{"id":79209,"date":"2016-09-20T07:16:19","date_gmt":"2016-09-20T10:16:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=39520"},"modified":"2021-09-09T22:26:15","modified_gmt":"2021-09-10T01:26:15","slug":"porto-alegre-nao-se-rendeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/porto-alegre-nao-se-rendeu\/","title":{"rendered":"S\u00e9rgio da Costa Franco: \u201cPorto Alegre n\u00e3o se rendeu\u201d"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\">Elmar Bones<\/p>\n<figure id=\"attachment_39608\" aria-describedby=\"caption-attachment-39608\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39608 \" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/2009-Franco1.jpg\" alt=\"Trecho de A Cidade Sitiada, livro de S\u00e9rgio da Costa Franco sobre o cerco a Porto Alegre, lan\u00e7ado em setembro de 2000\" width=\"350\" height=\"506\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39608\" class=\"wp-caption-text\">Trecho de A Cidade Sitiada, livro de S\u00e9rgio da Costa Franco sobre o cerco a Porto Alegre, lan\u00e7ado em setembro de 2000<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa hist\u00f3ria ficou encoberta, at\u00e9 que o historiador S\u00e9rgio da Costa Franco encontrou nos arquivos do Instituto Hist\u00f3rico um calhama\u00e7o de mais de 200 p\u00e1ginas manuscritas, que lhe tomou seis meses de trabalho. \u201cFoi uma trabalheira\u201d, diz ele, lembrando o paciente esfor\u00e7o que teve de fazer para decifrar os garranchos de um certo Queir\u00f3s, autor de um di\u00e1rio in\u00e9dito sobre o per\u00edodo em que Porto Alegre esteve sitiada pelos farroupilhas.<\/p>\n<p>A descoberta motivou\u2011o a enfrentar um desafio do qual ele tinha desistido por \u201cfastio\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Partindo das informa\u00e7\u00f5es do di\u00e1rio, ele retomou suas pesquisas para contar o que foram os 1.231 dias em que a cidade viveu sob a amea\u00e7a de escassez e abaixo de bombardeios.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79244 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo-300x132.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"102\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo-300x132.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo.jpg 725w\" sizes=\"(max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Franco recebeu a reportagem do J\u00c1 para esta entrevista exclusiva no dia 13 de julho de 2016.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1 &#8211; O senhor voltou a estudar a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha &#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Eu me aproximei novamente do assunto por causa da hist\u00f3ria de Porto Alegre. O s\u00edtio farroupilha \u00e0 cidade foi um epis\u00f3dio muito importante, influiu no seu desenvolvimento, causou uma paralisia dos neg\u00f3cios durante quatro anos, ent\u00e3o sob este aspecto \u00e9 que interessou. Vi que tinha muita coisa ainda inexplorada&#8230; e o assunto tinha quase virado um tabu.<\/p>\n<p><strong>Como foi o cerco?<\/strong><\/p>\n<p>O s\u00edtio de Porto Alegre nunca mereceu maior aten\u00e7\u00e3o dos historiadores regionais. Este fato \u00e9, de certo modo, compreens\u00edvel. Toda a historiografia do ciclo farroupilha \u00e9 marcada pela devo\u00e7\u00e3o reverencial aos rebeldes, sen\u00e3o por sua apaixonada mitifica\u00e7\u00e3o. Dessa fatal parcialidade provavelmente nunca se livrar\u00e1 a bibliografia hist\u00f3rica rio-grandense, por mais revis\u00f5es que se fa\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O s\u00edtio foi um fracasso&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p>Foi um fracasso militar dos farroupilhas. Depois de perderem a cidade na rea\u00e7\u00e3o de 15 de junho de 1836, os rebeldes nunca mais conseguiram retom\u00e1-la. Mesmo com forte superioridade num\u00e9rica, submetendo os moradores da capital \u00e0 fome e a restri\u00e7\u00f5es diversas, jamais conseguiram dominar a sede provincial. Por isso, a cidade ganhou o t\u00edtulo honor\u00edfico de \u201cleal e valorosa\u201d, outorgado pelo governo Imperial em 1841.