{"id":79221,"date":"2016-09-15T02:22:32","date_gmt":"2016-09-15T05:22:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=39250"},"modified":"2021-09-09T22:07:02","modified_gmt":"2021-09-10T01:07:02","slug":"moacyr-flores-nao-foi-o-rio-grande-que-se-levantou-contra-o-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/moacyr-flores-nao-foi-o-rio-grande-que-se-levantou-contra-o-imperio\/","title":{"rendered":"Moacyr Flores: \u201cN\u00e3o foi o Rio Grande que se levantou contra o Imp\u00e9rio\u201d"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-79244\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo-300x132.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"102\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo-300x132.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo.jpg 725w\" sizes=\"(max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/>Cleber Dioni Tentardini<\/p>\n<p>Moacyr Flores ainda conserva a m\u00e1quina de escrever em que comp\u00f4s \u201cO modelo pol\u00edtico dos Farrapos\u201d seu primeiro livro sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, resultado de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em Hist\u00f3ria. No quase meio s\u00e9culo transcorrido desde ent\u00e3o, ele trocou a velha Lettera 22 por um computador, mas n\u00e3o se afastou do tema e \u00e9 hoje uma fonte inevit\u00e1vel quando se quer abordar a quest\u00e3o farroupilha, que ainda levanta muitas perguntas sem resposta. Ele recebeu o J\u00c1 em sua casa no dia 22 de julho para uma entrevista exclusiva para esta edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>J\u00c1 &#8211; <\/em><strong>Quais eram as motiva\u00e7\u00f5es, o pensamento pol\u00edtico que animava a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Moacyr Flores<\/strong> &#8211; Eu pesquiso desde a d\u00e9cada de 60, mas minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, em 1978 foi que deu origem a um livro. Ali eu estudei o liberalismo. O que os farroupilhas discutiam antes da revolu\u00e7\u00e3o, fanaticamente, violentamente, era o liberalismo. Uma ideia de liberdade, mas em um sistema excludente. Porque s\u00f3 tinha liberdade, direitos, quem era propriet\u00e1rio, quem n\u00e3o tinha propriedade era um cidad\u00e3o de segunda classe, n\u00e3o podia votar nem ser votado. No fim do Imp\u00e9rio, havia 84% de analfabetos em todo o Brasil. Os letrados \u00e9 que decidiam. Os jornais eram pol\u00edticos e dirigidos aos 16% de letrados.<\/p>\n<p>Por isso, dizer que o Rio Grande do Sul se levantou contra o imp\u00e9rio \u00e9 uma fal\u00e1cia. Quem se levantou foi um grupo de intelectuais e militares, que fizeram a revolu\u00e7\u00e3o. Havia estancieiros, charqueadores. O Bento Gon\u00e7alves era um militar, coronel e comandante de uma divis\u00e3o da Guarda Nacional em Jaguar\u00e3o. Domingos Jos\u00e9 de Almeida era major da Guarda Nacional.<\/p>\n<p><strong>O que lhe chamou aten\u00e7\u00e3o para pesquisar sobre esse tema?<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39254 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Flores-olho1.jpg\" alt=\"flores-olho1\" width=\"243\" height=\"466\" \/>Eu fui aluno do professor Dante de Laytano e entrei na PUC como auxiliar dele. A sua contribui\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul \u00e9 fant\u00e1stica, e o pessoal n\u00e3o tem valorizado. Eu aprendi muito com ele, fora da sala de aula tamb\u00e9m. Eu tinha pensado em fazer a disserta\u00e7\u00e3o sobre a pol\u00edtica da Carlota Joaquina, mas fui ver o arquivo dela que est\u00e1 em Petr\u00f3polis e me apavorei de tantos documentos. E teria que viajar para Inglaterra, eu como professor n\u00e3o teria como. A\u00ed pensei na Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, todos os intelectuais haviam escrito alguma coisa, mas fui ver a documenta\u00e7\u00e3o e me encantei. E ningu\u00e9m havia feito uma abordagem sobre a estrutura pol\u00edtica da Rep\u00fablica Rio-grandense. Falavam das batalhas, dos personagens. Bom, ent\u00e3o eu tive que estudar o que era o liberalismo da \u00e9poca, que n\u00e3o tem nada a ver com o de hoje. Porque n\u00e3o existiam partidos mas grupos pol\u00edticos que estavam em torno de um militar. Li os seis volumes da cole\u00e7\u00e3o Varela, passei por todos os documentos, li os jornais da \u00e9poca. Minhas f\u00e9rias eram dentro dos arquivos. Fomos a Biblioteca de Rio Grande, que eu considero a melhor sobre livros antigos, a Biblioteca de Pelotas, vi a documenta\u00e7\u00e3o de Assis Brasil e fui a Piratini, evidentemente, onde fiquei hospedado num quarto que havia no pr\u00f3prio museu hist\u00f3rico. E n\u00e3o dormi porque fiquei lendo a documenta\u00e7\u00e3o. Minha disserta\u00e7\u00e3o ficou com 220 p\u00e1ginas, escrita numa m\u00e1quina de escrever que ainda guardo. \u201cIdeias pol\u00edticas da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha\u201d. Depois, lancei o livro com novo t\u00edtulo: \u201cModelo Pol\u00edtico dos Farrapos\u201d. Dos 22 livros que lancei, sete foram sobre os Farrapos, e esse eu considero o melhor por ter feito uma abordagem in\u00e9dita. Eu queria descobrir qual era o pensamento pol\u00edtico na \u00e9poca. Era um verdadeiro caos porque as ideias eram importadas da Europa e mal interpretadas. Como era um grupo pequeno de intelectuais que escreviam nesses jornais, eles manipulavam as ideias e se apresentavam ao povo como verdadeiros salvadores.<\/p>\n<p><strong>Quem era o povo, nessa \u00e9poca? Os escravos?<\/strong><\/p>\n<p>Em 1835, por a\u00ed, havia 170 mil habitantes em toda a prov\u00edncia do Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, todo o territ\u00f3rio do munic\u00edpio que ia de Viam\u00e3o a Triunfo, havia 14 mil moradores. A cidade de Porto Alegre, tinha cerca de dois mil habitantes. Era um n\u00facleo pequeno. A maioria das pessoas se conhecia. A Santa Casa ficava fora da cidade. Por isso conseguiram fazer uma revolu\u00e7\u00e3o a cavalo. Porque o Rio Grande do Sul era um ermo. A Prov\u00edncia era despovoada. O maior n\u00facleo era Rio Pardo, que tinha uns tr\u00eas mil moradores, a cidade era maior que Porto Alegre. \u00c9 que Rio Pardo abrangia quase a metade da prov\u00edncia. Dali sa\u00edram Bag\u00e9, Alegrete, Ros\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>A economia estava nas ch\u00e1caras, que produziam mais do que as grandes fazendas de cria\u00e7\u00e3o e alimentavam os habitantes. As ch\u00e1caras vendiam leite, frutas verduras, ovos, porcos, galinhas. Era a fonte de \u00e1gua tamb\u00e9m. As fazendas de cria\u00e7\u00e3o mandavam gado para as charqueadas do Uruguai porque n\u00e3o pagavam imposto. Se enviassem para Pelotas, por exemplo, tinha que pagar. Outra quest\u00e3o \u00e9 que os fazendeiros n\u00e3o gastavam o dinheiro aqui, compravam m\u00f3veis em Montevid\u00e9u, as mulheres compravam vestidos na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>E o trabalho de doutorado seguiu nessa linha.<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed eu fui pesquisar o modelo social e o modelo econ\u00f4mico dos Farrapos. Abordei a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, a fam\u00edlia, as institui\u00e7\u00f5es, o papel da Igreja, fundamental, apesar de ser pouca, aqui n\u00e3o havia semin\u00e1rios, local onde o pobre se alfabetizava. O semin\u00e1rio era proibido aqui porque os jovens tinham que ir para o Ex\u00e9rcito a fim de defender as fronteiras.