{"id":79064,"date":"2021-03-18T01:02:20","date_gmt":"2021-03-18T04:02:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/?p=79064"},"modified":"2021-03-31T12:30:31","modified_gmt":"2021-03-31T15:30:31","slug":"a-morte-quase-obscura-de-um-lider-exemplar-no-pais-do-capitao-cafajeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-morte-quase-obscura-de-um-lider-exemplar-no-pais-do-capitao-cafajeste\/","title":{"rendered":"A morte quase obscura de um l\u00edder exemplar no pa\u00eds do capit\u00e3o cafajeste"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\"><em>Luiz Cl\u00e1udio Cunha*<\/em><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>A not\u00edcia, incompleta, saiu quase escondida na edi\u00e7\u00e3o impressa de quarta-feira, 13 de janeiro de 2021, do maior jornal brasileiro. \u201cMorre Alencar Furtado, ex-deputado cassado pela ditadura\u201d, informou secamente a <em>Folha de S.Paulo<\/em>, numa \u00fanica coluna de 30 linhas e 144 palavras, espremidas no canto inferior da s\u00e9tima p\u00e1gina do primeiro caderno, distante da honra da primeira p\u00e1gina do dia.<\/p>\n<p>As duas manchetes principais da A7 foram dedicadas a um candidato azar\u00e3o de nome irrelevante na disputa pela C\u00e2mara dos Deputados e a uma nova investida da Lava Jato sobre propinas ao filho de um ex-ministro.<\/p>\n<p>A \u201cnossa p\u00e1tria m\u00e3e t\u00e3o distra\u00edda\u201d, como acusa o verso de Chico Buarque em <em>Vai Passar<\/em>, n\u00e3o se apercebeu que, na madrugada de segunda-feira, 11, morria simplesmente um dos gigantes da pol\u00edtica brasileira e da luta contra a ditadura. N\u00e3o era apenas um \u201cex-deputado cassado\u201d, que morria de insufici\u00eancia renal aos 95 anos, em sua casa em Bras\u00edlia, onde se recuperava de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido pouco depois do Natal.<\/p>\n<p>Alencar era muito mais do que isso: na condi\u00e7\u00e3o de l\u00edder do MDB na C\u00e2mara dos Deputados, foi o \u00faltimo dos 4.682 cassados pelo regime militar de 1964, o 173\u00ba parlamentar castigado pelo AI-5 no espa\u00e7o de 13 anos. Foi a 36\u00aa cassa\u00e7\u00e3o do Governo Ernesto Geisel, o derradeiro ato punitivo do quarto general-presidente, em 30 de junho de 1977, antecipando-se \u00e0 linha-dura militar irritada pela hist\u00f3rica apari\u00e7\u00e3o de Alencar tr\u00eas dias antes em rede nacional de TV, tocando num tema sens\u00edvel para o aparato repressivo do regime: a tortura e o desaparecimento de presos pol\u00edticos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79068\" aria-describedby=\"caption-attachment-79068\" style=\"width: 829px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79068 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem02.jpg\" alt=\"\" width=\"829\" height=\"791\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem02.jpg 829w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem02-300x286.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem02-768x733.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 829px) 100vw, 829px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79068\" class=\"wp-caption-text\">O fim irris\u00f3rio de um gigante: Alencar morre, quase oculto, em 30 linhas de uma remota p\u00e1gina interna<\/figcaption><\/figure>\n<p>O MDB havia descoberto uma brecha na lei restritiva da ditadura que permitia um \u00fanico programa de 40 minutos, gravado, em rede nacional obrigat\u00f3ria de TV para debate de assuntos partid\u00e1rios. Quando o regime percebeu a manobra, tentou sustar no TSE, mas a Justi\u00e7a Eleitoral garantiu a sua realiza\u00e7\u00e3o. Para aproveitar bem aquela nesga de luz nas telas censuradas da TV dos brasileiros, o MDB escalou seus quatro principais comandantes. Na transmiss\u00e3o, o presidente, deputado Ulysses Guimar\u00e3es, condenou o AI-5. O l\u00edder no Senado, Franco Montoro, centrou fogo no alto custo de vida. O presidente do Instituto Pedroso Horta, deputado Alceu Collares, criticou o arrocho salarial. O l\u00edder na C\u00e2mara, Alencar Furtado, por fim, avan\u00e7ou corajosamente na delicada quest\u00e3o dos direitos humanos, produzindo uma das pe\u00e7as mais contundentes, l\u00edricas, inesquec\u00edveis da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>Na noite de segunda-feira, 27 de junho, com a voz eloquente de advogado curtido em mais de 400 juris populares e a express\u00e3o seca de um rosto marcado desde crian\u00e7a pelo sol inclemente do semi\u00e1rido cearense, Alencar despontou no hor\u00e1rio nobre da TV, antes do <em>Jornal Nacional, <\/em>dizendo o indiz\u00edvel, atacando o inatac\u00e1vel, eternizado nesse trecho:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Sempre defendemos os direitos humanos. Hoje, menos do que ontem, ainda se denunciam pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, pris\u00f5es injustas e desaparecimento de cidad\u00e3os. O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana, para que n\u00e3o haja lares em prantos, filhos \u00f3rf\u00e3os de pais vivos \u2014 quem sabe? \u2014 mortos, talvez. \u00d3rf\u00e3os do talvez ou do quem sabe. Para que n\u00e3o haja esposas que envi\u00favem com maridos vivos, talvez, ou mortos, quem sabe? Vi\u00favas do quem sabe e do talvez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"intertit\">Uma rua, dois cassados<\/p>\n<p>Os profissionais de sangue e tortura dos DOI-CODI, que em seus por\u00f5es de trabalho produziam aqueles \u00f3rf\u00e3os, quem sabe?, e aquelas vi\u00favas, talvez, detestaram a imprevista tirada po\u00e9tica de Alencar. No dia seguinte, 28, perguntado sobre o programa, o chefe do SNI, general Joao Baptista Figueiredo, respondeu: \u201cVi. N\u00e3o gostei e acho que ningu\u00e9m gostou.\u201d Mas, nem o SNI que o general comandava se incomodou muito. No texto da <em>Aprecia\u00e7\u00e3o Sum\u00e1ria N\u00ba 25, <\/em>que o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es distribuiu a Geisel e aos principais gabinetes do Planalto na manh\u00e3 de quarta-feira, 29, dois dias ap\u00f3s a transmiss\u00e3o da TV, o programa do MDB foi citado superficialmente e a lancinante interven\u00e7\u00e3o de Alencar acabou resumida em treze palavras irris\u00f3rias.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> Quem acreditasse no SNI poderia, talvez, imaginar at\u00e9 que Alencar poderia se safar, quem sabe.<\/p>\n<p>Apesar do descuido do araponga, o destino do l\u00edder do MDB j\u00e1 n\u00e3o dependia de um talvez, mas de quem sabia. Na tarde daquela quarta-feira, o ministro da Justi\u00e7a, Petr\u00f4nio Portella, telefonou para o secret\u00e1rio-geral do MDB, deputado Thales Ramalho, para confirmar o que se previa: \u201cThales, vamos ter rea\u00e7\u00e3o\u201d. Pediu que contasse apenas a Ulysses, mas fora do pr\u00e9dio do Congresso, ind\u00edcio claro de que o lugar deveria estar grampeado pelo SNI. Mais tarde, no seu apartamento, Thales antecipou a informa\u00e7\u00e3o ao presidente do MDB. \u00a0\u201cVamos ter a cassa\u00e7\u00e3o do Alencar\u201d. Ulysses devolveu com outra pergunta, que denunciava os temores que sobrevoavam Bras\u00edlia nas \u00faltimas horas: \u201cS\u00f3 do Alencar?\u201d.