{"id":79087,"date":"2011-09-27T23:23:13","date_gmt":"2011-09-28T02:23:13","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=19208"},"modified":"2021-12-02T01:00:49","modified_gmt":"2021-12-02T04:00:49","slug":"golbery-neto-fez-apenas-102-votos-mas-avo-esta-mais-vivo-do-que-nunca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/golbery-neto-fez-apenas-102-votos-mas-avo-esta-mais-vivo-do-que-nunca\/","title":{"rendered":"Golbery: neto fez 102 votos, mas av\u00f4 est\u00e1 mais vivo do que nunca"},"content":{"rendered":"<p>O<strong> <em>J\u00c1<\/em><\/strong> reproduz abaixo artigo do jornalista Luiz Cl\u00e1udio Cunha publicado originalmente no Observat\u00f3rio de Imprensa, em 2011. Antes, reportagem de Evandro \u00c9boli, de <em>O Globo<\/em>, que entrevistou o candidato Golbery Neto sobre sua vota\u00e7\u00e3o inexpressiva nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Impulsionado pela imagem negativa dos pol\u00edticos e no contato di\u00e1rio com as demandas da popula\u00e7\u00e3o fluminense, Golbery do Couto e Silva Neto, de 41 anos, justificou assim sua entrada na pol\u00edtica. Ele foi candidato a deputado estadual no Rio, pelo Democratas, o DEM, em outubro. Seu desempenho nas urnas, por\u00e9m, deixou a desejar. Ele obteve apenas 102 votos e, entre os 1.846 postulantes a uma das vagas, terminou em 1.430\u00ba lugar. Neto do general Golbery do Couto e Silva, criador do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI) e considerado o ide\u00f3logo da doutrina de seguran\u00e7a nacional, Golbery Neto colou a imagem do av\u00f4 na sua campanha eleitoral. N\u00e3o aleatoriamente, escolheu como n\u00famero de campanha 25.064. O 64 n\u00e3o est\u00e1 ali \u00e0 toa.<\/p>\n<p>\u2014 A escolha do n\u00famero foi uma alus\u00e3o ao que ocorreu a partir de 1964. Acho esta hist\u00f3ria bastante deturpada \u2014 explicou Golbery Neto.<\/p>\n<p>No seu material de campanha, al\u00e9m do n\u00famero com o qual concorreu, h\u00e1 uma foto sua e outro do av\u00f4. Seu slogan para conquistar os eleitores foi: &#8220;Para retomar os rumos do progresso&#8221;. Neto justifica a escolha do DEM para se lan\u00e7ar na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u2014 Meu av\u00f4 fez parte dos quadros do PDS. Por uma quest\u00e3o de coer\u00eancia pol\u00edtica me filiei ao DEM. Poderia ser o PP.<\/p>\n<p>O candidato atribui sua baixa vota\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es burocr\u00e1ticas \u2014a candidatura &#8220;demorou para se consolidar&#8221; \u2014 e \u00e0 falta de doa\u00e7\u00f5es (&#8220;n\u00e3o houve campanha efetivamente&#8221;). E reconhece:<br \/>\n\u2014 Estes fatos mostram o motivo do resultado da vota\u00e7\u00e3o, que ficou longe de ser expressivo \u2014 disse.<\/p>\n<p>Golbery Neto, que \u00e9 filho de Golbery do Couto e Silva J\u00fanior, j\u00e1 falecido, rejeita atribuir sua baixa vota\u00e7\u00e3o \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de seu nome com os fatos de 64 e o papel de seu av\u00f4 no regime militar.<\/p>\n<p>\u2014 Objetivamente, n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o. O deputado federal mais votado do Rio foi o Jair Bolsonaro (PP), que defende visceralmente tudo que se relacione com aquele epis\u00f3dio. Menos a abertura.<br \/>\nPara confrontar a vers\u00e3o de que Golbery do Couto e Silva foi o &#8220;mentor do golpe de 64&#8221;, o neto prepara um livro em defesa do legado do av\u00f4.<\/p>\n<p>\u2014 Golbery, e parte dos militares com o qual trabalhava, queriam esperar o fim do governo de Jo\u00e3o Goulart para que novas elei\u00e7\u00f5es fossem procedidas&#8230; O pa\u00eds estava em p\u00e2nico com a administra\u00e7\u00e3o inconstante do senhor Jo\u00e3o Goulart \u2014 disse Golbery Neto, que \u00e9 formado em Ci\u00eancias Sociais e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Ele trabalha numa empresa de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTer exatamente o mesmo nome do av\u00f4 j\u00e1 lhe causou dissabores no dia a dia. Mas ressalta que ouve cr\u00edticas e elogios.<\/p>\n<p>\u2014 Acho natural que isso ocorra. Nos tempos de universidade era mais intenso. Um ambiente acad\u00eamico sempre aponta para um embate ideol\u00f3gico mais acirrado. Rapidamente percebi que a melhor resposta que poderia dar naquela situa\u00e7\u00e3o era o trabalho. Alcan\u00e7ando boas notas passei a ser respeitado pelos professores e por meu colegas. Mas, na maior parte, sempre vi meu av\u00f4 ser tratado como um dos homens mais s\u00e9rios, cultos, honestos e competentes do pa\u00eds. (<strong>Evandro \u00c9boli, em <em>O Globo<\/em><\/strong>)<\/p>\n<h2>Jornalista revela quem foi Golbery<\/h2>\n<p><span class=\"assinaespecial\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha*<\/span><br \/>\n\u201cMe sinto extremamente ofendido, com o artigo do Sr. Luiz Cl\u00e1udio Cunha. Em parte pela infantilidade que entorta os fatos rumo ao que se deseja, ou seja: Demagogia. Em parte pela covardia de ofender o car\u00e1ter de quem j\u00e1 n\u00e3o pode mais defender-se. Obrigado. (Golbery do Couto e Silva Neto, e-mail ao <em>Observat\u00f3rio da Imprensa<\/em>, 9\/9\/2011)<\/p>\n<figure id=\"attachment_19314\" aria-describedby=\"caption-attachment-19314\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/golbery-do-couto-e-silva.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-19314\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/golbery-do-couto-e-silva-1024x667.jpg\" alt=\"General Golbery, em 1980 \" width=\"1024\" height=\"667\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19314\" class=\"wp-caption-text\">General Golbery, em 1980<\/figcaption><\/figure>\n<p>O sr. Golbery Neto, compreensivelmente, n\u00e3o gostou do que foi publicado neste\u00a0<em>Observat\u00f3rio<\/em> (ver \u201c<a href=\"http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/-benfeitor-em-rio-grande-malfeitor-no-brasil\">Golbery: benfeitor em Rio Grande, malfeitor no Brasil<\/a>\u201c) sobre o av\u00f4. Gastou quatro linhas e 44 palavras, sem nenhum argumento, para tentar desqualificar um texto de 221 linhas e 2.552 palavras calcado em fatos e na ficha do general ga\u00facho, inventor do golpe de 1964 e prestes a ser homenageado com um monumento em sua terra natal, Rio Grande.<\/p>\n<p>Quase nada se sabe do neto, que diz residir no Rio de Janeiro e se identifica profissionalmente como \u2018internacionalista\u2019, seja l\u00e1 o que isso possa significar. Mas muito se sabe do av\u00f4, que, ali\u00e1s, sabia muito mais. Sabia quase tudo sobre todos n\u00f3s, como criador e chefe primeiro do SNI, o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es que bisbilhotava a vida dos brasileiros em geral, e dos opositores em particular. A vida pregressa de Golbery do Couto e Silva (1911-1987) ganhou s\u00fabita atualidade em agosto passado, com a desastrada ideia dos vereadores e do prefeito de Rio Grande (RS) de homenagear o general no m\u00eas do centen\u00e1rio de seu nascimento, cravando um monumento na pra\u00e7a central da cidade.<\/p>\n<p>A oferenda sangrou como uma estaca na mem\u00f3ria dos brasileiros, especialmente dos ga\u00fachos, que justamente nesse agosto festejavam o cinquenten\u00e1rio da Campanha da Legalidade \u2013 o movimento popular de 1961 liderado pelo governador Leonel Brizola em defesa da posse de Jo\u00e3o Goulart na presid\u00eancia da Rep\u00fablica, vaga com a ren\u00fancia inesperada de J\u00e2nio Quadros.