{"id":79405,"date":"2011-09-05T00:56:14","date_gmt":"2011-09-05T03:56:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/?p=79405"},"modified":"2021-12-02T01:04:31","modified_gmt":"2021-12-02T04:04:31","slug":"benfeitor-em-rio-grande-malfeitor-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/benfeitor-em-rio-grande-malfeitor-no-brasil\/","title":{"rendered":"Benfeitor em Rio Grande, malfeitor no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O aziago m\u00eas de agosto do ano da gra\u00e7a de 2011 marcou a conflu\u00eancia de duas comemora\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias: os 45 anos do afogamento sob torturas do ex-sargento do Ex\u00e9rcito Manoel Raimundo Soares e os 100 anos de nascimento do general Golbery do Couto e Silva.<\/p>\n<p>Uma exalta a mem\u00f3ria, outra ofende a hist\u00f3ria \u2013 uma ofensa com o benepl\u00e1cito do sil\u00eancio c\u00famplice da imprensa.<\/p>\n<p>Em 1966, ainda agosto, o cad\u00e1ver putrefato do sargento veio \u00e0 tona num dos afluentes do lago Gua\u00edba que banha Porto Alegre, ap\u00f3s 152 dias de tortura num quartel do Ex\u00e9rcito e nas celas do DOPS. Aflorou nas \u00e1guas barrentas do rio Jacu\u00ed com os p\u00e9s e as m\u00e3os amarradas \u00e0s costas, marca brutal da tortura que estarreceu at\u00e9 o homem que, dois anos antes, iniciara o golpe que imp\u00f4s a ditadura: \u201cTrata-se de um crime terr\u00edvel e de aspecto medieval, para cujos autores o C\u00f3digo Penal exige rigorosa puni\u00e7\u00e3o\u201d, indignou-se o general Olympio Mour\u00e3o Filho, ent\u00e3o ministro do Superior Tribunal Militar (STM).<\/p>\n<p>O \u201cCaso das M\u00e3os Amarradas\u201d ficou ali, boiando no medo viscoso de alguns, constrangendo a in\u00e9rcia de muitos, incomodando a consci\u00eancia de todos. Apesar dos 20 nomes envolvidos na pris\u00e3o, tortura e morte de Soares \u2013 dez sargentos, tr\u00eas delegados, dois comiss\u00e1rios, dois tenentes, um guarda-civil, um major e um tenente-coronel do Ex\u00e9rcito \u2013, o IPM foi arquivado sem que ningu\u00e9m fosse denunciado. No \u00faltimo dia 26 de agosto, anivers\u00e1rio de sua morte, o sargento Soares foi lembrado em Porto Alegre com a inaugura\u00e7\u00e3o de um monumento em um parque \u00e0s margens do Gua\u00edba de onde seu cad\u00e1ver emergiu para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A vi\u00fava, dona Elizabeth, abriu um processo em 1973 contra a Uni\u00e3o pedindo indeniza\u00e7\u00e3o por danos morais. Sucessivamente, nos \u00faltimos 16 anos de presid\u00eancia dos democratas Fernando Henrique Cardoso e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, a Uni\u00e3o recorria teimosamente da senten\u00e7a para defender os assassinos da ditadura.<\/p>\n<p>Dona Elizabeth morreu no Rio de Janeiro em 2009, aos 72 anos, com as m\u00e3os amarradas pela impunidade e o cora\u00e7\u00e3o sangrado pela amargura \u2013 ainda sem saber o nome dos assassinos do marido, sem ser indenizada pelo Estado que o matou, sem ver a homenagem tardia ao sargento, trucidado aos 30 anos de idade.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O rep\u00fadio da terra<\/p>\n<p>No domingo anterior, 21 de agosto, uma cerim\u00f4nia parecida resgatou a lembran\u00e7a de outra ilustre figura, morta em 1987: o mentor da ditadura que supliciou e assassinou o sargento, o general Golbery do Couto e Silva, nascido exatamente um s\u00e9culo antes em Rio Grande, o porto mais importante do extremo sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O prefeito da cidade, filiado ao PMDB bastardo que nada lembra o MDB velho de guerra que combateu o regime militar, plantou na pra\u00e7a Tamandar\u00e9 a pedra fundamental de um busto em honra ao filho ilustre, conterr\u00e2neo do almirante e patrono da Marinha.