{"id":79436,"date":"2022-06-24T18:17:37","date_gmt":"2022-06-24T21:17:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/?p=79436"},"modified":"2022-06-24T18:21:29","modified_gmt":"2022-06-24T21:21:29","slug":"joao-souza-1935-2022-morre-um-gigante-do-jornalismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/joao-souza-1935-2022-morre-um-gigante-do-jornalismo-brasileiro\/","title":{"rendered":"JO\u00c3O SOUZA (1935-2022): Morre um gigante do jornalismo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha *<\/p>\n<p>O caminhar era sereno, o tom de voz sempre aveludado, o gestual das m\u00e3os incontrolavelmente suave. Nada ali permitia um desassossego, uma grosseria, uma palavra rude, um atropelo, um trejeito de brutalidade. Assim foi o jornalista ga\u00facho Jo\u00e3o Borges de Souza at\u00e9 segunda-feira, 13 de junho passado, quando tombou mansamente aos 87 anos, num hospital da Grande Porto Alegre, vencido por uma parada cardiorrespirat\u00f3ria e pelo mal de Alzheimer, que h\u00e1 tr\u00eas anos dissolvia sua amorosa mem\u00f3ria. Apesar disso, Jo\u00e3o Souza, como ele era conhecido, ficar\u00e1 para sempre na nossa lembran\u00e7a como um dos gigantes do jornalismo brasileiro.<\/p>\n<p>Alto, com 1m80 onde se acomodava um f\u00edsico enxuto de 75 kg sem gorduras, Jo\u00e3o Souza desfilava sua eleg\u00e2ncia pelos gabinetes de pol\u00edticos e sal\u00f5es dos pal\u00e1cios com o habitual terno de feitio impec\u00e1vel sempre combinando com a gravata ajustada, o que lhe dava o perfil de um lorde ingl\u00eas importado para os pampas. O contraste dos cabelos precocemente grisalhos com o tom escuro da pele lhe conferia a altiva dignidade de um pr\u00edncipe et\u00edope, que chamava ainda mais a aten\u00e7\u00e3o por ser um dos primeiros negros do Rio Grande do Sul em cargo importante em reda\u00e7\u00f5es dominadas secularmente por jornalistas que se consideravam brancos, herdeiros da alvura dos imigrantes alem\u00e3es, italianos e portugueses.<\/p>\n<p>Apesar disso, Jo\u00e3o n\u00e3o se considerava um intruso racial. Perguntado anos atr\u00e1s, numa entrevista com tr\u00eas rep\u00f3rteres, se ele tinha sentido na pele o racismo estrutural do Rio Grande, ele respondeu que n\u00e3o. \u201cQuando insistimos na pergunta\u201d, lembra a jornalista N\u00fabia Silveira, sua amiga e confidente de meio s\u00e9culo, \u201cele nos fuzilou com o olhar, sem dizer nada, como se perguntasse: N\u00e3o acreditam em mim?\u201d.<\/p>\n<p>Rep\u00f3rter sagaz, editor talentoso, l\u00edder sindical corajoso em tempos de ditadura, Jo\u00e3o Borges tornou-se uma refer\u00eancia de gentileza, firmeza e dignidade no seu perene e aberto confronto contra a brutalidade, a tibieza e a desonra que pervertem costumes e corpora\u00e7\u00f5es nos tempos sombrios do arb\u00edtrio. Comandou em diferentes cargos o Sindicato de Jornalistas de Porto Alegre no per\u00edodo mais trevoso da ditadura militar, nos governos dos generais Garrastaz\u00fa M\u00e9dici e Ernesto Geisel, quando muitos jornalistas, em vez de entrevistar, eram compulsoriamente entrevistados por militares hostis da repress\u00e3o na antessala dos c\u00e1rceres ilegais.<\/p>\n<p class=\"intertit\">N\u00e3o me reconhece, camarada?<\/p>\n<p>Por sua lideran\u00e7a e presen\u00e7a sempre do lado certo da Hist\u00f3ria, Jo\u00e3o tem seu nome engastado em momentos memor\u00e1veis do jornalismo. Sem nunca ter frequentado universidade, um Jo\u00e3o quase adolescente abra\u00e7ou o jornalismo, por devo\u00e7\u00e3o ao of\u00edcio e \u00e0 ideologia, colaborando com a <em>Gazeta Sindical,<\/em> de S\u00e3o Paulo, ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1956, aos 21 anos, trocou o amadorismo pela profiss\u00e3o, contratado como rep\u00f3rter do jornal <em>Tribuna Ga\u00facha, <\/em>porta-voz do PCB no Sul, que sobreviveu entre 1946 e 1958. Na \u00e9poca, muitos dos colegas de Jo\u00e3o alternavam a reda\u00e7\u00e3o com horas ou dias vividos nas pris\u00f5es pol\u00edticas da capital ga\u00facha.<\/p>\n<p>Quatro anos antes da chegada de Jo\u00e3o, a primeira reda\u00e7\u00e3o do jornal comunista era ponto fixo de confus\u00e3o. Na antiga Rua da Ladeira (atual General C\u00e2mara), uma transversal \u00edngreme que ligava a pra\u00e7a do Pal\u00e1cio do Piratini \u00e0 tradicional Rua da Praia (atual Andradas), no centro da capital, funcionava a <em>Tribuna<\/em> com o seu parque gr\u00e1fico no por\u00e3o. Para atrapalhar a circula\u00e7\u00e3o, a repress\u00e3o fazia ali pris\u00f5es, espancamentos, tumultos que marcavam cada edi\u00e7\u00e3o do di\u00e1rio. Com as portas sempre fechadas, para conter a pol\u00edcia, elas se abriam apenas para sair algum militante com discurso furibundo, que distra\u00eda a pol\u00edcia para longe, enquanto pacotes do jornal eram rapidamente desviados para militantes em pontos seguros da Rua da Praia, uma quadra abaixo.