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o constitucional foi vetada pelos tr\u00eas ministros militares que leram um manifesto golpista redigido, ironicamente, pelo ent\u00e3o coronel Golbery do Couto e Silva. Essa brutal contradi\u00e7\u00e3o entre as poucas benfeitorias municipais e as muitas malfeitorias nacionais do general teve baixa repercuss\u00e3o na imprensa \u2013 com exce\u00e7\u00e3o de alguns blogs e opini\u00f5es isoladas, contra ou a favor \u2013 e nenhum eco entre os pol\u00edticos brasileiros, desconectados com a coer\u00eancia hist\u00f3rica e descomprometidos com a mem\u00f3ria nacional.<\/p>\n<p>O jovem prefeito de Rio Grande, F\u00e1bio Branco, de 39 anos, nem justificou a homenagem intempestiva: \u201cN\u00e3o vou fazer ju\u00edzo da ditadura militar. Eu nem era nascido&#8230;\u201d. O neto do general, talvez ainda mais jovem, tamb\u00e9m evita qualquer considera\u00e7\u00e3o sobre a obra pol\u00edtica do av\u00f4, sob o infantil argumento de que seria \u201ccovarde\u201d avaliar a biografia dos mortos. Sob este prisma obtuso, prefeito e neto se eximem, portanto, de julgar epis\u00f3dios como a escravid\u00e3o e o nazismo ou de opinar sobre personalidades j\u00e1 finadas como Hitler, St\u00e1lin, Pinochet ou M\u00e9dici.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Imprensa complacente<\/span><br \/>\nEsta omiss\u00e3o deliberada n\u00e3o contaminou os cidad\u00e3os mais conscientes, de Rio Grande ou n\u00e3o. Uma pesquisa online do jornal local, o <a href=\"http:\/\/www.jornalagora.com.br\/\"><em>Agora<\/em><\/a>, mostrou que mais da metade (58,5%) da popula\u00e7\u00e3o discorda do monumento. Um <a href=\"http:\/\/www.peticaopublica.com.br\/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N13643\">abaixo-assinado na internet<\/a>registra mais de 1.600 assinaturas de todo o pa\u00eds condenando a homenagem. Indignados, movimentos de sindicatos, estudantes e populares de Rio Grande formaram uma Comiss\u00e3o \u201cDitadura Nunca Mais\u201d e, na semana passada, entregaram \u00e0s autoridades locais dois livros do jornalista Elio Gaspari: <em>A Ditadura Escancarada <\/em>foi ofertadaao prefeito sem ju\u00edzo e <em>A Ditadura Derrotada<\/em> foi agraciada aos vereadores sem tino.<\/p>\n<p>Nas duas obras, parte de uma magistral tetralogia de 2002 \u2013 portanto escrita quando o general, morto em 1987, j\u00e1 n\u00e3o podia mais se defender, para desencanto do neto \u2013 o feiticeiro Golbery refulge merecidamente como personagem central, dividindo a cena com o sacerdote Ernesto Geisel.<\/p>\n<p>A mesma imprensa complacente de hoje com o passado tenebroso do general lembra muito a imprensa conivente de ontem com o general golpista de sempre. Golbery carrega na sua ficha a proeza de ter derrubado Jango duas vezes do poder. A primeira, em 1954, quando redigiu o manifesto de 82 coron\u00e9is e tenentes-coron\u00e9is que levou \u00e0 demiss\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart, ent\u00e3o ministro do Trabalho de Get\u00falio Vargas, criticado pelos militares pelo aumento de 100% do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>A segunda, dez anos mais tarde, quando dep\u00f4s Jango da presid\u00eancia da Rep\u00fablica no golpe vitorioso de 1964, resultado final de uma cient\u00edfica, pensada e cara conspira\u00e7\u00e3o civil-militar que juntou o grande empresariado nacional e multinacional com a direita dos quart\u00e9is sob a fachada do dissimulado IPES, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. O coordenador do IPES, que deu em 1964 o troco no golpe frustrado em 1961 pela brava resist\u00eancia dos seus conterr\u00e2neos ga\u00fachos, era o incorrig\u00edvel Golbery.<\/p>\n<p>Seria \u00fatil que o jovem neto de Golbery aprendesse sobre os fatos da tortuosa carreira do av\u00f4 lendo um livro, pelo menos um livro, o cl\u00e1ssico<em>1964: a conquista do Estado \u2013 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe <\/em>(Editora Vozes, 1981), do professor uruguaio Ren\u00e9 Armand Dreifuss (1945-2003).<\/p>\n<p>Ali, em 814 p\u00e1ginas irrespond\u00edveis, Dreifuss desentorta os fatos para revelar ao neto distra\u00eddo, com documentos do pr\u00f3prio IPES, a lenta, gradual e segura conspirata do vov\u00f4 Golbery para derrocar um governo democr\u00e1tico e botar no seu lugar uma ditadura de 21 anos sob o rod\u00edzio de cinco generais-presidentes \u2013 tr\u00eas deles (Castelo Branco, Geisel e Figueiredo) tendo o pr\u00f3prio Golbery como inquilino e feiticeiro-mor no Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>O IPES nasceu em novembro de 1961, tr\u00eas meses ap\u00f3s a vit\u00f3ria popular da Legalidade \u2013 quando nem o prefeito de Rio Grande, nem o neto do general, haviam nascido. Parecia um inocente clube de homens de neg\u00f3cios. Entretanto, na sua face oculta, sob siglas e codinomes, o IPES concentrava a execu\u00e7\u00e3o met\u00f3dica de um pensado plano da burguesia nacional para combater de forma clandestina os seus tr\u00eas principais inimigos: o governo Jango, a alian\u00e7a nacionalista do PTB e o comunismo, que aparentemente resumia tudo aquilo.<\/p>\n<p>O bra\u00e7o pol\u00edtico ostensivo do IPES de Golbery era o IBAD, Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, que apesar do nome tinha liga\u00e7\u00f5es com o MAC, Movimento Anticomunista, e com a organiza\u00e7\u00e3o da direita cat\u00f3lica Opus Dei. O fundador do IBAD em 1959 foi o integralista Ivan Hasslocher, dono da Promotion, uma ag\u00eancia de publicidade que promovia o <em>lobby<\/em> do IBAD e seu bra\u00e7o parlamentar, a ADP \u2013 A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Popular, um n\u00facleo conservador de 160 parlamentares da centro-direita no Congresso Nacional reunido em torno da UDN, PSD e PSP. Segundo Dreifuss, a ADP tinha sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica patrocinada pela esta\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro da CIA, a ag\u00eancia de intelig\u00eancia americana focada em campanhas pol\u00edticas e grupos de press\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Assalto sincronizado<\/span><\/p>\n<p>Homens da mesma linha de pensamento e com igual prop\u00f3sito juntaram, a partir de 1962, as duas entidades: nascia o complexo IPES\/IBAD, matriz ideol\u00f3gica e operacional da conspira\u00e7\u00e3o que daria o golpe e, depois, forneceria os quadros e dirigentes do aparato estatal que sustentou o regime militar. O IPES operava como centro estrat\u00e9gico e o IBAD, como uma unidade t\u00e1tica. O monstro crescia junto com a conspira\u00e7\u00e3o. Em 1963, os 80 membros originais do IPES pularam para 500. Eram s\u00f3cios 26 dos 36 l\u00edderes da FIESP, a maior federa\u00e7\u00e3o industrial do pa\u00eds. A entidade se espalhava pelas capitais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios com os militares era feita pelo Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) do IPES, comandado pelo general Golbery, que atuava sobre o I (Rio) e III (Porto Alegre) Ex\u00e9rcitos. A \u201cordem de servi\u00e7o com calend\u00e1rio\u201d do GLC, que definia a estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o, tinha uma edi\u00e7\u00e3o limitada de 12 exemplares, que n\u00e3o eram registrados nas atas do IPES. A equipe de Golbery distribu\u00eda nos quart\u00e9is uma circular bimestral mimeografada, sem cita\u00e7\u00e3o da fonte, avaliando a atividade \u201ccomunista\u201d no pa\u00eds, apontando o dedo para subversivos infiltrados no governo e mapeando suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00f3 no Rio de Janeiro o clandestino GLC de Golbery tinha tr\u00eas mil telefones ilegalmente grampeados. O grupo dirigente do general ocupava quatro das 13 salas que o IPES havia alugado no 27\u00b0 andar do edif\u00edcio Avenida Central, na Avenida Rio Branco, ent\u00e3o o pr\u00e9dio mais moderno no centro da cidade. A conta do telefone era faturada em nome do general da reserva Henrique Geisel, irm\u00e3o de Ernesto, futuro sacerdote no Planalto.