<\/p>\n<p><strong>A maior parte dos escravos trabalhavam nas charqueadas?<\/strong><\/p>\n<p>Os escravos representam 40% dos habitantes da prov\u00edncia. Eram comprados ainda meninos por comerciantes no Rio de Janeiro e revendidos aqui. Com 14 anos esses escravos j\u00e1 realizavam todas as tarefas de um adulto podendo inclusive ser convocados para a guerra. E a menina, dos 12 aos 15 aos, era a idade do casamento. Fiz esse estudo social com a popula\u00e7\u00e3o de Ca\u00e7apava como mostra da Campanha, porque foi l\u00e1 que os Farrapos sustentaram a guerra. Ent\u00e3o levantei a constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, do estancieiro, a sua rela\u00e7\u00e3o com os escravos, com os pe\u00f5es. Havia capataz que tinha fam\u00edlia e seus escravos. Havia pe\u00f5es \u00edndios, que n\u00e3o podiam ser escravizados por lei.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os livros b\u00e1sicos sobre os Farrapos?<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-39255\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Flores-olho2.jpg\" alt=\"flores-olho2\" width=\"217\" height=\"624\" \/>O Assis Brasil foi o primeiro ga\u00facho a escrever &#8211; A Rep\u00fablica Rio-Grandense -, e ele me deu uma pista quando disse que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um movimento democr\u00e1tico, mas liberal. S\u00f3 que ele n\u00e3o explicou o que era o liberalismo da \u00e9poca. Esse livro parou no primeiro volume. Eu considerei quatro livros fundamentais: do Assis Brasil, do Alfredo Varela, embora n\u00e3o concorde com a tese dele, do Araripe, que traz a vis\u00e3o do Imp\u00e9rio, e do Aur\u00e9lio Porto. O Araripe sustentou que nunca houve tratado de paz, mas pedido de anistia, e eu encontrei no Arquivo Hist\u00f3rico esse pedido de anistia, que j\u00e1 vinha pronto, faltando s\u00f3 o oficial colocar o seu nome.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o houve um documento assinado pelos pelas duas partes?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, porque o Imp\u00e9rio nunca reconheceu como na\u00e7\u00e3o. O Paraguai mandou embora o embaixador da Rep\u00fablica Rio-Grandense para n\u00e3o ter que prend\u00ea-lo a pedido do Imp\u00e9rio brasileiro. Foram feitos seis tratados, quatro com o Uruguai, um com a Prov\u00edncia de Corrientes, que era separada da Argentina, e outra com Buenos Aires. A Rio-Grandense foi a primeira rep\u00fablica organizada no Brasil, que funcionou, com minist\u00e9rios, secretarias, com servi\u00e7os de pol\u00edcia, correios &#8211; em Pernambuco houve um movimento republicano que n\u00e3o chegou a instalar uma rep\u00fablica. Isso \u00e9 um fator importante porque a Rio-grandense facilitou depois o golpe de 15 de novembro de 1889. N\u00e3o houve rea\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul porque existia aqui um ideal republicano, que j\u00e1 havia pelo mundo. E, ao contr\u00e1rio do que se pensa, n\u00e3o houve influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. A Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Rio-Grandense \u00e9 baseada na Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. E da Constitui\u00e7\u00e3o espanhola.<\/p>\n<p><strong>Havia um clima de insatisfa\u00e7\u00e3o geral&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Desde de 1828. O jornal O Recopilador Liberal j\u00e1 fala que se trama uma revolu\u00e7\u00e3o republicana. O grupo Farroupilha foi fundado em 1832. Mas j\u00e1 tinha um movimento entre intelectuais que defendia uma rep\u00fablica independente. A ideia do quadril\u00e1tero de Jos\u00e9 Artigas, que envolvia o Uruguai, Rio Grande do Sul, Entre Rios e Corrientes. E isso voltou em 35.<\/p>\n<p><strong>O Bento Gon\u00e7alves estava nesse grupo republicano?