<\/p>\n<p>Numa obra cl\u00e1ssica sobre o jornalismo \u201csubversivo\u201d no Estado, <em>A imprensa Oper\u00e1ria do Rio Grande do Sul 1873-1974, <\/em>o jornalista Jo\u00e3o Batista Mar\u00e7al conta detalhes que o jovem Jo\u00e3o Souza viu de perto. A pol\u00edcia, com ideia fixa, n\u00e3o estranhava o n\u00famero elevado de gr\u00e1vidas em elevado estado de gesta\u00e7\u00e3o que costumava sair daquele endere\u00e7o, mesmo nos momentos mais conturbados do cerco policial. Na verdade, eram militantes quase virginais saindo dali com resmas de jornais impressos enrolados na falsa barriga. Algumas eram amigas ou conhecidas de Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter e pupilo Paulo de Tarso Riccordi contou ao jornalista Louren\u00e7o Cazarr\u00e9, nascido em Pelotas como Jo\u00e3o Souza, uma hist\u00f3ria que ressalta o lado bem-humorado do amigo. No come\u00e7o dos trepidantes anos 1960, Jo\u00e3o estava na rua, cobrindo uma manifesta\u00e7\u00e3o de protesto. Ele estava t\u00e3o pr\u00f3ximo da not\u00edcia que, em dado momento, come\u00e7ou a levar bordoada de um guarda da Pol\u00edcia de Choque da Brigada Militar, que fazia a repress\u00e3o. Jo\u00e3o identificou o agressor, na hora, como integrante clandestino do partido.<\/p>\n<p>\u2013 O que houve, camarada? N\u00e3o est\u00e1s me reconhecendo? \u2013 reclamou o jornalista.<\/p>\n<p>Sem cessar a pancadaria, agora menos intensa, o guarda respondeu com a discri\u00e7\u00e3o poss\u00edvel:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 claro que estou, camarada. Mas preciso baixar a borracha porque os meus comandantes j\u00e1 andam desconfiados de mim, est\u00e3o achando que sou comuna ou brizolista&#8230;<\/p>\n<p>E o guarda fingia com o cassetete, enquanto Jo\u00e3o fingia que apanhava.<\/p>\n<p>Da conturbada <em>Tribuna Ga\u00facha, <\/em>Jo\u00e3o migrou no final de 1954 para o matutino <em>A Hora, <\/em>um empreendimento de empres\u00e1rios trabalhistas vinculados a Jo\u00e3o Goulart. Pretendia ocupar o vazio deixado pelo <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>, o principal jornal dos Di\u00e1rios Associados de Chateaubriand, incendiado em agosto pelo povo enfurecido com o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas. O jornal definhou e morreu, por inani\u00e7\u00e3o, em mar\u00e7o de 1962. Antes de acabar <em>A Hora\u00b8 <\/em>Jo\u00e3o migrou para a <em>\u00daltima Hora<\/em> ga\u00facha, no in\u00edcio de fevereiro de 1960, que seria lan\u00e7ada duas semanas depois, participando dos n\u00fameros zeros experimentais do jornal revolucion\u00e1rio de Samuel Wainer, sempre antipatizado pela direita e pelos militares por sua visceral liga\u00e7\u00e3o com Get\u00falio Vargas. Foi, certamente, o primeiro rep\u00f3rter a cobrir o movimento sindical, uma novidade em jornal, fora da imprensa comunista que Jo\u00e3o integrou.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o resistiu l\u00e1 mesmo com o turbilh\u00e3o do golpe de 1964, que fechou o jornal esquerdista de Wainer, renascido como a <em>Zero Hora <\/em>direitista de Ary de Carvalho. Jo\u00e3o sobreviveu no novo jornal como rep\u00f3rter e editor de pol\u00edtica, at\u00e9 ser demitido em meados de 1965, acusado de integrar uma c\u00e9lula do PCB na reda\u00e7\u00e3o de ZH sob o comando de Jo\u00e3o Aveline. Com a ajuda do amigo Tarso de Castro, Jo\u00e3o exilou-se um tempo na Secretaria de Sa\u00fade, como assessor de imprensa, at\u00e9 ressurgir como editor de pol\u00edtica do novo jornal que Breno Caldas estava criando, no final da trepidante d\u00e9cada de 1960, para disputar as bancas com <em>Zero Hora<\/em>, seu maior concorrente<em>. <\/em>\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p class=\"intertit\">Tem rolo, chama o Jo\u00e3o<\/p>\n<p>Jo\u00e3o n\u00e3o queria o velho ran\u00e7o conservador da Caldas J\u00fanior, mas buscava o novo. E o novo era a <em>Folha da Manh\u00e3<\/em>, a ousada tentativa de renova\u00e7\u00e3o de Breno Caldas, o dono da empresa<em>.<\/em> Lan\u00e7ado em 1969, sob a dire\u00e7\u00e3o do ex-capit\u00e3o Erasmo Nascentes, que chamou Jo\u00e3o para ser seu editor de pol\u00edtica, desde a primeira edi\u00e7\u00e3o. O jornal s\u00f3 ganhou um f\u00f4lego renovador em 1972, quando Nascentes passou a dire\u00e7\u00e3o para o jornalista Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Severo, l\u00edder de um projeto avan\u00e7ado que trazia inova\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas, uma linguagem mais moderna, grandes reportagens, jornalismo investigativo e uma postura mais cr\u00edtica da realidade, novidades numa empresa conhecida por seu conservadorismo e alinhamento com o regime, que gozava da simpatia dos outros dois jornais da casa, o <em>Correio