{"id":79213,"date":"2016-09-19T09:05:41","date_gmt":"2016-09-19T12:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=39046"},"modified":"2021-09-09T23:20:20","modified_gmt":"2021-09-10T02:20:20","slug":"governo-caiu-sem-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/governo-caiu-sem-resistencia\/","title":{"rendered":"Governo caiu sem resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo-300x132.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"102\" \/>Porto Alegre amanheceu deserta, as casas com as janelas fechadas. Homens de Bento Gon\u00e7alves haviam entrado na cidade \u00e0 noite. Uma pequena patrulha, chefiada pelo visconde de Camam\u00fa, havia tentado enfrent\u00e1-los quando alcan\u00e7avam a Ponte da Azenha, mas foi um fiasco. Dois de seus homens foram mortos e o visconde escapou ferido, todo embarrado, com a roupa rasgada, sem uma bota e sem chap\u00e9u. \u201cAo irromper, roto, ensanguentado, esbaforido e s\u00f3, \u00e0s primeiras horas de 20 de setembro no pal\u00e1cio presidencial, o visconde de Camam\u00fa tinha mesmo que deixar todos (&#8230;) completamente espavoridos, como arauto do pavoroso desastre, cuja extens\u00e3o ainda ningu\u00e9m poderia medir, nem mesmo as suas consequ\u00eancias\u201d, anota Wiederspahn.<\/p>\n<figure id=\"attachment_39049\" aria-describedby=\"caption-attachment-39049\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39049 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Jos\u00e9-Eg\u00eddio-Barruda-Visc-de-Camam\u00fa.jpg\" width=\"160\" height=\"223\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39049\" class=\"wp-caption-text\">Visconde de Camamu<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para completar o p\u00e2nico com a chegada do desarvorado visconde, ouviu-se um tiro no pal\u00e1cio. Foi descuido de uma sentinela, mas a confus\u00e3o foi total: \u201c&#8230; todos procuram um abrigo, abandonando a sede do Governo. Fecham-se as portas e janelas, tangem os sinos com o alerta, esbo\u00e7am-se algumas medidas para a defesa da cidade. Arrastam-se algumas pe\u00e7as de artilharia com alarido para proteger a pessoa do presidente. Este faz distribuir granadas de m\u00e3o entre os poucos que ainda o rodeiam, indecisos.\u201d<\/p>\n<p>Quando clareou o dia, os farroupilhas ocupavam pontos estrat\u00e9gicos para impedir a entrada de g\u00eaneros aliment\u00edcios na cidade, achando ainda que o presidente iria resistir. No entanto, as guarni\u00e7\u00f5es locais aderiram aos rebeldes. \u201cVendo minguarem-se cada vez mais os elementos de que ainda poderia dispor, o presidente Fernandes Braga convocou de novo os militares, seus partid\u00e1rios, decidindo concentrar a resist\u00eancia em torno do arsenal, \u00e0 espera de refor\u00e7os. S\u00f3 ent\u00e3o teve ele a consci\u00eancia do abandono em que se achava, pois 17 homens apenas se apresentaram para constituir a sua escolta\u201d, relata Wiederspahn.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Maior revolta depois de Palmares<\/span><\/p>\n<p><em>O poder rebelde chegou a fundar uma rep\u00fablica, mas n\u00e3o conseguiu <\/em><em>dominar a Prov\u00edncia inteira <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o foram dez anos ininterruptos de guerra. \u00c0s vezes, os combates se suspendiam por meses. No inverno, por exemplo, a luta cessava ou se restringia a m\u00ednimos confrontos. A guerra teve tamb\u00e9m diversas fases. Come\u00e7ou como uma rebeli\u00e3o em 20 de setembro de 1835. Tornou-se um confronto armado em fevereiro do ano seguinte. At\u00e9 ent\u00e3o, negociava-se a indica\u00e7\u00e3o de um governador que fosse do agrado dos revoltosos.