{"id":79223,"date":"2016-09-14T02:32:35","date_gmt":"2016-09-14T05:32:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=39192"},"modified":"2021-09-10T00:33:57","modified_gmt":"2021-09-10T03:33:57","slug":"o-general-que-gostava-de-bailes-e-parelheiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/o-general-que-gostava-de-bailes-e-parelheiros\/","title":{"rendered":"O general que gostava de bailes e parelheiros"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/rrg-180anos-tjtopo-300x132.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"102\" \/><\/p>\n<p class=\"intertit\">O enigma do arroio Seival<\/p>\n<p>As raz\u00f5es que levaram Ant\u00f4nio de Souza Netto a declarar o Rio Grande do Sul uma rep\u00fablica independente do Brasil ainda provocam muita discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Henrique Wiederspahn diz que \u201clevantar a bandeira da Rep\u00fablica foi o \u00fanico meio que os farroupilhas encontraram para dar alento \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o, depois de uma seq\u00fc\u00eancia de insucessos\u201d.<\/p>\n<p>Outros autores consideram o gesto de Netto uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cfalta de garantias aos farroupilhas\u201d, depois do epis\u00f3dio de Fanfa, quando n\u00e3o foi cumprido o acordo para rendi\u00e7\u00e3o e Bento foi mandado para a Fortaleza de Santa Cruz. \u201cN\u00e3o notaram \u2013 diz Moacyr Flores \u2013 que a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foi antes do combate do Fanfa.\u201d<\/p>\n<p>A proclama\u00e7\u00e3o foi em 11 de setembro de 1836.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o ia completar um ano. Bento Gon\u00e7alves \u201cassediava Porto Alegre com 900 homens\u201d, tentando recuperar a capital que havia sido retomada pelo Imp\u00e9rio. Desistiu e iniciou a retirada na noite de 18 de setembro.<\/p>\n<p>Quando tentava atravessar o rio Jacui, ficou cercado na ilha do Fanfa e teve que se entregar, foi preso no dia 4 de outubro.<\/p>\n<p>\u201cNetto, portanto, proclamou a separa\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia no momento em que as armas revolucion\u00e1rias eram vitoriosas e Bento Gon\u00e7alves teve sete dias, tempo mais do que suficiente, para receber um mensageiro.\u201d<\/p>\n<p>Flores conclui que Bento se deslocou de Porto Alegre para o interior exatamente para unir suas for\u00e7as com as de Ant\u00f4nio de Souza Netto, \u201cpor causa da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, longe de seus olhos e ordens\u201d.<\/p>\n<p>A derrota em Fanfa, neste caso, seria conseq\u00fc\u00eancia e n\u00e3o causa da proclama\u00e7\u00e3o. Com isso, fica no ar a pergunta: \u201cpor que, ent\u00e3o, Netto, amigo \u00edntimo e leal a Bento Gon\u00e7alves, deu o golpe republicano, sem consult\u00e1\u2011lo?\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39207 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/1409-Arroio2.jpg\" alt=\"1409-arroio2\" width=\"725\" height=\"717\" \/>Na vers\u00e3o mais aceita, Netto teria relutado, alegando que era Bento quem comandava, mas foi convencido por Joaquim Pedro Soares e Lucas de Oliveira, emiss\u00e1rios dos exaltados. \u201cNa correspond\u00eancia de Ant\u00f4nio de Souza Netto, n\u00e3o encontramos nenhuma refer\u00eancia sobre ideologia ou justificativa de seu ato. Seus of\u00edcios e cartas relatam combates, solicitam armas e muni\u00e7\u00f5es, pedem armamento, numa impressionante rotina militar\u201d, constata Moacyr Flores.