<\/strong><\/p>\n<p>Acontece que a fam\u00edlia do Bento Gon\u00e7alves detinha postos chaves na prov\u00edncia, o pai dele era tesoureiro geral do Rio Grande do Sul, os irm\u00e3os eram comandantes da Guarda Nacional, todos estancieiros. Ent\u00e3o a fam\u00edlia dele dominava desde Torres at\u00e9 a regi\u00e3o de Melo, no Uruguai. Os parentes, tios, primos, todos ocupando posi\u00e7\u00f5es. A\u00ed os liberais caem do poder l\u00e1 no Governo Federal, e o Fernandes Braga assume aqui, por indica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Bento, mas passa para o lado dos conservadores, convencido pelo irm\u00e3o, Pedro Chaves. Com a morte do pai do Bento, a fam\u00edlia perde o poder. Bento Gon\u00e7alves \u00e9 enviado para o comando da fronteira de Jaguar\u00e3o, longe do poder de Porto Alegre.<\/p>\n<p><strong>Bento tinha muita liga\u00e7\u00e3o com os uruguaios, morou l\u00e1, casou&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Sim, inclusive foi alcaide em Melo. O sogro dele foi o maior contrabandista de gado do Uruguai. Bento era de fam\u00edlia riqu\u00edssima, poderosa, mas que em dado momento, o novo presidente Fernandes Braga que era liberal republicano muda de partido e passa para os conservadores. Bento e seus parentes e amigos perdem o poder.<\/p>\n<p><strong>Quando tomam o poder, os revolucion\u00e1rios pensam separar o Rio Grande?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, a\u00ed o 20 de setembro \u00e9 um saco de gatos. Havia os descontentes com uma gama imensa de coisas e o Bento Gon\u00e7alves declarava fidelidade ao Imp\u00e9rio para unir todos esses descontentes. Havia os que queriam a separa\u00e7\u00e3o, outros a Rep\u00fablica, mas outros queriam somente a troca dos postos de comando da Prov\u00edncia. A comunica\u00e7\u00e3o com o Rio de Janeiro era muito dif\u00edcil. Era mais f\u00e1cil com Montevid\u00e9u. E havia uma centraliza\u00e7\u00e3o muito forte do poder no Rio de Janeiro, como hoje h\u00e1 em Bras\u00edlia. Um pa\u00eds supercentralizado. E muita gente queria uma federaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a dos Estados Unidos. Leis regionais. Tinha jornal que dizia que a lei que vale em Pernambuco n\u00e3o poderia valer no Rio Grande.<\/p>\n<p><strong>O que levou Neto a proclamar a Rep\u00fablica Rio-Grandense?<\/strong><\/p>\n<p>Porque ele era um republicano, com ideais. Mas nunca foi abolicionista. Ele tinha fazenda no Uruguai, no Quequay. O pai do Carlos Gardel foi lugar-tenente do Neto. Ent\u00e3o ele traz v\u00e1rios uruguaios em sua tropa para lutar nos Farrapos. Inclusive ele tinha filhos escravos, das mulheres negras. Ele nunca foi abolicionista. H\u00e1 uma carta de um filho dele, Mois\u00e9s, pedindo a liberdade porque lutou e o seu pai, Neto, iria manter ele escravo. Essa era a base de poder deles. Possu\u00edam ex\u00e9rcitos particulares. E, por isso, a dificuldade de vencer os Farrapos, porque eles possu\u00edam comandantes separados, cada um com seu ex\u00e9rcito, e Bento como um comandante geral.<\/p>\n<p><strong>O Bento n\u00e3o foi pego de surpresa com a proclama\u00e7\u00e3o do Neto?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, Bento sabia. S\u00f3 que ele estava aqui naquele morro da Cruz, em Viam\u00e3o, pr\u00f3ximo a Porto Alegre nas m\u00e3os imperiais. E o Neto estava na regi\u00e3o da Campanha, onde os farrapos tinham mais for\u00e7a. Ent\u00e3o Neto fez a proclama\u00e7\u00e3o para manter viva a ideia da revolu\u00e7\u00e3o, que era uma rep\u00fablica. O problema \u00e9 que havia a turma que queria a federaliza\u00e7\u00e3o, mas com o Imp\u00e9rio, e estava se retirando do combate porque estavam satisfeitos com a demiss\u00e3o do Braga e posse do novo presidente Ara\u00fajo Ribeiro, primo do Bento Gon\u00e7alves. Ent\u00e3o aquela proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica era para levantar uma nova bandeira. E trazer para perto dele, Neto, maior apoio, porque o pessoal de Piratini e Cangu\u00e7u n\u00e3o queriam o Neto. Estavam caindo fora da revolu\u00e7\u00e3o. E o Lucas de Oliveira alertou o Neto de que a rep\u00fablica iria mobilizar as for\u00e7as novamente.