<\/p>\n<p>O GLC do vov\u00f4 Golbery escrutinava a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da imprensa do pa\u00eds, um total de 14 mil edi\u00e7\u00f5es no ano, e produzia mensalmente cerca de 500 artigos, disseminados pelos jornais ou divulgados em forma de palestras. O Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Parlamentar (GAP) do IPES tinha vergonha do que fazia. Proibia qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 sigla, que era camuflada como \u201cEscrit\u00f3rio de Bras\u00edlia\u201d. Ele coordenava a campanha anti-Jango na capital, mas quem aparecia publicamente era o IBAD e o fazendeiro baiano Jo\u00e3o Mendes, deputado udenista e l\u00edder ostensivo da A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Parlamentar.<\/p>\n<p>O plano era simples e mortal: o IPES de Golbery, por interm\u00e9dio do IBAD e da ADP, emparedava o governo no Congresso, criando um beco sem sa\u00edda parlamentar e um ponto morto do Executivo. A in\u00e9rcia legislativa levaria ao clamor popular pelo poder \u201cmoderador\u201d das For\u00e7as Armadas, \u00fanica institui\u00e7\u00e3o capaz de tirar o pa\u00eds daquele atoleiro fabricado pela conspira\u00e7\u00e3o urdida pelo general no Parlamento.<\/p>\n<p>Neste trabalho era fundamental manipular a opini\u00e3o da sociedade. Na dura express\u00e3o de Ren\u00e9 Dreifuss, \u201co IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica\u201d pela rela\u00e7\u00e3o especial com os principais ve\u00edculos da m\u00eddia nacional. O objetivo central do Grupo de Opini\u00e3o P\u00fablica (GOP) do IPES era disseminar seus objetivos na imprensa falada e escrita.<\/p>\n<p>Dissimulado, o grupo evitava o nome \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d, preferindo as express\u00f5es \u201cdivulga\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpromo\u00e7\u00e3o\u201d. Jos\u00e9 Lu\u00eds Moreira de Souza, dono da Denison Propaganda, dizia que \u201cconquistar a opini\u00e3o p\u00fablica\u201d era a ess\u00eancia da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do grupo. O principal articulador do GOP era um ex-comiss\u00e1rio de pol\u00edcia, Jos\u00e9 Fonseca, que come\u00e7ou na vida como \u201ctira\u201d no 16\u00b0 Distrito Policial de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, um sub\u00farbio oper\u00e1rio da zona norte do Rio, no r\u00e9veillon de 1952.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Conspira\u00e7\u00e3o sem twitter<\/p>\n<p>Em 1958, trocou a delegacia por um cargo de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Light, a empresa americana de energia que se tornaria uma das l\u00edderes do IPES e da conspira\u00e7\u00e3o. Em 1963, um ano antes do golpe, o ex-comiss\u00e1rio Jos\u00e9 Rubem Fonseca deu aos 38 anos seu primeiro tiro certeiro na literatura: lan\u00e7ou o livro de contos <em>Os prisioneiros<\/em> com o nome liter\u00e1rio de Rubem Fonseca. O festejado autor de <em>Feliz Ano Novo<\/em>, <em>A grande arte<\/em> e <em>Bufo &amp; Spallanzani<\/em> tornou-se nas d\u00e9cadas seguintes o maior contista vivo do pa\u00eds, ganhador em 2003 do Pr\u00eamio Cam\u00f5es, uma esp\u00e9cie de Nobel para escritores da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Outros destaques do GOP no Rio eram os jornalistas Glauco Carneiro e Wilson Figueiredo, este do corpo editorial do <em>Jornal do Brasil<\/em>.Em S\u00e3o Paulo, o GOP atuava com Geraldo Alonso, dono da Norton Propaganda, e nomes ilustres de <em>O Estado de S.Paulo<\/em>, como \u00canio Pesce e Fl\u00e1vio Galv\u00e3o. Contava ainda com Jorge Sampaio e Alves de Castro, os dois nomes centrais do <em>Rep\u00f3rter Esso<\/em> da TV Tupi, o equivalente ao <em>Jornal Nacional<\/em> da Rede Globo de hoje, patrocinado pela Esso do Brasil, membro importante do IPES do vov\u00f4 Golbery.<\/p>\n<p>Em tempos sem e-mail ou twitter, o GOP se valia da tecnologia da \u00e9poca: enviava milhares de cartas e telegramas e fazia chamadas telef\u00f4nicas, antecipando em d\u00e9cadas o odiado telemarketing. Em novembro de 1962 chegava a tr\u00eas mil nomes a lista de organiza\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio e TV mobilizada pelo GOP. Aliado a ele funcionava o GPE, Grupo de Publica\u00e7\u00f5es\/Editorial, que disseminava material impresso pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esta campanha de guerra psicol\u00f3gica era tarefa do ex-comiss\u00e1rio e contista Rubem Fonseca, que inclu\u00eda intelectuais respeitados como Augusto Frederico Schmidt, Odylo Costa Filho e Rachel de Queiroz, prima do general Castelo Branco, l\u00edder do golpe que derrubou Jango. Rachel foi presa no golpe do Estado Novo, em 1937, acusada de subversiva, e teve seus livros queimados.<\/p>\n<p>Um quarto de s\u00e9culo depois, a comunista de Fortaleza era uma intelectual engajada na equipe de propaganda de direita de Rubem Fonseca no IPES. O primo Castelo Branco, j\u00e1 ex-presidente, morreu num acidente a\u00e9reo em 1967 quando retornava de um passeio \u00e0 fazenda da prima Rachel.<\/p>\n<p>Os propagandistas do GOP atuavam em tr\u00eas frentes: artigos para jornais e revistas, panfletos para circular entre estudantes, militares e oper\u00e1rios, e livros que comparavam a democracia com a empresa privada. Em comum, eram todos anticomunistas, antitrabalhistas e antinacionalistas \u2013 a tr\u00edade que embalava o c\u00e9rebro do vov\u00f4 Golbery. Nomes fortes do mercado editorial, como Saraiva, Cia. Editora Nacional e GRD Editora, colaboravam na publica\u00e7\u00e3o da chamada \u201cliteratura democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Balc\u00e3o de deputados<\/p>\n<p>A escolha dos candidatos agraciados com o apoio financeiro pelo IPES de Golbery obedecia a uma regra r\u00edgida, quase um contrato de compra e venda. Quem se habilitava a integrar a lista de \u201cdemocratas convictos e anticomunistas de primeira ordem\u201d passava pelo crivo dos analistas do complexo IPES\/IBAD.<\/p>\n<p>Mais importante do que a filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria era a orienta\u00e7\u00e3o das ideias. Cada candidato era compelido a assinar um \u201cato de compromisso ideol\u00f3gico\u201d, pelo qual prometiam lealdade ao IBAD acima da fidelidade ao seu partido, prometendo ainda lutar contra o comunismo e a defender o investimento estrangeiro.