga\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;promo\u00e7\u00e3o&#8221;. O GOP era &#8220;a base de toda a engrenagem&#8221;, definia o general Heitor Herrera, um dos l\u00edderes do IPES. Jos\u00e9 Lu\u00eds Moreira de Souza, dono da Denison Propaganda, dizia que &#8220;conquistar a opini\u00e3o p\u00fablica&#8221; era a ess\u00eancia da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do grupo. O principal articulador do GOP era um ex-comiss\u00e1rio de pol\u00edcia, Jos\u00e9 Rubem Fonseca, que nas d\u00e9cadas seguintes se consagraria como o maior contista vivo do pa\u00eds, ganhador em 2003 do Pr\u00eamio Cam\u00f5es, o Nobel dos escritores de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Rubem Fonseca coordenava, entre outros, jornalistas no Rio, como Glauco Carneiro e Wilson Figueiredo (o editorialista golpista do <em>JB <\/em>), e em S\u00e3o Paulo, como Ennio Pesce<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> e Fl\u00e1vio Galv\u00e3o, estrelas do Estad\u00e3o. Intelectuais de respeito estavam no balaio de Fonseca e do IPES: a escritora N\u00e9lida Pi\u00f1on (secret\u00e1ria da entidade no Rio), o cronista Odylo Costa, filho, o poeta Augusto Frederico Schmidt e a romancista Rachel de Queiroz \u2013 todos irmanados na agita\u00e7\u00e3o golpista em favor do general Castello Branco, primo de Rachel.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79047\" aria-describedby=\"caption-attachment-79047\" style=\"width: 1148px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79047\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem8.jpg\" alt=\"\" width=\"1148\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem8.jpg 1148w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem8-300x117.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem8-1024x398.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem8-768x298.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1148px) 100vw, 1148px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79047\" class=\"wp-caption-text\">Rubem Fonseca, N\u00e9lida Pi\u00f1on e Rachel de Queiroz: escritores assalariados pelo golpe<\/figcaption><\/figure>\n<p>O que acontecia na grande imprensa do Rio e S\u00e3o Paulo se repetia na grande imprensa ga\u00facha, que teve coniv\u00eancia e complac\u00eancia com o golpe, antes e depois de 1964.<\/p>\n<p>O <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>, o principal \u00f3rg\u00e3o Associado no sul, foi depredado e incendiado pela popula\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, em agosto de 1954, ao ecoar o tiro do suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas, atribu\u00eddo \u00e0 forte oposi\u00e7\u00e3o da imprensa, onde se destacava o grupo de Chateaubriand. Sua ades\u00e3o ao golpe, em 1964, n\u00e3o impediu sua decad\u00eancia, at\u00e9 fechar em 1979.<\/p>\n<p>A <em>Zero Hora<\/em> \u00a0j\u00e1 nasceu depurada e lavada ideologicamente em 4 de maio de 1964, um m\u00eas e quatro dias depois que o general Olympio Mour\u00e3o Filho desencadeou o golpe, mobilizando as tropas da 4\u00aa Divis\u00e3o de Infantaria que ele comandava em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Herdou do jornal <em>\u00daltima Hora<\/em> as m\u00e1quinas e a antiga sede na rua Sete de Setembro, no centro de Porto Alegre, mas livrou-se rapidamente do logotipo, da cara e da comprometedora intimidade ideol\u00f3gica de seu antecessor nas bancas e de seu dono no expediente, Samuel Wainer, identificado com o getulismo, a esquerda e o Governo Jango.<\/p>\n<p>A <em>\u00daltima Hora<\/em> ga\u00facha era a edi\u00e7\u00e3o mais jacobina da \u00e1gil rede de jornais de Wainer, que al\u00e9m do Rio e S\u00e3o Paulo publicava edi\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas e vibrantes em outros nove centros do pa\u00eds \u2013 capitais como Belo Horizonte, Recife, Niter\u00f3i, Curitiba, Porto Alegre e outras quatro cidades do interior paulista, inclusive a emergente regi\u00e3o sindical do ABC.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><\/p>\n<p>Era natural, portanto, que herdasse tamb\u00e9m todos os inimigos e a santa ira da nova ordem militar. A <em>UH<\/em> de Porto Alegre sentiu o golpe, literalmente. Tentou manter a linha editorial e o sonho de uma resist\u00eancia de Jango ao levante militar at\u00e9 o dia 5 de abril. Resfolegou na imposs\u00edvel neutralidade por mais tr\u00eas semanas e, afinal, sucumbiu em 25 de abril do ano da gra\u00e7a de 1964. O diretor da edi\u00e7\u00e3o ga\u00facha, Ary de Carvalho, ainda procurou manter a equipe, a marca e a estrutura do velho jornal. Viajou ao Rio, para uma conversa de neg\u00f3cios com Wainer, ent\u00e3o exilado na Embaixada do M\u00e9xico. Carvalho fez a proposta, e Wainer topou vender as m\u00e1quinas de escrever, as oito m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas, as quatro lambretas, os dois carros e o arquivo de fotos \u2013 mas n\u00e3o aceitou vender o t\u00edtulo do jornal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79048\" aria-describedby=\"caption-attachment-79048\" style=\"width: 1271px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79048 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem9.jpg\" alt=\"\" width=\"1271\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem9.jpg 1271w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem9-300x89.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem9-1024x303.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem9-768x227.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem9-1200x355.