<\/p>\n<p><strong>A omiss\u00e3o do cerco ent\u00e3o foi deliberada?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o soaria simp\u00e1tico aos porto-alegrenses o relato dos reiterados canhona\u00e7os e bombardeios com que as for\u00e7as de Bento Gon\u00e7alves, Souza Netto, Bento Manoel e David Canabarro alvejaram repetidamente a cidade, intranq\u00fcilizando e atemorizando sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Que efeitos teve sobre a cidade?<\/strong><\/p>\n<p>Freou a expans\u00e3o da cidade durante v\u00e1rios anos. Equipamentos e servi\u00e7os precisaram conter-se dentro do estreito per\u00edmetro das fortifica\u00e7\u00f5es e trincheiras, e a popula\u00e7\u00e3o rural da periferia viveu submetida a repetidas mudan\u00e7as de senhores sob a ang\u00fastia das requisi\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, das viol\u00eancias pessoais e dos saques. A C\u00e2mara Municipal tinha v\u00e1rios portugueses e foi engra\u00e7ado. Eles deram no p\u00e9, porque os farroupilhas tomaram a cidade e esses vereadores comerciantes portugueses se afastaram com as alega\u00e7\u00f5es mais estranhas. Por exemplo, o Lopo Gon\u00e7alves, fundador da Associa\u00e7\u00e3o Comercial de Porto Alegre, figura importante da cidade, pediu uma licen\u00e7a por tr\u00eas meses para ir aos banhos de mar&#8230;. e se mandou em in\u00edcios de outubro!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-79267 alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/09\/sergio-costa-franco-2-cleber-13072016-e1474167215838-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/09\/sergio-costa-franco-2-cleber-13072016-e1474167215838-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/09\/sergio-costa-franco-2-cleber-13072016-e1474167215838.jpg 544w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p><strong>Por que eles mantiveram o cerco se era in\u00fatil?<\/strong><\/p>\n<p>Taticamente, a manuten\u00e7\u00e3o do s\u00edtio pelos rebeldes teve apenas a efic\u00e1cia de manter numerosas for\u00e7as legalistas retidas na capital, privando-as de tentar o controle militar no interior da prov\u00edncia. O s\u00edtio de Porto Alegre n\u00e3o ilustra os feitos guerreiros dos Bentos e dos Netos, nem os irmana \u00e0 mem\u00f3ria sentimental da capital ga\u00facha. Incoerente, a cidade ergueu monumentos e votou homenagens aos sitiadores que a maltrataram, e esqueceu os soldados, marinheiros e paisanos volunt\u00e1rios que garantiram sua integridade em quatro anos de lutas.<\/p>\n<p><strong>Esse \u00e9 o tema de seu livro?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Ele foi tamb\u00e9m motivado pela recente descoberta de um esquecido di\u00e1rio manuscrito, no qual se narram, passo a passo, as perip\u00e9cias do s\u00edtio entre 1837 e 1838. Tal documento, in\u00e9dito, somado a outros j\u00e1 divulgados h\u00e1 muito tempo, patenteia o quanto foi dram\u00e1tico para a popula\u00e7\u00e3o citadina o cerco que lhe foi imposto, com algumas interrup\u00e7\u00f5es, desde junho de 1836 a dezembro de 1840.