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A boataria dizia que uma dezena de oposicionistas, incluindo todos os quatro participantes do programa, seriam punidos. O alvo central era o l\u00edder da C\u00e2mara, que al\u00e9m de invadir o terreno proibido dos \u00f3rf\u00e3os e vi\u00favas, tinha pronunciado em seu mandato cerca de 40 discursos da tribuna com den\u00fancias de torturas e cr\u00edticas \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo. V\u00e1rias vezes, Alencar cobrou em seus discursos o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, preso em janeiro de 1971 pela Aeron\u00e1utica, no Rio de Janeiro, torturado e morto no DOI-CODI carioca e at\u00e9 hoje desaparecido.<\/p>\n<p>O ministro do Ex\u00e9rcito, Sylvio Frota, como Figueiredo, tamb\u00e9m viu e n\u00e3o gostou do MDB na TV. Na manh\u00e3 de quinta-feira, 30, Frota mandou o telegrama 665 aos quart\u00e9is dizendo ter informado a Geisel sobre a repercuss\u00e3o negativa do programa, que ele classificava como \u201cuma a\u00e7\u00e3o comunista para atacar os brios das For\u00e7as Armadas\u201d.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> O Planalto previa que a cassa\u00e7\u00e3o do l\u00edder mais aguerrido da oposi\u00e7\u00e3o teria repercuss\u00e3o internacional, e seria um abalo ainda maior se fosse punido tamb\u00e9m o presidente nacional do MDB. No \u00faltimo momento, Geisel tirou Ulysses da mira e trocou sua iminente cassa\u00e7\u00e3o por um processo na justi\u00e7a eleitoral, como respons\u00e1vel pelo programa.<\/p>\n<p>O procurador-geral da Rep\u00fablica, Henrique Fonseca de Ara\u00fajo, requisitou as fitas gravadas pela TV e abriu o inqu\u00e9rito naquele mesmo dia. Tempos depois, Ulysses foi absolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O l\u00edder do MDB na Assembleia paulista, Alberto Goldman, explicou anos mais tarde ao jornal <em>O Estado de S.Paulo<\/em> a s\u00fabita conten\u00e7\u00e3o de Geisel: \u201cUlysses s\u00f3 n\u00e3o foi cassado por seu hist\u00f3rico, porque sua figura tinha mais respaldo. Ele vinha do PSD, presidia a legenda e tinha uma postura mais moderada. Alencar era mais duro, incisivo, acusador. Geisel usou a cassa\u00e7\u00e3o porque precisava enfrentar os militares radicais e mostrar que n\u00e3o era mole\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia do AI-5 excluiu da vida p\u00fablica brasileira mais do que um parlamentar duro. Jos\u00e9 Alencar Furtado era um predestinado ao combate. \u201cNasci no Araripe, cidade pequenina l\u00e1 do Cear\u00e1. Minha cidade s\u00f3 tem uma rua. Mas tinha dois cassados da \u00e9poca da ditadura, eu e o Miguel Arraes\u201d, contou ele.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Hoje com 20 mil habitantes, Araripe, no extremo sul cearense, quase fronteira com Pernambuco, era ainda menor em 1925, quando Alencar nasceu. O menino Arraes, seu conterr\u00e2neo, nove anos mais velho, saiu da cidade ainda adolescente para concluir o gin\u00e1sio numa cidade pr\u00f3xima e maior, Crato. Os dois n\u00e3o se conheceram na terra natal, mas a Hist\u00f3ria sangrou seus destinos pela mesma l\u00e2mina afiada da ditadura.<\/p>\n<p>Miguel Arraes era o governador de Pernambuco em abril de 1964, quando foi derrubado e preso pelos militares. Na sexta-feira, 10 de abril, um dia antes da \u2018elei\u00e7\u00e3o\u2019 presidencial do chefe do golpe, general Castello Branco, o Comando Supremo da Revolu\u00e7\u00e3o divulgou o primeiro list\u00e3o de cassados pelo regime militar. Eram exatos 100 nomes, uma lista aberta pelo l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes e pelo ex-presidente Jo\u00e3o Goulart, al\u00e9m de 40 deputados federais. O ex-governador Leonel Brizola ocupava o 10\u00b0 posto no \u00edndex.<\/p>\n<p>Assim, na linha caprichosa do tempo, os dois garotos de Araripe, curtidos pela vida do sert\u00e3o, cinzelados pela disputa pol\u00edtica e castigados pelo regime militar, acabariam abrindo e fechando o ciclo punitivo que define o arb\u00edtrio do golpe de 1964. Arraes era o 4\u00ba nome da primeira lista de 100 cassa\u00e7\u00f5es. E Alencar acabou sendo, em 30 de junho de 1977, aos 51 anos, o \u00faltimo punido da longa rela\u00e7\u00e3o de 4.682 cassados em 13 anos de ditadura.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79069\" aria-describedby=\"caption-attachment-79069\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79069 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem03-1024x624.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem03-1024x624.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem03-300x183.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem03-768x468.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem03.jpg 1130w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79069\" class=\"wp-caption-text\">Arraes e Alencar, os filhos de Araripe: o pioneiro da primeira lista e o \u00faltimo cassado pela ditadura<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quase um ter\u00e7o dos cassados, 1.261, eram das For\u00e7as Armadas. J\u00e1 no s\u00e1bado, 24 horas ap\u00f3s o list\u00e3o dos 100 primeiros, o tacape do golpe caiu sobre 122 militares legalistas que apoiavam Goulart: 77 do Ex\u00e9rcito, 31 da Aeron\u00e1utica, 14 da Marinha. No domingo, outros 62 decapitados, mais da metade deles militares.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O general crist\u00e3o<\/p>\n<p>A rajada de puni\u00e7\u00f5es da ditadura era ampla, geral e irrestrita. Mais de 300 professores, quase 500 legisladores sagrados pelo voto popular \u2013 de deputados federais a estaduais, de senadores a vereadores, al\u00e9m de 50 chefes de Executivo, de governadores a prefeitos. Tr\u00eas ex-presidentes \u2013 Jango, J\u00e2nio e Juscelino \u2013 e tr\u00eas ministros do Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p>A guilhotina era democr\u00e1tica. Decepou diplomatas, agr\u00f4nomos, procuradores, carteiros, desembargadores, motoristas, sindicalistas, escriv\u00e3es, policiais, promotores p\u00fablicos, ju\u00edzes, taifeiros, engenheiros, telegrafistas, m\u00e9dicos, guardas-civis, estivadores, eletricistas, ferrovi\u00e1rios, advogados, jornalistas, banc\u00e1rios, dentistas, m\u00fasicos, guardas-florestais, fiscais do Imposto de Renda, serventes, auditores militares. At\u00e9 gar\u00e7ons e porteiros! Na vesga \u00f3tica militar deviam ser grave amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional e, por isso, foram degolados na f\u00faria revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica est\u00fapida dos militares se sustentava na arrog\u00e2ncia incontest\u00e1vel do arb\u00edtrio. Ela est\u00e1 expressa no primeiro ato institucional, editado pelo Comando da Revolu\u00e7\u00e3o em 9 de abril de 1964, no alvorecer da ditadura. Nem n\u00famero tinha, o que acabou depois sendo necess\u00e1rio pelos 17 atos e 104 atos complementares decretados em sequ\u00eancia at\u00e9 1969, tentando dar uma fachada legal ao processo de viol\u00eancia institucional do golpe.