<\/p>\n<p><strong>Quem era o grande general?<\/strong><\/p>\n<p>O grande estrategista foi o Bento Manoel Ribeiro. O Bento Gon\u00e7alves era comandante de guerrilha, como o Moringue, que montou um ex\u00e9rcito ali na regi\u00e3o em que Bento tinha a est\u00e2ncia, em Camaqu\u00e3.<\/p>\n<p><strong>A Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Riograndense ficou no projeto&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Demorou bastante, e mesmo assim ficou s\u00f3 no projeto.<\/p>\n<p><strong>Quem elaborou?<\/strong><\/p>\n<p>Os que haviam sido eleitos deputados. Foi assinado em 3 de fevereiro de 1843 por Domingos Jos\u00e9 de Almeida, Jos\u00e9 Pinheiro de Ulhoa Cintra, Francisco de S\u00e1 Brito, Jos\u00e9 Mariano de Matos, Serafim dos Anjos Fran\u00e7a. O projeto foi impresso para ser discutido, mas n\u00e3o chegou, e nem votado.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o deu tempo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 que o Bento Gon\u00e7alves n\u00e3o quis perder seus poderes. A\u00ed ele se desentende com seu primo Onofre, que lidera a oposi\u00e7\u00e3o ao Bento. Nessa \u00e9poca foi morto Paulino da Fontoura. Ele voltava para sua casa, na rua da Igreja, em Alegrete, e foi atacado a espada e tiro. Seus escravos anda tentaram o salvar. Dizem que foi a mando do Bento, se n\u00e3o foi, sua morte favoreceria muito o Bento.<\/p>\n<p><strong>Isso, um pouco antes dos primos duelarem?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, mas eles n\u00e3o brigaram por causa de mulher cois\u00edssima nenhuma. Foi porque Bento n\u00e3o queria perder seus poderes discricion\u00e1rios. Ele, inclusive, manda que o projeto da Constitui\u00e7\u00e3o seja submetido a ele antes que fosse levado \u00e0 vota\u00e7\u00e3o na Assembleia, em Alegrete, em 1843. A quest\u00e3o \u00e9 que o projeto da Constitui\u00e7\u00e3o reproduzia a ideia da rep\u00fablica federativa, o modelo de Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, e a ideia do liberalismo, com um Legislativo forte. \u00c9 o sistema parlamentar. Isso vem do pensador ingl\u00eas John Locke.<\/p>\n<p><strong><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39256 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Flores-olho3.jpg\" alt=\"flores-olho3\" width=\"220\" height=\"555\" \/>Bento era muito autorit\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, um ditador. E sua fam\u00edlia uma das mais poderosas da prov\u00edncia. Seu irm\u00e3o, Roberto, era o padre l\u00e1 naquela regi\u00e3o de S\u00e3o Louren\u00e7o. Ningu\u00e9m escreveu uma biografia do Bento, apenas glorificaram ele.<\/p>\n<p><strong>Ele ficou \u00f3rf\u00e3o de m\u00e3e muito cedo.<\/strong><\/p>\n<p>Isso era um problema na \u00e9poca. As mulheres morriam de parto. Havia o costume de n\u00e3o poderem se lavar durante 30 dias ap\u00f3s o parto, inclusive o rec\u00e9m-nascido. Da\u00ed o tal mal de sete dias, que \u00e9 a infec\u00e7\u00e3o umbilical. Costume medieval.<\/p>\n<p><strong>Havia pontos pol\u00eamicos no projeto da Constitui\u00e7\u00e3o dos Farrapos?<\/strong><\/p>\n<p>Todos. Come\u00e7a que o Artigo 1\u00ba &#8211; \u201cRep\u00fablica do Rio Grande \u00e9 associa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de todos os cidad\u00e3os rio-grandenses.