<\/p>\n<p>Mas a mercadoria custava caro. O chefe do GAP (Grupo de A\u00e7\u00e3o Parlamentar) do IPES, o banqueiro Jorge Oscar de Mello Flores, avaliava os candidatos pelo coeficiente eleitoral. De in\u00edcio, ele calculava que cada deputado \u201ccustaria\u201d cerca de 6 milh\u00f5es de cruzeiros (cota\u00e7\u00e3o atual: R$ 317 mil), mas percebeu que esta seria a conta de nomes da Para\u00edba e outros Estados menores.<br \/>\nO pre\u00e7o aumentava no Cear\u00e1 e ainda mais na Bahia. Os candidatos de Rio e S\u00e3o Paulo eram mais caros, explicou Mello Flores, avaliando a conta<em>per capita <\/em>dos deputados no balc\u00e3o do IPES do vov\u00f4 Golbery: 15 milh\u00f5es de cruzeiros (cota\u00e7\u00e3o atual: R$ 792 mil).<\/p>\n<p>O or\u00e7amento de um candidato pouco conhecido e de limitada agressividade eleitoral inclu\u00eda despesas com equipamento de som, 40 mil cartazes, 600 faixas, fotografias, espa\u00e7o em jornais, mensagens no r\u00e1dio e TV, discos de jingle, gasolina, correspond\u00eancia e pessoal de apoio&#8230; Tudo isso ao custo de uns 10 milh\u00f5es de cruzeiros, o que n\u00e3o era pouca coisa. Dez milh\u00f5es, que hoje valem R$ 528 mil, equivaliam ent\u00e3o \u00e0 renda di\u00e1ria de 20 mil trabalhadores de sal\u00e1rio m\u00ednimo, n\u00famero de votos atualmente suficientes para eleger vereador em capital.<br \/>\nO IPES de Golbery recebeu apoio financeiro de 297 corpora\u00e7\u00f5es americanas. Passavam o chap\u00e9u entre empresas brit\u00e2nicas, suecas, alem\u00e3s. A Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenauer, \u00f3rg\u00e3o do Partido Democrata Crist\u00e3o alem\u00e3o, canalizava recursos pelo s\u00f3lido complexo sider\u00fargico Mannesmann e pela gigante Mercedes Benz. O neto certamente n\u00e3o sabia, mas o vov\u00f4 Golbery encarregou-se pessoalmente do contato com o presidente da Mercedes.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Grampo na Casa Branca<\/p>\n<p>Os amigos do general estavam ativos, tamb\u00e9m, em Washington. Na segunda-feira, 30 de julho de 1962, o presidente John Kennedy entrou no Sal\u00e3o Oval e ligou pela primeira vez seu novo brinquedinho, instalado no fim de semana: o sistema secreto de grava\u00e7\u00e3o de voz da Casa Branca.<\/p>\n<p>A estreia prometia: era uma conversa cabeluda de Kennedy com o seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, parceiro de Golbery no caminho para o golpe militar que derrubaria Jo\u00e3o Goulart dois anos depois. Come\u00e7ava pelo gasto n\u00e3o contabilizado de US$ 8 milh\u00f5es nas elei\u00e7\u00f5es de 1962, adubando secretamente candidatos apoiados pela CIA e simp\u00e1ticos aos EUA.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o americana do mundo pol\u00edtico brasileiro com os militares golpistas era feita por outro amigo do peito de Golbery \u2013 o discreto adido militar da embaixada, coronel Vernon Walters, que chegaria a vice-diretor da CIA no auge do Caso Watergate que derrubou Nixon, em 1974.<\/p>\n<p>A transcri\u00e7\u00e3o das fitas foi revelada no livro do jornalista americano Tim Weiner, <em>Legado de Cinzas \u2013 Uma hist\u00f3ria da CIA <\/em>(Ed.Record, 2008), outra leitura instrutiva que poderia iluminar a cabe\u00e7a de Golbery Neto. Ela mostra, numa frase de Gordon para Kennedy, que o alvo central da conspira\u00e7\u00e3o era o mesmo de Golbery \u2013 o pr\u00f3prio Jango:<\/p>\n<p>\u2013 Para expuls\u00e1-lo, se necess\u00e1rio \u2013 disse o embaixador, esclarecendo \u2013 O posto da CIA no Brasil deixar\u00e1 claro, discretamente, que n\u00e3o somos necessariamente hostis a qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o militar, em absoluto, se ficar claro que o motivo da a\u00e7\u00e3o militar \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2013&#8230; contra a esquerda \u2013 completou o presidente Kennedy, dando o sinal verde para o golpe que aconteceria vinte meses depois.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o de 1962, a Promotion de Ivan Hasslocher, l\u00edder do IBAD, arrendou o jornal carioca <em>A Noite<\/em> por 90 dias, ao custo mensal de 2 milh\u00f5es de cruzeiros (cerca de R$ 100 mil no c\u00e2mbio atual) para propaganda direta. A revista <em>Rep\u00f3rter Sindical<\/em> tamb\u00e9m era operada pela entidade.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o oficial do IBAD, <em>A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica<\/em>, circulava mensalmente com 250 mil exemplares e textos de gente gra\u00fada como o economista Eug\u00eanio Gudin e o l\u00edder udenista Aliomar Baleeiro. Era gratuita e, ainda assim, n\u00e3o tinha um \u00fanico an\u00fancio. No in\u00edcio de 1963, um manifesto de 500 profissionais de prest\u00edgio, organizados pelo Centro Democr\u00e1tico de Engenheiros, ligado ao IPES, foi publicado no <em>Jornal do Brasil<\/em> e em <em>O Estado de S.Paulo<\/em>.<\/p>\n<p>Manifestos variados, todos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, proliferavam na imprensa e eram retransmitidos pela dupla IPES\/IBAD. Eles tinham uma ag\u00eancia de not\u00edcias, a Planalto, que redistribu\u00eda o material a 800 emissoras de r\u00e1dio e jornais do pa\u00eds. Tudo gratuito, tudo pela p\u00e1tria, tudo pela \u201cdemocracia\u201d. Um milh\u00e3o de c\u00f3pias da <em>Cartilha para o Progresso<\/em>, feita pelo IPES, exaltando os benef\u00edcios da Alian\u00e7a para o Progresso do governo americano, foi encartada como suplemento da <em>Fatos&amp;Fotos<\/em>, revista na \u00e9poca de grande circula\u00e7\u00e3o da Editora Bloch.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O extremista do Estad\u00e3o<\/p>\n<p>Num pa\u00eds de elevado analfabetismo, o esperto vov\u00f4 Golbery percebeu a import\u00e2ncia do r\u00e1dio e da nascente televis\u00e3o. O IPES gastou 10 milh\u00f5es de cruzeiros para produzir 15 programas de TV para tr\u00eas canais diferentes. Eram entrevistas de question\u00e1rios preparados pela entidade, com jornalistas de confian\u00e7a e gente selecionada para responder sobre reforma agr\u00e1ria, custo de vida, democracia.<\/p>\n<p>Estavam escalados nesse time alguns ilustres conterr\u00e2neos de Golbery, como o senador Mem de S\u00e1 (presenteado com a cadeira de ministro da Justi\u00e7a no governo Castelo Branco), os deputados Daniel Faraco, Egydio Michaelsen e Raul Pilla, o prefeito de Porto Alegre Loureiro da Silva e o arcebispo dom Vicente Scherer.<\/p>\n<p>Em 1962, o IBAD operava diariamente mais de 300 programas de r\u00e1dio no hor\u00e1rio nobre das principais cidades do pa\u00eds. A rede de mais de 100 esta\u00e7\u00f5es ligadas a ele formava a \u201cCadeia da Democracia\u201d, sob o comando do senador Jo\u00e3o Calmon, dos Di\u00e1rios Associados, que tinha o cuidado de ir ao ar no mesmo hor\u00e1rio das transmiss\u00f5es do l\u00edder trabalhista Leonel Brizola, que derrotara Golbery um ano antes com a \u201cCadeia da Legalidade\u201d.<\/p>\n<p>O maior produtor de filmes comerciais do pa\u00eds, Jean Manzon, foi contratado por Golbery para produzir filmes como <em>Que \u00e9 a democracia<\/em>, <em>Deixem o estudante estudar<\/em>, <em>Uma economia estrangulada<\/em>, <em>Criando homens livres<\/em>. Eram filmetes de 10 minutos, projetados antes do vibrante faroeste exibido nas matin\u00eas do interior do pa\u00eds, onde se espalhavam tr\u00eas mil salas de cinema.