{"id":79109,"date":"2021-05-05T10:54:07","date_gmt":"2021-05-05T13:54:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/?p=79109"},"modified":"2021-05-05T10:54:07","modified_gmt":"2021-05-05T13:54:07","slug":"a-banalidade-do-mal-na-erosao-etica-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-banalidade-do-mal-na-erosao-etica-da-politica\/","title":{"rendered":"A banalidade do mal na eros\u00e3o \u00e9tica da pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\"><em>Luiz Cl\u00e1udio Cunha*<\/em><\/p>\n<p>O vento constante que soprava do mar sobre a cidade de Os\u00f3rio, no litoral ga\u00facho, distante apenas 15 km das ondas do Oceano Atl\u00e2ntico, amenizou a temperatura de 30\u00b0 na manh\u00e3 daquele s\u00e1bado ensolarado, 10 de abril de 2021. Isso permitiu que o encontro informal dos tr\u00eas pol\u00edticos da c\u00fapula do MDB ga\u00facho fosse ainda mais descontra\u00eddo, trocando o h\u00e1bito sufocante do palet\u00f3 e gravata do asfalto pelos adere\u00e7os mais confort\u00e1veis da praia \u2014 sand\u00e1lias, bermuda, t\u00eanis, camiseta e cal\u00e7a jeans.<\/p>\n<p>Foi uma longa, relaxada conversa de quatro horas coroada por um almo\u00e7o, na casa de veraneio do presidente do partido no Rio Grande do Sul, o deputado federal Alceu Moreira, que recepcionou o prefeito da capital ga\u00facha, Sebasti\u00e3o Melo, e o secret\u00e1rio-geral do MDB, o deputado estadual Gabriel Souza, que tamb\u00e9m preside a Assembleia Legislativa. Ao final, o secret\u00e1rio Souza resumiu o teor do encontro para o rep\u00f3rter Paulo Eg\u00eddio com uma frase crua e c\u00ednica que resume a inevit\u00e1vel decad\u00eancia moral daquele que foi o mais prestigiado partido da hist\u00f3ria pol\u00edtica ga\u00facha: \u201cOK ter filiados adeptos ao bolsonarismo, mas o MDB nunca foi bolsonarista. O apoio ao Bolsonaro foi um momento t\u00e1tico eleitoral de 2018\u201d, confessou candidamente o presidente da Assembleia ga\u00facha.<\/p>\n<p>A frase foi publicada na edi\u00e7\u00e3o virtual de domingo, 11, da mais importante colunista pol\u00edtica do Estado, Rosane de Oliveira, no jornal de maior prest\u00edgio do Sul, a <em>Zero Hora<\/em>, sob um t\u00edtulo ameno como a temperatura da praia: \u201cEm almo\u00e7o no litoral, l\u00edderes do MDB ga\u00facho concordam em posicionar o partido ao centro\u201d. Apesar da gravidade da confiss\u00e3o, n\u00e3o se registrou nenhum abalo s\u00edsmico no Estado, que engoliu em seco, sem qualquer rea\u00e7\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o ou indigna\u00e7\u00e3o a palavra que, mais do que tudo, soava como uma autoconfiss\u00e3o. \u00a0<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Os chefes maiores do MDB sulista admitiam ousadamente, enfim, que era OK ter adeptos do bolsonarismo entre seus filiados, uma brutal contradi\u00e7\u00e3o em termos que deveria envergonhar a sigla que carrega, na sua longa hist\u00f3ria, a honra de ter combatido e resistido \u00e0 ditadura sempre louvada pelo capit\u00e3o que arrebatou devotos e ades\u00f5es irrestritas dentro da legenda. Ningu\u00e9m do partido reclamou, nem se sentiu injuriado pela gentil admiss\u00e3o de que, OK, um filiado do MDB velho de guerra agora, de repente, poderia ser um assumido bolsonarista!&#8230;<\/p>\n<p class=\"intertit\">Assustadoramente normal<\/p>\n<p>O prefeito, o presidente do partido e o seu secret\u00e1rio-geral, nas suas levianas reflex\u00f5es \u2013 t\u00e3o despojadas quanto os trajes praianos que vestiam \u2013 exprimiam na ess\u00eancia a \u201cbanalidade do mal\u201d, express\u00e3o definida seis d\u00e9cadas atr\u00e1s pela fil\u00f3sofa e pensadora pol\u00edtica Hannah Arendt (1906-1975), em seu trabalho de maior repercuss\u00e3o como jornalista: a s\u00e9rie de cinco artigos que publicou, entre fevereiro e mar\u00e7o de 1963, na renomada revista <em>The New Yorker, <\/em>sobre o ju\u00edzo em Jerusal\u00e9m em 1962 do tenente-coronel Adolf Eichmann, sequestrado dois anos antes na Argentina pelo servi\u00e7o secreto de Israel. Coordenador e gerente do Holocausto nazista que exterminou seis milh\u00f5es de judeus, ele foi julgado num processo de cinco meses, condenado e enforcado na madrugada de 1\u00ba de junho de 1962. O conjunto de cinco artigos foi transformado, no ano seguinte, no livro mais popular da ativa vida intelectual de Arendt: <em>Eichmann em Jerusal\u00e9m \u2013 um relato sobre a banalidade do mal. \u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79097\" aria-describedby=\"caption-attachment-79097\" style=\"width: 993px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79097\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem02.jpg\" alt=\"\" width=\"993\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem02.jpg 993w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem02-300x119.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem02-768x304.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 993px) 100vw, 993px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79097\" class=\"wp-caption-text\">Hanna Arendt viu em Eichmann o que Pedro Simon n\u00e3o viu em Jair Bolsonaro: a banalidade do mal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao saber do iminente julgamento de Eichmann, Arendt se ofereceu \u00e0 revista para cobrir o processo que testaria, na pr\u00e1tica, a teoria por ela desenvolvida em seu primeiro e mais aclamado ensaio, <em>As origens do totalitarismo, <\/em>de 1951. Ali, examinava as ra\u00edzes do Nazismo e do Stalinismo e os fundamentos de \u201cuma nova forma de governo\u201d, o Totalitarismo, que diferia essencialmente das outras tr\u00eas formas conhecidas de opress\u00e3o \u2013 o despotismo, a tirania e a ditadura. Em Jerusal\u00e9m, Arendt imaginava ter a chance de ver a justi\u00e7a administrada ao homem de perfil totalit\u00e1rio sobre o qual ela havia escrito.<\/p>\n<p>Mais do que uma pensadora original, Hanna Arendt era, tamb\u00e9m, uma sobrevivente do Holocausto gerenciado por Eichmann. Judia alem\u00e3 de nascimento, escapou duas vezes das garras da Gestapo. Na Berlim radicalizada de 1933, no alvorecer do nazismo, denunciada por um livreiro por propaganda contra o Reich, ela e a m\u00e3e foram presas por oito dias. Dali escapuliu e procurou ref\u00fagio em Paris, mas acabou presa outra vez e internada no sul da Fran\u00e7a, em Gurs, um antigo centro de refugiados da Guerra Civil Espanhola que, sob a ocupa\u00e7\u00e3o nazista, virou um campo de concentra\u00e7\u00e3o para judeus n\u00e3o-franceses e inimigos do regime colaboracionista de Vichy. Quando conseguiu escapar dali, junto com a m\u00e3e e o marido, Arendt cruzou a Espanha rumo a Lisboa, de onde alcan\u00e7ou sua nova p\u00e1tria em Nova York, em maio de 1941.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas depois, ao publicar seu relato sobre o impacto de ver Eichmann ao vivo no tribunal, Arendt confessou ter ficado impressionada, certamente surpresa, com a inesperada imagem de vulgaridade e o comportamento daquele homem meio calvo, que parecia apenas um med\u00edocre burocrata, at\u00e9 brando, em contraste com o horror dos crimes terr\u00edveis de que foi acusado. \u201cEichmann era terrivelmente, assustadoramente normal\u201d, espantou-se ela.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Essa insidiosa, maligna banalidade anotada nos anos 1960 acabou se infiltrando, contaminando, conspurcando em 2018 um dos lugares mais admirados do Brasil pela for\u00e7a de seu povo, pela beleza de sua terra, pelo valor de sua hist\u00f3ria pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural: o Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A naturalidade do Bem<\/p>\n<p>Delimitada pelo Imp\u00e9rio no in\u00edcio do S\u00e9culo 19, a velha Capitania de S\u00e3o Pedro al\u00e7ou-se duas d\u00e9cadas depois \u00e0 Prov\u00edncia e, com a Rep\u00fablica, transformou-se em Estado, hoje com n\u00fameros superlativos. Sexto mais populoso do pa\u00eds \u2014 com mais de 11 milh\u00f5es de habitantes (equivalente a uma B\u00e9lgica) espalhados por 281 mil km\u00b2 (do tamanho do Equador) onde se espraiam os pampas de largos horizontes, os campos verde-amarelo mansamente ondulados de milho e soja e as suaves colinas da serra perfumadas pelos vinhedos, hort\u00eansias e flores de bergamota \u2014, o Rio Grande do Sul ostenta \u00edndices invej\u00e1veis para um pa\u00eds t\u00e3o desigual. Tem a 4\u00aa melhor taxa de alfabetiza\u00e7\u00e3o (compar\u00e1vel a Singapura), \u00e9 o 7\u00ba com mais estudantes de n\u00edvel superior completo (quase 10% da popula\u00e7\u00e3o), alcan\u00e7a a 4\u00aa posi\u00e7\u00e3o em renda <em>per capita<\/em> (Porto Alegre \u00e9 a 2\u00aa capital, s\u00f3 atr\u00e1s de Vit\u00f3ria) e atinge o 4\u00ba posto no ranking do PIB nacional.