\u201d O problema \u00e9 que os cidad\u00e3os eram os propriet\u00e1rios, a minoria, portanto.<\/p>\n<p><strong>Era abolicionista, pelo menos?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, a Rep\u00fablica Rio-Grandense era escravocrata. E, em nenhum momento do texto do projeto \u00e9 mencionada a quest\u00e3o dos negros ou escravos. A base se espelha com a constitui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio, com as modifica\u00e7\u00f5es republicanas, claro. Por exemplo, o Artigo 6\u00ba \u2013 \u201cS\u00e3o cidad\u00e3os Rio-Grandenses todos os homens livres nascidos no territ\u00f3rio da Rep\u00fablica&#8230;\u201d. Se consta a express\u00e3o homens livres \u00e9 porque existem nessa rep\u00fablica homens que n\u00e3o s\u00e3o livres.<\/p>\n<p><strong>E as mulheres nessa nova Rep\u00fablica? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tinham direito algum. Eu n\u00e3o invento nada. Minhas fontes s\u00e3o os jornais da \u00e9poca. Inovaram no sentido de fazer uma federa\u00e7\u00e3o. Como eles n\u00e3o conseguiram fazer a federa\u00e7\u00e3o no Imp\u00e9rio, tentaram a separa\u00e7\u00e3o. Antes, como hoje, as decis\u00f5es do governo eram muito centralizadas. N\u00e3o se faz nada se n\u00e3o tiver o benepl\u00e1cito l\u00e1 do centro. Hoje, l\u00e1 de Bras\u00edlia. O que est\u00e1 errado se levar em conta o tamanho do Brasil. N\u00f3s n\u00e3o somos uma federa\u00e7\u00e3o, embora carregue o nome de rep\u00fablica federativa.<\/p>\n<p><strong>Bom, depois do tratado de paz, os chefes revolucion\u00e1rios ainda conseguiram assumir seus postos de oficiais.\u2018<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o houve um tratado de paz, mas um acordo, com pedidos de anistia que deveriam ser assinados pelos l\u00edderes Farrapos. Em dezembro de 1844, o Caxias recebeu ordens do ministro da Guerra para conceder as anistias, que j\u00e1 veio impressa. Era a \u00fanica forma de acabar com a guerra e Caxias percebeu isso logo depois da trai\u00e7\u00e3o em Porongos.<\/p>\n<p><strong>David Canabarro traiu os negros, afinal de contas?<\/strong><\/p>\n<p>Caxias tinha ordens de n\u00e3o dar liberdade aos escravos que estavam lutando. Ent\u00e3o, ele combinou com o Canabarro, comandante do Ex\u00e9rcito da Rep\u00fablica Rio-grandense, e o \u00fanico general ali no acampamento porque o Bento j\u00e1 havia se recolhido para sua est\u00e2ncia, e o Neto, que estava no acampamento, se retirou com seu ex\u00e9rcito para o Uruguai, antes do ataque.<\/p>\n<p><strong>Uma combina\u00e7\u00e3o para por fim \u00e0 guerra.<\/strong><\/p>\n<p>Na realidade, o acordo para por fim a guerra foi em 1843, pouco antes do combate do Ponche Verde, onde os Farrapos deveriam ser derrotados e, ent\u00e3o, seria concedida a anistia aos oficiais. Mas a combina\u00e7\u00e3o n\u00e3o deu certo, porque os Farrapos estavam em bom n\u00famero e melhor posicionados, ent\u00e3o sustentaram a luta. \u00c0 noite, ambas as for\u00e7as se retiraram da batalha. Em Porongos, Canabarro mandou retirar \u00e0 noite as pedras de pederneiras dos fuzis da infantaria, formada por negros. Mais de cem foram mortos. N\u00e3o foram lanceiros os mortos ali. Os lanceiros negros foram tra\u00eddos tamb\u00e9m, mas quando foram entregues aos imperiais depois da guerra, l\u00e1 na fazenda dos Cunhas, onde os farrapos entregam todo o armamento.<\/p>\n<p><strong>E a carta n\u00e3o foi falsificada por Moringue?<\/strong><\/p>\n<p>O Francisco de Abreu atacou apenas um dos tr\u00eas acampamentos, deixando o dos brancos e dos \u00edndios fugirem, pois conforme ordens de Caxias, eles poderiam ser \u00fateis mais tarde. Canabarro fugiu, deixando para tr\u00e1s sua carretilha com todo o arquivo, mas que foi devolvido a ele.