<\/p>\n<p>Quando a plateia n\u00e3o aparecia, o cinema ia at\u00e9 o p\u00fablico. O IPES montou o projeto do \u201ccinema ambulante\u201d em caminh\u00f5es abertos e \u00f4nibus com chassis especiais, que percorriam favelas, bairros populares e cidades distantes. Era um mutir\u00e3o democr\u00e1tico: a Mesbla fornecia os projetores, a Mercedes Benz emprestava os caminh\u00f5es e a CAIO montava a carroceria dos \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Na medida em que avan\u00e7ava a conspira\u00e7\u00e3o, crescia a presen\u00e7a militar sobre a base parlamentar. Era hora de sair do discurso para a pr\u00e1tica. O IBAD cede seu lugar de destaque para outra sigla \u2013 a ESG, a Escola Superior de Guerra, de onde provinham Golbery e o n\u00facleo fardado do golpe.<\/p>\n<p>O novo complexo IPES\/ESG alinhava 330 oficiais, de majores a generais de Ex\u00e9rcito, fazendo a liga\u00e7\u00e3o do mundo empresarial com os quart\u00e9is. Sempre sob a lideran\u00e7a do vov\u00f4 Golbery, l\u00e1 estavam nomes que, mais tarde, fariam parte do poder revolucion\u00e1rio, como ministros ou at\u00e9 presidentes. Orlando Geisel, M\u00e1rio Andreazza e Walter Pires formulavam planos com Castello Branco, Ernesto Geisel e Jo\u00e3o Figueiredo.<\/p>\n<p>Um grupo que Dreifuss nomeia como \u201cExtremistas de Direita\u201d juntava fan\u00e1ticos anticomunistas com adeptos da moderniza\u00e7\u00e3o industrial conservadora. Curiosamente, o grupo era mais ligado ao jornalista J\u00falio de Mesquita Neto, expoente da \u201clinha dura\u201d paulista que pregava uma forte mensagem anticorrup\u00e7\u00e3o e contra a esquerda. Com Mesquita estavam seu irm\u00e3o Ruy e os deputados Abreu Sodr\u00e9 e Paulo Egydio Martins, mais tarde governadores indiretos de S\u00e3o Paulo indicados pelos quart\u00e9is.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas ministros militares que Golbery transformou em locutores de seu manifesto no golpe frustrado de 1961 \u2013 o marechal Odylio Denys, o almirante S\u00edlvio Heck e o brigadeiro Grun Moss \u2013 mandaram emiss\u00e1rios da conspira\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Paulo para um encontro, no in\u00edcio de 1962, com J\u00falio Mesquita Filho, a quem entregaram um documento sobre as normas que iriam orientar o governo militar ap\u00f3s a queda de Jango. O grupo, integrado pelos generais Cordeiro de Farias e Orlando Geisel, foi mais expl\u00edcito com o dono do <em>Estad\u00e3o<\/em>: o regime discricion\u00e1rio teria de ficar no poder por pelo menos cinco anos.<\/p>\n<p>Animado com a conversa, Mesquita chegou ao ponto de sugerir oito nomes para o futuro minist\u00e9rio revolucion\u00e1rio. Com o jurista Vicente Rao, advogado da mineradora americana Hanna, Mesquita chegou a fazer o rascunho de um Ato Institucional para fechar Senado, C\u00e2mara e Assembleias e cassar mandatos \u2013 o mesmo instrumento de for\u00e7a que a ditadura anos depois faria seu jornal engolir com o AI-5, na forma de versos e receita de bolo.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Ci\u00eancia e viol\u00eancia<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, quartel-general do III Ex\u00e9rcito, a maior concentra\u00e7\u00e3o de tropa terrestre do pa\u00eds e foco principal da resist\u00eancia de Brizola na Campanha da Legalidade, dois ter\u00e7os da oficialidade j\u00e1 estavam engajados na rebeli\u00e3o. O coronel da Brigada Militar Peracchi Barcelos (PSD), eleito deputado pela m\u00e1quina do IPES do general Golbery, tratava de sublevar a for\u00e7a p\u00fablica do estado.<\/p>\n<p>O general Armando Cattani \u2013 que comandou no per\u00edodo 1958-59 a poderosa 6\u00aa Divis\u00e3o de Ex\u00e9rcito em Porto Alegre, exatamente quando Brizola deixava a prefeitura da capital ga\u00facha para assumir o governo do estado \u2013 organizava grandes fazendeiros no interior do Rio Grande do Sul em unidades paramilitares que seriam acionadas na hora precisa do golpe.<\/p>\n<p>O general Cattani era t\u00e3o amigo do general Golbery que foi selecionado por ele para assumir como interventor a prefeitura de sua terra natal, Rio Grande. O posto ficou vago de repente gra\u00e7as \u00e0 quartelada de mar\u00e7o de 1964, que transformou a cidade portu\u00e1ria em \u201c\u00e1rea de seguran\u00e7a nacional\u201d e cassou o mandato do prefeito do PTB, Farydo Salom\u00e3o, no cargo havia apenas tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a juventude, mas a aliena\u00e7\u00e3o, que pode explicar o desconhecimento que o atual prefeito de Rio Grande e o neto do general t\u00eam sobre as viol\u00eancias praticadas pela ditadura de Golbery e seus comparsas nos primeiros dias do golpe exatamente na cidade onde ele nasceu.<\/p>\n<p>Golbery, evidentemente, n\u00e3o tem nenhum envolvimento pessoal com as trucul\u00eancias na sua terra. Mas o general tem tudo a ver com o regime de for\u00e7a que permitiu esses abusos. Como porto e \u00e1rea estrat\u00e9gica no extremo sul do pa\u00eds, Rio Grande coordenava a repress\u00e3o ali pela SOPS-RG, a Se\u00e7\u00e3o de Ordem Pol\u00edtica e Social que unia for\u00e7as do 6\u00ba Grupamento de Artilharia de Campanha (GAC) do Ex\u00e9rcito, o Batalh\u00e3o de Pol\u00edcia Motorizada, a Pol\u00edcia Federal e a Pol\u00edcia Civil, que cobriam seis munic\u00edpios da regi\u00e3o, de Pelotas a Chu\u00ed.<\/p>\n<p>A SOPS era subordinada ao DOPS de Porto Alegre, onde brilhava o nome mais importante do aparato repressivo ga\u00facho, o delegado Pedro Seelig. Foi pelo Chu\u00ed que ele devolveu \u00e0 ditadura uruguaia os ativistas Lilian Celiberti e Universindo Diaz, sequestrados em Porto Alegre em novembro de 1978 por um comando binacional da Opera\u00e7\u00e3o Condor, integrado por agentes de Seelig e militares enviados por Montevid\u00e9u. A SOPS de Rio Grande e o DOPS de Seelig eram todos membros fraternais da \u201ccomunidade de informa\u00e7\u00f5es\u201d, gerenciada desde Bras\u00edlia pelo SNI criado pelo grande-irm\u00e3o Golbery.<\/p>\n<p>O neto ainda n\u00e3o deve saber, mas as brutalidades do regime n\u00e3o poupavam nem os conterr\u00e2neos do av\u00f4. Um bom exemplo foi relatado por Leandro Braz da Costa, mestrando em Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, num trabalho sobre repress\u00e3o publicado este ano na Jornada de Estudos sobre Ditadura e Direitos Humanos, do Arquivo P\u00fablico do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>O historiador ouviu em 2009 um inspetor lotado em Rio Grande, na d\u00e9cada de 1970, na 7\u00aa Delegacia Regional da Pol\u00edcia Civil, dotada de celas especiais com pau-de-arara e choque el\u00e9trico para a pr\u00e1tica de torturas. A sofreguid\u00e3o por informa\u00e7\u00f5es do preso excitava a criatividade, como revela o inspetor:<\/p>\n<p>[&#8230;] quando o delegado exigia que obtiv\u00e9ssemos rapidamente uma confiss\u00e3o ou uma informa\u00e7\u00e3o, t\u00ednhamos que apertar o cara ainda mais&#8230; lev\u00e1vamos o indiv\u00edduo vendado e sem roupa l\u00e1 pra praia do Cassino, na madrugada. Da\u00ed amarr\u00e1vamos as m\u00e3os e os p\u00e9s dele com uma corda e entr\u00e1vamos com ele no mar. Afog\u00e1vamos o cara&#8230; cont\u00e1vamos a passagem de seis ou sete ondas e depois retir\u00e1vamos ele da \u00e1gua. Repet\u00edamos isso v\u00e1rias vezes, at\u00e9 quase ele n\u00e3o aguentar mais. Se mesmo depois disso ele n\u00e3o falasse nada, n\u00f3s eletrocut\u00e1vamos ele com os fios ligados no d\u00ednamo [<em>do motor<\/em>] do Opala. Isso sempre funcionava [&#8230;]<\/p>\n<p class=\"intertit\">Tortura no mar<\/p>\n<p>Na terra de Golbery, o terror vinha do mar. Em 28 de mar\u00e7o de 1964, tr\u00eas dias antes do golpe, o NHi <em>Canopus <\/em>(H22), um navio hidrogr\u00e1fico da Marinha de 1.800 toneladas e 78 metros de comprimento, concluiu seu trabalho cient\u00edfico de 30 meses para o levantamento da costa sul brasileira desde Torres at\u00e9 Chu\u00ed.