<\/p>\n<p>Aos habitantes originais das tribos Charrua e Minuano juntaram-se os africanos e portugueses, mesclados com os castelhanos que porejavam pelas fronteiras com os vizinhos do Cone Sul, refor\u00e7ados pela linhagem laboriosa dos imigrantes italianos e alem\u00e3es que come\u00e7aram a chegar da Europa no final do S\u00e9culo 19.\u00a0 Esse caldeir\u00e3o de sangue, talento, interesses e culturas t\u00e3o diversas gerou um povo guerreiro e afirmativo que explica o protagonismo dos ga\u00fachos em movimentos, levantes, rebeli\u00f5es e sagas que moveram, para a frente, a hist\u00f3ria do Estado e do Brasil em dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es Farroupilha (1835-1845), Federalista (1893-1895) e a de 1923 colocaram o Estado ou parcelas dele, em tempos distintos e por raz\u00f5es diferentes, em ousado confronto com as oligarquias locais, a hegemonia federal do Rio de Janeiro e as leis da \u00e9poca que favoreciam o continu\u00edsmo no poder e a depend\u00eancia econ\u00f4mica. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, iniciada no Sul, tirou o pa\u00eds do atraso da Velha Rep\u00fablica do caf\u00e9-com-leite, e a brava Campanha da Legalidade de 1961 conteve o Ex\u00e9rcito golpista em Bras\u00edlia e garantiu a posse constitucional de Jo\u00e3o Goulart na crise entornada pela \u00e9bria ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79098\" aria-describedby=\"caption-attachment-79098\" style=\"width: 901px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79098\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem03.jpg\" alt=\"\" width=\"901\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem03.jpg 1015w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem03-300x95.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem03-768x242.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 901px) 100vw, 901px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79098\" class=\"wp-caption-text\">A Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha e a Campanha da Legalidade: dois s\u00e9culos de gente que reclama, briga e n\u00e3o se agacha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa linda, guerreira hist\u00f3ria de mais de 200 anos dominados pela naturalidade do bem de repente foi confrontada, humilhada pela banalidade do mal que prevaleceu na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2018 no Rio Grande do Sul. Pela maioria dos votos v\u00e1lidos, 63,2% (3,9 milh\u00f5es de eleitores), o capit\u00e3o Jair Bolsonaro teve quase o dobro de seu opositor no segundo turno, o professor de ci\u00eancia pol\u00edtica da USP Fernando Haddad, com 36,7% (2,2 milh\u00f5es). O tosco e abrutalhado capit\u00e3o venceu o advogado \u2013 mestre em Economia e doutor em Filosofia \u2013 em 407 dos 497 munic\u00edpios ga\u00fachos. Porto Alegre, a 3\u00aa capital do pa\u00eds com menor taxa de analfabetismo (2,18%, atr\u00e1s de Florian\u00f3polis e Curitiba), deu a vit\u00f3ria a Bolsonaro em todas as dez zonas eleitorais da cidade.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o candidato, que no in\u00edcio parecia apenas uma excresc\u00eancia folcl\u00f3rica e nost\u00e1lgica do passado autorit\u00e1rio de 21 anos, acabou dominando cora\u00e7\u00f5es e mentes da maioria dos 8,3 milh\u00f5es de eleitores ga\u00fachos. O resultado final no Rio Grande foi a nona maior vit\u00f3ria estadual de Bolsonaro, que venceu as elei\u00e7\u00f5es do segundo turno em 21 capitais e 16 dos 27 Estados brasileiros, incluindo os tr\u00eas do extremo sul, os de maior n\u00edvel de escolaridade. Em Santa Catarina, que tem a capital mais alfabetizada do pa\u00eds, o capit\u00e3o arrebatou sua segunda maior vit\u00f3ria nacional, com 75% dos votos, tr\u00eas de cada quatro eleitores. No primeiro turno, quando recebeu quase 50 milh\u00f5es de votos no Brasil, Bolsonaro desconcertou os dois principais candidatos a governador no Sul \u2013 Eduardo Leite (PSDB), que teve 35,9%, e Jos\u00e9 Ivo Sartori (MDB), que tentava a reelei\u00e7\u00e3o, com 31,1%.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O <em>frankenstein <\/em>eleitoral<\/p>\n<p>Ambos reafirmaram a \u201cposi\u00e7\u00e3o antipetista\u201d, e tentaram atrair o voto bolsonarista \u2013 um recatado, outro arreganhado.<\/p>\n<p>Leite foi cuidadoso: \u201cOs ga\u00fachos votaram na maioria em Bolsonaro, e eu respeito isso. Sei que apoi\u00e1-lo seria um gesto natural de quem deseja vencer esta elei\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o quero vencer a elei\u00e7\u00e3o e perder a alma. Eu tenho uma posi\u00e7\u00e3o firme: n\u00e3o arredar p\u00e9 dos meus princ\u00edpios e valores. Lamento que ele n\u00e3o tenha feito uma autocr\u00edtica sobre frases e pensamentos que n\u00e3o respeitam a democracia e a exist\u00eancia pac\u00edfica e natural de outros seres humanos\u201d. E mais n\u00e3o disse, nem fez o candidato tucano no resto da campanha.<\/p>\n<p>Sartori foi mais escancarado, irrestrito: \u201cO apoio a Bolsonaro dialoga com a necessidade de combate permanente \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, apoio \u00e0 Lava-Jato, mais seguran\u00e7a e um novo pacto federativo. N\u00e3o \u00e9 hora de omiss\u00e3o\u201d. Sartori, arrebatado, jogou-se no colo do capit\u00e3o j\u00e1 no dia seguinte ao primeiro turno de 7 de outubro, tentando sugar sem rebu\u00e7o a simpatia e o apoio expl\u00edcito dos 3,3 milh\u00f5es de ga\u00fachos (52% dos votos v\u00e1lidos) que optaram por Bolsonaro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Leite, que n\u00e3o falou mais no capit\u00e3o no segundo turno, Sartori rasgou as vestes da compostura e colou-se como uma craca no \u00e1spero rochedo de Bolsonaro. Tentando um equil\u00edbrio inst\u00e1vel na onda conservadora com o seu jacar\u00e9 de arrivismo, o governador chegou ao extremo de juntar sua imagem \u00e0 de Bolsonaro nos cartazes de campanha, gerando um horrendo <em>frankenstein <\/em>eleitoral que n\u00e3o deixava nenhuma margem de hesita\u00e7\u00e3o: \u2018Sartonaro\u2019.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79099\" aria-describedby=\"caption-attachment-79099\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79099\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem04.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem04.jpg 1002w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem04-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem04-768x385.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79099\" class=\"wp-caption-text\">Sartori: no cartaz do terr\u00edvel \u00a0frankenstein eleitoral e com o sil\u00eancio que aben\u00e7oou o mal<\/figcaption><\/figure>\n<p>O malabarismo n\u00e3o deu certo. O jacar\u00e9 de Sartori perdeu o equil\u00edbrio em seu balou\u00e7ante, oportunista adesismo, e afundou na derrota por pouco mais de 420 mil votos (53,6% a 46,3%). O outro grande perdedor foi o l\u00edder maior do MDB ga\u00facho, o ex-senador Pedro Simon, mentor pol\u00edtico de Sartori, um professor de filosofia que Simon arrebanhou para a pol\u00edtica e para o MDB em 1976. Carinhosamente chamado de \u2018Gringo\u2019, como s\u00e3o conhecidos os imigrantes de origem italiana da serra ga\u00facha, Sartori ganhou dez das 13 elei\u00e7\u00f5es que disputou \u2013 incluindo duas para prefeito de Caxias do Sul, terra natal de Simon, e uma para governador. Sua devo\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o ao mentor pol\u00edtico, contudo, n\u00e3o lhe permitiam a iniciativa e a ousadia de assumir por conta pr\u00f3pria o truque do \u201cSartonaro\u201d sem o assentimento pr\u00e9vio do velho senador.<\/p>\n<p>As digitais do envergonhado apoio de Simon ao capit\u00e3o, assim, s\u00e3o percept\u00edveis a olho nu nos grandes cartazes de campanha que, sem qualquer obje\u00e7\u00e3o do l\u00edder m\u00e1ximo do MDB sulista, nivelaram para sempre a figura decente e cordial de Sartori e o retrato do r\u00edspido e indecente Bolsonaro. A prefer\u00eancia de Simon ficou dissimulada at\u00e9 duas semanas antes do segundo turno, em 28 de outubro, quando ele concedeu uma desastrada entrevista ao principal jornal ga\u00facho, a <em>Zero Hora. <\/em>Numa afirma\u00e7\u00e3o surpreendente, de grande repercuss\u00e3o, o maior l\u00edder do MDB anunciou seu \u201capoio cr\u00edtico\u201d a Bolsonaro, um escorreg\u00e3o que colocou em xeque a biografia do ex-senador e tornou gelatinoso o seu p\u00e9treo compromisso com a \u00e9tica.