<\/p>\n<p><strong>Por que isso foi uma condicionante para a paz?<\/strong><\/p>\n<p>Esse acordo imposto pelo Imp\u00e9rio e por Caxias n\u00e3o agradou Bento nem Neto, que sa\u00edram. Canabarro ficou com 800 homens, contra 12 mil do Imp\u00e9rio. O que lhe restava?<\/p>\n<p><strong>E a carta que \u00e9 atribu\u00edda a Moringue, professor?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 do Caxias mesmo. A correspond\u00eancia era manuscrita. O Caxias pode ter feito um rascunho, chamado borrador, e seu secret\u00e1rio, que era um sobrinho, passou a limpo. Fizeram uma c\u00f3pia para deixar no arquivo do Caxias, escrito no alto da folha a palavra c\u00f3pia, e enviaram a original para o Moringue. Eu esmiucei isso a\u00ed. Essa c\u00f3pia foi escrita em livro, n\u00e3o foram folhas avulsas. E h\u00e1 uma sequ\u00eancia, uma ordem no livro, n\u00e3o tem como embutir no meio das outras. O Caldeira, que era comandante dos lanceiros negros, sustentou que houve a trai\u00e7\u00e3o do Canabarro. O Domingos Jos\u00e9 de Almeida confirma que esteve com o Moringue e este lhe mostrou a carta original do Caxias.<\/p>\n<p><strong>Com a paz e a anistia, veio o sil\u00eancio sobre os Farrapos.<\/strong><\/p>\n<p>Imposto pelo Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Os jornais foram calados. Nem a morte do Bento Gon\u00e7alves foi registrada, s\u00f3 uma notinha em um jornal de Pelotas.<\/strong><\/p>\n<p>A nota e um pequeno poema, publicado em um ou dois exemplares adiante. S\u00f3 bem mais tarde, o Apolin\u00e1rio Porto Alegre \u00e9 quem vai resgatar os Farrapos. Ele iniciou um movimento de liberta\u00e7\u00e3o de escravos e um movimento republicano. Ele e o irm\u00e3o, Aquiles, fundaram o primeiro clube republicano do Rio Grande do Sul, com o nome de Bento Gon\u00e7alves. E, mais tarde, \u00e9 que o J\u00falio de Castilhos, acho que o pior ditador que j\u00e1 tivemos, vai dominar o Partido Republicano Rio-grandense e afastar o Apolin\u00e1rio do movimento.<\/p>\n<p><strong>Assim renasceram os Farrapos.<\/strong><\/p>\n<p>Visando o movimento republicano. E isso veio de encontro ao ideal de August Comte que defendia pequenas rep\u00fablicas, reunidas em uma federa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que, no final do s\u00e9culo, o Partido Liberal, que depois se transforma no Partido Federalista, reivindicou a heran\u00e7a dos Farrapos, por ter sido um movimento revolucion\u00e1rio que queria a federa\u00e7\u00e3o. Esses dois partidos se enfrentam em 93.<\/p>\n<p><strong>A Revolu\u00e7\u00e3o Federalista.<\/strong><\/p>\n<p>Nesse momento, Castilhos acha que o Rio Grande do Sul \u00e9 um pa\u00eds \u00e0 parte. Os republicanos que v\u00e3o lutar contra os estrangeiros, os maragatos, que eram ga\u00fachos tamb\u00e9m. E vem da\u00ed essa coisa do ga\u00facho se dizer um povo diferente, essa dicotomia entre o bem e o mal que at\u00e9 hoje s\u00f3 trouxe preju\u00edzo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Porque se tu n\u00e3o \u00e9 do meu time ou do meu partido, n\u00e3o \u00e9 necessariamente meu inimigo.<\/p>\n<p><strong>E a fus\u00e3o da cultura ga\u00facha com a saga farroupilha? <\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 Jo\u00e3o Cezimbra Jaques. A Revolu\u00e7\u00e3o se tornou s\u00edmbolo do Rio Grande do Sul. E como s\u00edmbolo, ela foi mitificada. O tradicionalismo. Da\u00ed a dificuldade at\u00e9 hoje de se tratar de algumas quest\u00f5es. Mudaram at\u00e9 o sentido da palavra ga\u00facho. Porque, antes, eram os rio-grandenses. Ga\u00facho era um bandido. Os jornais que defendiam o Imp\u00e9rio dos farroupilhas usavam ga\u00facho para ofender algu\u00e9m. O significado da palavra ga\u00facho, na sua origem, \u00e9 de um marginalizado, cachorro sem dono, como disse um colunista da \u00e9poca. Para mim, vem do franc\u00eas gauche, a margem esquerda do rio Sena, onde moravam os artistas, os marginais. Do italiano sinistra, do latim, sinistru, esquerdo, assustador, desajeitado. Foi adaptado para o espanhol, ent\u00e3o ficou gaucho, e aportuguesado para ga\u00facho, com o novo sentido, de um povo independente, corajoso, que j\u00e1 se separou do Brasil. E a nossa constitui\u00e7\u00e3o estadual de 1891 determina que a bandeira do Rio Grande do Sul seja a usada pela Rep\u00fablica Rio-grandense.