<\/p>\n<p>Definiu-se como uma revolu\u00e7\u00e3o com a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Rio-grandense em 11 de setembro de 1836. O poder rebelde chegou a proclamar uma na\u00e7\u00e3o independente, mas nunca dominou a Prov\u00edncia inteira, e sua \u201cmais duradoura domina\u00e7\u00e3o\u201d foi na parte sudoeste do Rio Grande do Sul, na regi\u00e3o da campanha, cont\u00edgua \u00e0s rep\u00fablicas do Prata.<\/p>\n<p>\u201cDepois de Palmares, foi o maior movimento armado entre as revoltas internas que o Brasil viveu\u201d, de acordo com Riopardense de Macedo.<\/p>\n<p>Outro historiador, Dante de Laytano, contou \u201c56 encontros b\u00e9licos\u201d ao longo de 3.466 dias de revolu\u00e7\u00e3o, com um saldo estimado entre tr\u00eas mil e cinco mil mortos (h\u00e1 muita diverg\u00eancia entre os pesquisadores quanto a datas e n\u00fameros).<\/p>\n<p>No ponto culminante da guerra, havia quase 20 mil combatentes de ambos os lados.<\/p>\n<p>Com a rendi\u00e7\u00e3o dos rebeldes ga\u00fachos, em 28 de fevereiro de 1845, pela primeira vez, desde a Independ\u00eancia, todo o central.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">\u201c\u00c0s armas, cidad\u00e3os! \u00c0s armas, que a P\u00e1tria se acha em perigo!\u201d<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_39055\" aria-describedby=\"caption-attachment-39055\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39055\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/tela-fogo-no-pasto-de-Guido-Mondin.jpg\" alt=\"Tela Fogo no pasto, de Guido Mondin\" width=\"725\" height=\"594\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39055\" class=\"wp-caption-text\">Tela Fogo no pasto, de Guido Mondin<\/figcaption><\/figure>\n<p>Segundo Trist\u00e3o de Alencar Araripe, o presidente n\u00e3o conseguiu reunir mais do que 270 homens, menos da metade das for\u00e7as a favor dos revolucion\u00e1rios. \u00c0s onze horas da noite, restavam apenas o 1\u00ba comandante, capit\u00e3o Francis F\u00e9lix da Fonseca, o 2\u00ba comandante, tenente Alvarenga, um cabo, o corneteiro e um soldado. \u201cDecidiu, pois, embarcar na escuna Riograndense, levando consigo todo o numer\u00e1rio existente no Tesouro e recomendando ao inspetor em exerc\u00edcio, Joaquim Manuel de Macedo, que n\u00e3o abandonasse a reparti\u00e7\u00e3o e seus subalternos\u201d. Comboiado pela canhoneira 19 de Outubro, seguiu para Rio Grande, deixando uma proclama\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c0s armas, cidad\u00e3os! \u00c0s armas, que a P\u00e1tria se acha em perigo!\u201d.<\/p>\n<p>Os farroupilhas ocuparam a cidade e Bento Gon\u00e7alves divulgou um manifesto, tentando acalmar a popula\u00e7\u00e3o: <em>\u201cOs cidad\u00e3os, que se acham armados, s\u00e3o vossos irm\u00e3os, amam e respeitam a lei, e para faz\u00ea-la respeitar se viram obrigados a empunhar as armas. Com a fuga do ex-presidente, dr. Antonio Rodrigues Fernandes Braga, a arbitrariedade desapareceu e, nas nossas m\u00e3os, a oliveira substituiu a espada<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Cinco dias depois, Rio Pardo, S\u00e3o Gabriel e Rio Grande, onde se refugiara o presidente, s\u00e3o os \u00fanicos redutos de resist\u00eancia \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Bento Gon\u00e7alves, j\u00e1 dono da situa\u00e7\u00e3o, faz um novo pronunciamento, jogando a culpa de tudo na intoler\u00e2ncia do presidente deposto e manifestando fidelidade ao imp\u00e9rio:<\/p>\n<p><em>\u201cA inquieta\u00e7\u00e3o que, desde os primeiros meses da presid\u00eancia do Sr. Braga se tinha derramado na maior parte desta Prov\u00edncia, e que por todas