<\/p>\n<p>Emparedado por Carlos Rollsing, um jovem e talentoso rep\u00f3rter de 35 anos, o veterano pol\u00edtico ent\u00e3o com 88 anos chegou ao extremo de implorar pelo que \u00e9 imposs\u00edvel a um jornalista s\u00e9rio: n\u00e3o fazer a pergunta que deve ser feita. Um trecho desse pat\u00e9tico confronto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Rollsing <\/em>&#8211; <em>Pelo o que entendi da sua manifesta\u00e7\u00e3o, o senhor vai acatar a decis\u00e3o do MDB ga\u00facho de apoiar\u00a0 <\/em><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/ultimas-noticias\/tag\/jair-bolsonaro\/\"><em>Bolsonaro<\/em><\/a><em>, mas fico em d\u00favida se o senhor vai apoiar ele pessoalmente e se vai votar nele. Como ser\u00e1?<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simon &#8211; Eu vou ficar fora da campanha. N\u00e3o participo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Rollsing <\/em>&#8211; <em>O que o senhor vai fazer ent\u00e3o? O que significa apoiar criticamente?<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simon &#8211; Eu n\u00e3o sei, respeito a decis\u00e3o do partido, est\u00e1 feito, mas eu fico fora da campanha.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Rollsing &#8211;<\/em> <em>N\u00e3o \u00e9 um apoio expl\u00edcito ent\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simon &#8211; \u00c9 um apoio cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Rollsing &#8211;<\/em> <em>E o que significa um apoio cr\u00edtico?<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simon &#8211; N\u00e3o vou participar da campanha. Vou fazer essas an\u00e1lises de um e de outro lado, que eu acho que devem ser feitas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Rollsing <\/em>&#8211; <em>Mas o senhor vai votar no candidato\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/ultimas-noticias\/tag\/jair-bolsonaro\/\"><em>Bolsonaro<\/em><\/a><em>?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simon &#8211; N\u00e3o me faz essa pergunta\u00a0<em>(risos)<\/em>. Eu pe\u00e7o, por favor, que n\u00e3o me fa\u00e7a essa pergunta.<\/p>\n<p>O claudicante, err\u00e1tico desempenho do ex-senador diante do rep\u00f3rter incisivo mostra suas v\u00edsceras na resposta seguinte, que prova o desconcerto interior que j\u00e1 consumia Simon em d\u00favidas e remorsos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Rollsing<\/em> &#8211; <em>O senhor acha que esse apoio ao\u00a0Bolsonaro\u00a0agora, que tem saudosismo da ditadura e j\u00e1 relativizou atos como a tortura, \u00e9 coerente com a hist\u00f3ria do senhor e do MDB?<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simon &#8211; N\u00e3o. Acho que hoje, realmente, eu fico me perguntando o que o doutor Ulysses estaria fazendo&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_79100\" aria-describedby=\"caption-attachment-79100\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79100\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem05.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem05.jpg 986w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem05-300x134.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem05-768x343.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79100\" class=\"wp-caption-text\">Rolssing, o rep\u00f3rter incisivo, faz a pergunta certeira: Pedro Simon, acuado, implode a \u00e9tica e afronta a Hist\u00f3ria<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 realmente deplor\u00e1vel ouvir o ex-combativo senador Simon se fazer essa pergunta, inadmiss\u00edvel para quem conviveu intimamente com o principal l\u00edder do MDB por mais de um quarto de s\u00e9culo, no cora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional, inclusive como o estrat\u00e9gico coordenador da campanha das Diretas-J\u00e1 (1983-84). Simon lembra como ningu\u00e9m daquela tarde de 5 de outubro de 1988, fecho glorioso de um ano e meio de debates at\u00e9 chegar \u00e0 promulga\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o. Ali, Ulysses trovejou: \u201cTraidor da Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 traidor da p\u00e1tria&#8230; Temos \u00f3dio \u00e0 ditadura. \u00d3dio e nojo. Amaldi\u00e7oamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e na\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Simon deveria lembrar, portanto, que a figura aberrante a quem dava o seu surpreendente \u201capoio cr\u00edtico\u201d em 2018 era o capit\u00e3o Jair Bolsonaro que, em vez de amaldi\u00e7oar, louva sempre que pode a ditadura que Ulysses e os homens do Bem mais odiavam. O candidato que ganhava o apoio de Simon lamentou v\u00e1rias vezes que sua louvada ditadura tenha torturado e matado de menos, que mais gente deveria ter sido morta, e confessou, triunfal, que torturadores not\u00f3rios eram os seus her\u00f3is e os autores de seus (poucos) livros de cabeceira. Nos seus 32 anos de presen\u00e7a ativa no Senado ao longo de quatro mandatos, desde 1979, Simon coincidiu boa parte de sua vida no Congresso com os sete baldios mandatos de Jair Bolsonaro na C\u00e2mara, eleito deputado federal sete vezes consecutivas a partir de 1990. J\u00e1 deveria ent\u00e3o, sem qualquer apoio, ser um cr\u00edtico severo de Bolsonaro!<\/p>\n<p class=\"intertit\">No f\u00edgado do capit\u00e3o<\/p>\n<p>Bolsonaro nunca deixou de ser um ilustre desconhecido do baix\u00edssimo clero da C\u00e2mara, um parlamentar irrelevante, quase in\u00fatil, que conseguiu aprovar apenas dois projetos e uma emenda em 28 anos ordin\u00e1rios de Parlamento. A emenda do capit\u00e3o-deputado autorizava o uso da fosfoetanolamina, a pol\u00eamica \u201cp\u00edlula do c\u00e2ncer\u201d, sintetizada na d\u00e9cada de 1980 por um qu\u00edmico do interior paulista denunciado por curandeirismo pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em 2016. Um ano antes, a Academia Brasileira de Ci\u00eancia condenou o uso da droga em seres humanos.<\/p>\n<p>Apesar disso, a vis\u00e3o populista de deputados e senadores acabou aprovando uma lei incauta que liberava o uso da p\u00edlula, sem qualquer avalia\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa). A carreira milagreira da \u201cp\u00edlula do c\u00e2ncer\u201d s\u00f3 acabou dissolvida por decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal, que arquivou o pedido de libera\u00e7\u00e3o. Nessa jornada brancale\u00f4nica, o capit\u00e3o Bolsonaro foi um demagogo defensor do clamor popular contra a ci\u00eancia, antecipando o papel atual de charlat\u00e3o, como garoto-propaganda da cloroquina e outras sandices terap\u00eauticas que ele prescreve com o fervor de um cientista maluco.<\/p>\n<p>Mesmo com essa enxovalhada folha corrida, o capit\u00e3o bobalh\u00e3o ganhou o valioso \u201capoio cr\u00edtico\u201d de Pedro Simon. Numa reuni\u00e3o com empres\u00e1rios em 2017 em Porto Alegre, local de resid\u00eancia do ex-senador, Bolsonaro j\u00e1 ensaiava sua candidatura presidencial apresentando sua maior virtude: \u201cSou capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, a minha especialidade \u00e9 matar\u201d. Admirador confesso do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, not\u00f3rio comandante do maior centro de tortura de S\u00e3o Paulo, o DOI-CODI da rua Tutoia, na ditadura, ainda assim Bolsonaro recebeu a estranha ades\u00e3o do ex-senador, mesmo sendo o admirado autor de um texto de forte repercuss\u00e3o publicado pelo jornal <em>O Globo<\/em> em 28 de abril de 2010. Nesse dia o STF julgava uma a\u00e7\u00e3o da OAB que dizia o \u00f3bvio: a anistia do Governo Figueiredo n\u00e3o podia se aplicar aos crimes de tortura \u2013 imprescrit\u00edveis \u2013 praticados pelos agentes da repress\u00e3o durante o regime militar.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do artigo de Simon atingia o capit\u00e3o no f\u00edgado: \u201cN\u00e3o se anistia o nazismo. Nem a tortura\u201d. Numa advert\u00eancia clara, que cabia com perfei\u00e7\u00e3o na ficha de Brilhante Ustra, o her\u00f3i torturador de Bolsonaro, Simon escreveu:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ningu\u00e9m, neste pa\u00eds, tinha ordens para torturar. Nem mesmo o AI-5, a lei mais dura do per\u00edodo mais sangrento do regime de 64, mencionava ou liberava o uso da tortura. Os torturadores t\u00eam algo em comum: eles t\u00eam vergonha do que fizeram. \u00c9 um crime, portanto, sem pai nem m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Anistia n\u00e3o \u00e9 esquecimento, \u00e9 perd\u00e3o. N\u00e3o se pode esquecer o que n\u00e3o se conhece. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode perdoar o que n\u00e3o foi punido &#8211; privil\u00e9gio imaculado de todos os torturadores que ainda existem no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O nazismo n\u00e3o merecia a amn\u00e9sia, muito menos a anistia. A tortura, tamb\u00e9m. [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Punir os torturadores, de hoje e de ontem, n\u00e3o \u00e9 revanchismo. \u00c9 uma obriga\u00e7\u00e3o moral e \u00e9tica de um pa\u00eds que deve olhar sem medo para tr\u00e1s, para encarar sem receios o caminho que tem pela frente.