<\/p>\n<p><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-39257\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Flores-olho4.jpg\" alt=\"flores-olho4\" width=\"236\" height=\"684\" \/>Sim, a\u00ed entra tamb\u00e9m o hino.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, o atual hino n\u00e3o tem nada a ver com o que o maestro Mendanha comp\u00f4s a mando dos Farrapos e tocado em Ca\u00e7apava, nova capital, no baile de anivers\u00e1rio de um ano da vit\u00f3ria na batalha de Rio Pardo. Nem a letra, nem a m\u00fasica. A edi\u00e7\u00e3o de O Povo, de 4 de maio de 1839, traz a letra. A m\u00fasica provavelmente o Mendanha rasgou a partitura porque ele era imperial. Quando foi libertado, vem para Porto Alegre, para o coral da C\u00faria Metropolitana. E \u00e9 ele quem inaugura o teatro S\u00e3o Pedro com m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>E a influ\u00eancia da Ma\u00e7onaria na Rep\u00fablica Rio-grandense?<\/strong><\/p>\n<p>Conversa. Todos oficiais do lado dos republicanos e dos imperiais eram ma\u00e7ons.<\/p>\n<p><strong>Mas h\u00e1 s\u00edmbolos ma\u00e7\u00f4nicos no Bras\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Isso sim. \u00c9 do Bernardo Pires, estancieiro e chefe de Pol\u00edcia de Piratini e ma\u00e7on.<\/p>\n<p><strong>Mas h\u00e1 uma ata, do gabinete de leitura Continentino, assinado pelos revolucion\u00e1rios no dia 19 de setembro de 1835&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 falsa. Foi feita bem depois. Certa vez o coronel Caminha, do Ex\u00e9rcito, me enviou uma c\u00f3pia dessa ata. H\u00e1 cinco palavras ali que n\u00e3o eram empregadas na \u00e9poca. Por exemplo, o sistema imperialista. Essa express\u00e3o n\u00e3o era usada. Outra vez fui fazer uma palestra e um ma\u00e7on me confessou que um companheiro dele da loja foi quem escreveu aquela ata.<\/p>\n<p><strong>Com tudo isso, ainda h\u00e1 pesquisas a serem feitas sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha? <\/strong><\/p>\n<p>Sim, toda documenta\u00e7\u00e3o que est\u00e1 l\u00e1 no Arquivo Nacional. Eu abri alguns documentos e descobri, por exemplo, que o Ara\u00fajo Ribeiro, presidente da Prov\u00edncia a partir de 36, era primo do Bento Gon\u00e7alves. O Corte Real foi morto por um primo. As pessoas se conheciam e quem n\u00e3o era parente era compadre.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um quadro de autor desconhecido no Museu Julio de Castilhos que seria o mais fiel retrato do Bento. H\u00e1 outros que s\u00e3o do Guilherme Litram. <\/strong><\/p>\n<p>O Litram \u00e9 do tempo do Borges de Medeiros, ent\u00e3o n\u00e3o conheceu o Bento. O mais fiel \u00e9 um retrato falado, uma descri\u00e7\u00e3o do rosto do Bento feita pelo seu filho, ap\u00f3s a morte do pai.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleber Dioni Tentardini Moacyr Flores ainda conserva a m\u00e1quina de escrever em que comp\u00f4s \u201cO modelo pol\u00edtico dos Farrapos\u201d seu primeiro livro sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, resultado de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em Hist\u00f3ria. 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