do Povo<\/em> e a <em>Folha da Tarde. <\/em><\/p>\n<p>O novo jornal era o filho rebelde, o matutino malcomportado da casa. L\u00e1, o progressista editor pol\u00edtico Jo\u00e3o Souza, aos 37 anos, sentia-se em casa, ao lado de gente nova, talentosa, de sangue quente. Em momentos distintos, Jo\u00e3o teve ao seu lado nomes brilhantes que viriam a formar uma sele\u00e7\u00e3o da imprensa brasileira \u2013 Elmar Bones, Rosvita Saueressig, Caco Barcellos, Jefferson Barros, Yara Rech, Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, N\u00fabia Silveira, Edgar Vasques, Assis Hoffmann, Gilberto Pauletti, Luiz Carlos Merten, Xico Vargas, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Vieira da Cunha, Carlos Alberto Kolecza, Juarez Fonseca, Jos\u00e9 Onofre, Geraldo Canalli e Carlos Urbim, entre outros.<\/p>\n<p>Apesar de tanto talento concentrado, o jornal entrou em crise, dirigido na sequ\u00eancia por Ruy Carlos Ostermann e Walter Galvani, que sucederam a Nascentes e Severo. Ap\u00f3s o auge de sucesso do in\u00edcio dos anos 1970, o projeto renovador da FM \u2013 que refor\u00e7ou seu tom investigativo e denunciador sob o comando de Ostermann \u2013 entrou em crise, at\u00e9 sucumbir uma d\u00e9cada depois, a partir de um conflito interno com Breno Caldas. O jornal acabou fechando em 1980, com apenas 11 anos de vida. Jo\u00e3o e outros remanescentes foram deslocados para a <em>Folha da Tarde.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_79438\" aria-describedby=\"caption-attachment-79438\" style=\"width: 1063px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem02.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79438 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem02.jpg\" alt=\"\" width=\"1063\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem02.jpg 1063w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem02-300x136.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem02-1024x465.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem02-768x349.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1063px) 100vw, 1063px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-79438\" class=\"wp-caption-text\">A Caldas J\u00fanior cercada pela pol\u00edcia: o dono, Breno Caldas, cruza o piquete grevista vaiado como \u2018caloteiro\u2019<\/figcaption><\/figure>\n<p>L\u00e1, Jo\u00e3o precisou usar de sua experi\u00eancia sindical para conduzir um dos epis\u00f3dios mais graves da imprensa ga\u00facha: a greve, primeira e \u00fanica, que levou ao fim a maior empresa jornal\u00edstica do Estado, a Caldas J\u00fanior de Breno Caldas. Durante 56 dias, entre dezembro de 1983 e fevereiro de 1984, os jornalistas e gr\u00e1ficos do <em>Correio do Povo <\/em>e da <em>Folha da Tarde <\/em>esbravejaram por atrasos de sete meses nos sal\u00e1rios. Um recorde de paralisa\u00e7\u00e3o, em tempos em que a dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de uma greve no setor privado n\u00e3o passava de tr\u00eas dias, gra\u00e7as ao rigor da Lei 4.330 da ditadura, que os l\u00edderes sindicais tachavam de \u201clei antigreve\u201d.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de fazer a greve foi tomada na noite de segunda-feira, 12 de dezembro, numa assembleia de 300 pessoas que lotou a \u2018oficina de chumbo\u2019, um sal\u00e3o de 100 metros quadrados, no segundo andar do pr\u00e9dio do jornal, que marcava a transi\u00e7\u00e3o de uma era: muitos foram demitidos a partir de julho, quando a moderniza\u00e7\u00e3o do parque gr\u00e1fico do jornal trocou a composi\u00e7\u00e3o a quente, com chumbo, para a fotocomposi\u00e7\u00e3o, a frio.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a sede da Caldas J\u00fanior amanheceu cercada por tropas da Brigada Militar para conter os piquetes grevistas, que tentavam bloquear os caminh\u00f5es com o jornal impresso. O dono, Breno Caldas, teve que atravessar o piquete de funcion\u00e1rios, vaiado e chamado de \u2018caloteiro\u2019.<em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A densa tese de mestrado da historiadora Clarice Gontarski Esperan\u00e7a \u2013\u00a0 <em>A greve da oficina de chumbo \u2013 o movimento de resist\u00eancia dos trabalhadores da Caldas J\u00fanior \u2013 <\/em>, aprovada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2007, conta detalhes in\u00e9ditos desse conflito. O advogado dos grevistas, Lu\u00eds Burmeister, revela a import\u00e2ncia de Jo\u00e3o Souza, que havia sido presidente do Sindicato dos Jornalistas entre 1974 e1978. \u201cA milit\u00e2ncia era enlouquecida. Eram tempos da Libelu, a Liberdade e Luta, uma corrente de origem estudantil, trotskista. A\u00ed, os caras que achavam que a Libelu era meio devagar criaram a Avalu, Avan\u00e7ar a Luta\u201d. O jeito foi chamar sindicalistas mais experientes, alguns