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Vamos lavar e cicatrizar nossas feridas, acatando o pedido da OAB e os clamores de um pa\u00eds consciente de seu passado e confiante em seu futuro.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79101\" aria-describedby=\"caption-attachment-79101\" style=\"width: 955px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79101\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem06.jpg\" alt=\"\" width=\"955\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem06.jpg 955w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem06-300x133.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem06-768x339.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 955px) 100vw, 955px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79101\" class=\"wp-caption-text\">Pedro Simon e seu cr\u00edtico apoio, o capit\u00e3o e seu torturador predileto, o coronel Brilhante Ustra<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o se sabe se Simon, ao melhor estilo FHC, esqueceu o que escreveu, ou obliterou o que pensava. O fato \u00e9 que o texto foi t\u00e3o not\u00e1vel que, logo ap\u00f3s ser recebido na reda\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, o gabinete do senador recebeu em retribui\u00e7\u00e3o um telefonema agradecido do ent\u00e3o diretor de reda\u00e7\u00e3o de <em>O Globo<\/em>, Asc\u00e2nio Seleme, que elogiou: \u201cParab\u00e9ns, senador, pelo senso de oportunidade e pela contund\u00eancia do artigo\u201d. Dezoito anos depois, ao declarar seu inesperado apoio cr\u00edtico ao capit\u00e3o que sempre defendeu a morte, a tortura e os seus executores, o ex-senador mostrou aos seus admiradores que tinha perdido o senso de oportunidade, a contund\u00eancia e a coer\u00eancia.<\/p>\n<p>A admira\u00e7\u00e3o de velhos companheiros da luta contra a ditadura foi gravemente atingida pela s\u00fabita convers\u00e3o de Simon ao Jair Messias da viol\u00eancia e da estupidez. Um dos mais chocados foi um hist\u00f3rico fundador do MDB, o advogado Jo\u00e3o Carlos Bona Garcia, que ingressou na guerrilha aos 17 anos, dois anos ap\u00f3s o golpe de 1964, como militante da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), integrada entre outros por Carlos Lamarca e Dilma Rousseff. Participou de duas a\u00e7\u00f5es da VPR no Sul atacando carros pagadores do Banco do Brasil e do Bradesco. Bona Garcia acabou preso, torturado e, no final de 1970, banido do pa\u00eds quando 70 prisioneiros pol\u00edticos foram libertados depois do sequestro do embaixador su\u00ed\u00e7o Giovanni Enrico B\u00fccher no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas d\u00e9cadas, os caprichos da hist\u00f3ria viraram o mundo de Bona Garcia de cabe\u00e7a para baixo. Na democracia, o subversivo ca\u00e7ado pela repress\u00e3o, odiado pelos militares e desterrado pela ditadura virou subchefe da Casa Civil do governador Pedro Simon, em 1986, e chefe da Casa Civil doze anos depois do governador Ant\u00f4nio Britto. Em 1998, o ex-assaltante de banco tornou-se executivo de banco: foi diretor do Banrisul, o banco estatal ga\u00facho, e presidente do Sindicato dos Bancos do RS. O ex-preso pol\u00edtico Bona Garcia, naquele mesmo ano, foi indicado juiz da justi\u00e7a militar ga\u00facha e, em 2002, o ex-torturado alcan\u00e7ou a presid\u00eancia do Tribunal de Justi\u00e7a Militar do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 elei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>As reviravoltas da vida n\u00e3o fizeram Bona Garcia, como Simon, perder o sentido de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, nem desnortearam seus princ\u00edpios \u00e9ticos, nem turvaram sua mem\u00f3ria. Em 15 de outubro de 2018, quatro dias ap\u00f3s a perturbadora entrevista de Simon \u00e0 <em>Zero Hora<\/em>, Bona Garcia contrariou o seu amigo e companheiro de partido para n\u00e3o contrariar sua pr\u00f3pria consci\u00eancia e sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Condenando o que chamou de \u201ccheque em branco do MDB\u201d ao capit\u00e3o, Bona Garcia, mesmo fazendo cr\u00edticas ao PT, abriu o seu voto em Fernando Haddad. E deu uma explica\u00e7\u00e3o ao rep\u00f3rter Lu\u00eds Eduardo Gomes, do site <em>Sul21<\/em>, que certamente encharcou Simon de vergonha. Disse Bona Garcia, em tons prof\u00e9ticos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Acho que a vida n\u00e3o se restringe a uma elei\u00e7\u00e3o. Porque voc\u00ea vai estar dando um cheque totalmente em branco a um candidato que todo mundo conhece, suas posi\u00e7\u00f5es sempre foram muito ruins para a democracia \u2014 uma pessoa racista, preconceituoso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, apoiou e apoia ainda a ditadura militar que houve no Pa\u00eds, apoiou e apoia a tortura, defende os torturadores. Todo mundo conhece isso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O Bolsonaro tem anos e anos de vida parlamentar e todo mundo conhece a posi\u00e7\u00e3o que ele tem, o que ele pensa sobre todos os problemas da vida nacional.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Do passado, do presente e do que pensa para o futuro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ele pode agora, como \u00e9 \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o, vestir uma roupagem de conciliador, prometer unir o Pa\u00eds, porque ele tamb\u00e9m quer votos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ent\u00e3o, ele vai se apresentar como um moderado para ter os votos do pessoal mais de centro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Agora, a vida dele n\u00e3o \u00e9 essa. O posicionamento dele n\u00e3o \u00e9 esse.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O que ele vai fazer, sabe-se l\u00e1 o que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Mas voc\u00ea n\u00e3o pode comprar o Bolsonaro pelo que ele foi a vida toda.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79102\" aria-describedby=\"caption-attachment-79102\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79102\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem07.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem07.jpg 916w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem07-300x111.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem07-768x284.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79102\" class=\"wp-caption-text\">Simon ficou com Bolsonaro, Bona Garcia e Brum Torres ficaram com a \u00e9tica<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma nova e lamentada baixa nas fileiras hist\u00f3ricas do MDB veio com o protesto veemente de outro fundador do partido, o fil\u00f3sofo Jo\u00e3o Carlos Brum Torres, que foi secret\u00e1rio estadual de Planejamento dos Governos Ant\u00f4nio Britto (1995-1999) e Germano Rigotto (2003-2007). Mestre em Filosofia pela Universidade de Paris, doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela USP, com p\u00f3s-doutorado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade de Berkeley (EUA), Brum Torres mostrou, aos 72 anos, o que Simon n\u00e3o demonstrou aos 88: consci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Cinco dias ap\u00f3s a desastrada entrevista do ex-senador, e um dia ap\u00f3s o p\u00fablico pux\u00e3o de orelhas de Bona Garcia, Brum Torres avan\u00e7ou o sinal e, em protesto veemente, anunciou sua desfilia\u00e7\u00e3o do MDB, o \u00fanico partido de sua vida.<\/p>\n<p>Saiu com requintes de crueldade, explicando:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Vou sair porque achei grotesco o\u00a0<a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/politica\/eleicoes\/noticia\/2018\/10\/mdb-de-sartori-decide-apoiar-bolsonaro-no-segundo-turno-cjn0jajaq036601rx3osgwy2g.html\">MDB sair correndo para se atirar nos bra\u00e7os de Bolsonaro.\u00a0<\/a><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Pode ter sido pragmatismo eleitoral, mas para tudo existe limite.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Um homem\u00a0que escolhe como livro de cabeceira a obra de um torturador como Brilhante Ustra contraria os princ\u00edpios nos quais eu acredito.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Pedro Simon levou 32 anos para construir, em quatro mandatos consecutivos de senador em Bras\u00edlia, uma merecida m\u00edstica de campe\u00e3o da \u00e9tica, de cr\u00edtico do regime militar, de inimigo da corrup\u00e7\u00e3o, de arauto contra a impunidade, de pregoeiro da luta contra todas as injusti\u00e7as, escorado em fundas convic\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas e sincera devo\u00e7\u00e3o franciscana.