<\/p>\n<p><strong>Onde estava esse di\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Eu o encontrei no Instituto Hist\u00f3rico, at\u00e9 copiei \u00e0 m\u00e1quina, me deu um trabalho enorme, porque era um manuscrito de dif\u00edcil leitura. Interessante que a primeira parte desse manuscrito, o Moacyr Flores tinha encontrado e publicou num livrinho, uns anos atr\u00e1s. Mas a parte que ele encontrou era pequena. O que eu encontrei \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o. Me d\u00e1 a impress\u00e3o de que o autor tinha um objetivo jornal\u00edstico, ele devia remeter para o Rio de Janeiro, provavelmente porque, ao fim de alguns cap\u00edtulos, ele fala assim: \u201cSeguiu pela sumaca tal\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quem era o autor do di\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Era um portugu\u00eas que se chamava Barreto Queir\u00f3s. Ele s\u00f3 assina Queir\u00f3s. O Moacyr d\u00e1 como certo esse nome, e na investiga\u00e7\u00e3o que fez diz que o sujeito era secret\u00e1rio do C\u00f4nsul da Sardenha, aqui. O que se identifica nele \u00e9 que era portugu\u00eas e hiper-reacion\u00e1rio, talvez partid\u00e1rio de Dom Miguel, porque \u00e9 contra as Constitui\u00e7\u00f5es, antiliberal. Mas ele registra o dia-a-dia: hoje, chegou o cara vendendo galinha, charque, ent\u00e3o \u00e9 interessante do ponto de vista de um relato do cotidiano.<\/p>\n<p><strong><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39610 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/2009-Franco2.jpg\" alt=\"2009-franco2\" width=\"220\" height=\"385\" \/>Como era esse ambiente?<\/strong><\/p>\n<p>Porto Alegre ficou dividida. Os legalistas reconquistaram a cidade, mas havia o grupo dos partid\u00e1rios do Ara\u00fajo Ribeiro, tio\u2011bisav\u00f4 do deputado Paulo Odone, de tend\u00eancia liberal, inclinado \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o, e outro grupo radical, dos portugueses, que era contr\u00e1rio. Entre eles se digladiavam violentamente pela imprensa, e, no clima da cidade sitiada, as brigas eram ferozes. O portugu\u00eas do di\u00e1rio era dos mais reacion\u00e1rios e suas observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o constantes. Eu tinha pensado em publicar, mas a copidescagem seria t\u00e3o grande que n\u00e3o valia a pena. Depois, ele enchia muita lingui\u00e7a, era linguagem de jornalista mesmo.<\/p>\n<p><strong>Com que freq\u00fc\u00eancia ele escrevia?<\/strong><\/p>\n<p>Todos os dias. Mandava quando havia barco para o Rio, mas escrevia diariamente, textos enormes, at\u00e9 demais, descrevia o dia\u2011a\u2011dia e acrescentava divaga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Eu entreguei a c\u00f3pia ao Instituto Hist\u00f3rico, deu mais de 200 p\u00e1ginas datilografadas. O original era uma ma\u00e7aroca no meio de outros documentos. H\u00e1 outro di\u00e1rio, que foi publicado em 1885 ou 86, de um an\u00f4nimo. Na verdade, era um advogado, Fagundes, que foi provedor da Santa Casa e deputado provincial. Ele escreveu sob o anonimato, mas era um di\u00e1rio dos anos 39 e 40, do final do s\u00edtio. Ent\u00e3o, com o di\u00e1rio do Queir\u00f3s, que se refere a 37 e 38, mais os documentos militares, a troca de correspond\u00eancia e as atas da C\u00e2mara Municipal sobre problemas de desabastecimento e especula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os, com esse conjunto consegui fazer o livro.<\/p>\n<p><strong>Ficou esclarecido o local das fortifica\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>As fortifica\u00e7\u00f5es, sabe-se que eram s\u00f3 trincheiras cavadas, n\u00e3o havia constru\u00e7\u00f5es de alvenaria, nada, salvo alguns baluartes que fizeram para botar canh\u00f5es. Tamb\u00e9m havia os chamados \u201cpontos\u201d artilhados, que eram 16, um pouco mais fortificados, cada um tinha uns dois canh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O s\u00edtio chegou a perturbar a vida da cidade?