<\/p>\n<p>A mais alta autoridade militar no ato da pra\u00e7a era um major da guarni\u00e7\u00e3o local, o 6\u00ba GAC (Grupo de Artilharia de Campanha). Nem o comandante, um tenente-coronel, apareceu por l\u00e1. Era a terceira tentativa de homenagear Golbery na sua terra natal: as duas anteriores, para dar seu nome a uma rua, foram negadas pelos vereadores. At\u00e9 que, no Natal de 2009, o projeto do busto foi aprovado na C\u00e2mara local com um \u00fanico voto contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O pequeno di\u00e1rio de 16 p\u00e1ginas da cidade, <em>Agora<\/em>, nasceu em setembro de 1975, quando Golbery estava no auge de seu poder como chefe do Gabinete Civil do general Ernesto Geisel. O editorial do <em>Agora <\/em>que defendia a homenagem, sob o t\u00edtulo \u201cD\u00edvida de gratid\u00e3o\u201d, relacionava alguns benef\u00edcios que o general trouxe para sua terra: mudou para l\u00e1 a sede do 5\u00ba Distrito Naval, antes baseado em Florian\u00f3polis, defendeu a constru\u00e7\u00e3o do sistema que capta \u00e1gua do canal de S\u00e3o Gon\u00e7alo, facilitou a pavimenta\u00e7\u00e3o de uma avenida e ruas do bairro Cidade Nova. Apesar disso, dois de cada tr\u00eas habitantes da cidade n\u00e3o s\u00e3o nada gratos a Golbery.<\/p>\n<p>Uma pesquisa online<a href=\"http:\/\/www.jornalagora.com.br\/\">no site do jornal<\/a>, perguntando aos leitores se concordavam ou n\u00e3o com a homenagem, mostrava no domingo (4\/9) que Golbery \u00e9 mais detestado (67,55%) pelo envolvimento com a ditadura do que louvado (32,45%) pela mera condi\u00e7\u00e3o de riograndino. No fim de semana, mais de 900 pessoas j\u00e1 haviam firmado um abaixo-assinado virtual contra o general, a ser entregue ao prefeito de Rio Grande (<a href=\"http:\/\/www.peticaopublica.com.br\/PeticaoListaSignatarios.aspx?page=&amp;sr=881&amp;pi=P2011N13643\">ver aqui<\/a>).<\/p>\n<p class=\"intertit\">Estrutura gong\u00f3rica<\/p>\n<p>O busto de Golbery na maior pra\u00e7a do interior ga\u00facho, com 44 mil m\u00b2, um terminal rodovi\u00e1rio, uma pracinha infantil e um minizoo, vai dividir espa\u00e7o com figuras ainda mais famosas: as hermas de Napole\u00e3o Bonaparte, Guglielmo Marconi, Marqu\u00eas de Tamandar\u00e9 e Jesus Cristo e os restos mortais do general Bento Gon\u00e7alves, l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha (1835-1945).<\/p>\n<p>Haver\u00e1 quem considere justa a homenagem a Golbery como benfeitor de Rio Grande. Mas muitos, muitos mais, t\u00eam justa raz\u00e3o para lembrar de Golbery como malfeitor do Brasil.<\/p>\n<p>Basta compulsar sua atribulada ficha militar, com uma s\u00e1dica inclina\u00e7\u00e3o pelo mal, pelo conluio, pela trama, pelo ardil, pela conspira\u00e7\u00e3o contra a lei, o direito e a Constitui\u00e7\u00e3o. Golbery tinha um especial fasc\u00ednio pela manipula\u00e7\u00e3o das pessoas certas para fazer as coisas erradas de uma forma inteligente, um talento na hora certa para fazer a coisa errada, uma habilidade que induzia o bem para o mal e dava a uns e outros a errada e \u00fatil convic\u00e7\u00e3o de cometer o erro como se acerto fosse.<\/p>\n<p>Um t\u00edpico circunl\u00f3quio, uma per\u00edfrase, que lembra bastante a par\u00e1bola do poeta grego Arqu\u00edloco, do s\u00e9culo 6 a.C., usada pelo pensador ingl\u00eas Isaiah Berlin no seu famoso ensaio sobre <em>O porco-espinho e a raposa<\/em>. Ensinava: \u201cA raposa sabe muitas coisas, mas o porco-espinho sabe uma grande coisa\u201d. Golbery pescou este ensinamento e o cravou na conclus\u00e3o do segundo cap\u00edtulo (\u201cAspectos Geopol\u00edticos do Brasil, 1959\u201d)de seu perifr\u00e1stico<em>Geopol\u00edtica do Brasil<\/em>, uma seleta de ensaios de sua gong\u00f3rica estrutura mental, juncada de mapas, esquemas, hemiciclos, geist\u00f3ria, ec\u00famenos e outras esquisitices.