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O show do ectoplasma<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m definiu melhor o dram\u00e1tico, teatral contorcionismo gestual de Simon na tribuna, no palanque e nas palestras do que o seu velho parceiro de pol\u00edtica, Ulysses Guimar\u00e3es, na \u201cOde ao Campe\u00e3o\u201d, publicada em um livro biogr\u00e1fico:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">H\u00e1 bons oradores, populares ou parlamentares.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Simultaneamente, bom no palanque e bom na tribuna, no Brasil s\u00f3 conhe\u00e7o um: Pedro Simon.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">No palanque, fica em transe.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">D\u00e1 \u2018show\u2019, m\u00e1gica sess\u00e3o de ectoplasma.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Possesso, funde-se com a multid\u00e3o, rege o sil\u00eancio e o aplauso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Fala com a goela, com os olhos, com as m\u00e3os, com o t\u00f3rax convulso, baila com as pernas. Campe\u00e3o da tribuna e do microfone.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79103\" aria-describedby=\"caption-attachment-79103\" style=\"width: 978px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79103\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem08.jpg\" alt=\"\" width=\"978\" height=\"669\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem08.jpg 978w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem08-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem08-768x525.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 978px) 100vw, 978px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79103\" class=\"wp-caption-text\">Simon, por Ulysses: \u201cshow, ectoplasma, transe, possesso, fala com a goela, os olhos, as m\u00e3os, o t\u00f3rax convulso\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em dezembro de 1976, ainda como deputado estadual e presidente do MDB ga\u00facho, Simon fez o discurso mais emotivo e forte do enterro de Jo\u00e3o Goulart, na volta derradeira a S\u00e3o Borja, sua terra natal, doze anos depois do golpe militar de 1964 \u2014 o golpe sempre louvado pelo capit\u00e3o que Simon aben\u00e7oou como candidato em 2018. \u00danico presidente da Hist\u00f3ria brasileira a morrer no ex\u00edlio, Jango incomodava at\u00e9 mesmo num caix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cJango era um grande estorvo para os militares, eles n\u00e3o queriam que ele voltasse nem morto. Jango era querido pelo povo. Havia uma multid\u00e3o espont\u00e2nea acompanhando seu caix\u00e3o quando chegou a S\u00e3o Borja. A multid\u00e3o se amontoou, baixou o caix\u00e3o do carro funer\u00e1rio e o levou para a igreja, desafiando aos militares que queriam enterr\u00e1-lo \u00e0s pressas. O povo n\u00e3o parecia ter medo\u201d, lembrou Simon 37 anos depois do enterro ao rep\u00f3rter Dar\u00edo Pignotti, do jornal argentino <em>P\u00e1gina 12<\/em>.<\/p>\n<p>Simon revelou ao jornal de Buenos Aires que, antes do sepultamento apressado, procurou o comandante do III Ex\u00e9rcito em Porto Alegre, general Fernando Belfort Bethlem, solicitando uma aut\u00f3psia no corpo do presidente. O general, sem dar maiores explica\u00e7\u00f5es, recusou o pedido.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> Hoje, o Brasil ainda espera pela aut\u00f3psia do voto de Simon em Bolsonaro, capaz de dissecar as v\u00edsceras que revelem as raz\u00f5es mais entranhadas dessa carcomida op\u00e7\u00e3o eleitoral do velho senador.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79104\" aria-describedby=\"caption-attachment-79104\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79104\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem09.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem09.jpg 958w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem09-300x132.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem09-768x338.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79104\" class=\"wp-caption-text\">Simon em S\u00e3o Borja, 1976, no enterro de Jango:\u00a0 o auge da emo\u00e7\u00e3o. Gen. Bethlem: sem aut\u00f3psia<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como naquele dia sombrio em S\u00e3o Borja, os brasileiros se acostumaram anos depois a acompanhar semanalmente em Bras\u00edlia, pelas imagens da TV Senado, as teatrais, perform\u00e1ticas exibi\u00e7\u00f5es de Simon na tribuna do Senado, falando sobre tudo e sobre todos. Geralmente discursava \u00e0s segundas e sextas-feiras, quando os outros senadores ainda n\u00e3o tinham chegado ou j\u00e1 haviam deixado a capital, e o microfone era destravado para as longas, fluviais interven\u00e7\u00f5es do senador ga\u00facho, liberado da ditadura do rel\u00f3gio e das restri\u00e7\u00f5es do regimento da casa.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O sil\u00eancio de cemit\u00e9rio<\/p>\n<p>\u00c9 natural, portanto, que os brasileiros estranhem o inusitado, estrondoso sil\u00eancio que o habitualmente loquaz pol\u00edtico ga\u00facho, mesmo sem tribuna, mantenha nos \u00faltimos dois anos, os mais trepidantes e assustadores desde o fim da ditadura em 1985. A aberrante presid\u00eancia do capit\u00e3o Jair Bolsonaro, regalado antes da elei\u00e7\u00e3o com o expl\u00edcito apoio cr\u00edtico do sempre rigoroso Simon, \u00e9 um prato cheio para a l\u00edngua afiada do ex-senador. Seja pela economia destrambelhada de seu ministro Paulo Guedes, ou pela aloprada pol\u00edtica de combate ao \u2018globalismo marxista\u2019 do ex-chanceler Ernesto Ara\u00fajo, ou pela gest\u00e3o piroman\u00edaca do ministro que derruba florestas e polui o meio-ambiente, Ricardo Salles.<\/p>\n<p>Junte-se a isso a l\u00edngua solta e o racioc\u00ednio travado do pior presidente da Rep\u00fablica brasileira, hoje o chefe de Estado mais pol\u00eamico e detestado no mundo, por sua figura tosca, ignorante, rombuda, bo\u00e7al, que ataca mulheres, ofende jornalistas, afronta magistrados, destrata governadores e prefeitos, prega o armamentismo, incentiva os bandoleiros milicianos, alimenta o fundamentalismo religioso, desacata o bom-senso, deprime os brasileiros e envergonha o Brasil no mundo.<\/p>\n<p>Tudo isso, al\u00e9m da doentia, neurast\u00eanica avers\u00e3o de Bolsonaro \u00e0 ci\u00eancia, \u00e0 medicina e \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas dos especialistas \u2013 como o uso de m\u00e1scara e o respeito ao distanciamento social \u2013 no combate \u00e0 maior crise sanit\u00e1ria da hist\u00f3ria. Mais do que folcl\u00f3rica, sua esquizofr\u00eanica obsess\u00e3o pela cloroquina e outras nulidades terap\u00eauticas se soma \u00e0 absoluta letargia pelo c\u00edrculo de morte e dor que se alastra, sem controle, pelo pa\u00eds angustiado, sitiado pelo Covid-19 e pela in\u00e9rcia de um governo abilolado.<\/p>\n<p>A falta de empatia do capit\u00e3o, fator marcante de sua personalidade psicopata, mas previs\u00edvel em um declarado \u201cespecialista em matar\u201d, ficou ainda mais flagrante na quinta-feira, 29 de abril de 2021, quando o Brasil ultrapassou a dolorosa marca dos 400 mil mortos \u2013 o segundo maior do mundo, s\u00f3 atr\u00e1s dos Estados Unidos. Como sempre, um detalhe que trombou com o sil\u00eancio p\u00e9treo de Bolsonaro, fiel ao seu mantra favorito: \u201cE da\u00ed? \u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_79105\" aria-describedby=\"caption-attachment-79105\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79105\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem10.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem10.jpg 1013w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem10-300x109.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem10-768x280.