{"id":79595,"date":"2020-06-05T07:16:36","date_gmt":"2020-06-05T10:16:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/?p=82062"},"modified":"2026-02-19T13:07:12","modified_gmt":"2026-02-19T16:07:12","slug":"a-viagem-de-saint-hilaire-um-olhar-critico-sobre-o-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/a-viagem-de-saint-hilaire-um-olhar-critico-sobre-o-rio-grande-do-sul\/","title":{"rendered":"A viagem de Saint Hilaire: Um olhar cr\u00edtico sobre o Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"<p class=\"assina\"><span class=\"assina\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-82090\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/06\/SeloSaintHilaire-277x300.jpg\" alt=\"Selo Diario de Sai\" width=\"200\" height=\"217\" \/>Francisco Ribeiro<\/span><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia cinco de junho de 1820 o bot\u00e2nico e naturalista \u00a0franc\u00eas Auguste de Saint-Hilaire cruzou o rio Mampituba (\u201co pai do frio\u201d) e entrou na capitania de S\u00e3o Pedro do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Viajando numa carro\u00e7a pelo litoral atravessou a fronteira e chegou a Montevid\u00e9u, de onde retornou completando um ano de viagem durante o qual\u00a0 escreveu o melhor relato sobre a situa\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Sob forma de di\u00e1rio, mas sem o tom intimista que caracteriza o g\u00eanero, Saint-Hilaire recolheu material que ultrapassava sua expertise como bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>Escreveu sobre usos e costumes, gentes, clima, acidentes geogr\u00e1ficos, situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica, num momento em que a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio era incipiente, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ia al\u00e9m de 80 mil habitantes, dispersa em pequenos povoados.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m teve um olhar cr\u00edtico sobre a administra\u00e7\u00e3o da capitania\u00a0 sob o imp\u00e9rio portugues.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82063\" aria-describedby=\"caption-attachment-82063\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-82063 size-medium\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/06\/Saint-Hilaire-castelo-onde-ele-nasceu-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82063\" class=\"wp-caption-text\">Castelo de La Turpini\u00e9re, onde nasceu Saint Hilaire<\/figcaption><\/figure>\n<p>Auguste Fran\u00e7ois C\u00e9sar Prouven\u00e7al de Saint-Hilaire nasceu em 1779, em Orle\u00e3es, Fran\u00e7a. Nobre, cresceu no Chateau de la Turpiniere, ao qual voltou para morrer em 1853.<\/p>\n<p>Teve uma inf\u00e2ncia no Ancien Regime. Era adolescente na \u00e9poca do Terror (1793-1794), quando rolaram as cabe\u00e7as dos antigos monarcas e, na sequ\u00eancia, dos principais l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, Danton e Robespierre.<\/p>\n<p>Presenciou a ascens\u00e3o e a queda de Napole\u00e3o I, \u00a0e a restaura\u00e7\u00e3o dos Bourbons em 1815. Em meio a tudo isso estudou hist\u00f3ria natural, tornando-se botanista.\u00a0 Algo vertiginoso.<\/p>\n<p>J\u00e1 era um homem maduro, pr\u00f3ximo dos 40, quando chegou, em 1816, no Rio de Janeiro, na companhia do Duque de Luxemburgo, designado como embaixador na corte de D. Jo\u00e3o VI.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre Fran\u00e7a e Portugal caminhavam para a normaliza\u00e7\u00e3o, mas, por longo tempo, cairia sobre qualquer franc\u00eas a desconfian\u00e7a de ser um espi\u00e3o.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o impediu a Saint-Hilaire de obter as cartas de recomenda\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias a peregrinar pelo Brasil como visitante oficial, recebendo por onde passasse a ajuda \u2013 transporte, comida, hospedagem \u2013 que precisasse.<\/p>\n<p>Saint Hilaire fazia parte da nova leva de exploradores, os naturalistas, cujas observa\u00e7\u00f5es, de cunho cient\u00edfico, passavam a concorrer com os relatos, muitas vezes de tom picarescos, dos primeiros aventureiros que, como Hans Staden, escreveram sobre o Brasil.<\/p>\n<p>Saint- Hilaire, como Carl Friedrich Von Martius (naturalista, que percorreu o parte do Brasil no mesmo per\u00edodo que ele), ou John Mawe (minerador, viajou pelo Brasil entre 1807 e 1811), ou, posteriormente, Georg Heinrich von Langsdorff,\u00a0 s\u00e3o, prioritariamente, cientistas.<\/p>\n<p>E, como seus pares, Saint-Hilaire n\u00e3o se contentar\u00e1 em apenas coletar material para an\u00e1lises e futuras cole\u00e7\u00f5es de plantas e animais destinados aos museus naturais da Europa.