<\/p>\n<p><strong>Terras e parelheiros<\/strong><\/p>\n<p>Antonio de Souza Neto \u00e9 um produto t\u00edpico da cultura pastoril rio-grandense. Sua fam\u00edlia tem origem no cruzamento de duas correntes da coloniza\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul, ao tempo em que \u201ca terra indivisa era retaliada em propriedades de l\u00e9guas de extens\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Da Col\u00f4nia do Sacramento veio a familia do pai. O coronel Francisco de Souza Soares, seu bisav\u00f4, estava entre os que se mudaram para Rio Grande quando Portugal entregou a Col\u00f4nia aos espanh\u00f3is, em troca das Miss\u00f5es, em 1777.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-39204 size-medium\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/16-General-Neto-1.jpg\" alt=\"16-general-neto\" width=\"204\" height=\"300\" \/>A fam\u00edlia da m\u00e3e veio de S\u00e3o Paulo. Descendia de Amador Bueno, \u201co paulista que n\u00e3o quis ser rei\u201d. Estabeleceram-se em Vacaria, inicialmente. Consta que de l\u00e1 sa\u00edram porque a est\u00e2ncia foi atacada por \u00edndios. O historiador Paulo Xavier garante que foi apenas quest\u00e3o de neg\u00f3cio: cada hectare vendido em Vacaria permitia comprar dez hectares nas novas fronteiras do extremo sul.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que Salvador Bueno da Fonseca transferiu-se com os seus para os novos territ\u00f3rios que se abriam \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa na regi\u00e3o de Piratini. Teve dissabores no in\u00edcio, suas terras foram desapropriadas. Mudou-se, ent\u00e3o, para Rio Grande.<\/p>\n<p>Teot\u00f4nia, uma de suas filhas seria a m\u00e3e do general Neto. Ela casou com Jos\u00e9, neto do coronel Francisco de Souza Soares e que, por isso, desde mocinho nas carreiras de cancha reta, era chamado \u201cNeto\u201d. O casal teve onze filhos. Antonio, o \u00faltimo, nascido em maio de 1803, viria a ser o general Antonio de Souza Neto.<\/p>\n<p>Cresceu numa est\u00e2ncia. Morava na \u201cv\u00e1rzea, \u00e0 margem direita do S\u00e3o Gon\u00e7alo. Ia a cavalo at\u00e9 o Passo dos Negros, atravessava o rio numa canoa para ir \u00e0 escola na Freguesia de S\u00e3o Francisco de Paula, povoa\u00e7\u00e3o que deu origem \u00e0 cidade de Pelotas. O historiador Paulo Xavier registra que \u201cNeto viveu na est\u00e2ncia paterna at\u00e9 os 25 anos de idade\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Neto, o pai, lutou nas primeiras guerras da Cisplatina. Pediu terras ao imperador como compensa\u00e7\u00e3o pelos 25 anos de servi\u00e7os. Seu comandante abonou o pedido. Pouco depois a fam\u00edlia transferiu-se a para os campos do Pira\u00ed, hoje munic\u00edpio de Bag\u00e9.<\/p>\n<p>Desde mo\u00e7o, Antonio Neto, comprava e vendia gado em toda a regi\u00e3o, \u201centrava constantemente em territ\u00f3rio uruguaio, levando e trazendo tropas\u201d. Figura rom\u00e2ntica, cavaleiro habil\u00edssimo, tinha predile\u00e7\u00e3o por corridas de cavalo (tinha o melhor plantel de parelheiros da prov\u00edncia) e um gosto especial por bailes. \u201cEra boa pinta e um grande partido, disputado pelas mo\u00e7as\u201d, registra Moreira Bento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39208 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Netto-olho1.jpg\" alt=\"netto-olho1\" width=\"237\" height=\"498\" \/>Em duas cartas, que a fam\u00edlia ainda guarda, ele fala em bailes e de umas \u201cbordonas\u201d para a guitarra. As cartas s\u00e3o de 1859 , quando ele j\u00e1 tinha 56 anos.<\/p>\n<p>\u201cBento Gon\u00e7alves e Antonio Neto tiveram renome como dan\u00e7arinos ex\u00edmios. Neto galanteador de estirpe n\u00e3o perdia festas. E de Bento Gon\u00e7alves murmuram as cr\u00edticas que ele banalizava as fun\u00e7\u00f5es de presidente enquanto bailarico ou arrasta-p\u00e9 se apresentasse\u201d, diz Lindolfo Collor.