ligados ao PCB. E chamaram o Jo\u00e3o: \u201cQuem fazia a modera\u00e7\u00e3o da coisa era o Jo\u00e3o Souza, um cara muito jeitoso e muito habilidoso, ao velho estilo de ficar por tr\u00e1s das coisas, mas ser uma palavra importante. Quando tinha algum rolo, que precisava decidir alguma coisa, o que fazer amanh\u00e3, a gente chamava o Jo\u00e3o Souza\u201d, lembra Burmeister na tese de Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A greve, moderada por Jo\u00e3o, tamb\u00e9m demitido pela empresa, acabou vitoriosa. Foi declarada legal pela Justi\u00e7a do Trabalho. Na passeata da vit\u00f3ria, ap\u00f3s tantos dias de tens\u00e3o, puxava o cord\u00e3o o mais ilustre funcion\u00e1rio do <em>Correio do Povo <\/em>&#8211; o poeta M\u00e1rio Quintana, o editor da p\u00e1gina liter\u00e1ria dos s\u00e1bados, o lend\u00e1rio \u2018Caderno H\u2019. Apesar da fama, o poeta recebia uma merreca de sal\u00e1rio, cerca de 192 mil cruzeiros, o equivalente a menos de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos atuais. Na flor dos seus 78 anos, o poeta desfilou sorridente no desfile vitorioso da greve, com o insepar\u00e1vel cigarro entre os dedos, sorrindo como uma crian\u00e7a. Quem o via ali, lembrava de uma advert\u00eancia de Quintana: \u201cPoeta n\u00e3o \u00e9 profiss\u00e3o. \u00c9 um estado de esp\u00edrito, ou coma. Minha profiss\u00e3o \u00e9 jornalista. Assim est\u00e1 escrito na minha carteira profissional\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79439\" aria-describedby=\"caption-attachment-79439\" style=\"width: 1047px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem03.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79439 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem03.jpg\" alt=\"\" width=\"1047\" height=\"358\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem03.jpg 1047w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem03-300x103.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem03-1024x350.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem03-768x263.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1047px) 100vw, 1047px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-79439\" class=\"wp-caption-text\">Quintana l\u00ea o boletim da greve, a passeata da vit\u00f3ria, o poeta na vanguarda:\u00a0 a Caldas Jr. acaba sem poesia<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"intertit\">Dois Paulos, um mentiroso<\/p>\n<p>Na carteira de Jo\u00e3o, tamb\u00e9m. Al\u00e9m do jornalismo, ele se preocupava com os princ\u00edpios \u00e9ticos da profiss\u00e3o. Como presidente do sindicato, percorria com destemor e altivez os corredores dos quarteis militares ou da Pol\u00edcia Federal, sempre que um jornalista detido pela ditadura precisava de seu conforto e apoio.<\/p>\n<p>Quando nem a fam\u00edlia tinha acesso, era o Jo\u00e3o, munido de sua autoridade e prest\u00edgio, que conseguia o contato pessoal que dava mais esperan\u00e7a para os familiares angustiados pelo desaparecimento. Jo\u00e3o amparava seus colegas, dentro e fora dos c\u00e1rceres da repress\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_79441\" aria-describedby=\"caption-attachment-79441\" style=\"width: 1088px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem05.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79441 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem05.jpg\" alt=\"\" width=\"1088\" height=\"594\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem05.jpg 1088w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem05-300x164.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem05-1024x559.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem05-768x419.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1088px) 100vw, 1088px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-79441\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Souza, Paulo Riccordi e Paulo Brossard: Jo\u00e3o provou que o Paulo mentiroso n\u00e3o era o rep\u00f3rter&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1974, editor de pol\u00edtica da <em>Folha da Manh\u00e3, <\/em>ele escalou o rep\u00f3rter Paulo de Tarso Riccordi para entrevistar o novo senador eleito, Paulo Brossard. Era o personagem central de uma fragorosa derrota da ditadura, quando a oposi\u00e7\u00e3o \u2013 reunida no MDB \u2013 \u00a0consagrou-se conquistando 16 das 22 cadeiras do Senado em disputa, al\u00e9m de arrematar 161 das 364 cadeiras da C\u00e2mara dos Deputados. Entrevista feita e publicada, Brossard apoquentou-se com o que leu no jornal. Procurou Breno Caldas para queixar-se do rep\u00f3rter, negando o que havia dito. O dono da empresa n\u00e3o hesitou. Acreditou no amigo e determinou a demiss\u00e3o de Riccordi.