<\/p>\n<p>O AI-1, que 48 horas depois levou ao pioneiro list\u00e3o da centena de cassados, estabelecia na sua introdu\u00e7\u00e3o, para eliminar qualquer d\u00favida sobre a origem e os limites de seu inexced\u00edvel poder:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">[&#8230;]A revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa se investe no exerc\u00edcio do Poder Constituinte. Este se manifesta pela elei\u00e7\u00e3o popular ou pela revolu\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. [&#8230;]. Fica, assim, bem claro que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o procura legitimar-se atrav\u00e9s do Congresso. Este \u00e9 que recebe deste Ato Institucional, resultante do exerc\u00edcio do Poder Constituinte, inerente a todas as revolu\u00e7\u00f5es, a sua legitima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No pen\u00faltimo de seus 11 autossuficientes artigos, o AI-1 firmado pelos chefes do Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica determina, para tranquilidade geral da na\u00e7\u00e3o: \u201cNo interesse da paz e da honra nacional, e sem as limita\u00e7\u00f5es previstas na Constitui\u00e7\u00e3o, os Comandantes-em-Chefe, que editam o presente Ato, poder\u00e3o suspender os direitos pol\u00edticos pelo prazo de dez (10) anos e cassar mandatos legislativos federais, estaduais e municipais, exclu\u00edda a aprecia\u00e7\u00e3o judicial desses atos. \u201d<\/p>\n<p>Treze anos depois, em junho de 1977, Alencar Furtado seria o \u00faltimo cidad\u00e3o do pa\u00eds punido sem qualquer aprecia\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A nova ordem \u2018revolucion\u00e1ria\u2019 se bastava e n\u00e3o se submetia a ningu\u00e9m. Tudo fazia e nunca se justificava. Em seu depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade, em 2014, Alencar deu a dimens\u00e3o desse estado de trucul\u00eancia ao lembrar a hist\u00f3ria do engenheiro Virgild\u00e1sio de Senna, que tinha assumido a prefeitura de Salvador pelo PTB em abril de 1963. No abril seguinte, foi atropelado sem sutilezas pelo golpe de 1964.<\/p>\n<p>No dia 5 de abril, um domingo, o prefeito da capital baiana foi almo\u00e7ar com amigos. Ao voltar no in\u00edcio da noite para casa, no bairro do Campo Grande, encontrou a rua cercada por tropas do Ex\u00e9rcito, escoltadas por dois canh\u00f5es de campanha e holofotes enormes. Ele perguntou a uma pessoa o que estava acontecendo: \u201cEst\u00e3o prendendo o prefeito\u201d, disse o morador, sem reconhecer o prefeito ao seu lado. \u00a0Virgild\u00e1sio evitou a casa sitiada e procurou logo a maior autoridade do Ex\u00e9rcito na Bahia, o general Mendes Pereira, comandante da IV Regi\u00e3o Militar. Ali mesmo, no quartel da Mouraria, o general deu voz de pris\u00e3o ao prefeito, com uma explica\u00e7\u00e3o surreal: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 preso porque somos crist\u00e3os! \u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79070\" aria-describedby=\"caption-attachment-79070\" style=\"width: 1162px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79070 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem04.jpg\" alt=\"\" width=\"1162\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem04.jpg 1162w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem04-300x116.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem04-1024x395.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem04-768x296.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1162px) 100vw, 1162px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79070\" class=\"wp-caption-text\">O general Mendes Pereira justifica a pris\u00e3o do prefeito Virgild\u00e1sio e dos \u2018comunistas\u2019: \u201cSomos crist\u00e3os!\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00a0<\/em>Alencar lembrou \u00e0 Comis\u00e3o Nacional da Verdade que Virgild\u00e1sio foi preso, cassado pelo AI-1 e solto dias depois. Pouco antes de liberar o prefeito, um porta-voz do comando militar ocupou o microfone de uma r\u00e1dio de Salvador para esclarecer os fatos, sem maiores explica\u00e7\u00f5es ou qualquer justificativa, com a crueza t\u00edpica e arrogante daqueles novos tempos: \u201cO prefeito Virgild\u00e1sio de Senna foi preso porque tinha que ser preso. E agora vai ser solto porque tem que ser solto. Boa noite!\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo da ditadura, as cassa\u00e7\u00f5es se distribu\u00edram de forma desigual.<\/p>\n<p>O provis\u00f3rio Comando Supremo da Revolu\u00e7\u00e3o, no ex\u00edguo espa\u00e7o de 15 dias que separou o golpe da posse do primeiro general-presidente, cassou 280 pessoas, mais de 18 a cada 24 horas. Castello Branco, o primeiro general-presidente, fez a faxina mais ampla, cassando 2.927 pessoas. O segundo presidente, Costa e Silva, decepou 631 nomes da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>A Junta Militar de 1969 \u2014 formada pelos tr\u00eas ministros militares, que reinou sobre o pa\u00eds por apenas dois meses, em setembro e outubro, logo ap\u00f3s a trombose cerebral que tirou Costa e Silva do poder \u2014 cassou nesse curto espa\u00e7o de tempo 205 pessoas, uma m\u00e9dia de 3,4 puni\u00e7\u00f5es por dia. O terceiro presidente, Em\u00edlio M\u00e9dici, o mais sanguin\u00e1rio do per\u00edodo militar, usou o AI-5 por 603 vezes. O quarto presidente, Ernesto Geisel, abrandado pela faxina punitiva mais extensa de seus antecessores, cassou 36 vezes, encerrando a s\u00e9rie de viol\u00eancia revolucion\u00e1ria com Alencar Furtado.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A matem\u00e1tica do arb\u00edtrio<\/p>\n<p>Essa in\u00e9dita contabilidade sobre a viol\u00eancia \u2018revolucion\u00e1ria\u2019 come\u00e7ou a ser feita em S\u00e3o Paulo no in\u00edcio de 1977, por um trio em\u00e9rito de intelectuais: os jornalistas Mylton Severiano da Silva (o Myltainho) e Hamilton Almeida Filho (o HAF) e o historiador Joel Rufino dos Santos, que resolveram contar, literalmente, a saga dos cassados no Brasil.\u00a0 Com a ajuda da pesquisadora Beth Costa e uma equipe de quatro pessoas, foi folheada toda a cole\u00e7\u00e3o do <em>Di\u00e1rio Oficial,<\/em> p\u00e1gina por p\u00e1gina, desde mar\u00e7o de 1964 at\u00e9 a cassa\u00e7\u00e3o de Alencar. Foram quase tr\u00eas mil c\u00f3pias xerox, coladas em 680 p\u00e1ginas, com a matem\u00e1tica da viol\u00eancia revolucion\u00e1rio sobre 4.682 pessoas.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, o levantamento se destinava a um livro, que teria o t\u00edtulo de <em>Os Cassados<\/em>. Mas acabou formatado para uma revista de oposi\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, a <em>Extra \u2013 Realidade Brasileira<\/em>. Antes que fosse publicada, por\u00e9m, a ditadura imp\u00f4s censura pr\u00e9via \u00e0 publica\u00e7\u00e3o. Decididos a n\u00e3o aceitar a interven\u00e7\u00e3o dos militares, os seus editores desistiram da reportagem sobre os cassados e preferiram fechar a revista. E o material coletado em S\u00e3o Paulo, para sobreviver, acabou tomando o rumo inesperado de Porto Alegre.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79071\" aria-describedby=\"caption-attachment-79071\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-79071\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem05-1024x650.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem05-1024x650.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem05-300x191.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem05-768x488.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem05.jpg 1173w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79071\" class=\"wp-caption-text\">Alencar na manchete e na mat\u00e9ria principal do CooJORNAL: o \u00faltimo dos cassados em 13 anos de ditadura<\/figcaption><\/figure>\n<p>A reportagem in\u00e9dita de quatro p\u00e1ginas, com a foto de Alencar Furtado na capa, foi a manchete do mens\u00e1rio ga\u00facho <em>CooJORNAL <\/em>em julho de 1977<em>, <\/em>com grande repercuss\u00e3o nacional, pois o n\u00famero de 4.862 cassados era muito superior ao que se sabia at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O jornal da imprensa alternativa era editado em Porto Alegre pela primeira cooperativa de jornalistas do pa\u00eds. Fundada em 1974, a CooJORNAL cresceu e, tr\u00eas anos depois, era integrada por mais de 300 jornalistas vivendo a utopia de uma imprensa sem patr\u00e3o e sem hierarquia, respirando o ar limpo e democr\u00e1tico do cooperativismo na atmosfera rarefeita e sufocante da ditadura.