<\/p>\n<p>Neto, ao que consta, superava Bento num quesito decisivo para um lidador pampeano \u2013 o cavalo. \u201cBento Gon\u00e7alves&#8230;perfeito centauro, manejando o cavalo como s\u00f3 o vi fazer o general Neto, modelo consumado de cavaleiro\u201d, diz Garibaldi em suas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Sarmiento sustentou que o pastoreio no pampa garantia as mesmas condi\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os livres de Esparta ou Roma. O gado fazia o papel do escravo, sustentando a vida material, deixando tempo aos propriet\u00e1rios se dedicarem \u00e0 pol\u00edtica ou \u00e0 guerra, o que frequentemente era a mesma coisa.<\/p>\n<p>A campanha dividia-se em comand\u00e2ncias militares, de que faziam parte todos os habitantes. As mil\u00edcias eram tropas ocasionais, \u201csurgindo ou dispersando-se com a mobilidade indispens\u00e1vel \u00e0 guerra no pampa\u201d.<\/p>\n<p>Ter propriedade rural, charqueada ou com\u00e9rcio e se dispor a fardar e armar uma mil\u00edcia &#8211; eram as condi\u00e7\u00f5es para ser um oficial da Guarda Nacional.<\/p>\n<p>Aos 25 anos, Neto era capit\u00e3o de mil\u00edcias, no comando de uma guarda da fronteira na regi\u00e3o de Bag\u00e9. Quando o Brasil ocupou o Uruguai, na Guerra Cisplatina, ele foi chefe militar em Melo.<\/p>\n<p>Era coronel, como Bento Gon\u00e7alves, quando iniciou a revolu\u00e7\u00e3o. Assumiu o comando da 1\u00aa.Divis\u00e3o, com o posto de general. Meses depois, assumiu o comando geral do \u201cEx\u00e9rcito Farroupilha&#8221;, quando adoeceu o titular, Jo\u00e3o Manoel de Lima e Silva.<\/p>\n<p>N\u00e3o era \u201cmuito estrat\u00e9gico\u201d, conforme Manoel Caldeira, cronista da revolu\u00e7\u00e3o. Era homem de cavalaria, \u201csenhor da espada, muito alto e apessoado, muito reservado, s\u00e9rio e reflexivo\u201d.<\/p>\n<p>A maioria dos autores diz que Neto fez a prega\u00e7\u00e3o revolucionaria na regi\u00e3o da campanha. Um ano antes do 20 de setembro ele j\u00e1 era visto \u201cao lado do irm\u00e3o Jos\u00e9, engajando gente no movimento\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAliciando elementos entre a tropa e civis, preparou uma marcha sobre a vila, desde o arroio Pira\u00ed\u201d, diz o historiador bageense Tarc\u00edsio Taborda. Tomou Bag\u00e9 praticamente sem resist\u00eancia.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, quando enaltecer o car\u00e1ter republicano e federalista da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha tornou-se necessidade pol\u00edtica, a figura de Neto foi ressaltada, como \u201cs\u00edntese do tipo rio-grandense\u201d.<\/p>\n<p>Era preciso abrandar a imagem que os brasileiros ainda tinham dos habitantes do Rio Grande do Sul. Silvio Romero, influente intelectual e cr\u00edtico, dizia que os rio-grandenses eram \u201calmas semi-b\u00e1rbaras, egressas do regime pastoril\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_39278\" aria-describedby=\"caption-attachment-39278\" style=\"width: 340px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-39278 \" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/16-General-Neto_2-1.jpg\" alt=\"16-general-neto_2\" width=\"340\" height=\"527\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39278\" class=\"wp-caption-text\">Casa onde viveu Neto<\/figcaption><\/figure>\n<p>Neto provavelmente concentrava as melhores qualidades do \u201cpastor guerreiro e livre\u201d do Rio Grande do Sul. Lindolfo Collor, intelectual e pol\u00edtico, av\u00f4 de Fernando Collor, que participou ativamente desta constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o descreve como o \u201ctipo integral de ga\u00facho, irradiante de simpatia e franqueza, verdadeiro gentil homem rural, que tanto estava \u00e0 vontade nas refregas das batalhas como nos galanteios dos sal\u00f5es, dan\u00e7ando com o mesmo desempenho dos mo\u00e7os e sabendo como ningu\u00e9m fazer-se agrad\u00e1vel \u00e0s senhoras\u201d. E completa: \u201c&#8230;homem de irradiante simpatia, admirado e estimado\u201d. \u201cSua presen\u00e7a causava entusiasmo entre os combatentes\u201d, diz Walter Spalding.