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1271px) 100vw, 1271px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79048\" class=\"wp-caption-text\">Da Ultima Hora de Samuel Wainer para a Zero Hora de Ary de Carvalho: a mudan\u00e7a foi al\u00e9m do logotipo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Wainer mandou fechar a <em>UH<\/em>. Com outros tr\u00eas empres\u00e1rios, Carvalho comprou m\u00e1quinas e equipamentos da reda\u00e7\u00e3o, segurou alguns membros da equipe e tratou de fundar um novo di\u00e1rio em maio de 1964. Pediu ao chefe da diagrama\u00e7\u00e3o, o argentino de nascimento An\u00edbal Bendatti, uma logomarca para o novo jornal \u2013 &#8220;parecida, mas diferente da <em>\u00daltima Hora<\/em>&#8220;<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>. Bendatti datilografou as palavras <em>Zero Hora<\/em>, ampliou os tipos da m\u00e1quina de escrever, livrou o t\u00edtulo antigo do ret\u00e2ngulo e cravou a nova marca num quadrado comportado. Preservou apenas o azul dos velhos tempos na cara do di\u00e1rio que j\u00e1 nascia simp\u00e1tico ao regime de 1964. A simpatia dos conspiradores foi ainda maior.<\/p>\n<p>Ary de Carvalho trazia liga\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia decisivas desde Birigui, cidade do interior paulista onde se iniciou em 1926 a carreira de sucesso de um antigo <em>office-boy<\/em> de uma ag\u00eancia local do Banco Noroeste chamado Amador Aguiar. D\u00e9cadas depois, Aguiar tinha um emprego novo e o seu pr\u00f3prio banco, o Bradesco, ambos engajados de corpo e alma no projeto golpista do IPES. Nada mais natural, assim, do que ajudar o velho amigo de um jornal que j\u00e1 nascia amigo dos vitoriosos de abril de 64.<\/p>\n<p>Com o dinheiro do Bradesco, Carvalho livrou-se dos antigos s\u00f3cios e cresceu. Ganhou anos depois um novo parceiro, o radialista Maur\u00edcio Sirotsky, que em 1962 criara a TV Ga\u00facha, ent\u00e3o filiada \u00e0 Rede Excelsior. Juntos compraram em Chicago, EUA, a moderna m\u00e1quina de impress\u00e3o em <em>off set<\/em> que tornou a <em>Zero Hora<\/em> o segundo jornal do pa\u00eds a adotar a novidade (o primeiro tinha sido a <em>Folha de S.Paulo<\/em> de Frias).<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o fez o jornal cambalear financeiramente, e, em abril de 1970, seis anos ap\u00f3s o golpe, Carvalho vendeu as a\u00e7\u00f5es que tinha ao s\u00f3cio e retirou-se para o Rio de Janeiro. Sirotsky, agora o \u00fanico dono de <em>Zero Hora<\/em>, fizera em 1965 um movimento t\u00e1tico decisivo: trocou a Excelsior pela nascente Rede Globo de Roberto Marinho, a organiza\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica que mais cresceria sob a ditadura. No v\u00e1cuo desse sucesso nasceu, cresceu e apareceu a RBS, a Rede Brasil-Sul de Sirotsky, hoje o grupo de m\u00eddia mais poderoso do sul do pa\u00eds, nascido dos escombros da <em>\u00daltima Hora<\/em> esmagada pelos tanques de 64.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O fazendeiro ancora no golpe<\/p>\n<p>At\u00e9 aparecer a RBS, a empresa jornal\u00edstica mais influente e rica do Rio Grande do Sul era a Caldas J\u00fanior, que editava o jornal mais importante do Estado, o <em>Correio do Povo<\/em>, operava a r\u00e1dio mais ouvida, a Gua\u00edba, e mantinha um vespertino de larga penetra\u00e7\u00e3o, a <em>Folha da Tarde<\/em>. Atravessou sem sobressaltos a turbul\u00eancia de 1964 porque era uma empresa conservadora, mantida sob o r\u00edgido controle de seu dono, Breno Caldas. Tinha apenas 25 anos quando assumiu o jornal, em 1935. O pai, fundador do <em>Correio do Povo<\/em> meio s\u00e9culo antes, morrera prematuramente aos 45 anos, em 1913, mergulhando a empresa numa crise financeira que durou at\u00e9 a chegada de Breno Caldas.<\/p>\n<p>Dono de jornal e fazendeiro, Breno Caldas cultivava uma previs\u00edvel hostilidade contra as reformas de base de Jo\u00e3o Goulart e antipatia ainda maior contra o cunhado do presidente, Leonel Brizola \u2013 que na crise da ren\u00fancia de J\u00e2nio em 1961 requisitou a sua r\u00e1dio Gua\u00edba para montar em torno dela a &#8220;Rede da Legalidade&#8221;, que no gog\u00f3 brecou o golpe militar e, com a ades\u00e3o inesperada do III Ex\u00e9rcito, garantiu a posse de Jango.<\/p>\n<p>Nos idos de 1962, o l\u00edder do IPES carioca, Jos\u00e9 Luiz Moreira de Souza, dono da Denison Propaganda, viajou a Porto Alegre para botar a Caldas J\u00fanior no balaio da conspira\u00e7\u00e3o. Ganhou as gra\u00e7as de Arlindo Pasqualini, irm\u00e3o de Alberto, ide\u00f3logo do trabalhismo que o IPES combatia. Arlindo, diretor da <em>Folha da Tarde<\/em> e o sucessor natural do dono da empresa, Breno Caldas, recebeu a miss\u00e3o de produzir uma s\u00e9rie de artigos contra Leonel Brizola, que j\u00e1 n\u00e3o tinha a simpatia da casa desde a Campanha da Legalidade do ano anterior.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p>A animosidade cresceu no governo Jango. Brizola pegou gosto pelo microfone e batia regularmente em Breno Caldas \u00e0s sextas-feiras, no seu programa noturno na r\u00e1dio Farroupilha, que curiosamente fazia parte da rede dos Di\u00e1rios Associados do golpista Chateaubriand. O ex-governador adotava um tom coloquial e direto ao falar na r\u00e1dio: &#8220;Dr. Breno, eu sei que o senhor est\u00e1 me ouvindo a\u00ed no seu iate ancorado no Gua\u00edba&#8230;&#8221;. A chicotada vinha em seguida: &#8220;O <em>Correio do Povo<\/em>, que j\u00e1 foi jornal do povo, hoje n\u00e3o \u00e9. Agora \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o da oligarquia, dos monop\u00f3lios, dos trustes internacionais&#8230;&#8221;, batia Brizola.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79049\" aria-describedby=\"caption-attachment-79049\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79049 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem10-1024x368.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem10-1024x368.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem10-300x108.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem10-768x276.