<\/p>\n<p>Miss\u00e3o cumprida, tomou o caminho de Rio Grande, onde ancorou ao largo do porto. Era comandado pelo capit\u00e3o-de-fragata Maximiano da Fonseca, que na d\u00e9cada de 1980 seria colega de minist\u00e9rio de Golbery, como almirante e ministro da Marinha do governo Figueiredo. Levava a bordo 116 tripulantes, um helic\u00f3ptero e 14 cientistas. Mas, naqueles dias agitados dos idos de mar\u00e7o, o barco abrigou uma carga inesperada: presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Transformado em navio-pris\u00e3o, o <em>Canopus<\/em> de Maximiano virou o cativeiro do prefeito cassado Farydo Salom\u00e3o, ali submetido a torturas por ser amigo de Brizola e Jango. A viol\u00eancia \u00e9 denunciada no livro <em>Centen\u00e1rio do Col\u00e9gio Lemos J\u00fanior, <\/em>escrito pelo jornalista Willy Cesar, riograndino como Golbery e que hoje defende o preito ao general. Outro depoimento, ainda mais forte, \u00e9 do ex-capit\u00e3o da Brigada Militar Atha\u00eddes Rodrigues, vereador e aliado do prefeito.<\/p>\n<p>No dia 7 de abril de 1964, 50 homens cercaram sua casa e o levaram preso, ainda de pijama, num jipe que rodou pela cidade at\u00e9 chegar \u00e0 Capitania dos Portos. Dali, o vereador trocou o jipe por uma lancha e foi transportado \u00e0 pris\u00e3o flutuante do <em>Canopus,<\/em> onde se juntou a v\u00e1rios ferrovi\u00e1rios detidos, incluindo o presidente do sindicato, Miguel Gomes.<\/p>\n<p>Incorporado \u00e0 Marinha em 1958, seis anos antes do golpe, o <em>Canopus <\/em>sobreviveu ao regime, aposentando-se doze anos ap\u00f3s a queda da ditadura, em 1997. Nesse per\u00edodo, passou 3.342 dias no mar e navegou mais de um milh\u00e3o de quil\u00f4metros, o suficiente para 26 voltas ao mundo. A longa, impec\u00e1vel ficha funcional do <em>Canopus <\/em>ficou manchada, contudo, pelo desvio de rota \u00e9tica que o imobilizou no porto de Rio Grande, abandonando por uns tempos a ci\u00eancia das \u00e1guas para lan\u00e7ar \u00e2ncora na viol\u00eancia das m\u00e1goas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O navio-pris\u00e3o na terra de Golbery era um resumo preciso do pa\u00eds-pres\u00eddio a que Golbery e sua conspira\u00e7\u00e3o reduziram a terra dos brasileiros. O cativeiro tempor\u00e1rio do <em>Canopus <\/em>em Rio Grande n\u00e3o era uma exclusividade do sul, mas uma fatalidade que se reproduzia em outras \u00e1guas, em outras terras.<\/p>\n<p>No maior porto do pa\u00eds, Santos, no litoral paulista, estava fundeado o caso mais not\u00f3rio de navio-pris\u00e3o do pa\u00eds, o <em>Raul Soares.<\/em> Era um velho transatl\u00e2ntico alem\u00e3o constru\u00eddo em 1900, comprado pelo Lloyd Brasileiro em 1925 e transformado em navio de carga e passageiro para a rota Santos-Manaus.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Faca para o bife<\/p>\n<p>Quase duas vezes maior que o <em>Canopus, <\/em>com 125 metros de comprimento, o <em>Raul Soares<\/em>tinha 110 tripulantes e acomoda\u00e7\u00e3o para 580 passageiros. Os 80 da primeira classe tinham cabine reservada, sal\u00e3o de jantar e orquestra a bordo com pista de dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Os outros 500 se acomodavam em redes e cobertas nos quatro por\u00f5es, e comiam ali mesmo, disputando espa\u00e7o com a carga \u2013 homens na proa, mulheres na popa. No espa\u00e7o de dez anos, o <em>Raul Soares<\/em> navegou ao sabor das mar\u00e9s da hist\u00f3ria: serviu de pris\u00e3o para os comunistas da fracassada rebeli\u00e3o de 1935 e trouxe para casa em 1945 os pracinhas da FEB que, aliados aos comunistas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, derrotaram o Eixo nazifascista.<\/p>\n<p>Em 24 de abril de 1964, o navio l\u00fagubre de casco negro e uma enorme chamin\u00e9 fumegante foi rebocado pela nova ordem militar at\u00e9 um banco de areia na ilha do Barnab\u00e9, em Santos. Cinco dias depois recebeu ali sua primeira leva de passageiros compuls\u00f3rios: 40 sargentos do Ex\u00e9rcito que se opuseram ao golpe.<\/p>\n<p>Outros mais \u2013 militares e civis, sindicalistas e suspeitos em geral \u2013 chegariam depois, num total de quase 500 presos pol\u00edticos, todos sem processo legal, sem direito a cabine reservada, nem orquestra, nem pista de dan\u00e7a. Ousaram desafiar a partitura desafinada da ditadura e foram jogados como carga nos seus por\u00f5es infectos.<\/p>\n<p>O <em>Raul Soares<\/em> tinha tr\u00eas calabou\u00e7os, batizados pelos presos com nomes de boates famosas da \u00e9poca. O \u201cEl Morocco\u201d, um sal\u00e3o met\u00e1lico sem janelas, ventila\u00e7\u00e3o ou luz ao lado da caldeira, tinha uma atmosfera irrespir\u00e1vel de mais de 50 graus. O \u201cNight and Day\u201d, colado \u00e0 geladeira, era uma sala menor onde os presos ficavam com \u00e1gua gelada na altura do joelho.<\/p>\n<p>O \u201cCasablanca\u201d, talvez o pior deles, era o dep\u00f3sito de fezes, onde a elas se misturavam os presos que precisavam ter a resist\u00eancia quebrada, pela humilha\u00e7\u00e3o ou pelo mau cheiro. Este era o fedor institucional e jur\u00eddico emanado pela desordem militar manipulada no caldeir\u00e3o malcheiroso do vov\u00f4 Golbery.<\/p>\n<p>Os detalhes escabrosos dessa hist\u00f3ria foram publicados em 1979 pelo rep\u00f3rter Mauri Alexandrino no jornal <em>Preto no Branco<\/em>, da Cooperativa dos Jornalistas de Santos. A desordem gerada pela prepot\u00eancia da nova ordem foi percebida no dia em que 16 presos receberam uma boa not\u00edcia: haviam recebido <em>habeas-corpus<\/em> do juiz da 2\u00aa Vara Criminal de Santos, Ant\u00f4nio Granda.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, aliviados, embarcaram na lancha e deixaram para tr\u00e1s aquele inferno. Foram direto para a sala do capit\u00e3o dos Portos de S\u00e3o Paulo, J\u00falio de S\u00e1 Bierrenbach, encarregado dos inqu\u00e9ritos policiais na \u00e1rea sindical e pol\u00edtica. O capit\u00e3o chamou a imprensa, autorizou fotos, dispensou os jornalistas e, a s\u00f3s com os presos, avisou:<\/p>\n<p>\u201cQuero comunicar que voc\u00eas est\u00e3o soltos. Agora que est\u00e3o em liberdade, estou dando nova voz de pris\u00e3o. Voc\u00eas sa\u00edram do processo da Aeron\u00e1utica, mas ainda n\u00e3o enfrentaram o da Marinha. Estou abrindo novo inqu\u00e9rito.