<\/p>\n<p>\u201cVede o vulto de Neto, onde a estesia espont\u00e2nea de um povo modela atitudes de desempenho e garbo\u201d, exclama Rubens de Barcellos. E prossegue: \u201cQuem mais rio-grandense do que esse Antonio de Souza Neto \u2013 gr\u00e3o-senhor campesino, galante e batalhador? Nem Bento, o general\u00edssimo, guerreiro gentil, se lhe avantaja no liberalismo, na bravura e no fascinante prest\u00edgio\u201d. E mais: \u201cChefe espont\u00e2neo, general de nascen\u00e7a, \u00e9 o homem resumo, representativo dum povo e expoente de uma \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA gauchada segue Bento Gon\u00e7alves, segue Neto porque eles s\u00e3o as \u00fanicas energias de comando que conhecem e acatam, contemplando- se neles como resumos\u201d, diz Barcellos.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos quando a guerra estava perdida e s\u00f3 se buscava uma sa\u00edda honrosa, Neto conseguiu se manter acima das intrigas e das disputas internas que dividiram os l\u00edderes do movimento.<\/p>\n<p>Bento Gon\u00e7alves matou Onofre Pires num duelo pela honra. Mas ficaram as palavras de Onofre: \u201cLadr\u00e3o da fortuna, ladr\u00e3o da vida, ladr\u00e3o da honra e ladr\u00e3o da liberdade\u201d. Ficou tamb\u00e9m sua fama de general azarado e seu autoritarismo.<\/p>\n<p>David Canabarro \u201cera taciturno, \u00e0s vezes r\u00edspido, quase sempre desconfiado \u2013 faltava-lhe sem d\u00favida aquela poderosa irradia\u00e7\u00e3o de simpatia t\u00e3o viva e irresist\u00edvel em Bento Gon\u00e7alves e Neto. Canabarro era um \u201csoldado animoso e rude\u201d, Neto \u201cuma galarda figura de homem, na defini\u00e7\u00e3o de Othelo Rosa.<\/p>\n<p>Neto tamb\u00e9m sofreu uma derrota humilhante. Atacado de surpresa, teve que aproveitar a escurid\u00e3o para fugir, diz a lenda que nem o poncho conseguiu levar. Mas sobre Canabarro pesa at\u00e9 hoje a suspeita do acordo com Caxias em Porongos, no ataque ultrajante.<\/p>\n<div style=\"padding: 18px; background-color: #ffe9ce;\">\n<h2>Uma febre maligna<\/h2>\n<p>O general Neto mandou erguer seu pr\u00f3prio mausol\u00e9u no cemit\u00e9rio de Bag\u00e9, onde queria ser enterrado. Foi constru\u00eddo na It\u00e1lia e transportado em blocos. Tem duas virgens esculpidas em m\u00e1rmore carrara e uma figura alada ao alto. Seus ossos levaram cem anos para chegar ali.<\/p>\n<p>Neto morreu no hospital de Corrientes, Argentina. \u201cVitima de impaludismo contra\u00eddo na regi\u00e3o insalubre do Passo da P\u00e1tria\u201d, registra o professor Antonio Rocha Almeida nas \u201cEfem\u00e9rides\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 certeza absoluta que tenha sido febre. H\u00e1 testemunhos de que ele foi ferido em combate. Podem ter sido as duas causas conjugadas. \u201cH\u00e1 refer\u00eancias a ferimentos, mas dentro da fam\u00edlia sempre se falou numa febre\u201d, conforme descendentes da fam\u00edlia em Bag\u00e9.<\/p>\n<figure id=\"attachment_39198\" aria-describedby=\"caption-attachment-39198\" style=\"width: 725px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39198\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/18-TuyutiDetail.jpg\" alt=\"Detalhe da tela &quot;A batalha de Tuythy&quot;\" width=\"725\" height=\"474\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-39198\" class=\"wp-caption-text\">Detalhe da tela &#8220;A batalha de Tuyti&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cEle foi ferido em Tuyuti\u201d, segundo testemunho do psicanalista uruguaio Carlos Mendilaharsu, bisneto do general, neto de Maria Antonia, a filha mais velha dele.