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem10-1200x431.jpg 1200w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem10.jpg 1275w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79049\" class=\"wp-caption-text\">Breno Caldas, ancorado no iate Aventura, levando torpedos pelo programa de r\u00e1dio de Leonel Brizola<\/figcaption><\/figure>\n<p>A resposta vinha na primeira p\u00e1gina da <em>Folha da Tarde<\/em>, nos artigos assinados por seu diretor, Arlindo Pasqualini, o homem do IPES dentro da Caldas J\u00fanior. Como bom fazendeiro e criador de cavalos, Breno tinha afinidades campeiras com Jango, a quem chamava por &#8220;tu&#8221;, express\u00e3o de intimidade entre ga\u00fachos. (Para manter a dist\u00e2ncia, Breno sempre tratava Brizola pelo cerimonioso &#8220;doutor&#8221;). Quando o golpe aconteceu, acabaram as cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Nos primeiros editoriais ap\u00f3s o golpe de 1964, o jornal abandonou sua hist\u00f3rica divisa da primeira edi\u00e7\u00e3o de 1895 \u2013 \u201cindependente, nobre e forte\u201d \u2013 e aderiu \u00e0 fac\u00e7\u00e3o vitoriosa, assumindo uma postura subalterna \u00e0 nova ordem militar. E escancarou seu apoio em editoriais did\u00e1ticos para explicar por que os revolucion\u00e1rios do golpe de 1\u00ba de abril estavam certos: &#8220;Aquele era o \u00fanico caminho para salvar o Brasil&#8221;, dizia o jornal que se pretendia independente, nobre e forte, fazendo o coro de submiss\u00e3o com a grande imprensa golpista do centro do pa\u00eds.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n<p>Falando, Breno Caldas tentava matizar o que era mais expl\u00edcito nos editoriais. Em 1987, dois anos antes de morrer, em entrevista ao jornalista Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Pinheiro Machado, ele reconhecia: &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o de 1964, de certo modo, contou com a nossa participa\u00e7\u00e3o, ou pelo menos com a nossa simpatia. O pessoal que foi ao poder em 1964&#8230; n\u00e3o \u00e9 que fosse ligado a n\u00f3s, n\u00e3o t\u00ednhamos liga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com ningu\u00e9m&#8230;, mas eram pessoas afinadas conosco, est\u00e1vamos no mesmo caminho. Quando houve a tal conspira\u00e7\u00e3o do Castello Branco, eu n\u00e3o sabia de nada oficialmente. At\u00e9 que o general Adalberto Pereira dos Santos, que comandou o movimento por aqui, fez um contato comigo, me disse que a situa\u00e7\u00e3o era cr\u00edtica, que iria acontecer alguma coisa. \u2018Fique atento a uma manifesta\u00e7\u00e3o do general Castello Branco\u2019, me disse ele&#8221;.<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a><\/p>\n<p class=\"intertit\">O retrato da m\u00eddia pelo SNI<\/p>\n<p>Esse era o terreno, agreste como o sert\u00e3o alagoano, que Aud\u00e1lio Dantas me propunha percorrer, em dezembro de 1975, para recolher assinaturas para o manifesto que contestava o IPM do \u2018suic\u00eddio\u2019 de Vlado. O pedido poderia ter sido feito ao bravo presidente do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre, Jo\u00e3o Borges de Souza, mas a precau\u00e7\u00e3o era a mesma exigida em S\u00e3o Paulo: era preciso cautela, para n\u00e3o expor o sindicato numa atividade politicamente provocante e dar aos militares o pretexto f\u00e1cil da interven\u00e7\u00e3o. Isso explica por que Aud\u00e1lio telefonou para mim, e n\u00e3o para o Jo\u00e3o Borges, um dos 1004 ilustres signat\u00e1rio do manifesto \u2018Em Nome da Verdade\u2019.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois do assassinato de Vlado no DOI-CODI, a ag\u00eancia do SNI em Porto Alegre fez uma avalia\u00e7\u00e3o secreta sobre a imprensa ga\u00facha. Com todos os preconceitos e v\u00edcios t\u00edpicos da ditadura, o relat\u00f3rio enviado \u00e0 Ag\u00eancia Central em Bras\u00edlia, em 20 de novembro de 1978, reflete a vis\u00e3o que o aparato repressivo do regime tinha da m\u00eddia de Porto Alegre, que certamente era muito parecida com a que visitamos nos idos turbulentos de dezembro de 1975.<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a> Esse era o perfil que o SNI fazia dos principais jornais ga\u00fachos, pouco depois da morte de \u00a0Vladimir Herzog:<\/p>\n<ol>\n<li><em>Correio do Povo<\/em>: \u00e9 o jornal mais tradicional do RS, que se mant\u00e9m dentro de uma linha de jornalismo conservadora, apresentando as not\u00edcias de forma realista, s\u00e9ria e sem deturpa\u00e7\u00f5es. Geralmente assume posicionamento concordante com o Governo Federal. Possui muito boa credibilidade junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica;<\/li>\n<li><em>Folha da Tarde<\/em>: vespertino de linha apol\u00edtica. Usa de linguagem moderada e imparcial nos seus artigos. N\u00e3o faz oposi\u00e7\u00e3o ao governo;<\/li>\n<li><em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em>: jornal inteiramente dedicado a assuntos da \u00e1rea econ\u00f4mica. \u00c9 bastante favor\u00e1vel ao Governo Federal.<\/li>\n<li><em>Folha da Manh\u00e3<\/em>: matutino que frequentemente apresenta not\u00edcias e reportagens de conte\u00fado cr\u00edtico contr\u00e1rio ao governo. Atrav\u00e9s de artigos, manchetes sensacionalistas e charges, distorce os fatos, apresentando-os com inverdades ou meias verdades;<\/li>\n<li><em>Zero Hora<\/em>: jornal de grande circula\u00e7\u00e3o no Estado. Em seu editorial posiciona-se, geralmente, favor\u00e1vel ao Governo Federal. Por\u00e9m, no seu todo o jornal d\u00e1 maior destaque para a oposi\u00e7\u00e3o e para qualquer assunto ou movimento contr\u00e1rio ao governo e ao Regime Pol\u00edtico atual. Salienta-se, tamb\u00e9m, que ZH \u00e9 o \u00fanico jornal do Estado que divulga not\u00edcias da Ag\u00eancia NOVOSTI (APN) da UNI\u00c3O SOVI\u00c9TICA que, muitas vezes, s\u00e3o inclu\u00eddas no notici\u00e1rio de outras ag\u00eancias internacionais, intercalando-se o texto das mesmas, fato ocorrido particularmente nos recentes incidentes do AFEGANIST\u00c3O.<\/li>\n<li><em>CooJORNAL<\/em>: encontra-se dentro da mesma linha de orienta\u00e7\u00e3o dos demais jornais da imprensa \u201cALTERNATIVA\u201d, que atuam no Pa\u00eds, apresentando conte\u00fado frontalmente contr\u00e1rio ao governo, \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es e ao Regime Pol\u00edtico implantado em 31 MAR 1964.