vezes a prud\u00eancia e o amor \u00e0 ordem haviam acalmado, como acendida por virtude el\u00e9trica, apareceu novamente e se fez geral. A nossa P\u00e1tria pareceu ao esperto observador como um enfermo a quem a febre ardente mortifica, e que alternativamente espera e teme que a crise que o atormenta lhe d\u00ea sa\u00fade ou morte. <\/em><\/p>\n<p><em>Em v\u00e3o, compatriotas, busc\u00e1veis a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, ela estava na Carta, mas naqueles momentos a Carta era letra morta, as vias legais vos eram obstru\u00eddas, a apatia do governo central n\u00e3o vos deixar\u00e1 traduzir a mais pequena esperan\u00e7a de melhoramento, os males vos amea\u00e7avam j\u00e1 de perto, qualquer dila\u00e7\u00e3o vos ia dominar, e destru\u00edstes, cidad\u00e3os, a for\u00e7a com a for\u00e7a. Cumprimos, rio-grandenses, um dever sagrado repelindo as primeiras tentativas de arbitrariedades em nossa cara P\u00e1tria; ela vos agradecer\u00e1 e o Brasil inteiro aplaudir\u00e1 o vosso patriotismo e a justi\u00e7a que armou vosso bra\u00e7o para depor uma autoridade inepta e facciosa, e restabelecer o imp\u00e9rio da lei.<\/em><\/p>\n<p><em>Compatriotas, eu acrescentarei \u00e0 gl\u00f3ria de haver sido em outros tempos vosso companheiro nos campos de batalha, e haver-vos conduzido contra nossos inimigos externos, a gl\u00f3ria ainda mais nobre e perdur\u00e1vel de haver concorrido para libert\u00e1-la dos seus inimigos internos, e salv\u00e1-la dos males da anarquia. O governo de fac\u00e7\u00e3o desapareceu de nossa cena pol\u00edtica, a ordem se acha restabelecida.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_39057\" aria-describedby=\"caption-attachment-39057\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39057\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/P\u00e1g-8-_-Transpondo-a-Ponte-da-Azenha-_Quadro-de-Guido-Mondin.jpg\" alt=\"Transpondo a Ponte da Azenha, de Guido Mondin\" width=\"725\" height=\"580\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39057\" class=\"wp-caption-text\">Transpondo a Ponte da Azenha, de Guido Mondin<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Com este triunfo dos princ\u00edpios liberais, minha ambi\u00e7\u00e3o est\u00e1 satisfeita, e no descanso da vida privada a que t\u00e3o somente aspiro, gozarei o prazer de ver-vos desfrutar os benef\u00edcios de um governo ilustrado, liberal e conforme os votos da maioria da prov\u00edncia.<\/em><\/p>\n<p><em>Respeitando o juramento que prestamos ao nosso C\u00f3digo Sagrado, ao Trono Constitucional e \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da integridade do Imp\u00e9rio, comprovais aos inimigos de nosso sossego e felicidade que sabeis preferir o jugo da Lei ao dos seus infratores, e que ao mesmo tempo nunca esqueceis que sois os administradores do melhor patrim\u00f4nio das gera\u00e7\u00f5es que vos devem suceder, que este patrim\u00f4nio \u00e9 a liberdade, e que estais na obriga\u00e7\u00e3o defend\u00ea-la a custa de vosso sangue e de vossa exist\u00eancia&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p>Mal sabia ele que estava come\u00e7ando uma guerra que ia separar a Prov\u00edncia do Rio Grande do Sul do Imp\u00e9rio brasileiro, uma guerra que iria durar quase dez anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Alegre amanheceu deserta, as casas com as janelas fechadas. Homens de Bento Gon\u00e7alves haviam entrado na cidade \u00e0 noite. Uma pequena patrulha, chefiada pelo visconde de Camam\u00fa, havia tentado enfrent\u00e1-los quando alcan\u00e7avam a Ponte da Azenha, mas foi um fiasco. 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