<\/p>\n<p>O atestado de \u00f3bito n\u00e3o foi encontrado pela fam\u00edlia. \u201cMinha av\u00f3 n\u00e3o sabia mas havia informa\u00e7\u00e3o que sofreu um ferimento \u00e0 lan\u00e7a, que infeccionou\u201d, contou Mendilaharsu.<\/p>\n<p>Tuyuti foi o maior confronte militar j\u00e1 ocorrido na Am\u00e9rica do Sul \u2013 21.500 homens das for\u00e7as conjuntas do Brasil, Argentina e Uruguai contra 24 mil das for\u00e7as paraguaias. Quase mil homens marchavam sob o comando de Neto.<\/p>\n<p>A Brigada Ligeira, de Neto, era a vanguarda das tropas brasileiras. Mas naquele terreno de banhados e p\u00e2ntanos em territ\u00f3rio paraguaio, as condi\u00e7\u00f5es eram ruins para a cavalaria. Os cavalos estavam estropiados e sem alimento. Neto e seus homens ficaram na retaguarda.<\/p>\n<p>As linhas de frente j\u00e1 davam combate. A cavalaria procurou um pasto para os animais combalidos, num escasso peda\u00e7o de campo, junto ao mato. De dentro do mato surgiram os paraguaios de Solano Lopez, de emboscada.<\/p>\n<p>Neto e seus homens combateram, em retirada, at\u00e9 que chegaram refor\u00e7os para repelir o ataque. \u201cAcodem v\u00e1rios corpos para conter o inimigos que emergem do mato e os que avan\u00e7am pelos boqueir\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Em seu minucioso livro sobre a Guerra do Paraguai, o general Tasso Fragoso descreve o ataque. Sessenta e dois oficiais e 657 soldados brasileiros morreram em Tuyuti. Foram feridos 179 oficiais e 2.113 soldados. Mas n\u00e3o menciona Neto entre os feridos.<\/p>\n<p>No dia seguinte, 25 de maio de 1866, ele completaria 63 anos.<\/p>\n<p>Os trinta e oito dias, entre Tuyuti e sua morte no hospital de Corrientes, no dia 1 de julho, n\u00e3o tem registro. A mulher e duas filhas que viviam em Montevid\u00e9o n\u00e3o puderam ir a Corrientes para o enterro.<\/p>\n<p>Ele era casado com a uruguaia Maria Medina Escayola. Quando casaram ele j\u00e1 tinha 57 anos, ela andava pelos 40. Filha de uma fam\u00edlia de pol\u00edticos de Paysandu, no Uruguai, era instru\u00edda, gostava de literatura e teatro. Tiveram um noivado prolongado e cheio de \u201crusgas\u201d como atestam as poucas cartas que a fam\u00edlia ainda guarda.<\/p>\n<p>Quando ele morreu, Maria Escayaola e as duas filhas \u2013 Maria Ant\u00f4nia, com cinco anos e Teot\u00f4nia, com um ano incompleto \u2013 foram viver em Montevid\u00e9o. Teot\u00f4nia casoau com o coronel Guillaume Gaillard, do Ex\u00e9rcito franc\u00eas e foi viver em Nice, onde morreu em 1954.<\/p>\n<p>Maria Ant\u00f4nia tinha olhos claros, que dizia serem iguais aos do pai. Al\u00e9m dos olhos, herdou dele o gosto por pratos comuns no Rio Grande do Sul \u2013frango ao molho pardo e canja de galinha, por exemplo. Casou-se aos 16 anos com Domingos Mendilaharsu, advogado, bem mais velho.<\/p>\n<p>Os Mendilaharsu tinham na sala um retrato furado a bala no famoso cerco de Paisandu. Era colorados. Neto lutara ao lado deles em 1865, defendendo Ven\u00e2ncio Flores, contra o ditador uruguaio Aguirre.<\/p>\n<p>A maioria dos pesquisadores n\u00e3o se interessou muito pelas posses do general. N\u00e3o eram pequenas, sem d\u00favida. Ao fim da guerra, quando emigrou para o Uruguai, ele deixou duas est\u00e2ncias com os irm\u00e3os em Bag\u00e9. O agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Gon\u00e7alves, bisneto de um de seus irm\u00e3os, n\u00e3o sabe quanta terra eles tinham. N\u00e3o era pouca. Duas gera\u00e7\u00f5es depois ainda era o suficiente para deixar os herdeiros ricos: \u201cMeu av\u00f4 tinha sete filhos, quando morreu cada um herdou 38 quadras de sesmaria*, diz ele.