<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<p>Logo depois do inesperado telefonema de Aud\u00e1lio, peguei o texto enviado por telex pelo Sindicato de S\u00e3o Paulo, intitulado \u2018Em Nome da Verdade\u2019, de autoria de Fernando Pacheco Jord\u00e3o, um dos integrantes da diretoria liderada por Aud\u00e1lio e autor, quatro anos depois, do livro <em>Dossi\u00ea Herzog: pris\u00e3o, tortura e morte no Brasil<\/em>. O teor do manifesto tinha uma breve introdu\u00e7\u00e3o e oito perguntas b\u00e1sicas, quase \u00f3bvias, para desmontar a farsa do IPM. Fiz tr\u00eas c\u00f3pias e repassei duas aos meus dois rep\u00f3rteres na sucursal de <em>Veja <\/em>\u2013 Pedro Maciel e Ad\u00e9lia [Ded\u00e9] Porto da Silva.<\/p>\n<p>Fomos os primeiros a assinar, junto com os outros integrantes de revistas da Editora Abril, cuja sucursal eu chefiava, incluindo jornalistas efetivos, colaboradores <em>free-lancers<\/em> e antigos integrantes da equipe que sempre circulavam por l\u00e1. Abriam a fila os fot\u00f3grafos Ricardo [Kad\u00e3o] Chaves, Ol\u00edvio Lamas e Assis Hoffmann, os rep\u00f3rteres da revista <em>Placar<\/em> Divino Fonseca e M\u00e1rio Marcos de Souza, os colaboradores da <em>Exame <\/em>Maria Iara Rech e Affonso Ritter e minha secret\u00e1ria, Rejane Baeta.<\/p>\n<p>Coletar assinaturas para um documento que confrontava diretamente uma investiga\u00e7\u00e3o viciada do Ex\u00e9rcito sobre a morte de Herzog s\u00f3 podia ser uma responsabilidade coletiva, nunca individual. Um exemplo \u00e9 que em dezembro, quando o manifesto come\u00e7ou a correr as reda\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo, o meu rep\u00f3rter Pedro Maciel casualmente estava l\u00e1, fechando uma mat\u00e9ria. Na sede paulistana da <em>Veja, <\/em>no pr\u00e9dio da Abril na Marginal do Tiet\u00ea, o secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o, o ga\u00facho Paulo Totti, era o encarregado de colher as assinaturas. Quando Maciel se disp\u00f4s a assinar, ali mesmo, o experiente Totti observou: \u201cPedro, se assinares aqui, tu ser\u00e1s o \u00fanico ga\u00facho em uma lista de jornalistas paulistas. E isso vai te expor muito. \u00c9 melhor esperar que o manifesto chegue a Porto Alegre, para assinar l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Aud\u00e1lio nos deu uma semana de prazo, mas achei que a tarefa deveria ser cumprida em um ou dois dias, no m\u00e1ximo, para atrair menos aten\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 delicadeza do momento, reduzindo assim nossa presen\u00e7a nas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Decidi concentrar nosso esfor\u00e7o \u2013 eu, Pedro e Ded\u00e9 \u2013\u00a0 em cinco desses jornais, que reuniam o maior contingente de jornalistas: os tr\u00eas da Caldas J\u00fanior (<em>Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manh\u00e3<\/em>), a <em>Zero Hora<\/em> e o <em>CooJORNAL.<\/em><\/p>\n<p>Ded\u00e9, a mais simp\u00e1tica do trio, ficou encarregada de visitar a CooJORNAL, a primeira cooperativa de jornalistas do pa\u00eds, fundada em agosto de 1974 na esteira de uma crise na <em>Folha da Manh\u00e3, <\/em>quando 21 jornalistas (1\/3 da reda\u00e7\u00e3o) se demitiram em protesto contra a demiss\u00e3o do rep\u00f3rter Caco Barcellos, autor de uma vigorosa mat\u00e9ria contra a viol\u00eancia policial. Os 66 jornalistas que fundaram a cooperativa se multiplicaram at\u00e9 chegar a 314 associados, editando 33 jornais e boletins para sindicatos, empresas privadas e outras cooperativas, garantindo o sustento de quase 100 jornalistas que realizavam a utopia de uma empresa sem patr\u00f5es, fazendo um jornal de jornalistas.<\/p>\n<p>O <em>CooJORNAL <\/em>se orgulhava de ter \u2018o maior expediente do mundo\u2019, com mais de 300 jornalistas sem patr\u00e3o e sem hierarquia, todos nivelados pelo cooperativismo. O jornal, assim, era um bravo integrante da chamada \u2018imprensa nanica\u2019, ao lado de publica\u00e7\u00f5es do centro do pa\u00eds como <em>Movimento, Opini\u00e3o, Versus, Em Tempo, Bondinho, Ex <\/em>e o venerando <em>O Pasquim<\/em>, o irreverente seman\u00e1rio carioca que chegou a vender 200 mil exemplares, um sucesso de banca que afrontava a condi\u00e7\u00e3o de \u2018nanico\u2019.<\/p>\n<p>O mens\u00e1rio <em>cooJORNAL <\/em>se caracterizava por uma pauta criativa, centrada em fatos hist\u00f3ricos, remontando epis\u00f3dios e citando personagens da oposi\u00e7\u00e3o, dissidentes e pensadores de esquerda, que irritavam os militares. Um bom retrato do jornal foi desenhado pela pr\u00f3pria Ag\u00eancia Central do SNI, na \u2018Informa\u00e7\u00e3o Confidencial n\u00ba 031, de 19 de agosto de 1980, que registrou com inusual precis\u00e3o:<\/p>\n<p>O peri\u00f3dico <em>CooJORNAL<\/em>, editado pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, caracteriza-se por divulgar artigos hostis ao governo. Apesar de a referida publica\u00e7\u00e3o ter tiragem de, apenas, 35 mil exemplares, seus artigos s\u00e3o comumente comentados pelos demais \u00f3rg\u00e3os de imprensa, e passa, deste modo, a ter repercuss\u00e3o nacional. <a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79050\" aria-describedby=\"caption-attachment-79050\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79050 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem11-1024x405.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem11-1024x405.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem11-300x119.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem11-768x304.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem11-1200x474.jpg 1200w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem11.jpg 1262w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79050\" class=\"wp-caption-text\">A cooperativa e seu pequeno jornal: \u2018artigos hostis\u2019 e \u2018repercuss\u00e3o nacional\u2019, segundo o elogio do SNI<\/figcaption><\/figure>\n<p>No perfil da imprensa desenhado pela ag\u00eancia ga\u00facha do SNI, de novembro de 1978, o \u00f3rg\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es citava Elmar Bones da Costa (editor-respons\u00e1vel), Carlos Rafael Guimar\u00e3es (redator), Osmar Trindade (secret\u00e1rio da cooperativa), Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Vieira da Cunha (presidente da CooJORNAL), Renan Antunes de Oliveira (rep\u00f3rter), o chargista Edgar Vasques e Luiz Carlos Merten (redator). Bones, Vasques e Merten integram a lista final dos 1004 signat\u00e1rios do manifesto de 1976 dos jornalistas.