<\/strong><\/p>\n<p>Ah, sim! A comunica\u00e7\u00e3o toda era via fluvial. O que garantia o abastecimento eram os lanch\u00f5es que iam para S\u00e3o Leopoldo, isso quando os farrapos n\u00e3o estavam dominando aquela regi\u00e3o, da\u00ed n\u00e3o passava nada. No mais, eram opera\u00e7\u00f5es de guerrilha, na dire\u00e7\u00e3o do Gua\u00edba.<\/p>\n<p><strong>Como era a cidade dessa \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p>Em Porto Alegre, viviam funcion\u00e1rios e comerciantes, principalmente. Deviam ser uns 10 mil na \u00e9poca da guerrilha, mas n\u00e3o era t\u00e3o pouca gente. E dois mil homens foram defender as trincheiras, paisanos que n\u00e3o hesitaram&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_39530\" aria-describedby=\"caption-attachment-39530\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39530 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Pintura-a-\u00f3leo-da-primitiva-Santa-Casa-de-Porto-Alegre-de-a.jpg\" alt=\"pintura-a-oleo-da-primitiva-santa-casa-de-porto-alegre-de-a\" width=\"725\" height=\"375\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39530\" class=\"wp-caption-text\">Pintura a \u00f3leo da primitiva Santa Casa de Porto Alegre, de autor desconhecido<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Sobre as causas da Revolu\u00e7\u00e3o, qual \u00e9 a sua conclus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, o primeiro manifesto dos farroupilhas n\u00e3o fala absolutamente em qualquer problema econ\u00f4mico. N\u00e3o h\u00e1 nada. S\u00f3 fala no problema pol\u00edtico, nos presidentes estranhos \u00e0 prov\u00edncia, s\u00f3 isso. Depois, quando houve a proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, no manifesto de 1838, tr\u00eas anos depois, vem a justificativa econ\u00f4mica, j\u00e1 para legitimar a Rep\u00fablica. Aquilo sempre me chamou a aten\u00e7\u00e3o, a argumenta\u00e7\u00e3o a posteriori. Eles queriam mesmo era o poder. Logo ap\u00f3s a Guerra da Cisplatina, Bento Gon\u00e7alves, Bento Manoel e outros haviam sido generais do Ex\u00e9rcito brasileiro, tinham sido mal-sucedidos&#8230; Perderam a guerra, perderam o Uruguai, para eles foi um rev\u00e9s enorme. Eles eram gente da fronteira, acostumados a negociar com a Cisplatina, a ir e vir. Aquilo foi uma forte causa de inconformidade. \u00c9 uma das causas mais quentes da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, a derrota da Cisplatina.<\/p>\n<p><strong>Foi deflagrada por raz\u00f5es pol\u00edticas, ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. A meu ver, no in\u00edcio foram raz\u00f5es estritamente pol\u00edticas. Depois, ent\u00e3o, surge aquela fundamenta\u00e7\u00e3o toda para justificar a declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia. Ali\u00e1s, quem faz aquilo, o manifesto todo \u00e9 do Domingos Jos\u00e9 de Almeida, que de ga\u00facho n\u00e3o tinha nada, era mineiro. A Revolu\u00e7\u00e3o nunca contou com o apoio de Porto Alegre, nem de Rio Grande ou de S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte, as pra\u00e7as do litoral ligadas ao com\u00e9rcio. E o com\u00e9rcio n\u00e3o tinha interesse nenhum naquilo. Os farrapos estavam em completa impopularidade, tanto que meia d\u00fazia de oficiais que estavam presos se organizaram e reconquistaram a cidade. Enfrentaram o cerco dos farrapos e os dominaram, com apenas 200 homens contra mais de 500. Aguentaram porque tinham o apoio popular. E, no final, vieram os populares para as trincheiras. Nisso tamb\u00e9m entrava o medo dos escravos, o ex\u00e9rcito dos farroupilhas era puro negro. No di\u00e1rio desse Queir\u00f3s, ele s\u00f3 fala nisso \u201cos negrinhos voltaram a\u00ed, olha a turma do S\u00e3o Benedito\u201d, era tudo negro. Quando eles davam cifras de pris\u00f5es, elas eram assim: 20 negros e cinco brancos. Os soldados e os lanceiros eram os escravos dos legalistas, que haviam sido recrutados com promessas de liberdade. Claro que a popula\u00e7\u00e3o da cidade tinha medo disso: imagine um ex\u00e9rcito de ex-escravos.