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79105\" class=\"wp-caption-text\">Pedro Simon e a gargalhada demente de Jair Bolsonaro: o mesmo e cruel sil\u00eancio de cemit\u00e9rio de 400 mil vidas<\/figcaption><\/figure>\n<p>O m\u00f3rbido mutismo do capit\u00e3o, diante de tanta morte, j\u00e1 n\u00e3o assombra mais ningu\u00e9m, todos habituados ao riso catat\u00f4nico, \u00e0 gargalhada convulsiva que Bolsonaro se deleita em exibir na propor\u00e7\u00e3o em que cresce a escala de mortos. O que espanta, de fato, \u00e9 que toda essa trag\u00e9dia humanit\u00e1ria conflui para o sil\u00eancio solid\u00e1rio de quem nunca se calou, de quem sempre tudo falou: Pedro Simon. N\u00e3o seria por falta de assunto, com certeza, que o velho senador se calaria agora, diante da pauta irrecus\u00e1vel de sandices e patifarias que se renova diariamente no desgoverno Bolsonaro. A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o para a c\u00famplice pasmaceira de Simon \u00e9 que ele continua um passivo ref\u00e9m de seu apoio cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Cr\u00edtico, esse apoio nunca foi, diante de tanta coisa a ser criticada e sempre sufocada. O apoio, apesar de tudo isso, persiste pelo sil\u00eancio teimoso, inexplic\u00e1vel, que agora trava a l\u00edngua do \u201cex-Simon\u201d, conforme a ferina defini\u00e7\u00e3o que o senador um dia recebeu do jornalista Josias de Souza, colunista do UOL e da <em>Folha de S.Paulo. <\/em>Para um pol\u00edtico que se notabilizou durante tanto tempo como o grilo falante da consci\u00eancia nacional, o gritante mutismo de Pedro Simon simboliza a eros\u00e3o \u00e9tica que hoje corr\u00f3i a figura p\u00fablica que, no passado, foi o retrato tonitruante da oposi\u00e7\u00e3o mais altiva, corajosa, intimorata contra a ditadura. O atual comportamento fl\u00e1cido do ex-senador, diante de tanta iniquidade, contaminou a dobradi\u00e7a reuni\u00e3o da c\u00fapula do MDB em Os\u00f3rio, no in\u00edcio de abril, que apenas reflete a licenciosa ader\u00eancia de Simon a Bolsonaro.<\/p>\n<p>\u00c9 triste ver, num personagem t\u00e3o carism\u00e1tico da pol\u00edtica brasileira, a indecis\u00e3o ou a imprecis\u00e3o de atitudes que degeneram sua imagem p\u00fablica. \u00c9 mais comum que grandes l\u00edderes, \u00e0 medida que envelhe\u00e7am, se tornem mais s\u00e1bios, mais transcendentais, mais decisivos.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A alian\u00e7a com o dem\u00f4nio<\/p>\n<p>Pedro Simon era um guri, em junho de 1941, com apenas 11 anos completados cinco meses antes. Naquele ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio norte, a noite abafada de s\u00e1bado prometia um domingo quente na fronteira oriental da Pol\u00f4nia, invadida dois anos antes pelas tropas de Hitler, no in\u00edcio das hostilidades da II Guerra Mundial (1939-1945). O inferno vivido pelos poloneses escancarou-se, ainda pior, para os sovi\u00e9ticos que viviam nas rep\u00fablicas da Ucr\u00e2nia, Belarus, Litu\u00e2nia e Let\u00f4nia, \u00e0s 3h15 da madrugada de 22 de junho de 1941, quando uma barragem de artilharia clareou a escurid\u00e3o de todas as fronteiras com fogo e p\u00f3lvora, dando in\u00edcio \u00e0 maior opera\u00e7\u00e3o militar da Hist\u00f3ria \u2014 a invas\u00e3o nazista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Para essa empreitada, Hitler mobilizou nove ex\u00e9rcitos, 225 divis\u00f5es, 10 mil tanques, 4 mil ca\u00e7as e bombardeiros, 750 mil cavalos e 4,5 milh\u00f5es de homens \u2014\u00a0 uma for\u00e7a militar dez vezes maior do que o <em>Grande Arm\u00e9e <\/em>que Napole\u00e3o reuniu em 1812 para o frustrado plano de conquistar a R\u00fassia do imperador Alexandre I.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Ao raiar daquela manh\u00e3 de domingo, 22 de junho, o secret\u00e1rio particular John Colville, diante da import\u00e2ncia da not\u00edcia, ousou despertar o premier ingl\u00eas Winston Churchill na resid\u00eancia oficial de Downing Street, 10, para confirmar a invas\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Desde a v\u00e9spera seu chefe recebia nervosas informa\u00e7\u00f5es da Intelig\u00eancia brit\u00e2nica sobre a crescente concentra\u00e7\u00e3o de tropas alem\u00e3s na fronteira.<\/p>\n<p>Ao ouvir a boa nova, que trazia St\u00e1lin para a alian\u00e7a contra Hitler, Churchill respondeu com um largo sorriso de satisfa\u00e7\u00e3o. Era assim mesmo uma rea\u00e7\u00e3o surpreendente do principal l\u00edder conservador do mundo, que construiu sua carreira pol\u00edtica como hist\u00f3rico advers\u00e1rio das esquerdas e, principalmente, dos bolchevistas. \u00c0 noite, em um discurso especial no r\u00e1dio pelo poderoso microfone da BBC, o <em>bulldog<\/em> brit\u00e2nico refor\u00e7ou para o mundo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Ningu\u00e9m foi um oponente mais consistente do comunismo nos \u00faltimos vinte e cinco anos. N\u00e3o direi nenhuma palavra do que falei sobre isso. Mas tudo isso se desvanece diante do espet\u00e1culo que agora se desenrola. O passado, com seus crimes, suas loucuras, suas trag\u00e9dias, desaparece &#8230; O perigo russo \u00e9, portanto, nosso perigo, e o perigo dos Estados Unidos, assim como a causa de qualquer luta russa por um lar \u00e9 a causa da liberdade de homens e povos livres em todos os quadrantes do globo.<\/p>\n<p>Churchill n\u00e3o repetiu no r\u00e1dio o que dissera a Colville, logo ap\u00f3s ser informado do in\u00edcio da grande invas\u00e3o. Com o bom-humor que o caracterizava, refor\u00e7ando a gravidade hist\u00f3rica do momento, o primeiro-ministro ingl\u00eas confidenciou ao seu discreto secret\u00e1rio privado:<\/p>\n<p>\u2014 Se Hitler invadisse o inferno, eu faria pelo menos uma refer\u00eancia favor\u00e1vel ao diabo na C\u00e2mara dos Comuns!<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_79106\" aria-describedby=\"caption-attachment-79106\" style=\"width: 986px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79106\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem11.jpg\" alt=\"\" width=\"986\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem11.jpg 986w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem11-300x90.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem11-768x230.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 986px) 100vw, 986px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79106\" class=\"wp-caption-text\">Winston Churchill, Pedro Simon e o dem\u00f4nio: um \u2018favor\u00e1vel\u2019, outro \u2018apoiador cr\u00edtico\u2019<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao fazer essa declara\u00e7\u00e3o privada, Churchill tinha 66 anos \u2014 idade em que Simon, meio s\u00e9culo depois, ainda completava a metade de seu segundo mandato de senador. Naquele momento, mais do que suas idiossincrasias ideol\u00f3gicas, o l\u00edder do Reino Unido mostrava a aguda percep\u00e7\u00e3o e a grandeza hist\u00f3rica que o elevaram \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de maior brit\u00e2nico de todos os tempos, em elei\u00e7\u00e3o promovida em 2002 pela rede BBC \u2013 \u00e0 frente de figuras not\u00f3rias como a Princesa Diana, Charles Darwin, William Shakespeare, Isaac Newton, John Lennon e o almirante Horatio Nelson.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Em julho de 1999, ano em que Simon concluiu seu segundo mandato de senador, o grupo RBS e o jornal <em>Zero Hora <\/em>fizeram uma pesquisa de 1,7 milh\u00e3o de votos coletados em sete semanas, com 360 urnas espalhadas pelo Rio Grande do Sul, para descobrir quem eram os 20 ga\u00fachos mais marcantes do S\u00e9culo 20, o mesmo de Churchill.<\/p>\n<p>Simon n\u00e3o aparece entre os 50 mais votados por seus conterr\u00e2neos.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Entre o Churchill de 1941, com sua calibrada simpatia pelo diabo, e o Simon de 2018, apoiador cr\u00edtico do sat\u00e2nico capit\u00e3o, existe mais do que a sutileza sem\u00e2ntica e a diferen\u00e7a temporal de largos 77 anos. O governante brit\u00e2nico soube reconhecer com determina\u00e7\u00e3o, na dura circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica da guerra, quem era o verdadeiro dem\u00f4nio a ser exorcizado. O ex-senador brasileiro n\u00e3o soube discernir com clareza, na polarizada refrega de uma disputa acesa no cen\u00e1rio eleitoral, quem era o mefistof\u00e9lico vetor da trucul\u00eancia e do autoritarismo.<\/p>\n<p>A mira certeira de Churchill apontou ao mundo quem era o verdadeiro inimigo da liberdade: o ex-cabo Adolf Hitler. A m\u00edope ades\u00e3o de Simon ajudou a camuflar a fantasia verde-oliva de quem era a real amea\u00e7a \u00e0 democracia: o ex-capit\u00e3o Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds de poucas refer\u00eancias \u00e9ticas e raros paradigmas morais, a desastrada declara\u00e7\u00e3o de Pedro Simon, \u00e0s v\u00e9speras de uma incerta disputa eleitoral, funcionou como um crime de lesa-mem\u00f3ria, ou lesa-p\u00e1tria, por dissimular o genu\u00edno abismo que se abria no plano da democracia com a elei\u00e7\u00e3o de um livre atirador de convic\u00e7\u00f5es fascistas, de ide\u00e1rio regressista e promessas extremistas, agravadas pela cong\u00eanita ignor\u00e2ncia e pelo rombudo negacionismo que amplificaram a dor e as mortes na mais grave crise sanit\u00e1ria da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Simon conhecia a folha corrida de Bolsonaro, o que o impedia de conceder seu louvado apoio. O veterano comandante do MDB tem a experi\u00eancia pol\u00edtica para analisar, com a frieza da idade e a sabedoria da vida, o cr\u00edtico desempenho do capit\u00e3o na tr\u00e1gica metade de seu mandato. Assim, a surpreendente, abjeta declara\u00e7\u00e3o eleitoral de Simon, antes do segundo turno de 2018, ficou reduzida ao apoio, sem qualquer valor cr\u00edtico, o que rebaixa e deprime a biografia do senador no ocaso de sua carreira p\u00fablica, no estertor de seus 91 anos de vida, comemorados em 31 de janeiro passado.