<\/p>\n<p>O SNI acusava:<\/p>\n<p>Relacionamos os principais dirigentes e redatores do COOJORNAL, todos de tend\u00eancias ideol\u00f3gicas \u2018esquerdistas\u2019, que em seus artigos fazem forte oposi\u00e7\u00e3o ao governo e ao regime implantado em MAR de 1964.<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79051\" aria-describedby=\"caption-attachment-79051\" style=\"width: 1306px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79051\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem12.jpg\" alt=\"\" width=\"1306\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem12.jpg 1306w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem12-300x66.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem12-1024x227.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem12-768x170.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem12-1200x266.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1306px) 100vw, 1306px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79051\" class=\"wp-caption-text\">Bones, Rafael, Trindade, Vieira, Renan e Vasques: os \u2018esquerdistas\u2019 do Coojornal, conforme o relat\u00f3rio do SNI<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o do <em>cooJORNAL, <\/em>portanto, Ded\u00e9 pisava em solo favor\u00e1vel a quem discordava do falso IPM sobre a morte de Vlado. Na reda\u00e7\u00e3o bem mais ampla da <em>Zero Hora<\/em>, Pedro Maciel transitou por terreno mais delicado. A dire\u00e7\u00e3o do jornal estava, desde 1970, sob o comando de Lauro Schirmer, um moderado e bem-humorado profissional que, na d\u00e9cada de 1950, flertou com a pol\u00edtica como candidato frustrado a deputado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB).<\/p>\n<p>No perfil da imprensa que o SNI desenhou em 1978, ele ganhou uma descri\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, mas o araponga do servi\u00e7o de espionagem confundiu o PSB com o velho PCB:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Lauro Schirmer, diretor de reda\u00e7\u00e3o: (&#8230;) antecedentes desabonadores por sua milit\u00e2ncia no PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO (PCB) e liga\u00e7\u00f5es com comunistas. Na dire\u00e7\u00e3o da gr\u00e1fica (&#8230;) que imprime o jornal ZH, permite a impress\u00e3o de diversas publica\u00e7\u00f5es, entre as quais o COOJORNAL, que se caracterizam pela forte oposi\u00e7\u00e3o ao governo e ao regime.<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a><\/p>\n<p>Apesar daquele arreganho com o PSB na juventude, Schirmer comandou a ZH por 20 anos, atravessando inc\u00f3lume e bem-comportado os rigores da ditadura. Em 1976, ele achou prudente n\u00e3o assinar o manifesto dos 1004, mas seu filho, o fot\u00f3grafo Gerson Schirmer, \u00e9 um dos signat\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O secret\u00e1rio de M\u00e9dici, o \u2018comunista\u2019 de Breno<\/p>\n<p>A assinatura mais surpreendente coletada na <em>Zero Hora<\/em> por Pedro Maciel foi a do editor-chefe Carlos Fehlberg, que ocupou o posto na reda\u00e7\u00e3o por 17 anos. Antes de chegar l\u00e1, em 1974, foi durante quatro anos o secret\u00e1rio de imprensa no Pal\u00e1cio do Planalto do general Garrastaz\u00fa M\u00e9dici, o presidente mais sanguin\u00e1rio do ciclo militar, mentor do DOI-CODI onde acabaria morrendo Vlado, sob tortura, j\u00e1 no governo de seu sucessor, Ernesto Geisel. Cordato e submisso, nunca se soube \u2013 nem durante, nem depois da ditadura \u2013 de qualquer contrariedade ou manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Fehlberg contra a viol\u00eancia da repress\u00e3o e a pr\u00e1tica contumaz da censura \u00e0 imprensa.<\/p>\n<p>O primeiro e talvez \u00fanico gesto de calculada dissid\u00eancia, com certeza, foi o manifesto que Pedro Maciel lhe apresentou. Apesar de seu passado submisso e silente diante da ditadura, louve-se, ele ousou firmar em 1976 o abaixo-assinado que reafirmava a tortura e a viol\u00eancia que levou \u00e0 morte de Vlado no DOI-CODI paulista. Fehlberg garantiu, assim, seu surpreendente e digno lugar entre os 1004 jornalistas inconformados com a farsa do IPM. <em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79052\" aria-describedby=\"caption-attachment-79052\" style=\"width: 676px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79052 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem13.jpg\" alt=\"\" width=\"676\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem13.jpg 676w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem13-300x172.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 676px) 100vw, 676px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79052\" class=\"wp-caption-text\">Surpresa na ZH: Schirmer, ex-socialista, n\u00e3o assinou, e Fehlberg, ex-porta-voz de M\u00e9dici, assinou<\/figcaption><\/figure>\n<p>Coube a mim percorrer o territ\u00f3rio mais povoado e hostil da Caldas J\u00fanior e seus tr\u00eas jornais. Escolhi o meio da tarde do in\u00edcio da semana, segunda ou ter\u00e7a, quando a reda\u00e7\u00e3o est\u00e1 com as editorias a pleno vapor e os rep\u00f3rteres j\u00e1 retornaram da rua. Apesar do expurgo sofrido em 1974, a <em>Folha da Manh\u00e3 <\/em>\u00a0de 1976 continuava sendo, para o SNI, \u201cum matutino de not\u00edcias e reportagens de conte\u00fado cr\u00edtico contr\u00e1rio ao governo\u201d, que por meio de \u201cartigos, manchetes sensacionalistas e charges, distorce os fatos e apresentando-os com inverdades ou meia verdades\u201d.<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a> Minha passagem por l\u00e1 foi r\u00e1pida e produtiva.