\u201d<\/p>\n<p>Os soldados reconduziram os presos para a lancha que os devolveu ao inferno. Muitos deles choravam, afogados num sentimento que mesclava tristeza e \u00f3dio. Jornalistas s\u00f3 tinham acesso ao <em>Raul Soares <\/em>como prisioneiros ou pelo filtro rigoroso do servilismo. Certo dia, dois jornalistas da <em>Gazeta de Santos<\/em>, escolhidos a dedo pelos militares, foram convidados a visitar a pris\u00e3o flutuante. Elogiaram muito os comandantes pelas \u201c\u00f3timas condi\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias\u201d e, na edi\u00e7\u00e3o do dia seguinte do jornal, lembraram-se de uma \u00fanica queixa dos prisioneiros: \u201cN\u00e3o existiam facas para cortar os bifes\u201d, anotaram.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Caneta e metralhadora<\/p>\n<p>Um jornalista subiu a bordo a contragosto: Nelson Gatto, rep\u00f3rter policial dos Di\u00e1rios Associados, penou ali 43 dias encarcerado. Sobreviveu para contar seu mart\u00edrio em 1965 num livro \u2013 <em>Navio Pres\u00eddio \u2013 <\/em>que ningu\u00e9m leu. Foi apreendido pelo DOPS antes de alcan\u00e7ar as livrarias. A Justi\u00e7a mandou liberar, a Aeron\u00e1utica mandou apreender de novo. No Superior Tribunal Militar (STM), Gatto ganhou por 10 a 0, com voto do ministro Olympio Mour\u00e3o Filho, o general de Juiz de Fora que botou os tanques na rua em 31 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>O movimento militar desfechado em nome da santa hierarquia se convertera, naqueles dias agitados, num constrangedor foco de subvers\u00e3o: os oficiais-generais da suprema corte militar do pa\u00eds mandaram liberar o livro, um reles oficial da Aeron\u00e1utica fez exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O coronel-aviador Francisco Renato de Melo invadiu a gr\u00e1fica, recolheu toda a edi\u00e7\u00e3o e a jogou no mar. Escapou um \u00fanico exemplar. O coronel da Aeron\u00e1utica justificou assim a trucul\u00eancia: \u201cOs ju\u00edzes t\u00eam canetas, n\u00f3s temos metralhadoras\u201d. Em 1967, cumprindo a maldi\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o Bierrenbach, Gatto foi preso novamente para responder sobre o livro que nunca circulou.<\/p>\n<p>Os defensores de Golbery, sem a ingenuidade do neto, lembram sempre o seu papel na distens\u00e3o e na abertura do regime executadas pelos dois generais \u2013 Ernesto Geisel e Jo\u00e3o Figueiredo \u2013 que lhe deram o longo reinado de sete anos como poderoso ministro da Casa Civil, entre 1974 e 1981. \u00c9 verdade. No entanto, indulgentes, esquecem-se de dizer que Golbery estava tamb\u00e9m na outra ponta do processo pol\u00edtico, fechando o ciclo democr\u00e1tico em 1964 e inaugurando uma ditadura que sobreviveria 21 anos.<\/p>\n<p>A di\u00e1stole que descontra\u00eda o sistema, segundo seu card\u00edaco pensamento pol\u00edtico, foi antecedida pela contra\u00e7\u00e3o da s\u00edstole. O general que comandou a s\u00edstole de 1964 n\u00e3o conseguiu pilotar a di\u00e1stole de 1984, que acelerou com a hipertens\u00e3o popular das multid\u00f5es nas pra\u00e7as e avenidas das Diretas-J\u00e1 e terminou com o surto de Tancredo Neves em pleno Col\u00e9gio Eleitoral. Os amigos n\u00e3o lembram, e o neto n\u00e3o diz, mas \u00e9 sempre bom repetir que o candidato de vov\u00f4 Golbery no col\u00e9gio era Paulo Maluf, confirmando sua teimosa voca\u00e7\u00e3o para estar sempre do lado oposto aos interesses populares.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Pr\u00edncipes do bruxo<\/p>\n<p>O te\u00f3rico da \u201cdoutrina da seguran\u00e7a nacional\u201d instaurou, por ardis, aparatos e artimanhas, uma rotina de inseguran\u00e7a pessoal que sacramentou o medo e a dela\u00e7\u00e3o num pa\u00eds intimidado pela repress\u00e3o e assustado pela s\u00edndrome da intriga, do grampo, da den\u00fancia. Essa inclina\u00e7\u00e3o para o mal, como j\u00e1 deve ter suspeitado o jovem Golbery Neto, refor\u00e7a a tese de que o av\u00f4 tinha forte inclina\u00e7\u00e3o por dois pr\u00edncipes \u2013 o de Maquiavel e o de Lampedusa.<\/p>\n<p>O ardiloso general tinha a consci\u00eancia da <em>fortuna,<\/em> a id\u00e9ia romana de sorte, definida pelo g\u00eanio florentino como algo inevit\u00e1vel, que pode levar algu\u00e9m ao poder ou tir\u00e1-lo de l\u00e1. Como se sabe, uma obsess\u00e3o muito golberyana. E, como o autor de <em>O Leopardo,<\/em> o generaltentava \u201ctudo mudar para que tudo ficasse como est\u00e1\u201d. A desastrada campanha de Maluf no Col\u00e9gio Eleitoral mostra que Golbery tentava \u201cmudar para preservar\u201d, dando uma sobrevida civil ao regime militar que definhou como a aristocracia siciliana do s\u00e9culo 19 desenhada por Lampedusa.<br \/>\nMaluf, na cabe\u00e7a de Golbery, era o meio que justificava \u2013 ou adiava \u2013 o fim.<\/p>\n<p>Golbery Neto provavelmente era nascido em 1977, quando o vov\u00f4 Golbery cometeu sua derradeira bruxaria bem sucedida, o \u201cPacote de Abril\u201d. Como de h\u00e1bito, contra o povo. Sob o comando do sacerdote Geisel, o feiticeiro e meia d\u00fazia de \u00e1ulicos cozinharam uma sulf\u00farica emenda constitucional e seis decretos leis que, em resumo, dissolviam a vontade popular, um estorvo permanente aos planos de Golbery.<\/p>\n<p>Fecharam o Congresso para ruminar em paz seus feiti\u00e7os, cancelaram a elei\u00e7\u00e3o direta de 1978 para governadores, inventaram um monstrengo sem voto (o senador-bi\u00f4nico), ampliaram para seis anos o mandato do sucessor de Geisel e aumentaram o peso de Estados menos populosos e politizados no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Era Golbery, de novo, num surto de Lampedusa.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Mito na granja<\/p>\n<p>Dois anos depois vov\u00f4 Golbery recrudesceu, cada vez mais assustado com o crescimento do MDB, que pela for\u00e7a do voto emparedava a ARENA, a sigla da ditadura. Era preciso mudar o quadro partid\u00e1rio, implodindo a frente oposicionista, para que tudo ficasse como estava.<br \/>\nA ARENA virou PDS (o povo n\u00e3o esquece) e o MDB virou um caco, rachado entre cinco legendas: o PMDB de Ulysses, o PTB de Ivete Vargas, o PP de Tancredo Neves, o PDT de Leonel Brizola e o PT de Lula. A <em>fortuna<\/em> do mago florentino sorria para o bruxo riograndino. O marido de Ivete, Paulo Martins, trabalhava com Golbery no Gabinete Civil.<br \/>\nIvete, que tinha o apoio de Golbery para arrebatar o PTB das m\u00e3os de Brizola, foi chamada em 1979 \u00e0 Granja do Ip\u00ea, resid\u00eancia do general em Bras\u00edlia, para ouvir este sat\u00e2nico racioc\u00ednio do feiticeiro:<br \/>\n\u2013 Precisamos trazer o Brizola de volta para o Brasil, porque ele est\u00e1 se tornando um mito muito forte fora do pa\u00eds. \u00c9 melhor que ele volte e dispute elei\u00e7\u00e3o, porque assim perder\u00e1 prest\u00edgio pol\u00edtico.<br \/>\nO ex-deputado federal Sinval Boaventura, um radical arenista mineiro, foi l\u00e1 na granja conferir a ideia com Golbery. O general ampliou sua tese, apostando num nome:<br \/>\n\u2013A estrat\u00e9gia \u00e9 estimular a imprensa para projetar Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o Lula, um grande l\u00edder metal\u00fargico de S\u00e3o Paulo, uma lideran\u00e7a inteligente e expressiva. Ele precisa ser preparado para ser o anti-Brizola.<br \/>\nTodo esse prontu\u00e1rio de Golbery passou em branco pela grande imprensa, que n\u00e3o abriu espa\u00e7o para a atrevida homenagem ensaiada em Rio Grande. Um historiador da terra, Chico Cougo, 24 anos, portanto bem mais jovem que o alienado prefeito de sua cidade, nasceu dois anos ap\u00f3s a queda da ditadura. Nem por isso deixa de abastecer <a href=\"http:\/\/memoriasdochico.wordpress.com\/author\/chicocougo\">seu blog<\/a>para emitir seu ju\u00edzo ferino sobre o conterr\u00e2neo general, alinhando textos inteligentes, devastadores numa s\u00e9rie imperd\u00edvel sobre \u201cGolbery e a cidade surreal\u201d.