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o esperou o retorno do rep\u00f3rter, para provar que ele estava certo. A entrevista, feita na fazenda de Brossard, em Bag\u00e9, fora gravada em v\u00e1rias fitas cassetes. \u201cJo\u00e3o levou a Breno Caldas o meu bornal de lona lotado com dez fitas gravadas\u201d, contou Riccordi a N\u00fabia Silveira. E assim a verdade do rep\u00f3rter sobreviveu \u00e0 mentira do futuro senador.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, era mais importante que os jornalistas protegessem Jo\u00e3o, nosso presidente, em vez do contr\u00e1rio. Em dezembro de 1975, Aud\u00e1lio Dantas, o presidente do sindicato paulista ligou para mim, autor desse texto, ent\u00e3o chefe da sucursal em Porto Alegre da revista <em>Veja. <\/em>O II Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo, acabava de divulgar uma nota, sustentando a falsa vers\u00e3o de \u2018suic\u00eddio\u2019 do jornalista Vladimir Herzog nos por\u00f5es do DOI-CODI, na verdade morto sob tortura. Botar o sindicato em confronto direto com o Ex\u00e9rcito daria o pretexto para sua interven\u00e7\u00e3o. Assim, os pr\u00f3prios jornalistas criaram um movimento nacional para exigir a verdade no IPM militar. Aud\u00e1lio n\u00e3o poderia pedir que Jo\u00e3o fizesse isso no Sul, para n\u00e3o correr o mesmo risco. Ligou para mim e me encarregou da coleta de assinaturas, um epis\u00f3dio contado <a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-mobilizacao-gaucha-por-vlado\/\">aqui<\/a> pelo J\u00c1:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-mobilizacao-gaucha-por-vlado\/\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-79442 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem06.jpg\" alt=\"\" width=\"791\" height=\"604\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem06.jpg 791w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem06-300x229.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem06-768x586.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 791px) 100vw, 791px\" \/><\/a>Jo\u00e3o Souza \u00e9 apenas um dos 1.004 signat\u00e1rios do hist\u00f3rico manifesto \u201cEm nome da Verdade\u201d. Somente 11 dos 25 sindicatos de jornalistas do pa\u00eds protestaram contra a morte de Vlado.<\/p>\n<p>A entidade ga\u00facha, presidida por Jo\u00e3o, foi uma das primeiras a se manifestar.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Nos tempos de M\u00e9dici e Geisel<\/p>\n<p>Sou testemunha de dois epis\u00f3dios que mostram a dignidade e a coragem de Jo\u00e3o Souza na defesa dos jornalistas.<\/p>\n<p>Em 1974, poucas semanas antes passar o bast\u00e3o de ditador para o sucessor, o general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici fez uma \u00faltima visita, de car\u00e1ter sentimental, ao seu Rio Grande natal na condi\u00e7\u00e3o de presidente. N\u00e3o lembro qual o programa daquela sua incurs\u00e3o, mas, quase um m\u00eas antes, com a anteced\u00eancia recomend\u00e1vel, apresentei o burocr\u00e1tico pedido de credenciamento que se exigia da imprensa para cobrir eventos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Esse procedimento era sempre comandado pelo QG do III Ex\u00e9rcito (atual Comando Militar do Sul).<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, contrariando o que acontecera em visitas anteriores, fui informado de que minha credencial havia sido negada. Foi uma surpresa. At\u00e9 ent\u00e3o eu era, nos padr\u00f5es da seguran\u00e7a do regime, um rep\u00f3rter confi\u00e1vel, segundo os arquivos nada confi\u00e1veis do SNI do regime: n\u00e3o tinha milit\u00e2ncia pol\u00edtica, n\u00e3o participara da luta armada, n\u00e3o era terrorista, nem jogara pedra ou bomba na pol\u00edcia&#8230;.<\/p>\n<p>Enfim, eu era um zero \u00e0 esquerda, limpo como uma folha em branco. Aquele veto era apenas um exemplo do poder arbitr\u00e1rio do regime militar, que abonava ou bania quem e quando quisesse, segundo o humor da hora. Vi naquela surpreendente rejei\u00e7\u00e3o uma forma de peitar os militares com a ajuda de meu prontu\u00e1rio absolutamente an\u00f3dino e inofensivo.<\/p>\n<p>Resolvi questionar o veto, coisa que jornalista sensato ou bem-comportado n\u00e3o costumava fazer naqueles tempos chumbados.<\/p>\n<p>Apresentei meu plano a duas inst\u00e2ncias inevit\u00e1veis. Uma, a dire\u00e7\u00e3o da <em>Veja<\/em>, que topou o desafio. A outra foi o Sindicato de Jornalistas, ent\u00e3o presidido por Jo\u00e3o Souza, o \u00edcone da categoria. Foi uma conversa evidentemente confidencial, com a qual busquei sua b\u00ean\u00e7\u00e3o e a cobertura da nossa entidade de classe. Jo\u00e3o topou o confronto, com a firmeza e a serenidade de sempre, vendo ali o pretexto ideal para que os jornalistas questionassem os crit\u00e9rios vol\u00faveis e est\u00fapidos que os militares usavam, de forma aleat\u00f3ria, para controlar e intimidar a imprensa, que vivia sob o tac\u00e3o do AI-5.