<\/p>\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o ao lado, da <em>Folha da Tarde, <\/em>a colheita foi mais \u00e1rdua. Para o SNI, era um \u201cvespertino de linha apol\u00edtica\u201d, que \u201cusa de linguagem moderada e imparcial nos seus artigos\u201d e \u201cn\u00e3o faz oposi\u00e7\u00e3o ao governo\u201d. O diretor de reda\u00e7\u00e3o, Edmundo Soares, era definido pelo SNI como \u201csem antecedentes\u201d, o que devia ser elogioso e confort\u00e1vel para a ditadura. O n\u00famero 2 do jornal, o secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o da FT, Adil Borges Fortes da Silva, mereceu esse perfil do SNI:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Elemento integrado ao Regime Revolucion\u00e1rio de 31 MAR 1964; anticomunista; (&#8230;) combate as organiza\u00e7\u00f5es \u2018esquerdistas\u2019 e\/ou oposi\u00e7\u00e3o ao Regime. Ao mesmo tempo, faz propaganda do governo e de suas obras.<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a><\/p>\n<p>Adil, na verdade, encarnava o jornalista-s\u00edmbolo que a ditadura idealizava: integrado ao regime, anticomunista, antibrizolista, inimigo das oposi\u00e7\u00f5es e ainda propagandista do governo dos generais. Al\u00e9m da m\u00e3o-de-ferro sobre a reda\u00e7\u00e3o, a partir de 1962 Adil passou a assinar uma coluna sob o pseud\u00f4nimo de \u2018Hil\u00e1rio Hon\u00f3rio\u2019, personagem oculta por onde o colunista regurgitava todo o seu antibrizolismo e deixava escorrer toda a sua avers\u00e3o ao comunismo.<\/p>\n<p>Enfurecido, o ent\u00e3o governador Leonel Brizola dizia que tinha \u2018perdigueiros\u2019 no jornal que lhe revelaram a verdadeira identidade de HH. Dias depois, o desmascarado Adil colocou a imagem de um c\u00e3o no cabe\u00e7alho da coluna e deu a ela o t\u00edtulo de \u2018Perdigueiro, por HH\u2019. A coluna sobreviveu 22 anos, at\u00e9 1984, v\u00e9spera da queda da ditadura, o osso autorit\u00e1rio a que Adil Borges Fortes se atracou com a f\u00faria de um c\u00e3o esfomeado. <em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79053\" aria-describedby=\"caption-attachment-79053\" style=\"width: 1110px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79053\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem14.jpg\" alt=\"\" width=\"1110\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem14.jpg 1110w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem14-300x106.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem14-1024x363.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem14-768x272.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1110px) 100vw, 1110px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79053\" class=\"wp-caption-text\">Adil, o colunista da Folha da Tarde: o \u2018Hil\u00e1rio Hon\u00f3rio\u2019 que deixava Brizola furioso<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como manda o protocolo, procurei o diretor e o secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o da FT, em primeiro lugar, para colher suas assinaturas. Como previa, nem Edmundo Soares, nem Adil Borges Fortes concordaram com o abaixo-assinado, e recusaram educadamente meu convite. Mas a base da reda\u00e7\u00e3o, na sua maioria, apoiou o manifesto.<\/p>\n<p>Chegou ent\u00e3o a vez do carro-chefe da Caldas Jr., o <em>Correio do Povo<\/em>, o centen\u00e1rio e conservador jornal ga\u00facho, uma vers\u00e3o sulista do Estad\u00e3o. A reda\u00e7\u00e3o, com m\u00f3veis pesados de madeira escura, combinava com a maioria dos jornalistas, j\u00e1 veteranos, muitos com suas cabeleiras amadurecendo do grisalho para o branco. N\u00e3o procurei inicialmente nenhum deles.<\/p>\n<p>Fui direto a uma figura destoante da reda\u00e7\u00e3o, que ocupava uma mesa \u00e0 esquerda da porta de entrada, fincada em um estrado de madeira de uns 10 cm que a colocava num patamar superior em rela\u00e7\u00e3o ao vetusto cen\u00e1rio de editores e redatores. Era ocupado por um jovem que tinha a minha idade e a mesma apar\u00eancia: 24 anos, cabeludo e barbudo. Nessa condi\u00e7\u00e3o, era identificado aos sussurros pela provecta reda\u00e7\u00e3o do <em>Correio do Povo<\/em> como \u2018comunista\u2019.<\/p>\n<p>O improv\u00e1vel Edgar Lisboa era muito mais do que sugeria sua imagem iconoclasta. Era o homem, ou jovem, de confian\u00e7a extrema do dono da Caldas J\u00fanior, o \u2018doutor\u2019 Breno Caldas \u2013 o mesmo tratamento reverencial dedicado ao \u2018doutor\u2019 Roberto Marinho por seus companheiros de <em>O Globo<\/em>. No papel, Lisboa tinha o mero t\u00edtulo de Editor de Coluna, mas na pr\u00e1tica era uma esp\u00e9cie de Diretor-Assistente do dr. Breno, que tinha um gabinete fechado, com porta de vidro, logo atr\u00e1s da mesa dominante de Lisboa. Ningu\u00e9m alcan\u00e7ava a sala de Breno Caldas sem passar por ele, ou por sua aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79054\" aria-describedby=\"caption-attachment-79054\" style=\"width: 1026px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79054\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem15.jpg\" alt=\"\" width=\"1026\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem15.jpg 1026w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem15-300x118.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem15-1024x403.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/02\/imagem15-768x302.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1026px) 100vw, 1026px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79054\" class=\"wp-caption-text\">Lisboa, o \u2018comunista\u2019 do Correio do Povo, e o poeta Quintana, com o cigarro e o sorriso<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Lisboa, comecei a percorrer a reda\u00e7\u00e3o. Pela hierarquia, fui direto \u00e0 mesa do chefe de reda\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o com 62 anos, Adail Borges Fortes da Silva ocupou aquela cadeira por espantosos 39 anos. No perfil tra\u00e7ado pelo SNI, Adail era apresentado como \u201cintegrante do Diret\u00f3rio Nacional da Liga de Defesa Nacional\/RS (&#8230;) comprometido com os ideais da revolu\u00e7\u00e3o de MAR 1964\u201d.<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a> E era o irm\u00e3o mais velho de Adil Borges Fortes da Silva, o ranzinza \u2018Hil\u00e1rio Hon\u00f3rio\u2019 da <em>Folha da Tarde, <\/em>a cara mais reacion\u00e1ria e radical da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Apesar do parentesco e da ficha, Adail foi extremamente simp\u00e1tico e assinou, sem qualquer contesta\u00e7\u00e3o, o manifesto contra o IPM de Vlado. O seu gesto de assentimento abriu uma clareira de aceita\u00e7\u00e3o no <em>Correio, <\/em>onde minha tarefa se mostrou muito mais f\u00e1cil do que parecia \u2013 ap\u00f3s as assinaturas pioneiras de Lisboa e de Adail.