<\/p>\n<p>No Uruguai chegou a ter 800 quadras espanholas (mais de 60 mil hectares) em Piedra Sola, Paisandu, Durazno e Florida, segundo Carlos Mendilaharsu. Metade o pr\u00f3prio Neto perdeu em demanda com arrendat\u00e1rios. O restante foi dilapidado pelo genro.<\/p>\n<p>Apaixonado pela pol\u00edtica, o dr. Mendilaharsu consumiu quase todas as terras herdadas por Ant\u00f4nia e a irm\u00e3, financiando jornais partid\u00e1rios. Chegou a senador do Uruguai, o que n\u00e3o impediu que a mulher recorresse \u00e0 Justi\u00e7a para salvar o que restava de seus bens. \u201cFoi a primeira a\u00e7\u00e3o judicial de separa\u00e7\u00e3o de bens no Uruguai\u201d, diz seu neto Carlos . Quando ela morreu em 1949, o invent\u00e1rio revelou que , das terras do general, restavam menos de 20 mil hectares da est\u00e2ncia La Gl\u00f3ria, em Piedra Sola, departamento de Tacuaremb\u00f3.<\/p>\n<p>\u00danico herdeiro, Carlos Mendilaharsu tratou de vender 17 mil hectares (\u201cpor motivos obscuros o governo queria desapropriar\u201d) e dividiu o restante entre os filhos.<\/p>\n<p><strong>Com a bandeira do Imp\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p>Em novembro de 1865, o Ex\u00e9rcito brasileiro invadiu o Uruguai mais uma vez.<\/p>\n<p>Na vanguarda das tropas brasileiras ia Brigada de Volunt\u00e1rios Rio-grandenses, com 1.200 homens sob o comando do general Neto.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o do ano seguinte, menos de um m\u00eas depois de assinada a paz com a Rep\u00fablica Oriental do Uruguai\u201d, Neto j\u00e1 estava engajado na Guerra do Paraguai.<\/p>\n<p>Em of\u00edcio ao ministro da Guerra, o general Os\u00f3rio d\u00e1 conta das tropas que reunia para marchar contra o Paraguai: \u201cNo dia 6 de mar\u00e7o, com o acr\u00e9scimo recebido esse n\u00famero subiu para 9.957, n\u00e3o incluindo mais ou menos 1.300 pra\u00e7as comandadas pelo general Antonio de Souza Neto, que se achavam na campanha oriental\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA 29 de julho de 1865, ordenou Os\u00f3rio que o general Neto passasse o Rio Uruguai e se lhe junta-se com sua brigada de volunt\u00e1rios riograndenses, com 993 homens grupados em tr\u00eas corpos\u201d, registra Tasso Fragoso.<\/p>\n<p>O bisneto Carlos Mendilaharsu contou que foi o proprio D. Pedro II quem lhe mandou o estandarte imperial que seu ex\u00e9rcito de volunt\u00e1rios levava ao lado da bandeira tricolor dos farrapos.<\/p>\n<p>Em 1930, sua filha Antonia tentou transferir os ossos do general que estava enterrado no cemit\u00e9rio de corrientes, para montevid\u00e9o. Fez um pedido ao governo argentino, mas n\u00e3o obteve autoriza\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Adotou, ent\u00e3o, uma solu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica: mandou roubar os restos do cemit\u00e9rio de Corrientes e enterrou-os no jazigo da fam\u00edlia no cemit\u00e9rio central de Montevid\u00e9o.<\/p>\n<p>Em 1966, o governo ga\u00facho obteve autoriza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia para transferi-los para Bag\u00e9, onde o t\u00famulo vazio aguardava h\u00e1 100 anos. Duas inscri\u00e7\u00f5es no mausol\u00e9u anulam o seu passado de dissidente farroupilha. Gravado no m\u00e1rmore, se l\u00ea:<\/p>\n<p>Ele foi um dos quatro comandantes dos Farrapos que assinaram o acordo de paz em Cerros Verdes* (*Jos\u00e9 Gomes Jardim, presidente da Rep\u00fablica, David Canabarro, comandante em chefe, Antonio de Souza Neto, chefe do Estado Maior e Jo\u00e3o Ant\u00f4nio da Silveira, comandante da 2\u00aa.Divis\u00e3o. A paz foi assinada em 28.02.1845). Mas no \u00faltimo encontro quando os chefes farrapos tomaram a decis\u00e3o de depor as armas, foi o \u00fanico que votou pela continua\u00e7\u00e3o da guerra. Depois, \u00e0 frente de um pequeno ex\u00e9rcito particular (\u201cmais de 300 homens, a maioria escravos libertos), atravessou a fronteira e foi viver no Uruguai, onde tinha grandes extens\u00f5es de terra.