<\/p>\n<p>Minha ideia era linear: contestar o veto, para que o III Ex\u00e9rcito tentasse justificar minha surpreendente exclus\u00e3o do time de credenciados, aproveitando o precedente de que eu tinha sido autorizado a cobrir visitas presidenciais anteriores, sem qualquer obje\u00e7\u00e3o. Se o QG, como de h\u00e1bito, respondesse que o veto estava mantido, sem maiores explica\u00e7\u00f5es, para um rep\u00f3rter abusado como eu, nosso pr\u00f3ximo passo seria cobrar a credencial na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos dispostos a ir at\u00e9 ao Supremo Tribunal Federal para escancarar o mau-humor e o car\u00e1ter discricion\u00e1rio dos militares. Nas nossas estimativas, seria dif\u00edcil para o Ex\u00e9rcito justificar o arb\u00edtrio. Ganhando no Supremo, a gente estaria denunciando esse abuso espec\u00edfico contra a imprensa, um detalhe no oceano de viol\u00eancias com que a ditadura tentava manietar brasileiros de todas as categorias. Era um detalhe menor, mas era o que pod\u00edamos fazer para incomodar o governo de plant\u00e3o. Jo\u00e3o ficou animado com a oportunidade, e me deu seu integral apoio: o Sindicato dos Jornalistas me proporcionaria a mais ampla cobertura jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Se aquele caso fosse adiante, seria um dos primeiros embates no STF da luta permanente entre Ditadura x Imprensa, que se aprofundaria a seguir.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o e eu chegamos a avaliar os pr\u00f3ximos passos. Concordamos no nome que o sindicato contrataria para nos representar na Justi\u00e7a: Werner Becker, um dos mais importantes advogados do Rio Grande do Sul, com atua\u00e7\u00e3o frequente e vit\u00f3rias eloquentes no STF. Era pessoa de nossa confian\u00e7a, minha e do Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Cinco anos depois, Werner seria o advogado que o Sindicato dos Jornalistas colocaria \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o para nos defender, a mim e ao fot\u00f3grafo JB Scalco, testemunhas involunt\u00e1rias que fomos do sequestro dos uruguaios Universindo D\u00edaz, Lili\u00e1n Celiberti e seus dois filhos em Porto Alegre, em novembro de 1978, numa opera\u00e7\u00e3o clandestina binacional da Opera\u00e7\u00e3o Condor. O bra\u00e7o nacional da Condor era comandado pelo delegado do DOPS e torturador Pedro Seelig, chefe de Didi Pedalada e Jo\u00e3o Augusto da Rosa, identificados e denunciados pelos rep\u00f3rteres de <em>Veja<\/em>.<\/p>\n<p>Em 1979, Werner, conhecido por sua verve e intelig\u00eancia, foi interpelado pelo advogado Oswaldo Lia Pires, que defendia Seelig e seus comparsas no processo aberto pela Justi\u00e7a Federal. Ao cruzar com Werner, numa das primeiras audi\u00eancias, Lia Pires teve a m\u00e1 ideia de ser engra\u00e7adinho com nosso advogado:<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9, dr. Werner, nunca vi testemunha com advogado!<\/p>\n<p>O nosso defensor rebateu na pleura:<\/p>\n<p>&#8211; Quando pol\u00edcia vira bandido, dr. Lia Pires, testemunha precisa de advogado&#8230;<\/p>\n<p>Voltando a 1973. Daquela vez, contudo, nem precisamos chamar o Werner para nos assessorar em nossa insidiosa e subversiva manobra \u2013 por culpa do pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>De repente, n\u00e3o mais que de repente, a sucursal da <em>Veja<\/em>, recebeu um telefonema do QG do III Ex\u00e9rcito informando que minha credencial estava liberada para a cobertura da visita de M\u00e9dici, quando faltavam duas ou tr\u00eas semanas para a viagem presidencial.<\/p>\n<p>Sem qualquer explica\u00e7\u00e3o ou esclarecimento, como acontecera no an\u00fancio do veto, o comando do Ex\u00e9rcito nos comunicou a libera\u00e7\u00e3o da credencial. \u00c9 da \u00edndole dos regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o justificar seus atos e decis\u00f5es, para n\u00e3o ter depois que explicar o que aconteceu ou deixou de acontecer. Assim, ganhei de novo a credencial perdida \u2013 e vi desaparecer a oportunidade de consumar nossa emboscada jur\u00eddica contra os militares.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o e eu ficamos frustrados pela chance desperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Souza foi a \u00fanica pessoa, fora da reda\u00e7\u00e3o de <em>Veja<\/em>, que soube, compartilhou, estimulou e se preparou para nossa iminente batalha jur\u00eddica. N\u00e3o sei, at\u00e9 hoje, o que levou os militares a vetarem e, depois, liberarem minha credencial. Por raz\u00f5es \u00f3bvias, esse n\u00e3o era um tema que Jo\u00e3o e eu abord\u00e1ssemos em nossas conversas ao telefone, foco inevit\u00e1vel dos grampos de escuta ilegal que a repress\u00e3o do regime espalhava com vol\u00fapia e paranoia \u2013 especialmente em sucursais de jornalistas e em sindicatos n\u00e3o apelegados.