<\/p>\n<p>Aquela edi\u00e7\u00e3o do <em>CooJORNAL <\/em>com Alencar Furtado na capa vendeu 34 mil exemplares, a maior vendagem de sua hist\u00f3ria. Sofreu ent\u00e3o a primeira a\u00e7\u00e3o ostensiva da ditadura, incomodada com a crescente relev\u00e2ncia do pequeno jornal de Porto Alegre, que ganhava destaque entre os t\u00edtulos mais conhecidos da chamada \u2018imprensa nanica\u2019 \u2013 um influente nicho de jornais de esquerda, oposicionistas, insurretos, onde brilhavam publica\u00e7\u00f5es semanais ou mensais do centro do pa\u00eds como <em>Movimento, Opini\u00e3o, Versus, Em Tempo, Bondinho <\/em>e o irreverente <em>O Pasquim<\/em>, um abusado seman\u00e1rio carioca que se multiplicou com at\u00e9 200 mil exemplares nas bancas.<\/p>\n<p>Inquieta com o atrevimento do <em>CooJORNAL<\/em>, a ditadura apelou para a viol\u00eancia camuflada, envergonhada, mas sempre letal: mandou os agentes da Pol\u00edcia Federal cumprirem uma discreta agenda de visitas aos assustados anunciantes do jornal, pressionando as empresas a cancelar os poucos an\u00fancios que sustentavam as edi\u00e7\u00f5es sempre ousadas do <em>CooJORNAL.<\/em><\/p>\n<p>Os militares mostravam um azedume cada vez maior com a pauta criativa do jornal, que recontava epis\u00f3dios da hist\u00f3ria recente brasileira, dava voz aos dissidentes do regime, replicava textos de intelectuais de esquerda e ouvia personagens execrados pela ditadura, muitos deles membros ilustres da lista dos 4.862 cassados pelo arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>O mau humor dos generais pode ser resumido pelo trecho da Informa\u00e7\u00e3o Confidencial N\u00ba 031 da Ag\u00eancia Central do SNI, de 19 de agosto de 1980, tr\u00eas anos ap\u00f3s a cassa\u00e7\u00e3o de Alencar Furtado. O redator do SNI se lamuriava, no relat\u00f3rio, daquilo que era o exato motivo de orgulho para os associados da cooperativa:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O peri\u00f3dico <em>CooJORNAL<\/em>, editado pela Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, caracteriza-se por divulgar artigos hostis ao governo. Apesar de a referida publica\u00e7\u00e3o ter tiragem de, apenas, 35 mil exemplares, seus artigos s\u00e3o comumente comentados pelos demais \u00f3rg\u00e3os de imprensa, e passa, deste modo, a ter repercuss\u00e3o nacional.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Isso \u00e9 o Brasil, gente!<\/p>\n<p>Os bastidores da bomb\u00e1stica reportagem do <em>Coojornal <\/em>mostravam o medo end\u00eamico que permeava o pa\u00eds, em meados de 1977, pen\u00faltimo ano de Geisel no Planalto. Naqueles tempos sem internet, e-mail ou celular, a remessa de mat\u00e9rias ou filmes fotogr\u00e1ficos de uma cidade para outra era feita de forma quase artesanal, um pouco amadora, sempre volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um rep\u00f3rter procurava aleatoriamente um passageiro no aeroporto, com destino \u00e0 sede do jornal ou revista, e pedia o favor de levar em m\u00e3os um envelope lacrado com o material, que seria entregue no aeroporto de destino para algu\u00e9m destacado pela publica\u00e7\u00e3o. O passageiro dizia seu nome e fones de contato, para evitar desencontros, e o rep\u00f3rter no aeroporto de origem passava pelo telefone os dados do portador, dando seu nome e descri\u00e7\u00e3o f\u00edsica, como o traje que vestia, para que fosse melhor identificado na fila do desembarque, no sagu\u00e3o do aeroporto de destino.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79073\" aria-describedby=\"caption-attachment-79073\" style=\"width: 1196px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79073\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem06.jpg\" alt=\"\" width=\"1196\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem06.jpg 1196w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem06-300x119.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem06-1024x408.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem06-768x306.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1196px) 100vw, 1196px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79073\" class=\"wp-caption-text\">Bones, o editor, Myltainho, Hamilton e Rufino, que revelaram os 4.682 cassados: esse era o Brasil da ditadura<\/figcaption><\/figure>\n<p>Era um arranjo que funcionava, quase sempre, dando agilidade e seguran\u00e7a para o envio de material. O que podia atrapalhar era a sensa\u00e7\u00e3o de perigo e o temor que, eventualmente, poderiam intimidar o portador, em mat\u00e9rias politicamente mais sens\u00edveis. Foi o que aconteceu e quase impediu a manchete dos cassados no <em>Coojornal<\/em>, como relatou com precis\u00e3o o seu editor, jornalista Elmar Bones, na carta aos leitores do n\u00famero 18 do mens\u00e1rio, de julho de 1977:<\/p>\n<p>Encomendamos a reportagem a tr\u00eas colegas de S\u00e3o Paulo que j\u00e1 tinham um levantamento amplo sobre o assunto. Um levantamento, pelo que sabemos, ainda n\u00e3o feito no pa\u00eds. Durante dois dias eles trabalharam sem parar. Na segunda-feira, 4, as seis horas da manh\u00e3 o rep\u00f3rter Hamilton Almeida Filho saiu direto da m\u00e1quina para o aeroporto de Congonhas. [&#8230;] No voo das 8h30 da Cruzeiro, Hamilton localizou um cidad\u00e3o de maneira af\u00e1veis, simp\u00e1tico. Era um funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Fazenda que, prontamente, aceitou trazer o envelope.<\/p>\n<p>No aeroporto de Porto Alegre, era outro o homem. Nervoso, gaguejando, travou o seguinte di\u00e1logo com a pessoa que foi apanhar o envelope:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2014 Olha, me desculpe, eu derramei cafezinho no material, ficou inutilizado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2014 N\u00e3o, mas o senhor pode me dar assim mesmo. Deve dar para ler, a gente arruma&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2014Mas ficou imprest\u00e1vel, joguei fora&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2014 Isso \u00e9 um absurdo, como \u00e9 que o senhor fez isso? O senhor sabia o que tinha no envelope? Era uma reportagem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A esta altura o homem mudou o tom de voz e explicou:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2014 Aconteceu o seguinte: abri o envelope e li o que tinha dentro. Aquele assunto&#8230;. Eu sou um funcion\u00e1rio do governo, n\u00e3o podia desembarcar com aquilo. Tinha autoridades me esperando, n\u00e3o posso me comprometer&#8230;. Eu destru\u00ed o material. Voc\u00ea deve compreender a minha situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Tremia o homem e n\u00e3o havia como reclamar dele. A solu\u00e7\u00e3o foi esperar uma c\u00f3pia providencialmente guardada em S\u00e3o Paulo e, desta vez, remetida pelas vias normais. Ao saber do fato, in\u00e9dito em sua carreira de 15 anos de jornalismo, Hamilton exclamava do outro lado da linha:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2014 Isso \u00e9 o Brasil, minha gente!