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Os verdadeiros inimigos<\/p>\n<p>Contrariando seu pr\u00f3prio mito, Golbery parecia menos a raposa e mais o porco-espinho. Ele, ao contr\u00e1rio dela, v\u00ea o que \u00e9 essencial e ignora o resto, desprezando a complexidade em torno para concentrar a mira no objetivo central. No mundo bipolar da Guerra Fria do p\u00f3s-guerra, Golbery enrolou-se cuidadosamente em seu anticomunismo, escolheu o lado e apontou todos os espinhos para a cruzada de salva\u00e7\u00e3o que embolou o estamento militar e a elite empresarial numa esfera redonda, pontiaguda e ideologicamente coesa na luta contra o inimigo comum. Como na f\u00e1bula, e apesar da felpuda ast\u00facia dos inimigos, o porco-espinho de Golbery sempre vence. Como venceu, na maioria das vezes, nas duas espinhadas d\u00e9cadas da ditadura instalada em 1964.<\/p>\n<p>Diferente do tosco sargento afogado no rio Jacu\u00ed, o general que emergia no Rio Grande era, desde crian\u00e7a, uma cabe\u00e7a privilegiada, voraz, ardilosa. Golbery queria saber uma grande coisa, como o sabido porco-espinho, mas tamb\u00e9m queria saber muitas coisas mais, como a raposa astuta. Com 11 anos era o orador da turma da escola municipal num discurso na capela da igreja da Concei\u00e7\u00e3o, em 1922, pedindo a recupera\u00e7\u00e3o de Ruy Barbosa, adoentado no Rio. Com 14 anos j\u00e1 tinha lido a maioria dos cl\u00e1ssicos da literatura portuguesa. O boletim na escola brilhava com notas 9 e 10 em matem\u00e1tica, portugu\u00eas, l\u00ednguas, ci\u00eancias.<\/p>\n<p>Com 15 anos ele se formou em ci\u00eancias e letras no gin\u00e1sio, exibindo a melhor m\u00e9dia da hist\u00f3ria do col\u00e9gio: nota 9,3. Aos 16 ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio. Aos 18 o cadete Golbery j\u00e1 era o redator-chefe da <em>Revista da Escola Militar. <\/em>Em meados de 1929, o precoce conspirador afiava os espinhos no texto principal da revista, intitulado \u201cAntimilitarismo\u201d, avisando:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 caso in\u00e9dito o fato de batalh\u00f5es e regimentos e de guarni\u00e7\u00f5es de navios de guerra empunharem armas contra o Governo e de mesmo haverem, ao lado dos revolucion\u00e1rios, deposto um chefe de Estado e eleito outro. Os partid\u00e1rios pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o a um governo n\u00e3o s\u00e3o, propriamente falando, antimilitaristas. Os verdadeiros inimigos das classes armadas s\u00e3o, de fato, os anarquistas e a maior parte dos socialistas\u201d.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Do nazismo \u00e0 ditadura<\/p>\n<p>Com 19 anos chegou a segundo-tenente e deixou Realengo na crista de sua primeira revolu\u00e7\u00e3o, a de 1930, como aspirante da primeira turma da nova ordem. Com 33, o capit\u00e3o Golbery ingressou na War School de Fort Leavenworth, no Kansas, por onde anos antes passaram os generais Eisenhower e Patton, her\u00f3is da Segunda Guerra Mundial. No final do ano estava no <em>front<\/em> italiano da guerra, com a FEB, fazendo o que gosta como oficial de intelig\u00eancia e informa\u00e7\u00f5es. O capit\u00e3o que lutava contra o nazismo, em 1944, mudaria de lado duas d\u00e9cadas depois, como coronel, para implantar a ditadura de 1964.<\/p>\n<p>Os graves desvios de conduta de Golbery, contudo, come\u00e7aram dez anos antes. Em 1954 redigiu o manifesto de 82 coron\u00e9is e tenentes-coron\u00e9is que protestavam contra o aumento de 100% do sal\u00e1rio m\u00ednimo decretado por Get\u00falio Vargas. A primeira subvers\u00e3o de Golbery acabou derrubando Jo\u00e3o Goulart do Minist\u00e9rio do Trabalho e o general Ciro do Esp\u00edrito Santo do ent\u00e3o Minist\u00e9rio da Guerra.<br \/>\nEm 1955, nova insubordina\u00e7\u00e3o: Golbery escreve o discurso que o coronel Jurandyr de Bizarria Mamede l\u00ea no enterro do general Canrobert Pereira da Costa, l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o militar a Get\u00falio. \u00c9 a senha para tentar barrar a posse de Juscelino Kubitscheck, que Golbery espica\u00e7a como \u201cindiscut\u00edvel mentira democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Ganhou espinhosos oito dias de cana por conta do marechal Lott, o ministro da Guerra que abortou o golpe. Em 1961, o teimoso porco-espinho de Golbery reaparece no texto bicudo em que os tr\u00eas ministros militares \u2013 \u00e9brios pelo bafo inesperado da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros \u2013 tentam vetar a posse de Jo\u00e3o Goulart, detonando a resist\u00eancia popular em torno do governador Leonel Brizola e a vitoriosa \u201cCampanha da Legalidade\u201d, que festejou meio s\u00e9culo agora em agosto.