<\/p>\n<p>Dos chefes farroupilhas \u00e9, talvez, o menos conhecido e o mais mitificado. As informa\u00e7\u00f5es sobre ele est\u00e3o dispersas em v\u00e1rios livros e s\u00e3o truncadas. H\u00e1 um manuscrito de Carlos Rheingantz sobre sua fam\u00edlia em Bag\u00e9, que se extraviou no Museu D. Diogo de Souza. Tamb\u00e9m o professor Paulo Xavier ampliou a pesquisa sobre a genealogia do general. Est\u00e1 com o trabalho pronto \u00e0 espera do editor.<\/p>\n<p>H\u00e1 diverg\u00eancias sobre a data do seu nascimento, n\u00e3o h\u00e1 certeza sobre a causa da morte e seu gesto mais importante \u2013 a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Riograndense &#8211; ainda n\u00e3o foi devidamente compreendido. Ele era um revolucion\u00e1rio republicano, radical at\u00e9 o separatismo. Ou era apenas um caudilho platino?<\/p>\n<\/div>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-39206 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/1409-Arroio1.jpg\" alt=\"1409-arroio1\" width=\"725\" height=\"248\" \/><\/p>\n<p>No local onde Netto fundou a Rep\u00fablica Rio-grandense, no \u201cCampo dos Menezes\u201d, no atual munic\u00edpio de Bag\u00e9, foi colocado um marco de concep\u00e7\u00e3o positivista: \u201cNeste local, em 11 de setembro de 1836, travou\u2011se a batalha do Seival e foi proclama-da a rep\u00fablica de Piratini.\u201d<\/p>\n<p>Na verdade, a batalha travou\u2011se a 200 metros do local e a proclama\u00e7\u00e3o foi no dia seguinte e noutro lugar a cinco quil\u00f4metros dali. Fora uma batalha sangrenta com mais de 100 mortos de cada lado. Neto colocou a tropa em forma e leu a proclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A denomina\u00e7\u00e3o Rep\u00fablica de Piratini denota a manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Foi usada depreciativamente por um funcion\u00e1rio do Imp\u00e9rio Araripe, para dar conota\u00e7\u00e3o de republiqueta. Mas foi, depois, adotada pelos positivistas ga\u00fachos, por estar de acordo com sua concep\u00e7\u00e3o de \u201cpequenas p\u00e1trias\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O enigma do arroio Seival As raz\u00f5es que levaram Ant\u00f4nio de Souza Netto a declarar o Rio Grande do Sul uma rep\u00fablica independente do Brasil ainda provocam muita discuss\u00e3o. Henrique Wiederspahn diz que \u201clevantar a bandeira da Rep\u00fablica foi o \u00fanico meio que os farroupilhas encontraram para dar alento \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o, depois de uma seq\u00fc\u00eancia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":79290,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[110],"tags":[29],"class_list":["post-79223","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-republica-riograndense","tag-sao-paulo"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2021\/09\/16-casa-general-neto-image43.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79223"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79223\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79292,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79223\/revisions\/79292"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}