<\/p>\n<p>Esse era o Brasil, gente, e tudo aquilo aconteceu antes que Alencar Furtado fosse o personagem central na primeira p\u00e1gina do <em>Coojornal.<\/em> \u00a0O Brasil do medo era produto, tamb\u00e9m, das trapa\u00e7as e embustes engendrados pelos agentes da repress\u00e3o. Uma armadilha dessas levou \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o do deputado federal Marcos Tito, do MDB mineiro, o pen\u00faltimo punido pelo AI-5, duas semanas antes de Alencar Furtado. Em 24 de maio de 1977, Tito subiu \u00e0 tribuna da C\u00e2mara para fazer um duro discurso contra a ditadura. Dias depois, o deputado Sinval Boaventura, da ARENA mineira, arauto da linha-dura militar, denunciou que Tito havia, de fato, lido um manifesto do clandestino PCB (Partido Comunista Brasileiro). Em 14 de junho, tr\u00eas semanas ap\u00f3s seu discurso, Tito foi cassado.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A armadilha da Aeron\u00e1utica<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o foi v\u00edtima de um dedo-duro, mas alvo deliberado de uma maligna farsa do servi\u00e7o secreto da Aeron\u00e1utica, o CISA (Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Aeron\u00e1utica). A revela\u00e7\u00e3o foi feita 40 anos depois pelo rep\u00f3rter Marcelo Godoy, de <em>O Estado de S.Paulo,<\/em> que entrevistou durante cinco horas, no Clube da Aeron\u00e1utica, no Rio, um an\u00f4nimo coronel, codinome \u2018Paulo M\u00e1rio\u2019, que trabalhou 28 anos no N\u00facleo do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es de Seguran\u00e7a, a contraintelig\u00eancia da Aeron\u00e1utica.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>O CISA foi criado e chefiado pelo brigadeiro Jo\u00e3o Paulo Moreira Burnier, a face mais radical da For\u00e7a. Como major-aviador, em 1959, chefiou com outros militares a fracassada Revolta de Aragar\u00e7as, contra o presidente Juscelino Kubitschek, quando Burnier planejava at\u00e9 bombardear os pal\u00e1cios do Catete e das Laranjeiras, no Rio.<\/p>\n<p>Em carta ao presidente Geisel, o lend\u00e1rio brigadeiro Eduardo Gomes definiu Burnier assim: \u201cUm insano mental inspirado por instintos perversos sanguin\u00e1rios, sob o pretexto de proteger o Brasil do perigo comunista\u201d.\u00a0 <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79074\" aria-describedby=\"caption-attachment-79074\" style=\"width: 991px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79074 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem07.jpg\" alt=\"\" width=\"991\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem07.jpg 991w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem07-300x154.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem07-768x394.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 991px) 100vw, 991px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79074\" class=\"wp-caption-text\">Ulysses e Tito: o pen\u00faltimo cassado pelo ardil do CISA de Burnier, o \u2018insano mental\u2019 da FAB<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00a0<\/em>Tito agora era o alvo do CISA criado pela mente perversa de Burnier. \u201cO deputado estava assumindo uma posi\u00e7\u00e3o que estava nos incomodando muito\u201d, justificou o agente \u2018Paulo \u00a0\u00a0M\u00e1rio\u2019 ao Estad\u00e3o. \u201cRealizamos algumas opera\u00e7\u00f5es fundamentalmente de contraintelig\u00eancia muito produtivas. Nenhuma com viol\u00eancia, mas foram a\u00e7\u00f5es que voc\u00ea faz para expor o inimigo a uma situa\u00e7\u00e3o rid\u00edcula, que ele n\u00e3o contribuiu para aquilo, para desmoraliz\u00e1-lo e acabar com ele\u201d. O ardil montado pelo CISA foi trivial. Agentes da Aeron\u00e1utica escolheram uma edi\u00e7\u00e3o de abril de 1977 do jornal <em>Voz Oper\u00e1ria<\/em>, \u00f3rg\u00e3o oficial do ilegal PCB, que era impresso na Europa e despachado por correio para o Brasil.<\/p>\n<p>Aquela edi\u00e7\u00e3o trazia um editorial do partido, que acusava o regime de usar o medo e o arb\u00edtrio como m\u00e9todo de governo. O CISA manipulou o texto, suprimiu cinco dos seus 24 par\u00e1grafos, disfar\u00e7ando a origem da manifesta\u00e7\u00e3o, e mandou entregar o documento no gabinete do parlamentar no Congresso. O papel foi recebido por um assessor de Tito, que o repassou ao deputado. \u201cLevamos como se fosse coisa de estudante inconformado, pedindo para ele ler no plen\u00e1rio da C\u00e2mara. Ele caiu e leu. Acabou levando uma ferroada, cassado e posto na rua\u201d, contou o coronel do CISA.<\/p>\n<p>Duas semanas ap\u00f3s a cassa\u00e7\u00e3o de Tito, quem levou a ferroada foi Alencar Furtado, em 30 de junho, cassado pela manifesta\u00e7\u00e3o na TV sobre os \u00f3rf\u00e3os e vi\u00favas do talvez e do quem sabe. At\u00e9 chegar ao seu \u00faltimo ato pol\u00edtico como parlamentar, com a dolorosa honra de ser o \u00faltimo dos 4.682 cassados do pa\u00eds, o l\u00edder do MDB foi muito al\u00e9m de um hist\u00f3rico, l\u00edrico discurso de den\u00fancia sobre torturas e assassinatos da ditadura em rede nacional de TV.<\/p>\n<p>Alencar Furtado foi figura crucial para a defini\u00e7\u00e3o do perfil mais oposicionista do MDB e sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais aguda, na luta mais aberta contra a ditadura e seu partido, a ARENA. Na primeira elei\u00e7\u00e3o em 1966, cerceado pela legisla\u00e7\u00e3o restritiva dos militares, o MDB elegeu apenas sete das 23 cadeiras de senador em disputa. Na C\u00e2mara, conseguiu conquistar s\u00f3 132 cadeiras de deputado federal entre as 409 vagas em disputa.<\/p>\n<p>Na elei\u00e7\u00e3o seguinte, em 1970, o partido da oposi\u00e7\u00e3o encolheu. Al\u00e9m das cassa\u00e7\u00f5es anteriores e do endurecimento gerado pelo AI-5, o MDB convivia com o ufanismo oficial insuflado pelo tricampeonato da sele\u00e7\u00e3o do Brasil no M\u00e9xico e a euforia nascente do \u2018milagre econ\u00f4mico\u2019 cozinhado pelo ministro Delfim Netto. Dessa vez, elegeu apenas seis senadores e conquistou somente 87 vagas na C\u00e2mara dos Deputados. A perda avassaladora de quase 50 cadeiras do MDB no Congresso, al\u00e9m da repress\u00e3o e das regras eleitorais viciadas, foi atribu\u00edda aos 30% de votos brancos e nulos, express\u00e3o clara do desencanto e do protesto de um eleitorado descrente.<\/p>\n<p>Combativo na juventude, Alencar Furtado integrou a Esquerda Democr\u00e1tica, dissid\u00eancia da UDN nascida logo ap\u00f3s a queda do Estado Novo, em 1945, que deu origem ao PSB, Partido Socialista Brasileiro, fundado no Cear\u00e1 com a ajuda de Alencar.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, seguindo a saga dos sertanejos, Alencar migrou do Nordeste para o Sul, fincando ra\u00edzes em Paranava\u00ed, no f\u00e9rtil norte do Paran\u00e1. \u00a0L\u00e1 se elegeu deputado federal na primeira elei\u00e7\u00e3o do MDB, em 1966, sagrado com 40 mil votos. Na disputa seguinte, em 1970, reelegeu-se com o apoio consagrador de 86 mil eleitores.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O bloco do MDB na rua<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, o pequeno gigante de Araripe, com pouco mais de 1m65 de altura, deu for\u00e7a e veem\u00eancia ao ent\u00e3o burocr\u00e1tico MDB, que seguia a f\u00e9rrea, mas moderada lideran\u00e7a de Ulysses Guimar\u00e3es. Alencar assumiu o protagonismo, na bancada emedebista de 87 deputados, de um grupo mais agressivo de 23 parlamentares que ganharam o justo carimbo de \u2018Aut\u00eanticos\u2019. Centravam fogo na convoca\u00e7\u00e3o de uma Constituinte, no fim da tortura, na volta dos exilados e na anistia aos presos pol\u00edticos.