<\/p>\n<p class=\"intertit\">O pai do monstro<\/p>\n<p>A raposa de Brizola, daquela vez, venceu o ouri\u00e7o de Golbery. O troco viria tr\u00eas anos depois. Em menos de 90 dias, Golbery j\u00e1 aprontava de novo, assumindo no final de 1961 a conspira\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do golpe em andamento, pilotando o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o not\u00f3rio IPES, que coordenava empres\u00e1rios, jornalistas, pol\u00edticos, sindicalistas, agitadores, marqueteiros e militares a partir de 13 salas do 27\u00ba andar do edif\u00edcio Avenida Central, no centro do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1963, o aparelho subversivo de Golbery j\u00e1 mobilizava 320 dos maiores empres\u00e1rios, de fam\u00edlias tradicionais do pa\u00eds a poderosas corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras. Era um cartel golpista das 278 maiores empresas do pa\u00eds, que cortavam no ato a publicidade de qualquer jornal, revista, r\u00e1dio ou TV que desse apoio ao governo Goulart. O porco-espinho, afinal, sempre vence.<\/p>\n<p>Dali, afundado cada vez mais na senda da ilegalidade, Golbery operava o grampo de tr\u00eas mil telefones s\u00f3 na capital fluminense. Com a vit\u00f3ria do golpe, em 1964, Golbery criou e assumiu o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), montado a partir da grampol\u00e2ndia inaugurada por ele no IPES. \u201cO SNI era uma aberra\u00e7\u00e3o do Estado\u201d, definiu o jornalista Lucas Figueiredo, autor de <em>Minist\u00e9rio do Sil\u00eancio<\/em>, um brilhante hist\u00f3rico do servi\u00e7o secreto no Brasil, desde Washington Lu\u00eds (1927) at\u00e9 Lula (2005). Seis meses ap\u00f3s a posse de Costa e Silva como o segundo general da ditadura, o diretor do combativo <em>Correio da Manh\u00e3, <\/em>Edmundo Moniz, profetizava em editorial de fins de 1967:<\/p>\n<p>\u201cO SNI ainda n\u00e3o se transformou numa Gestapo ou na KGB dos tempos de Hitler e St\u00e1lin. Mas come\u00e7a a engatinhar e mostrar os dentes. Dentro em breve poder\u00e1 firmar-se em suas quatro patas. \u00c9 um filhote de monstro!\u201d.<\/p>\n<p>O SNI gestado e encorpado por Golbery agia dentro, fora e acima do governo, imune a controles externos do Judici\u00e1rio e do Congresso. Fazia e acontecia, consagrando o Estado da dela\u00e7\u00e3o e infiltrando o <em>Big Brother<\/em> do regime em todas as inst\u00e2ncias dos governos, das cidades do interior \u00e0s capitais, das estatais \u00e0 Esplanada dos Minist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Dois meses ap\u00f3s deixar o governo do general Jo\u00e3o Figueiredo, no rastro do frustrado atentado terrorista do Riocentro, em meados de 1981, Golbery ecoava o que o jornalista prenunciara 14 anos antes: \u201cCriei um monstro!\u201d. O general, enfim, j\u00e1 n\u00e3o conseguia controlar os espinhos de seu porco de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A ditadura, sempre<\/p>\n<p>O melhor prontu\u00e1rio do general que saiu de Rio Grande para desestabilizar a democracia brasileira, j\u00e1 em 1954, e arquiv\u00e1-la por duas d\u00e9cadas, a partir de 1964, est\u00e1 na magistral tetralogia do jornalista Elio Gaspari sobre as <em>Ilus\u00f5es Armadas<\/em>, publicada entre 2002 e 2004. Ali, o \u201cfeiticeiro\u201d Golbery divide o palco, a cena, os bastidores, o enredo, a trama, os aliados, os inimigos e o poder com o \u201csacerdote\u201d Ernesto Geisel, seu companheiro de conspira\u00e7\u00e3o e trincheira de luta militar e pol\u00edtica, do in\u00edcio dos anos 1950 ao final da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>Os quatro volumes est\u00e3o ancorados em 25 caixas do arquivo pessoal de Golbery, com cerca de cinco mil documentos, em 220 horas de conversas gravadas com Geisel e seu <em>staff <\/em>e no arquivo privado e no di\u00e1rio pessoal do capit\u00e3o Heitor Ferreira, sucessivamente secret\u00e1rio particular de Golbery (1964-67) e de Geisel (1971-79).