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O bobalh\u00e3o mascarado na pra\u00e7a<\/p>\n<p>Pedro Simon, que era exemplo de conduta e atitude para jovens que o tinham como farol e linha reta na pol\u00edtica, acabou descarrilando no tramo final de uma jornada que parecia segura e reta. De repente, como se fosse um Ricardo Salles qualquer, o s\u00e1bio senador abriu a s\u00f3lida porteira de \u00e9tica de sua vida p\u00fablica e deixou passar, num atropelo, a boiada da trucul\u00eancia desatinada de uma tropa sem freios e sem ju\u00edzo que segue, bovinamente, o berrante de seu messias. O apoio cr\u00edtico de Simon podava, a partir dali, o receio de quem ainda tinha um certo constrangimento, um pudico recato em declarar seu voto num capit\u00e3o t\u00e3o rugoso, t\u00e3o \u00e1spero, t\u00e3o achavascado. Com a porteira da \u00e9tica escancarada, Simon, ostentando o flamante distintivo de sua pregressa autoridade moral, abriu passagem para a boiada da estupidez bolsonarista.<\/p>\n<p>Nada retrata melhor o est\u00e1gio de apodrecimento da pol\u00edtica bolsonarizada do Rio Grande do Sul do que um fato p\u00fablico e deprimente ocorrido em Porto Alegre, no feriado de quarta-feira, 21 de abril, Dia de Tiradentes. Uma passeata a favor do presidente Bolsonaro acontecia, como de h\u00e1bito, na avenida Goethe, no Parque Moinhos de Vento, bairro de alta classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>De repente, entre as pessoas fantasiadas de verde-e-amarelo, com as tradicionais faixas pedindo golpe de Estado e a ex\u00f3tica \u2018interven\u00e7\u00e3o c\u00edvico-militar com Bolsonaro\u2019, apareceu algo diferente, em tom marrom: um imbecil coberto com uma capa e um capuz em forma de cone e duas aberturas para os olhos. Se a cor fosse branca, seria um perfeito exemplar da Ku Klux Klan, o grupo de supremacistas brancos surgido no sul dos Estados Unidos, logo ap\u00f3s o final da Guerra Civil, em 1865, com seu discurso de \u00f3dio, cruzes em fogo, linchamentos de negros, enforcados e pendurados em \u00e1rvores, e persistente prega\u00e7\u00e3o fascista.<\/p>\n<p>Essa horda de celerados chegou ao pico da agita\u00e7\u00e3o, nos Estados Unidos, logo ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial e antes da Grande Depress\u00e3o, no per\u00edodo de 1920-1925, arrebanhando multid\u00f5es ensandecidas de at\u00e9 4 milh\u00f5es de fan\u00e1ticos. Pois um rid\u00edculo herdeiro deles, nesse feriado de Tiradentes, estava l\u00e1, no endere\u00e7o mais tradicional do bolsonarismo de raiz da capital ga\u00facha. Armado de um microfone, o ex\u00f3tico exemplar do racismo importado, carinhosamente tratado pelos manifestantes como \u2018Carrasco\u2019, bradava na pra\u00e7a do Moinhos de Vento: \u201cO que n\u00f3s viemos fazer aqui, gente? Viemos acabar com o comunismo&#8230; Algu\u00e9m quer o comunismo aqui ainda? \u201d. E os bolsonaristas, divertindo-se com a cena pat\u00e9tica, respondiam num coro desafinado: \u201cN\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3ooooo!\u201d. Em volta do mascarado, nas \u00e1rvores da pra\u00e7a, pendiam bonecos enforcados. Negros, claro.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m da civilizada e branca sociedade de Porto Alegre mostrou p\u00fablica indigna\u00e7\u00e3o ou revolta com essa exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de estupidez \u2013 nem mesmo o ex-senador Pedro Simon. Os \u00fanicos a reclamar foram cinco negros \u2013 os vereadores Bruna Rodrigues e Daiana dos Santos (do PCdoB), Karen Santos e Matheus Gomes (do PSOL) e Reginete Bispo (do PT) \u2013, integrantes da bancada afrodescendente da C\u00e2mara Municipal de Porto Alegre, que na sexta-feira, 23, registraram um boletim de ocorr\u00eancia contra os organizadores da manifesta\u00e7\u00e3o na Delegacia de Pol\u00edcia de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79107\" aria-describedby=\"caption-attachment-79107\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79107\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem12.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem12.jpg 998w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem12-300x102.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem12-768x260.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79107\" class=\"wp-caption-text\">Porto Alegre: um imbecil, fantasiado de Ku Klux Klan, replica o racismo made in USA, com a marca da SS nazista<\/figcaption><\/figure>\n<p>O grau de eros\u00e3o \u00e9tica da pol\u00edtica no sul do pa\u00eds, como em outras capitais e Estados brasileiros, pode ser constatado pela naturalidade com que um bobalh\u00e3o, fantasiado com a roupa ex\u00f3tica de um movimento estrangeiro, racista e radical, aparece numa pra\u00e7a tradicional de Porto Alegre e faz livremente, sem qualquer contesta\u00e7\u00e3o, sua prega\u00e7\u00e3o de \u00f3dio, agora mais preocupado com os comunistas do que com os negros. A brandura com que se recebe tais manifesta\u00e7\u00f5es de estupidez d\u00e1 uma boa medida do grau de letargia ou apatia com que a sociedade, cada vez mais inerte ou c\u00famplice, acata o que antes era repelido com nojo e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 isso explica a sonol\u00eancia da pol\u00edtica ga\u00facha para a manifesta\u00e7\u00e3o da c\u00fapula do MDB, em Os\u00f3rio, admitindo como \u2018OK\u2019 ter bolsonaristas entre os filiados do MDB, legenda que lutou contra a ditadura defendida por Bolsonaro. Uma derramada desfa\u00e7atez que come\u00e7ou l\u00e1 em novembro de 2018, com a c\u00ednica declara\u00e7\u00e3o de Pedro Simon em apoio ao capit\u00e3o da trucul\u00eancia, hoje imp\u00e1vido e galhofeiro, insano e frio diante da morte massiva de 400 mil brasileiros.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A afinidade perturbadora<\/p>\n<p>Nesse sanat\u00f3rio geral em que internaram \u00e0 for\u00e7a o Brasil e seu povo, \u00e9 importante notar as semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as que existem entre as cidades de Os\u00f3rio, em abril de 2021, e Wannsee, em janeiro de 1942.<\/p>\n<p>Os\u00f3rio, no litoral ga\u00facho, \u00e9 conhecida como a \u2018Cidade das Lagoas\u2019, cora\u00e7\u00e3o de uma rede de 23 lagoas, muitas delas interligadas, e a \u2018Cidade dos Bons Ventos\u2019. S\u00e3o eles que amenizam o calor da primavera, compensando o term\u00f4metro elevado mesmo em abril.<\/p>\n<p>Wannsee, 20 km a sudoeste da capital alem\u00e3, Berlim, se derrama placidamente sobre dois lagos, alimentados pelo rio Havel, com um centro de divers\u00f5es aqu\u00e1ticas e uma das praias internas mais extensas da Europa. As divers\u00f5es ali se congelam em janeiro, o m\u00eas mais frio do ano, quando a temperatura chega \u00e0 m\u00e9dia de 3 graus negativos.<\/p>\n<p>A Os\u00f3rio de 2021 \u00e9, portanto, bastante diferente da Wannsee de 1942. Na cidade ga\u00facha, em 10 de abril, tr\u00eas pr\u00f3ceres pol\u00edticos, com as vestes despojadas do clima quente, gastaram quatro horas de uma conversa relaxada e franca, animada por um almo\u00e7o, para carimbar como simples \u201ct\u00e1tica eleitoral\u201d a submiss\u00e3o de um grande partido, de hist\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o, a um aventureiro de vis\u00e3o militarista e credo de extrema-direita na luta pelo supremo cargo de presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Na Wannsee de 1942, um n\u00famero cinco vezes maior, todos homens, com roupas grossas e capas pesadas para enfrentar o frio, se reuniram de forma mais breve e acelerada numa grande mans\u00e3o de tr\u00eas andares, uma <em>villa<\/em>, \u00e0s margens do Grosser Wannsee, o lago maior do distrito. Em vez dos arrastados 240 minutos da quente Os\u00f3rio, o grupo da g\u00e9lida Wannsee resolveu e discutiu suas quest\u00f5es em contados 90 minutos daquele sinistro 20 de janeiro de 1942 .<\/p>\n<p>O mentor do encontro era o tenente-general Reinhard Heydrich, chefe do temido RSHA, o Escrit\u00f3rio Central de Seguran\u00e7a do Reich, que controlava a Gestapo. Ele convocou os 14 homens que seriam os principais respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o, transporte, log\u00edstica e execu\u00e7\u00e3o da chamada \u2018Solu\u00e7\u00e3o Final\u2019, o nome elegante e dissimulado que aqueles executivos da morte davam para a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos judeus da Europa.