<\/p>\n<p>Outra exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra do sil\u00eancio \u00e9 o jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, que acaba de lan\u00e7ar o livro <em>Vozes da Legalidade<\/em>, tem programa na r\u00e1dio Gua\u00edba e coluna no<em>Correio do Povo, <\/em>onde provocou:<\/p>\n<p>\u201cRio Grande quer homenagear o \u2018Rasputin\u2019 nacional. Por que n\u00e3o uma est\u00e1tua para os ministros militares que tentaram dar o golpe em 1961?&#8230; O mais incr\u00edvel \u00e9 que [<em>o prefeito<\/em>] F\u00e1bio Branco pertence ao PMDB, que se orgulha de ter combatido a ditadura&#8230; Resta uma hip\u00f3tese radical: Branco quer expor Golbery \u00e0s pombas da pra\u00e7a Tamandar\u00e9&#8230;\u201d<\/p>\n<p class=\"intertit\">A maior corrup\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Duas vozes expressivas da imprensa ga\u00facha discordam. Lasier Martins, \u00e2ncora da RBS TV, o principal grupo de comunica\u00e7\u00e3o do sul, acha que a homenagem \u00e9 parte da democracia. Indaga: \u201c\u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil assim entender isso?\u201d. \u00c9, \u00e9 muito dif\u00edcil entender, considerando que nenhuma democracia deve exaltar quem conspirou contra a democracia.<\/p>\n<p>O experiente jornalista \u00c9rico Valduga, dono do <em>Perisc\u00f3pio,<\/em> um respeitado <a href=\"http:\/\/www.ericovalduga.com.br\/\">blog pol\u00edtico <\/a>do sul, acha que a homenagem \u201c\u00e9 uma quest\u00e3o local leg\u00edtima\u201d em que \u201ca sociedade de Rio Grande preferiu ver no conterr\u00e2neo o governante que beneficiou a cidade com obras p\u00fablicas importantes\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois graves problemas nesse racioc\u00ednio. A sociedade riograndina, pelo que se v\u00ea na pesquisa do jornal local, v\u00ea mais as malfeitorias nacionais do que as benfeitorias municipais, condenando como ileg\u00edtima a homenagem por maioria de quase 60%. A proposta ainda foi aprovada por menos da metade dos vereadores da C\u00e2mara, apenas seis em 13 representantes.<\/p>\n<p>Valduga arrisca uma tese mais ousada para condenar os que se op\u00f5em ao louvor a Golbery: \u201c\u00c9 uma irresponsabilidade diversionista, que contribuir\u00e1 para desfocar as lutas contra a corrup\u00e7\u00e3o\u201d. O jornalista esquece que n\u00e3o h\u00e1 maior exemplo de corrup\u00e7\u00e3o do que um golpe que fecha o Parlamento, castra a vontade popular pelo veto ao voto, cassa mandatos pol\u00edticos, censura, prende, tortura e mata, impondo ao pa\u00eds uma treva de 21 anos, consagrando a impunidade e estimulando a corrup\u00e7\u00e3o. Foi o louvado Golbery quem pensou esta irresponsabilidade que nos privou da democracia por duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Nada mais diversionista.<\/p>\n<p>O que espanta, de fato, n\u00e3o \u00e9 a voz condescendente de alguns jornalistas, mas a afonia das principais lideran\u00e7as do PMDB ga\u00facho, herdeiro do mais aguerrido e mais atingido MDB do pa\u00eds, que lutou e sangrou contra a ditadura gestada pelo general Golbery. O autor da proposta indecente \u00e9 vereador do PMDB de Rio Grande, Renato Albuquerque, que viu seu PLV (projeto de lei de vereador) n\u00ba 93\/2009 aprovado pela minoria da casa na sess\u00e3o de 21 de dezembro de 2009. Cinco dos 13 vereadores estavam ausentes, s\u00f3 seis (menos da metade) aprovaram, contra dois votos.<br \/>\nO prefeito F\u00e1bio Branco, tamb\u00e9m do PMDB, ap\u00f4s sua assinatura na lei n\u00ba 6.835 exatos dez dias depois, em 31 de dezembro, quando a cidade e o pa\u00eds, desatentos, s\u00f3 est\u00e3o preocupados com o r\u00e9veillon damadrugada. Cobrado pela homenagem ao general, o prefeito que veio ao mundo em 1972 evocou o calend\u00e1rio para se eximir de um ju\u00edzo sobre a ditadura de 1964: \u201cEu n\u00e3o era nascido&#8230;\u201d<\/p>\n<p class=\"intertit\">Tributo \u00e0 treva<\/p>\n<p>N\u00e3o se conhece nenhum ju\u00edzo, qualquer manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica ou privada das principais lideran\u00e7as, dos nomes hist\u00f3ricos do PMDB ga\u00facho \u2013 todos nascidos e crescidos bem antes das malfeitorias antidemocr\u00e1ticas de Golbery. O Congresso Nacional, tr\u00eas vezes fechado e pesadamente mutilado pelo golpe engendrado pelo general desde os idos de 1961, recebeu a decis\u00e3o de Rio Grande com um atordoante sil\u00eancio. \u00c0 esquerda e \u00e0 direita, nenhum dos 513 deputados, nenhum dos 81 senadores emitiu uma palavra, um s\u00f3 discurso, um m\u00edsero aparte, a favor ou contra.<br \/>\nDo PMDB nacional n\u00e3o se podia esperar nada de mais. Afinal, o MDB velho de guerra que um dia foi comandado por gente como Ulysses Guimar\u00e3es, Teot\u00f4nio Vilela, Tancredo Neves, Alencar Furtado, Itamar Franco, M\u00e1rio Covas, Jos\u00e9 Richa e Franco Montoro hoje \u00e9 um PMDB rebaixado a gente como Jos\u00e9 Sarney (o \u00faltimo presidente do PDS, que o povo n\u00e3o esquece), Michel Temer, Renan Calheiros, Romero Juc\u00e1, J\u00e1der Barbalho, Henrique Eduardo Alves, Newton Cardoso, por a\u00ed.<\/p>\n<p>O alheamento do Parlamento a uma quest\u00e3o moralmente t\u00e3o grave mostra o grau de desmem\u00f3ria a que se relegou a pol\u00edtica brasileira, talvez o derradeiro legado do general Golbery para um pa\u00eds que n\u00e3o preza sua hist\u00f3ria e n\u00e3o consegue nem identificar os malfeitores da democracia.<\/p>\n<p>O desastrado, debochado ensaio de louvor a Golbery do Couto e Silva no sul coincide com a cria\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o da Verdade em Bras\u00edlia que, em tese, ir\u00e1 dissecar a obra mais monstruosa do general: a ditadura de 21 anos. Um pa\u00eds que se recusa a discutir um tributo infeliz ao mentor da mais longa escurid\u00e3o da Rep\u00fablica pode estar, na pr\u00e1tica, erigindo um mausol\u00e9u da dec\u00eancia, da justi\u00e7a, da consci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Golbery Neto, antes de se ofender com um simples artigo baseado na hist\u00f3ria, devia ler e estudar um pouco mais para entender a real dimens\u00e3o de seu av\u00f4, um contumaz c\u00e9rebro do arb\u00edtrio que deve ser conhecido, debatido e lembrado pelos brasileiros \u2013 jamais exaltado.<\/p>\n<p>Afinal, se a omiss\u00e3o paralisa at\u00e9 a sociedade politicamente organizada, essa san\u00e7\u00e3o moral ficar\u00e1 por conta dos pombos da pra\u00e7a Tamandar\u00e9.<\/p>\n<p><strong>* Luiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 jornalista.<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O J\u00c1 reproduz abaixo artigo do jornalista Luiz Cl\u00e1udio Cunha publicado originalmente no Observat\u00f3rio de Imprensa, em 2011. Antes, reportagem de Evandro \u00c9boli, de O Globo, que entrevistou o candidato Golbery Neto sobre sua vota\u00e7\u00e3o inexpressiva nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es. 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