<\/p>\n<p>Com base nesses pap\u00e9is e depoimentos, \u00e9 poss\u00edvel perceber na obra de Gaspari o ec\u00fameno do pensamento golberyano, pela via oscilante da \u201cs\u00edstole\u201d e da \u201cdi\u00e1stole\u201d pol\u00edtica que, em rod\u00edzio, explicariam os momentos de contra\u00e7\u00e3o (centraliza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria) ou dilata\u00e7\u00e3o (descentraliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica) de nossa hist\u00f3ria, a partir da card\u00edaca imagem de Golbery.<\/p>\n<p>O comprometimento do general nesse processo espinhoso fica mais bem definido pelo t\u00edtulo comum que atravessa os quatro volumes da obra \u2013 <em>A Ditadura \u2013<\/em>, redefinida pelas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas de cada per\u00edodo, de Castelo Branco a Geisel:<em>Envergonhada, Escancarada, Derrotada <\/em>e<em>Encurralada.<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o ditaduras diferentes, mas sempre ditadura. Sem per\u00edfrase.<\/p>\n<p>\u00c9 disso que se trata: Golbery do Couto e Silva, com seu engenho e arte voltados para o mal, pensando, agindo, criando, fazendo e acontecendo para desfazer o Estado democr\u00e1tico e impor o seu modelo autorit\u00e1rio, afinado com sua \u201cdoutrina de seguran\u00e7a nacional\u201d, imune \u00e0 suposta contamina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que o regime liberal, mais do que permitia, induziria.<\/p>\n<p class=\"intertit\">A derradeira afronta<\/p>\n<p>Era o general e seus comparsas agindo com a m\u00e1quina do Estado, todo poderoso, contra o cidad\u00e3o, todo intimidado. Em alguns momentos, Golbery esteve mais distante do centro do poder militarizado, n\u00e3o porque divergia dele, mas por mera medi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a ou simples c\u00e1lculo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Golbery n\u00e3o afrontava o \u201cSistema\u201d. Golbery era o pr\u00f3prio \u201cSistema\u201d, pensado e criado para sobreviver \u00e0s suas peculiares s\u00edstoles e di\u00e1stoles. Sempre preservando o Estado, mesmo que \u00e0 custa do cidad\u00e3o, do eleitor \u2013 do povo, enfim, de quem toda ditadura prescinde.<\/p>\n<p>Quando Golbery rompeu com Figueiredo e saiu do governo, em 1981, n\u00e3o era por s\u00fabita devo\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Era por avers\u00e3o absoluta \u00e0quele que queria ser o sexto general-presidente do regime, Oct\u00e1vio Medeiros, ent\u00e3o chefe do renegado SNI. A alternativa presidencial de Golbery, como se sabe, define bem o car\u00e1ter do general: era Paulo Maluf, o nome civil que a ditadura embalava para lhe dar uma sobrevida no Col\u00e9gio Eleitoral. O sonho de Golbery foi atropelado pela vit\u00f3ria do advers\u00e1rio Tancredo Neves e virou pesadelo com a posse inesperada do ex-aliado Jos\u00e9 Sarney.<br \/>\nA confirma\u00e7\u00e3o do busto do general em Rio Grande n\u00e3o seria s\u00f3 um novo espinho, cutucando a mem\u00f3ria, machucando a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>A intempestiva irrup\u00e7\u00e3o de Golbery na pra\u00e7a do povo poderia ser a \u00faltima afronta do general contra a hist\u00f3ria do povo que ele sempre combateu, tolheu, bisbilhotou e desrespeitou por atos, fatos e manifestos.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o porco-espinho vai vencer, pela \u00faltima vez?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aziago m\u00eas de agosto do ano da gra\u00e7a de 2011 marcou a conflu\u00eancia de duas comemora\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias: os 45 anos do afogamento sob torturas do ex-sargento do Ex\u00e9rcito Manoel Raimundo Soares e os 100 anos de nascimento do general Golbery do Couto e Silva. 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