<\/p>\n<p>Havia ali sete militares, todos integrantes da SS, e oito civis com forma\u00e7\u00e3o de doutorado. Apesar disso, eram todos \u2013 como se gaba o capit\u00e3o Bolsonaro \u2013 especialistas em matar. <em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79108\" aria-describedby=\"caption-attachment-79108\" style=\"width: 987px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-79108\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem13.jpg\" alt=\"\" width=\"987\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem13.jpg 987w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem13-300x124.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2020\/12\/imagem13-768x317.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 987px) 100vw, 987px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-79108\" class=\"wp-caption-text\">A villa do Lago Wannsee: 15 homens d\u00e3o o seu apoio cr\u00edtico \u00e0 \u2018Solu\u00e7\u00e3o Final\u2019 do Holocausto do Reich de Hitler<\/figcaption><\/figure>\n<p>Heydrich convocou para secret\u00e1rio da Confer\u00eancia de Wannsee um met\u00f3dico tenente-coronel da SS que tinha um especial talento para burocracia: Adolf Eichmann, o oficial assustadoramente normal que impressionaria Hannah Arendt duas d\u00e9cadas depois no julgamento de Jerusal\u00e9m. A reuni\u00e3o, de fato, teve o objetivo de unificar todos os departamentos do Reich numa pol\u00edtica integrada de exterm\u00ednio, que j\u00e1 acontecia na pr\u00e1tica. Eram executivos tratando friamente, como o inverno que a\u00e7oitava a <em>villa<\/em> do lado de fora, um plano pan-europeu de genoc\u00eddio. Ao final do encontro, definidos os princ\u00edpios t\u00e9cnicos necess\u00e1rios para o exterm\u00ednio, Heydrich deu a Eichmann as instru\u00e7\u00f5es sobre o que deveria constar da ata da confer\u00eancia: nada verbal, nada expl\u00edcito. \u201cCertas conversas e jarg\u00f5es em excesso tiveram de ser traduzidas por mim em linguagem de escrit\u00f3rio\u201d, reconheceu Eichmann, burocraticamente, no tribunal de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o impl\u00edcita da confer\u00eancia convocada por Heydrich era garantir que, pela simples presen\u00e7a em Wannsee, todos os presentes do mecanismo de morte do Reich fossem c\u00famplices e acess\u00f3rios dos assassinatos que estavam prestes a acontecer. Quando encerrou o encontro, satisfeito com o consenso macabro atingido sem maiores discuss\u00f5es, Heydrich relaxou \u2013 e se aqueceu com um conhaque.<\/p>\n<p>Existem flagrantes diferen\u00e7as na \u00e9poca, no clima, na temperatura, na dura\u00e7\u00e3o, no n\u00famero de participantes e nos objetivos das reuni\u00f5es da brasileira Os\u00f3rio e da germ\u00e2nica Wannsee, distantes 11 mil km uma da outra e separadas por quase 80 anos no tempo.<\/p>\n<p>Mas, existe uma \u00fanica, uma gritante, uma perturbadora afinidade entre a longa conversa de quatro horas dos tr\u00eas chefes do MDB sulista e o r\u00e1pido encontro de 90 minutos dos 15 comandantes da c\u00fapula de execu\u00e7\u00e3o do III Reich. Em Os\u00f3rio e em Wannsee, por raz\u00f5es diversas, por motivos diferentes, por circunst\u00e2ncias muito singulares, sobrevoou o local e seus participantes o espectro assustador que Hannah Arendt detectou em Jerusal\u00e9m: a banalidade do mal.<\/p>\n<p>Na paz, como na guerra, alguns homens lidam com as causas e os efeitos de suas decis\u00f5es anestesiados para as consequ\u00eancias \u00e9ticas e morais que tornam a humanidade melhor ou pior. Por erro de julgamento, por equ\u00edvoco acidental ou por deliberada inten\u00e7\u00e3o, atos e fatos marcam para sempre o destino de pessoas, de grupos, de corpora\u00e7\u00f5es, de Estados e de povos inteiros, definindo a marcha da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nesse processo, o homem sempre perde o passo quando sucumbe \u00e0 banalidade do mal.<\/p>\n<p>E compromete sua humanidade quando \u00e9 corro\u00eddo, por dentro, pelo mal da banalidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><em>*Luiz Cl\u00e1udio Cunha, jornalista, \u00e9 ga\u00facho de Caxias do Sul, <\/em><em>como Pedro Simon, e nunca apoiou Jair Bolsonaro.<br \/>\n<\/em>cunha.luizclaudio@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> ARENDT, Hanna. <em>Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil<\/em>. . Nova York: Viking Press, Penguin Group, 1963, p. 276.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> SIMON, Pedro. \u201cN\u00e3o se anistia o nazismo. Nem a tortura\u201d. <em>O Globo. <\/em>Opini\u00e3o, p. 2. Publicado em 28 de abril de 2010. <a href=\"https:\/\/www.oabrj.org.br\/noticias\/artigo-nao-se-anistia-nazismo-nem-tortura-pedro-simon\">https:\/\/www.oabrj.org.br\/noticias\/artigo-nao-se-anistia-nazismo-nem-tortura-pedro-simon<\/a>. Acesso em 26\/4\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> BONA GARCIA, Jo\u00e3o Carlos. \u201cBona Garcia, fundador do MDB-RS, lamenta apoio a Bolsonaro e abre voto em Haddad\u201d. Entrevista a Lu\u00eds Eduardo Gomes. Publicado no site <em>SUL21<\/em>, em 15\/outubro\/2018. https:\/\/www.sul21.com.br\/entrevistas-2\/2018\/10\/bona-garcia-fundador-do-mdb-rs-lamenta-apoio-a-bolsonaro-e-abre-voto-em-haddad\/ Acesso em 31\/03\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> BRUM TORRES, Jo\u00e3o Carlos. \u201cPor apoiar Bolsonaro, MDB-RS perde um filiado hist\u00f3rico\u201d. In Coluna de Rosane de Oliveira. Publicado em <em>Zero Hora<\/em>, 16\/outubro\/2018. https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/colunistas\/rosane-de-oliveira\/noticia\/2018\/10\/por-apoiar-bolsonaro-mdb-rs-perde-um-filiado-historico-cjnc3yi0d05is01pirxu4i98c.html Acesso em 31\/03\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> DUARTE, Jos\u00e9 Bacchieri. <em>A fascinante hist\u00f3ria de Pedro Simon: Sua vida. Seu tempo.<\/em> \u201cOde ao Campe\u00e3o\u201d, p. 13-15. Porto Alegre: Ed. AGE, 2001.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> PIGNOTTI, Dar\u00edo. \u201cUn testimonio en el caso Goulart\u201d. Publicado no jornal <em>Pagina 12, <\/em>em 13 de dezembro de 2013. <a href=\"https:\/\/www.pagina12.com.ar\/diario\/elmundo\/4-235550-2013-12-13.html\">https:\/\/www.pagina12.com.ar\/diario\/elmundo\/4-235550-2013-12-13.html<\/a><em>. <\/em>Acesso em 21\/01\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> CLAUSEWITZ, Carl Phillip von (1780-1831). <em>A campanha de 1812 na R\u00fassia e as Guerras de Liberta\u00e7\u00e3o de 1813-1815 (Der feldzug 1812 in Russland und die befreiungskriege von 1813-15), <\/em>p.52. Berlim: Ed. F. D\u00fcmmler, 1906.\u00a0 <em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> ZIMMERMAN, Dwight Jon. \u201cChurchill\u2019s Deal with the Devil: the Anglo-Soviet Agreement of 1941. Publicado no <em>Defense Media Network<\/em>, em 12 de julho de 2011. <a href=\"https:\/\/www.defensemedianetwork.com\/stories\/churchills-deal-with-the-devil\/\">https:\/\/www.defensemedianetwork.com\/stories\/churchills-deal-with-the-devil\/<\/a>. Acesso em 23\/04\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a>BBC News, em 21 de agosto de 2002. <em>100 Great British heroes. <\/em>Publicado em ordem alfab\u00e9tica em \u00a0<a href=\"http:\/\/news.bbc.co.uk\/2\/hi\/entertainment\/2208671.stm\"><em>http:\/\/news.bbc.co.uk\/2\/hi\/entertainment\/2208671.stm<\/em><\/a><em>. <\/em>A lista em ordem num\u00e9rica est\u00e1 publicada em <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/100_Greatest_Britons\">https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/100_Greatest_Britons<\/a>. <em>\u00a0<\/em>Acessos em 15\/04\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Entre os 20 mais votados, nomes conhecidos como os dos ex-presidentes Get\u00falio Vargas e Jo\u00e3o Goulart, o poeta M\u00e1rio Quintana, o escritor \u00c9rico Ver\u00edssimo, os cantores Teixeirinha e Elis Regina, a Miss Universo Ieda Maria Vargas e o compositor Lupic\u00ednio Rodrigues. Entre os 50 mais citados, aparecem Leonel Brizola, Luiz Carlos Prestes, os jogadores Tesourinha e Everaldo, o escritor Bar\u00e3o de Itarar\u00e9 e a apresentadora Xuxa.\u00a0 In \u201cLista dos 20 ga\u00fachos que marcaram o s\u00e9culo XX, segundo o jornal <em>Zero Hora<\/em>\u201d. Publicado <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lista_dos_vinte_ga%C3%BAchos_que_marcaram_o_s%C3%A9culo_XX_segundo_o_jornal_Zero_Hora\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lista_dos_vinte_ga%C3%BAchos_que_marcaram_o_s%C3%A9culo_XX_segundo_o_jornal_Zero_Hora<\/a>. Acesso em 15\/04\/2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha* O vento constante que soprava do mar sobre a cidade de Os\u00f3rio, no litoral ga\u00facho, distante apenas 15 km das ondas do Oceano Atl\u00e2ntico, amenizou a temperatura de 30\u00b0 na manh\u00e3 daquele s\u00e1bado ensolarado, 10 de abril de 2021. 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