\u00a0 Ao lado dele estavam os nomes mais intensos e cr\u00edticos da esquerda do MDB, como Marcos Freire (PE), Chico Pinto (BA), Fernando Lyra (PE), Lys\u00e2neas Maciel (RJ), Freitas Nobre (SP), Alceu Collares (RS), Jaison Barreto (SC), Amaury Muller (RS), Marcondes Gadelha (PB), Nadyr Rossetti (RS), Paes de Andrade (CE), Santilli Sobrinho (SP) e Marcos Tito (MG).<\/p>\n<p>Foi de Alencar e seu grupo a ideia mobilizadora de uma anticandidatura presidencial, desafiando a \u2018elei\u00e7\u00e3o\u2019 de cartas marcadas do general Ernesto Geisel no Col\u00e9gio Eleitoral, em janeiro de 1974. A ideia era percorrer o pa\u00eds para denunciar o paradoxo de uma elei\u00e7\u00e3o sem povo e a farsa de uma disputa sem advers\u00e1rio. O MDB, tangido pelos Aut\u00eanticos de Alencar, iria sair do conforto dos gabinetes para sentir o clima irrespir\u00e1vel das ruas.<\/p>\n<p>Na conven\u00e7\u00e3o do MDB que lan\u00e7ou o anticandidato, em setembro de 1973, Ulysses advertiu ao pa\u00eds:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">[&#8230;] N\u00e3o \u00e9 o candidato que vai percorrer o pa\u00eds. \u00c9 o anticandidato, para denunciar a antielei\u00e7\u00e3o, imposta pela anticonstitui\u00e7\u00e3o que homizia o AI-5, submete o Legislativo e o Judici\u00e1rio ao Executivo, possibilita pris\u00f5es desamparadas pelo habeas corpus e condena\u00e7\u00f5es sem defesa, profana a indevassabilidade dos lares e das empresas pela escuta clandestina, torna inaud\u00edveis as vozes discordantes, porque ensurdece a Na\u00e7\u00e3o pela censura \u00e0 Imprensa, ao R\u00e1dio, \u00e0 Televis\u00e3o, ao Teatro e ao Cinema. [&#8230;]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A caravana do anticandidato percorreu ent\u00e3o capitais e estados com sua bandeira de volta \u00e0 democracia, elei\u00e7\u00f5es diretas, anistia e Constituinte. Os brasileiros form encorajados, da\u00ed, a ouvir a verdade sobre a ditadura.<\/p>\n<p>Ulysses combinara com Alencar e os Aut\u00eanticos que, momentos antes do in\u00edcio da sess\u00e3o de elei\u00e7\u00e3o, ele renunciaria para dar mais for\u00e7a \u00e0 den\u00fancia da farsa. Mas, Ulysses n\u00e3o cumpriu o acordo e se manteve na falsa contenda at\u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o do resultado na disputa no Col\u00e9gio Eleitoral. A\u00ed, como estava previsto, Geisel foi \u2018eleito\u2019 com 400 votos, contra 76 dados a Ulysses. Em protesto, Alencar e 20 deputados dos Aut\u00eanticos presentes no Congresso se abstiveram, acusando no microfone o jogo da ditadura.<\/p>\n<p>Ulysses encerrou seu perene discurso evocando os versos de Fernando Pessoa: \u201cNavegar \u00e9 preciso\/Viver n\u00e3o \u00e9 preciso\u201d. Ali, com as velas \u201cparidas de sonho, aladas de esperan\u00e7a\u201d, como disse o anticandidato, come\u00e7ou a longa navega\u00e7\u00e3o iniciada por Alencar e seus argonautas nas \u00e1guas revoltas da ditadura.<\/p>\n<p>O MDB perdeu na falsa elei\u00e7\u00e3o de janeiro, como se previa, mas dez meses depois ganhou de forma inesperada e estrondosa nas elei\u00e7\u00f5es reais e gerais de novembro de 1974. Elegeu 16 das 22 cadeiras do Senado em disputa, conquistou 165 das 364 vagas existentes na C\u00e2mara dos Deputados. Os 6 milh\u00f5es de votos para senador em 1970 viraram mais de 14 milh\u00f5es em 1974. Os votos para deputado no MDB subiram de 4,7 milh\u00f5es em 70 para 11 milh\u00f5es em 74, garantindo 44% das cadeiras da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Quatro anos depois, na sucess\u00e3o tamb\u00e9m indireta de Geisel em 1978, a for\u00e7a da ditadura ficou ainda menor. O candidato oficial, general Jo\u00e3o Figueiredo, derrotou o anticandidato do MDB, general Euler Bentes Monteiro, por apenas 89 votos. Foram 355 contra 266 para o anticandidato, que recebeu mais do que o triplo dos votos obtidos quatro anos antes por Ulysses. As velas dos Aut\u00eanticos estavam aladas de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Baioneta n\u00e3o \u00e9 voto!<\/p>\n<p>Na campanha verdadeira das ruas, Ulysses assumiu a odisseia do confronto mais direto com a ditadura, como queriam os Aut\u00eanticos de Alencar. Em seu momento mais hom\u00e9rico, na noite de 13 de maio de 1978, em campanha pelo candidato do MDB na Bahia, ele se deparou com os c\u00e3es e soldados do governador arenista Roberto Santos. Uma tropa de 400 PMs cercava o local do com\u00edcio, na pra\u00e7a Dois de Julho, em Salvador, bloqueando a passagem da comitiva do MDB, que inclu\u00eda os senadores Tancredo Neves (MG) e Saturnino Braga (RJ).<\/p>\n<p>O moderado Ulysses perdeu a paci\u00eancia. De dedo em riste, rompeu o cord\u00e3o militar, indiferente aos latidos e amea\u00e7as da repress\u00e3o e, ali mesmo, resolveu fazer um discurso inesperado para a tropa que tentava cont\u00ea-lo. Uma fala e um gesto do mais aut\u00eantico MDB que entraram para a hist\u00f3ria:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Soldados da minha p\u00e1tria! Enquanto ouv\u00edamos as vozes livres que aqui se pronunciaram, ouv\u00edamos o ladrar dos c\u00e3es l\u00e1 fora! O ladrar, essa manifesta\u00e7\u00e3o zool\u00f3gica, \u00e9 do arb\u00edtrio, do autoritarismo que haveremos de vencer. Meus amigos, foi uma viol\u00eancia est\u00fapida, in\u00fatil e imbecil. Saibam que baioneta n\u00e3o \u00e9 voto e cachorro n\u00e3o \u00e9 urna!<\/p>\n<figure id=\"attachment_79076\" aria-describedby=\"caption-attachment-79076\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79076 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem08-1024x416.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem08-1024x416.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem08-300x122.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem08-768x312.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem08.jpg 1195w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79076\" class=\"wp-caption-text\">A odisseia e a ira de Ulysses, na Bahia, com Tancredo e Saturnino: \u201cBaioneta n\u00e3o \u00e9 voto, cachorro n\u00e3o \u00e9 urna! \u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1982 aconteceu a primeira elei\u00e7\u00e3o direta para governador, desde 1960. A ousada navega\u00e7\u00e3o iniciada uma d\u00e9cada antes pelos Aut\u00eanticos de Alencar alcan\u00e7ou novos portos. Apesar do voto vinculado, truque da ditadura que obrigava o eleitor a votar em candidatos de um mesmo partido, a oposi\u00e7\u00e3o conseguiu eleger dez governadores, nove pelo MDB e um pelo PDT nos 22 Estados em disputa. Assim, na primeira brecha que o eleitor teve para votar diretamente, os tr\u00eas maiores Estados do pa\u00eds sagraram nomes da oposi\u00e7\u00e3o: S\u00e3o Paulo (Franco Montoro) e Minas Gerais (Tancredo Neves), ambos do MDB, e Rio de Janeiro (Leonel Brizola), do PDT.<\/p>\n<p>Dois anos depois, a quimera dos Aut\u00eanticos desaguou no maior oceano de povo da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira, a campanha das Diretas-J\u00e1, com milh\u00f5es de pessoas nas avenidas e pra\u00e7as clamando pelo voto para presidente e pela Constituinte.