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A causa e o sorriso do poeta<\/p>\n<p>Acerquei-me ent\u00e3o de uma mesa sem m\u00e1quina de escrever, ocupada por um redator de 69 anos, trajando um burocr\u00e1tico terno e gravata de tons escuros. Pernas cruzadas, tinha o olhar perdido nos c\u00edrculos de fuma\u00e7a que ele desenhava com o cigarro e que se dissolvam lentamente no ar. Minha chegada o tirou de suas divaga\u00e7\u00f5es e, sem descruzar as pernas, abriu um sorriso doce, acolhedor, que dissolveu meus receios. Eu estava diante do maior poeta do pa\u00eds, M\u00e1rio Quintana, o \u00fanico sobrevivente de uma nobre linhagem que inclu\u00eda Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Vin\u00edcius de Moraes.<\/p>\n<p>Desde 1953, aos 47 anos, Quintana editava a p\u00e1gina liter\u00e1ria de todo s\u00e1bado no <em>Correio do Povo, <\/em>onde brilhava o seu lend\u00e1rio \u2018Caderno H\u2019, uma sucess\u00e3o de epigramas constru\u00eddos com sutileza, ironia e gra\u00e7a<em>. <\/em>Al\u00e9m de sua p\u00e1gina semanal, ele copidescava o texto dos rep\u00f3rteres, fazia t\u00edtulos e traduzia telegramas das ag\u00eancias de not\u00edcias. Tradu\u00e7\u00e3o era sua praia: fluente em franc\u00eas e ingl\u00eas, verteu mais de 130 obras da literatura universal, incluindo Proust, Balzac, Voltaire, Virginia Woolf e Saint-Exup\u00e9ry.<\/p>\n<p>Quem imagina que ser poeta \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel de nefelibata, n\u00e3o deve estar pensando em M\u00e1rio Quintana, que nem gostava de ser chamado assim: \u201cPoeta n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o. \u00c9 um estado de esp\u00edrito, ou coma. Minha profiss\u00e3o \u00e9 jornalista. Assim est\u00e1 escrito na minha carteira profissional\u201d, escreveu ele. E para quem acha que poesia \u00e9 a fronteira da abstra\u00e7\u00e3o, Quintana completou: \u201cEu n\u00e3o entendo nada da quest\u00e3o social\/ Eu fa\u00e7o parte dela, simplesmente&#8230;\u201d Na ditadura do AI-5, o poeta se deparou com a censura, quando viu sua editora desistir de publicar o primeiro livro infantil \u2013 <em>P\u00e9 de Pil\u00e3o<\/em> \u2013 ao tremer diante dessa frase amea\u00e7adora: \u201cO soldado \u00e9 um cavalo montado noutro cavalo\u201d. Ao votar na elei\u00e7\u00e3o de 1989, a primeira para presidente em tr\u00eas d\u00e9cadas, Quintana quebrou a discri\u00e7\u00e3o e, veemente aos 83 anos, abriu seu voto com um verso prof\u00e9tico: \u201cEsse Collor tem olho de louco. Vai acabar com todos os maraj\u00e1s e s\u00f3 vai sobrar ele\u201d. <a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a><\/p>\n<p>O doce Quintana pegou o abaixo-assinado do IPM, leu rapidamente a introdu\u00e7\u00e3o do texto que contestava o Ex\u00e9rcito, alargou ainda mais o seu sorriso, em mudo mas eloquente atestado de concord\u00e2ncia, assinou e me devolveu. Sempre sorrindo, sem dizer nada. Nem precisava.<\/p>\n<p>Nessa jornada de apenas dois dias pelas maiores reda\u00e7\u00f5es de Porto Alegre, cumprindo a honrosa pauta de Aud\u00e1lio Dantas, n\u00f3s conseguimos 139 assinaturas \u2013 quase 30% das 467 publicadas originalmente na edi\u00e7\u00e3o do <em>Unidade<\/em>, o jornal do Sindicato de S\u00e3o Paulo. Um n\u00famero espantoso que nos encheu de orgulho.<\/p>\n<p>Mas, a assinatura que mais me emocionou foi a do poeta sempre jovem e quase septuagen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quintana disse uma vez: \u201cUma boa causa n\u00e3o salva um mau poeta\u201d.<\/p>\n<p>A boa causa pela verdade sobre a morte de Vladimir Herzog ganhou, com M\u00e1rio Quintana, a for\u00e7a e a perenidade do poeta imortal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px; text-align: right;\">* Luiz Cl\u00e1udio Cunha, chefe da sucursal de <em>Veja <\/em>em Porto Alegre, tinha 24 anos em dezembro de 1975, quando recebeu de Aud\u00e1lio Dantas a tarefa de coordenar a coleta de assinaturas no Sul para o manifesto contra o IPM do \u2018suic\u00eddio\u2019 de Herzog.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>DANTAS, Aud\u00e1lio. <em>As duas guerras de Vlado Herzog. <\/em>Rio de Janeiro, ed Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2012, p. 268.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>DANTAS, op. cit., p. 261-262.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> D\u2019ARAUJO, Maria Celina. CASTRO, Celso (orgs). <em>Ernesto Geisel.<\/em> Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, 1997, p. 371. O que para o general Geisel era um probleminha, para o capit\u00e3o Jair Bolsonaro n\u00e3o passava de uma fatalidade. Entrevistado na RedeTV na campanha de 2018, ele afirmou sobre a morte de Vlado: \u201cSuic\u00eddio acontece. O pessoal pratica suic\u00eddio\u201d. Nem mesmo o jornalista e astr\u00f3logo Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, teve essa indulg\u00eancia. Surpreendentemente, ele \u00e9 um dos 1004 signat\u00e1rios do manifesto de 1976 que duvida do \u2018suic\u00eddio\u2019 de Herzog.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Assis Chateaubriand, o dono dos <em>Di\u00e1rios Associados<\/em>, ent\u00e3o a maior cadeia de imprensa do pa\u00eds, era mais poderoso que Roberto Marinho do Sistema Globo, florescido depois do golpe. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950, Chateaubriand foi citado pelo <em>The New York Times<\/em> como o \u2018Cidad\u00e3o Kane brasileiro\u2019, vers\u00e3o tupiniquim do magnata americano William Randolph Hearst, que inspirou o filme cl\u00e1ssico de Orson Welles. O americano n\u00e3o era p\u00e1reo para o brasileiro. Diante dos 28 jornais e 18 revistas de Hearst, Chateaubriand ostentava um ros\u00e1rio midi\u00e1tico de 34 jornais, 36 emissoras de r\u00e1dio e 18 de TV integrantes da rede Tupi, al\u00e9m da revista <em>O Cruzeiro<\/em> (a maior tiragem do pa\u00eds, 700 mil exemplares no auge dos anos 50).