<\/p>\n<p><strong>O que fica, hoje, dessa Revolu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Agora \u00e9 um neg\u00f3cio que se incorporou ao imagin\u00e1rio, uma por\u00e7\u00e3o de mitos se acumulou ao longo do tempo. A Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, na verdade, foi uma divis\u00e3o dentro da sociedade. A disputa pelo poder, n\u00e3o era mais do que isso. Eu tenho estudado muito a hist\u00f3ria de Jaguar\u00e3o, que \u00e9 a minha terra, e descubro coisas engra\u00e7adas&#8230; O chefe farroupilha e o chefe legalista da cidade eram vizinhos, moravam no mesmo quarteir\u00e3o. Os p\u00e1tios das casas se encontravam. Eles at\u00e9 morreram na mesma \u00e9poca e pude ver o invent\u00e1rio dos dois. Era semelhante, os dois cheios de escravos.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara Municipal de Jaguar\u00e3o foi a primeira a apoiar a Rep\u00fablica, logo que proclamada. Tinha um vereador que era irm\u00e3o de Bento Gon\u00e7alves, e outros parentes, ent\u00e3o a C\u00e2mara solidarizou-se com a Rep\u00fablica Rio-grandense. Quando de novo se re\u00fanem, em 1845, a mesma C\u00e2mara que tinha prestado solidariedade ao Bento Gon\u00e7alves e \u00e0 Rep\u00fablica Rio-grandense sa\u00fada o Duque de Caxias e agradece a pacifica\u00e7\u00e3o, com um caloroso elogio \u00e0 Caxias. Em seguida, realiza-se a elei\u00e7\u00e3o e v\u00ea-se o seguinte: os que foram declaradamente farrapos tiveram menos votos e os eleitos s\u00e3o gente da nova gera\u00e7\u00e3o, que estavam aparecendo naquele momento.<\/p>\n<p><strong>Sobre o suposto acordo do Canabarro com Caxias, qual a sua vers\u00e3o? A carta forjada seria uma manobra de contra-informa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Mas que os escravos v\u00eam a ser uma pedra no sapato dos Farrapos, isto sim. Eram. Eles tinham a promessa de liberdade e o acordo n\u00e3o sa\u00eda por isso. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 fora de prop\u00f3sito que os Canabarro resolvessem sacrificar os negrinhos&#8230;<\/p>\n<p><strong>Iam buscar os escravos dos advers\u00e1rios para lutar nas suas fileiras em troca de liberdade, mas mantinham os seus.<\/strong><\/p>\n<p>Chamavam os escravos dos advers\u00e1rios, sim. A Constitui\u00e7\u00e3o Farroupilha n\u00e3o aboliu a escravatura, mesmo vindo depois da uruguaia, que aboliu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elmar Bones Essa hist\u00f3ria ficou encoberta, at\u00e9 que o historiador S\u00e9rgio da Costa Franco encontrou nos arquivos do Instituto Hist\u00f3rico um calhama\u00e7o de mais de 200 p\u00e1ginas manuscritas, que lhe tomou seis meses de trabalho. \u201cFoi uma trabalheira\u201d, diz ele, lembrando o paciente esfor\u00e7o que teve de fazer para decifrar os garranchos de um certo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":79266,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[110],"tags":[80,71],"class_list":["post-79209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-republica-riograndense","tag-efeitos","tag-imprensa"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2016\/09\/sergio-costa-franco-5-cleber-13072016-e1474403789863.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79209"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79268,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79209\/revisions\/79268"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}