\u00a0 Em 1985, enfim, a ditadura acabou afogada nas \u00e1guas rasas de seu porto seguro, o Col\u00e9gio Eleitoral, onde emergiu o vitorioso da oposi\u00e7\u00e3o, Tancredo Neves, o primeiro presidente que n\u00e3o era general desde 1964. Tr\u00eas anos mais tarde, para completar o sonho de Alencar e seus Aut\u00eanticos, a Constituinte legou ao pa\u00eds a Constitui\u00e7\u00e3o-Cidad\u00e3 de 1988. O resto \u00e9 hist\u00f3ria.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79077\" aria-describedby=\"caption-attachment-79077\" style=\"width: 1227px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79077 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem09.jpg\" alt=\"\" width=\"1227\" height=\"437\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem09.jpg 1227w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem09-300x107.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem09-1024x365.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem09-768x274.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem09-1200x427.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1227px) 100vw, 1227px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79077\" class=\"wp-caption-text\">Ulysses: com Alencar (esq.), ondulando com o povo nas pra\u00e7as, navegando com milh\u00f5es nas ruas das Diretas-J\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<p>Alencar Furtado morreu em janeiro de 2021, quando se completava o segundo ano do mandato presidencial de Jair Bolsonaro. Por raz\u00f5es distintas, s\u00e3o as duas faces do que era o Brasil e do que o Brasil virou.<\/p>\n<p>Um \u00e9 admir\u00e1vel pelo exemplo, o outro \u00e9 repulsivo pelo que faz e diz. Alencar dedicou a vida \u00e0 luta pela democracia, \u00e0 bandeira dos direitos humanos e pela defesa dos cidad\u00e3os. Bolsonaro empenha sua palavra na defesa da ditadura, no desrespeito a avan\u00e7os civilizat\u00f3rios e no ataque contumaz a princ\u00edpios consagrados em sociedades democr\u00e1ticas. Alencar lembrava das vi\u00favas, \u2018quem sabe\u2019, e dos \u00f3rf\u00e3os, \u2018talvez\u2019, produzidos pela ditadura. Bolsonaro fala sempre em defesa dos agentes da repress\u00e3o que torturaram, \u2018certamente\u2019, e que mataram, \u2018com certeza\u2019, maridos, mulheres e filhos, produzindo as vi\u00favas e \u00f3rf\u00e3os dos dissidentes ca\u00e7ados a ferro e fogo pelo aparato de guerra interna armado pelo regime militar.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Um especialista em matar<\/p>\n<p>O apre\u00e7o pela vida de Alencar e a atra\u00e7\u00e3o pela morte de Bolsonaro \u00e9 a primeira e mais forte distin\u00e7\u00e3o entre os dois. O capit\u00e3o, com os seus polidos coturnos de psicopata, escancarou sua mente doentia em 2017 em Porto Alegre, quando j\u00e1 era candidato a presidente, confessando numa reuni\u00e3o com empres\u00e1rios: \u201cSou capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, a minha especialidade \u00e9 matar\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos antes da apari\u00e7\u00e3o do Covid-19, ele j\u00e1 fazia sua op\u00e7\u00e3o preferencial pelo v\u00edrus em detrimento da vacina: \u201cMinha especialidade \u00e9 matar, n\u00e3o curar ningu\u00e9m. Aprendi a atirar com tudo que \u00e9 tipo de armas, sou paraquedista, sou mergulhador profissional. Sei fazer sabotagem, sei mexer com explosivos. Voc\u00eas [brasileiros] nos treinam, nos pagam para isso\u201d.<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79078\" aria-describedby=\"caption-attachment-79078\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79078 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem10-1024x325.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem10-1024x325.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem10-300x95.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem10-768x244.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem10.jpg 1158w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79078\" class=\"wp-caption-text\">Jair Bolsonaro: um especialista em matar, n\u00e3o em curar, e seus tr\u00eas Zeros, devotados \u00e0s armas como o pai<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em maio de 1999, no Governo FHC, quando nem ele sonhava em ser presidente, Bolsonaro deu uma entrevista ao \u2018C\u00e2mera Aberta\u2019, da TV Bandeirantes, e arreganhou sua face genocida: \u201cAtrav\u00e9s do voto voc\u00ea n\u00e3o muda nada neste pa\u00eds, nada&#8230;S\u00f3 vai mudar, infelizmente, no dia em que n\u00f3s partirmos para uma guerra civil aqui dentro&#8230; e fazendo o trabalho que o regime militar n\u00e3o fez, matando uns 30 mil. Come\u00e7ando com o FHC&#8230;. Matando! \u201d.<\/p>\n<p>Vinte e dois anos depois, j\u00e1 presidente, o capit\u00e3o coveiro realizou o seu sonho, legando ao pa\u00eds um vasto necrot\u00e9rio de mais de 270 mil mortes \u2014 nove vezes mais do que o total que ele sonhava para a ditadura dos seus devaneios.<\/p>\n<p>O necr\u00f3fago Governo Bolsonaro conseguiu, com sua incompet\u00eancia e negacionismo end\u00eamicos, superar a marca f\u00fanebre dos outros dois governantes que, no passado, registravam as duas maiores mortandades da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p><em> <img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-79079\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem11.jpg\" alt=\"\" width=\"1188\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem11.jpg 1188w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem11-300x115.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem11-1024x393.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem11-768x295.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1188px) 100vw, 1188px\" \/><\/em><\/p>\n<p>O imperador Dom Pedro II (1825-1891) amargou na Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado na hist\u00f3ria da Am\u00e9rica do Sul, um n\u00famero de mortos que oscila em torno de 50 mil brasileiros.<\/p>\n<p>Prudente de Morais (1841-1902), o terceiro presidente da Rep\u00fablica rec\u00e9m proclamada, mobilizou o Ex\u00e9rcito para enfrentar em 1896 a rebeli\u00e3o messi\u00e2nica que o beato Ant\u00f4nio Conselheiro liderou por 11 meses no vilarejo de Canudos, no interior mais pobre da Bahia, que s\u00f3 acabou com o massacre de 25 mil pessoas \u2013 incluindo a degola de velhos, mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro, o 38\u00ba presidente da Rep\u00fablica \u2014 o pior presidente de nossa hist\u00f3ria, quem sabe, o mais est\u00fapido governante do planeta, talvez \u2014, n\u00e3o mexeu literalmente um \u00fanico dedo enquanto o registro de v\u00edtimas chegava \u00e0 marca de 270.917 mortes em 11 de mar\u00e7o de 2021, exatamente um ano depois que a OMS classificou a Covid-19 como uma pandemia mundial. A primeira morte de Covid no Brasil aconteceu em 16 de mar\u00e7o de 2020, em S\u00e3o Paulo. Apenas tr\u00eas meses depois, na \u00faltima semana de junho, o pa\u00eds alcan\u00e7ou num \u00fanico trimestre o mesmo n\u00famero de baixas que teve em cinco anos e tr\u00eas meses do S\u00e9culo 19 na Guerra do Paraguai, a mais longa e sangrenta do continente: 50 mil mortos, uma letalidade s\u00f3 poss\u00edvel pela ina\u00e7\u00e3o, teimosia e negacionismo do est\u00fapido Bolsonaro.<\/p>\n<p>Durante todo esse tempo, o que o capit\u00e3o-presidente fez, de forma doentia e m\u00f3rbida, foi debochar da doen\u00e7a, escarnecer dos doentes, desdenhar os mortos, desconhecer a ci\u00eancia e desacreditar os m\u00e9dicos e profissionais da sa\u00fade.