<\/p>\n<p>Conto isso pela primeira vez, aqui no OBSERVAT\u00d3RIO e no jornal J\u00c1, para mostrar a import\u00e2ncia de Jo\u00e3o Souza, como figura p\u00e9trea de dignidade, firmeza e coragem que nos inspirava e dava confian\u00e7a naqueles tempos t\u00e3o desesperan\u00e7ados e desconfiados.<\/p>\n<p>Em novembro de 1976, o regime militar enfrentava o seu primeiro grande teste eleitoral ap\u00f3s a derrota na elei\u00e7\u00e3o anterior, de 1974, que elegeu Brossard. Para dar um retrato nacional da elei\u00e7\u00e3o daquele ano, <em>Veja<\/em> escolheu para sua cobertura 20 grandes cidades interioranas, j\u00e1 que os cidad\u00e3os das capitais, pelos humores do regime, n\u00e3o tinham a chance de escolher seus prefeitos.<\/p>\n<p>A cidade ga\u00facha selecionada pela revista foi minha terra natal, Caxias do Sul, segundo maior col\u00e9gio eleitoral do Estado. Empenhado pessoalmente na vit\u00f3ria da Arena, o partido da ditadura, o general-presidente Ernesto Geisel estivera l\u00e1 duas vezes antes do pleito. N\u00e3o adiantou.<\/p>\n<p>O candidato do MDB, Mansueto Serafini, ganhou com a maior vota\u00e7\u00e3o individual do Estado, 43 mil votos, doze mil a mais do que o candidato de Geisel, o arenista Victor Faccioni.<\/p>\n<p>Entusiasmados, os caxienses foram \u00e0s ruas para festejar: mais de dez mil pessoas e um cortejo de quatrocentos autom\u00f3veis que entupiram a central\u00edssima avenida J\u00falio de Castilhos na tarde de quinta-feira, 18 de novembro.<\/p>\n<p>Eu estava l\u00e1, com o fot\u00f3grafo Ricardo Chaves, o Kad\u00e3o, para documentar o festejo. De repente, dois grandes jipes militares, cada um com onze soldados armados de fuzis-metralhadoras e baionetas caladas, come\u00e7aram a abrir caminho trafegando lentamente e acintosamente entre a multid\u00e3o. Era a carranca verde-oliva da ditadura atravessando a avenida e a alegria popular \u2013 como fazia desde 1964.<\/p>\n<p>Na frente da prefeitura, eu me postei acintosamente diante dos ve\u00edculos militares e anotei suas placas. Um soldado desceu do jip\u00e3o, me interpelou, pediu muitas explica\u00e7\u00f5es e minutos depois Kad\u00e3o e eu fomos detidos, sob os olhares de dezenas de jornalistas que cobriam a festan\u00e7a do povo.<\/p>\n<p>Colocados na carroceria descoberta do jipe, fomos levados para o quartel do 3\u00ba Grupo de Canh\u00f5es Autom\u00e1ticos Antia\u00e9reos (3\u00ba GAAAc). O comandante daquela unidade, coronel Eug\u00eanio de Almeida Baptista, nos recebeu de p\u00e9, cara fechada, no alto de uma pequena escadaria que dava acesso ao sagu\u00e3o principal da caserna. Tinha os bra\u00e7os cruzados sobre o peito, o nariz empinado e batia o pezinho direito no ch\u00e3o, sinalizando no coturno sua enorme irrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00eas s\u00e3o todos uns ordin\u00e1rios e sem-vergonhas! A vontade que eu tenho agora \u00e9 de enfiar a m\u00e3o na cara de voc\u00eas! \u2013 fuzilou-nos \u00e0 queima-roupa, mal-educado, sem sequer se apresentar.<\/p>\n<p>\u2013 Boa tarde &#8211; retruquei. &#8211; Como \u00e9 seu nome?<\/p>\n<p>Empreguei um estudado tom baixo e sereno que desarmou o valent\u00e3o. Em suma, puxei o tapete dele.<\/p>\n<p>Depois que o comandante se identificou com nome e posto, apresentei-me:<\/p>\n<p>\u2013 Coronel, meu nome \u00e9 Luiz Cl\u00e1udio Cunha. Sou jornalista e chefe da sucursal da revista <em>Veja<\/em>. Qual \u00e9 o problema com a gente?<\/p>\n<p>O coronel, talvez surpreso com minha identifica\u00e7\u00e3o, amansou um pouco. Mas, ainda visivelmente irritado, perguntou por que eu anotara as placas das suas preciosas viaturas.<\/p>\n<p>Expliquei que a apari\u00e7\u00e3o imprevista daqueles ve\u00edculos b\u00e9licos em uma festa popular necessariamente deveria estar registrada na minha reportagem. Da\u00ed a anota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Eles estavam l\u00e1 para controlar a turba&#8230; \u2013 tentou justificar o militar.<\/p>\n<p>\u2013 Turba n\u00e3o, coronel \u2013 interrompi. \u2013 Massa. O que h\u00e1 l\u00e1 no centro da cidade \u00e9 apenas uma massa de gente pac\u00edfica, alegre, comemorando uma vit\u00f3ria democr\u00e1tica. Seus jipes estavam ali s\u00f3 para atrapalhar.<\/p>\n<p>\u2013 Neste caso, eu boto todas as viaturas do quartel aqui no p\u00e1tio para o senhor anotar as placas&#8230; \u2013 disse ele, desafiante.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o precisa, coronel. S\u00f3 me interessam aquelas duas que se infiltraram na festa. Ali\u00e1s, n\u00e3o sei nem por que estou aqui, em vez de estar cobrindo a comemora\u00e7\u00e3o. Eu estou preso, coronel?