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MOTTA, C\u00e9zar. <em>At\u00e9 a \u00faltima p\u00e1gina. Uma hist\u00f3ria do <\/em>Jornal do Brasil<em>. <\/em>Rio de Janeiro, ed. Objetiva, 2018, p.133-134.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Na madrugada de 2 de abril, Jango ainda estava em Porto Alegre, discutindo a rea\u00e7\u00e3o ao golpe, que n\u00e3o aconteceu. A falcatrua hist\u00f3rica s\u00f3 foi corrigida pelo Congresso 50 anos depois, em novembro de 2013, quando aprovou resolu\u00e7\u00e3o dos senadores Pedro Simon (PMDB) e Randolfe Rodrigues (PSOL) revogando o conluio de militares e parlamentares que votaram apressadamente a vac\u00e2ncia da presid\u00eancia quando Jango ainda se encontrava em solo brasileiro. Assim, foi devolvido simbolicamente o mandato usurpado a Jango, rebaixando o general Castelo Branco \u00e0 condi\u00e7\u00e3o rasa de comandante golpista.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MOTTA, op. cit., p. 136.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> CONY, Carlos Heitor. \u201cUm basta no \u2018basta\u2019\u201d, Opini\u00e3o, <em>Folha de S.Paulo, <\/em>30 de novembro e 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> CUNHA, Luiz Cl\u00e1udio. <em>M\u00e1ximas e m\u00ednimas: os ventos errantes da m\u00eddia na tormenta de 1964.<\/em> Cap\u00edtulo de \u2018Ditadura de Seguran\u00e7a Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): hist\u00f3ria e mem\u00f3ria\u2019. Org.: Enrique Serra Padr\u00f3s, V\u00e2nia M.Barbosa, Vanessa Albertinence Lopez e Ananda Sim\u00f5es Fernandes. Porto Alegre: ed. Corag, 2009, v. 1, p.179-222.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> VENTURA, Zuenir. <em>1968: o ano que n\u00e3o terminou<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Aud\u00e1lio Dantas. <em>50 anos do golpe de 1964. <\/em>\u00a0Estudos Avan\u00e7ados, USP, SP, vol. 28, n\u00ba 80, jan\/abril 2014. Dispon\u00edvel em\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142014000100007\">https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142014000100007<\/a>. Acesso em 24nov2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Carlos Eug\u00eanio Paz. Entrevista a Rodrigo Vianna. Blog <em>O Escrevinhador,<\/em> 17 abr. 2009. Acesso em: 19set.2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> KUSHNIR, Beatriz. <em>C\u00e3es de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/em> Ed. Boitempo, 2004. Aggio, que nega a acusa\u00e7\u00e3o, contestou sem sucesso a autora na justi\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> DREIFUSS, Ren\u00e9 Armand. <em>1964: a conquista do Estado. A\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe. <\/em>Petr\u00f3polis, RJ: ed. Vozes, 1981, p. 103.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> DREIFUSS, op. cit., p. 188.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><\/a>15 Ennio Pesce \u00e9 um dos 1004 signat\u00e1rios do manifesto de 1976 contra o IPM de Herzog.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> DREIFUSS, op. cit., p. 188.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> BARROS, Jefferson. <em>Golpe mata jornal. Desafios de um tabloide popular numa sociedade conservadora. <\/em>Porto Alegre: ed. J\u00c1, 1999, p. 156.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> BARROS, op. cit., p. 158.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> DREIFUSS, op.cit., p. 233.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> PINHEIRO MACHADO, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio. <em>Breno Caldas. Meio s\u00e9culo de Correio do Povo. Gl\u00f3ria e agonia de um grande jornal<\/em>. Porto Alegre: ed. L&amp;PM, 1987, p. 72<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> GALVANI, Walter. <em>Um s\u00e9culo de poder: os bastidores da Caldas J\u00fanior<\/em>. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1995, p. 411.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> PINHEIRO MACHADO, op.cit., p.78.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Os detalhes do relat\u00f3rio de cinco p\u00e1ginas da Informa\u00e7\u00e3o n\u00ba 26, enviado \u00e0 Ag\u00eancia Central do SNI em Bras\u00edlia em 20\/nov\/1978, sob o t\u00edtulo \u2018Acompanhamento da Atua\u00e7\u00e3o da Imprensa no RS \u2013 4.3.5\u201d, produzido pelo 119 APA (Ag\u00eancia Porto Alegre do SNI), o setor do campo interno encarregado da subvers\u00e3o, est\u00e3o publicados no meu livro <em>Opera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios, <\/em>(ed. L&amp;PM, 2008), nas p\u00e1ginas 288-293.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> CUNHA, Luiz Cl\u00e1udio. <em>Opera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios<\/em>. Porto Alegre: ed. L&amp;PM, 2008, p. 290.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> GUIMAR\u00c3ES, Rafael; CENTENO, Ayrton; BONES, Elmar. <em>CooJORNAL: um jornal de jornalistas sob o regime militar. <\/em>Porto Alegre: ed. Libretos, 2011, p. 17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> CUNHA, op.cit., p. 293.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> CUNHA, op.cit., p. 292.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> CUNHA, op.cit., p. 289.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> CUNHA, op. Cit., p. 291.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Informa\u00e7\u00e3o n\u00ba 26, Ag\u00eancia Porto Alegre\/SNI, de 20\/nov\/1978, <em>apud <\/em>CUNHA, op. cit., p. 291.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> CUNHA, Luiz Cl\u00e1udio. <em>A gl\u00f3ria do texto: M\u00e1rio Quintana. <\/em>In <em>Vinten\u00e1rio: duas d\u00e9cadas da IMPRENSA em revista.<\/em> S\u00e3o Paulo: Imprensa Editorial, 2007. Revista IMPRENSA, dezembro de 1990, ano IV, n\u00ba 40, p. 334-337.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha* O telefone tocou na sucursal da revista Veja em Porto Alegre e ecoou a voz firme, mas sempre cordial: \u2013 Bom dia, companheiro Luiz Cl\u00e1udio. Aqui \u00e9 o Aud\u00e1lio Dantas! Nem precisava se identificar. 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