<\/p>\n<p class=\"intertit\">L\u00e1grimas na tela e um cafajeste<\/p>\n<p>O pa\u00eds se habituou \u00e0s emo\u00e7\u00f5es derramadas nas telas de TV por profissionais treinados, pelo of\u00edcio, no relato de trag\u00e9dias e desastres do cotidiano. Mas, os dramas humanos e a ang\u00fastia sufocante imposta pela rotina do Covid-19 romperam as comportas de emo\u00e7\u00e3o de rostos familiares aos brasileiros. Em momentos distintos, em programas variados, veteranos rep\u00f3rteres, apresentadores, \u00e2ncoras e correspondentes se debulharam em l\u00e1grimas irreprim\u00edveis, como nos casos de Natuza Nery (GloboNews), Guga Chacra (correspondente da Globo em Nova York), F\u00e1tima Bernardes (Rede Globo), Fl\u00e1vio Fachel (Globo\/Rio) e Ilze Scamparini (correspondente da Globo em Roma). Solid\u00e1rios e fragilizados, todos eles choraram, com o recato poss\u00edvel, diante das c\u00e2meras de TV no Rio, em S\u00e3o Paulo, nos Estados Unidos, na It\u00e1lia, vertendo as l\u00e1grimas que d\u00e3o humanismo e sentimento ao jornalismo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-79080\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem12.jpg\" alt=\"\" width=\"1151\" height=\"447\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem12.jpg 1151w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem12-300x117.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem12-1024x398.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem12-768x298.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1151px) 100vw, 1151px\" \/>Antes que algum filho Zero de Bolsonaro fa\u00e7a alguma piadinha cretina sobre isso, insinuando que deve ser tudo choror\u00f4 produzido pela Rede Globo, \u00e9 conveniente lembrar que a dor \u00e9 um sentimento que perpassa o ser humano, e n\u00e3o fica restrito aos est\u00fadios de TV. Mais gente, mundo afora, para espanto do debochado cl\u00e3 Bolsonaro, tamb\u00e9m chora pelos mortos e louva a vida.<\/p>\n<p>Assim, na TV, foi poss\u00edvel tamb\u00e9m testemunhar a emo\u00e7\u00e3o genu\u00edna e a dor comovente de gente chorando, sem controle, como o prefeito de Manaus, Arthur Virg\u00edlio, a rep\u00f3rter Sara Sidner da CNN na Calif\u00f3rnia, o ator espanhol Miguel Herr\u00e1n (que faz o personagem \u2018Rio\u2019 na s\u00e9rie <em>Casa de Papel <\/em>), o governador da Bahia Rui Costa e muitos, milhares, milh\u00f5es de profissionais da sa\u00fade no mundo todo que combatem, ganham e perdem todos os dias a guerra exaustiva, infind\u00e1vel contra o Covid-19.<\/p>\n<p><em><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-79081\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem13.jpg\" alt=\"\" width=\"1180\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem13.jpg 1180w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem13-300x104.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem13-1024x356.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem13-768x267.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1180px) 100vw, 1180px\" \/><\/em>Enquanto isso, o divertido capit\u00e3o Jair Bolsonaro ri, debocha, zomba e escancara sua alegria esquizofr\u00eanica diante de uma na\u00e7\u00e3o angustiada pela doen\u00e7a, esmagada pela dor, aflita pela cura, desorientada pela falta de empatia de um presidente desequilibrado<\/p>\n<figure id=\"attachment_79082\" aria-describedby=\"caption-attachment-79082\" style=\"width: 1161px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79082\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem14.jpg\" alt=\"\" width=\"1161\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem14.jpg 1161w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem14-300x107.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem14-1024x365.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem14-768x274.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1161px) 100vw, 1161px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79082\" class=\"wp-caption-text\">O capit\u00e3o no seu hil\u00e1rio, c\u00f4mico, irresist\u00edvel, desopilante pa\u00eds de 275 mil mortos e 11 milh\u00f5es de doentes<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por tudo o que faz e, principalmente pelo que n\u00e3o faz, Bolsonaro merece todos os adjetivos degradantes que definem sua personalidade necr\u00f3fila, de desprezo pela vida, de racioc\u00ednio tosco, de comportamento abrutalhado, de pensamento demente.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro \u00e9 um vi\u00favo de civiliza\u00e7\u00e3o, quem sabe?, e um \u00f3rf\u00e3o de humanidade, talvez. No momento mais macabro de sua hist\u00f3ria, o Brasil precisa enfrentar o desafio quase insuper\u00e1vel da pandemia convivendo com um governante pat\u00e9tico no Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Sua imagem de um esquizofr\u00eanico sorridente, em meio a tanta tristeza, \u00e9 o retrato acabado de um cafajeste no poder.<\/p>\n<p>O Brasil do admir\u00e1vel Alencar Furtado n\u00e3o merece a figura asquerosa de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: right;\"><em>* Luiz Cl\u00e1udio Cunha, jornalista, foi consultor da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e \u00e9 autor de <\/em>Opera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios <em>(L&amp;PM, 2008). E-mail: <\/em><em>cunha.luizclaudio@gmail.com\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> <em>Aprecia\u00e7\u00e3o Sum\u00e1ria n\u00ba 25, <\/em>do SNI, de 29 de junho de 1977<em>. In<\/em> Elio Gaspari, <em>A Ditadura Encurralada, <\/em>2004, p. 426.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Depoimento de Thales Ramalho a Gaspari, op. cit., p. 427.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Telegrama 665\/Minist\u00e9rio do Ex\u00e9rcito, de 30 de junho de 1977. Arquivo Golbery do Couto e Silva. In Gaspari, op. cit., p. 428.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Depoimento de 1h26 de Alencar Furtado \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, em Bras\u00edlia, em 19\/setembro\/2014, na condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima civil da ditadura.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Marcelo Godoy. \u2018O compl\u00f4 para cassar o deputado\u2019. <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, 8\/dezembro\/2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha*\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A not\u00edcia, incompleta, saiu quase escondida na edi\u00e7\u00e3o impressa de quarta-feira, 13 de janeiro de 2021, do maior jornal brasileiro. \u201cMorre Alencar Furtado, ex-deputado cassado pela ditadura\u201d, informou secamente a Folha de S.Paulo, numa \u00fanica coluna de 30 linhas e 144 palavras, espremidas no canto inferior da s\u00e9tima p\u00e1gina do primeiro caderno, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":79067,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[11,80,107,71,29,59,104],"class_list":["post-79064","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-hotsite-luiz-claudio-cunha","tag-ameacas","tag-efeitos","tag-golbery-do-couto-e-silva","tag-imprensa","tag-sao-paulo","tag-servico-secreto","tag-sni"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/03\/imagem01.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79064"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79064\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79085,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79064\/revisions\/79085"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}