<\/p>\n<p>\u2013 Na-n\u00e3o! \u2013 gaguejou ele. \u2013 Estamos apenas co-conversando&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Bem, sendo assim, estou perdendo meu tempo. Eu n\u00e3o vim a Caxias para conversar com o senhor. Vim para cobrir a elei\u00e7\u00e3o e seu resultado. J\u00e1 que me tirou do meu local de trabalho, o senhor poderia, por favor, me mandar de volta para l\u00e1 antes que os festejos acabem \u2013 pedi, com a petul\u00e2ncia e o atrevimento que me cabiam.<\/p>\n<p>Antes de me liberar, o coronel solicitou-me que n\u00e3o divulgasse as placas das suas viaturas.<\/p>\n<p>&#8211; Repare bem: estou pedindo, n\u00e3o proibindo.<\/p>\n<p>E, antes de nos devolver ao centro da cidade &#8211; dessa vez transportados no seu carro particular, uma Variant verde, quase oliva \u2013, o coronel me apresentou mais uma solicita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 E, por favor, fale a verdade!<\/p>\n<p>Quando voltamos ao centro j\u00e1 corria por l\u00e1 a not\u00edcia de nossa deten\u00e7\u00e3o. Em Porto Alegre, preocupado com nossa seguran\u00e7a f\u00edsica, Jo\u00e3o Souza, o diligente presidente do sindicato, denunciou nossa \u201cpris\u00e3o\u201d, comunicada a ele pelos coleguinhas de Caxias do Sul. E, de imediato, acionou o governador Synval Guazzelli, no Pal\u00e1cio Piratini.<\/p>\n<p>Pouco depois, Jo\u00e3o recebeu a not\u00edcia tranquilizadora: Kad\u00e3o e eu j\u00e1 est\u00e1vamos trabalhando no meio da \u201cturba\u201d que tanto inquietava o coronel.<\/p>\n<p>Mas aquela festa ficou marcada por grave incidente, provocado pelos militares.<\/p>\n<p>O vitorioso Mansueto Serafini desfilou em um DKW amarelo, saudado por foguetes e escolas de samba e acompanhado pelos oper\u00e1rios que sa\u00edam das f\u00e1bricas no final da tarde. Fez a volta na pra\u00e7a e foi carregado pela multid\u00e3o por cinco quadras, at\u00e9 o edif\u00edcio onde morava. S\u00f3 n\u00e3o discursou porque os companheiros o lembraram da ordem expressa do coronel Baptista:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o transforme a passeata da vit\u00f3ria num com\u00edcio pol\u00edtico!<\/p>\n<p>Mas aquela festa ordeira acabou em violenta desordem. S\u00fabito, com a ajuda de vinte homens da Brigada Militar, a tropa do Ex\u00e9rcito entrou em choque com a multid\u00e3o, distribuindo cacetadas e lan\u00e7ando oito bombas de g\u00e1s. Dois vereadores do MDB e mais de vinte pessoas foram atendidas nos hospitais. Minutos depois as emissoras de r\u00e1dio e TV e os jornais foram proibidos de noticiar a confus\u00e3o.<\/p>\n<p>A reportagem de capa da <em>Veja<\/em> da semana seguinte falou a verdade, como pedia o coronel: relatou toda a confus\u00e3o provocada pela \u201cturba\u201d fardada \u2013 e ainda publicou as placas dos dois jipes enxeridos (EB-21-18-488 e EB-21-15-467).<\/p>\n<p>Algumas semanas depois, sem choro nem vela, o coronel Baptista foi exonerado e transferido. Nunca mais se ouviu falar dele.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso falar sempre de Jo\u00e3o Souza, que nos momentos mais tensos sempre foi uma presen\u00e7a serena, firme, inabal\u00e1vel, digna, consciente do que devia fazer e do que n\u00e3o podia se eximir. Ele nos representava e nos protegia.<\/p>\n<p>Esse foi Jo\u00e3o Souza, orgulho da ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Da ra\u00e7a dos jornalistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Luiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 jornalista, autor de <em>Opera\u00e7\u00e3o Condor \u2013 O Sequestro dos Uruguaios <\/em>[Ed. L&amp;PM, 2008, Porto Alegre]\u00a0 \u00a0&#8211;\u00a0\u00a0 cunha.luizclaudio@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ad\u00ad<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha * O caminhar era sereno, o tom de voz sempre aveludado, o gestual das m\u00e3os incontrolavelmente suave. Nada ali permitia um desassossego, uma grosseria, uma palavra rude, um atropelo, um trejeito de brutalidade. Assim foi o jornalista ga\u00facho Jo\u00e3o Borges de Souza at\u00e9 segunda-feira, 13 de junho passado, quando tombou mansamente aos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":79437,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[80,71,29,104],"class_list":["post-79436","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-hotsite-luiz-claudio-cunha","tag-efeitos","tag-imprensa","tag-sao-paulo","tag-sni"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-content\/uploads\/sites\/14\/2022\/06\/joaosouza-imagem01.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79436"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79436\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":79444,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79436\/revisions\/79444"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79437"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}