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Do castelo ao pampa<\/p>\n<p>Quando Saint-Hilaire cruzou o Mampituba, trazia consigo a experi\u00eancia de quase quatro anos de viagens pelo interior do Brasil \u2013 Rio, Minas, Goi\u00e1s, S\u00e3o Paulo, etc \u2013, viajando a p\u00e9, de barco, de carro\u00e7a ou no lombo de um cavalo.<\/p>\n<p>Fez um trabalho cient\u00edfico minucioso, principalmente no que tange a herboriza\u00e7\u00e3o. Ao t\u00e9rmino de sua viagem obteve uma estupenda cole\u00e7\u00e3o e cataloga\u00e7\u00e3o de sete mil esp\u00e9cies de plantas. Acervo que seria\u00a0 entregue ao Museu de Hist\u00f3ria Natural de Paris.<\/p>\n<p>Quando chegou ao Rio Grande do Sul, Saint-Hilaire\u00a0 tamb\u00e9m trazia as fadigas acumuladas pelas penosas viagens e o descontentamento com aqueles que o serviam: Jos\u00e9 Mariano, um tropeiro mesti\u00e7o alugado em Ub\u00e1; Manoel, um negro-forro alugado em S\u00e3o Paulo, encarregado do trato, carga e descarga dos animais; e Firmiano, um \u00edndio botocudo, encarregado do transporte e do preparo das provis\u00f5es.<\/p>\n<p>Enfim, ao cruzar o Mampituba, Sain-Hilaire, como sugere, explicitamente, as anota\u00e7\u00f5es do seu di\u00e1rio, n\u00e3o est\u00e1 no seu melhor astral. Escreve:<\/p>\n<p>\u201cEsta viagem vai se tornando cada vez mais penosa, contribuindo para o esgotamento de minhas for\u00e7as e de meu \u00e2nimo. A imagem de minha m\u00e3e apresenta-se sem cessar em meu esp\u00edrito, e, sempre me encontro sem ter com que me distrair vejo-me cercado de pessoas descontentes\u201d. (SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul.Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1974).<\/p>\n<p>Estes per\u00edodos de chagrin (desgosto), como ele diria, volta e meia aparecem em seus relatos. Mas nada que o impe\u00e7a de trabalhar, herborizar, como gosta de salientar. \u00a0Assim, ao passear pelos montes, Torres, admira cact\u00e1ceas, um grande Eryngium, e entre bromel\u00e1cias e arbustos, constata pela primeira vez na costa sul\u00a0 a mirt\u00e1cea chamada pitanga.<\/p>\n<p>Mas, se prevalece sempre o lado bot\u00e2nico, naturalista, Saint-Hilaire tamb\u00e9m registra que em meio a magn\u00edfica e, ent\u00e3o, desolada paisagem do litoral Norte \u2013 mar a leste, lagoas, serra geral, cordilheira, a oeste \u2013 vivem camponeses muito pobres, que moram em m\u00edseras cabanas, choupanas e palho\u00e7as.<\/p>\n<p>Habita\u00e7\u00f5es onde o frio, a chuva e o vento entravam por todos os lados. Algumas beiravam a tal indig\u00eancia que ele recusa a hospitalidade, seja para pernoitar (\u201cmandar fazer o seu leito\u201d), seja para partilhar a sopa que uma fam\u00edlia consome sob uma esteira estendida no ch\u00e3o de terra.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, constata que n\u00e3o falta comida. H\u00e1 culturas de milho, trigo, feij\u00e3o, algum algod\u00e3o, e alguma cana-de-a\u00e7\u00facar para fabricar aguardente. N\u00e3o eram de ferro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m analisa que, devido \u00e0 falta de recursos dos camponeses do litoral, o rebanho \u00e9 em n\u00famero inferior ao tamanho das pastagens.<\/p>\n<p>Apesar dessas primeiras impress\u00f5es, Saint-Hilaire logo constatar\u00e1 que a Capitania do Rio Grande do Sul \u00e9 uma das mais ricas do Brasil. E seu astral melhora ao atingir os Campos de Viam\u00e3o e, logo depois, chegar a Porto Alegre, que j\u00e1 era capital, mais ainda n\u00e3o tinha ganho o foro de cidade, que s\u00f3 viria a ocorrer em 1822.<\/p>\n<p>Saint-Hilaire permaneceu mais de um m\u00eas em Porto Alegre e, se por um lado, a considera mais suja que o Rio de Janeiro, por outro, n\u00e3o deixa de ressaltar as suas belezas. Escreve:<\/p>\n<p>\u201cOs terrenos planos e cultivados que vi, logo ao chegar a Porto Alegre, ficam apertados entre o caminho novo (atual Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria) e a colina na extremidade da qual se acha a cidade. Raros s\u00e3o os passeios t\u00e3o encantadores como o do Caminho Novo, o qual lembra tudo quanto existe de mais agrad\u00e1vel na Europa\u201d. (SAINT-HILAIRE,\u00a0 1974).<\/p>\n<p>Foi o primeiro, dada conflu\u00eancia dos rios \u2013 Ca\u00ed, Gravata\u00ed, Jacu\u00ed, Sinos \u2013 a denominar o Gua\u00edba como lago.<\/p>\n<p>Percebe tamb\u00e9m que acidade est\u00e1 cheia de constru\u00e7\u00f5es novas, que tem um porto e um com\u00e9rcio efervescentes. Tamb\u00e9m nota que, apesar do frio, as casas n\u00e3o possuem aquecimento, lareiras.<\/p>\n<p>Isso faz com que as pessoas, dentro de casa, mesmo vestindo pesados capotes, que tolhem seus movimentos, continuem a tremer de frio.<\/p>\n<p>Como curiosidade, no seu di\u00e1rio, em quatro de julho de 1820, escreve que: [&#8230;]\u201dH\u00e1 geada quase todas as noites e o Conde (Conde da Figueira, governador, na \u00e9poca) mandou juntar muito gelo para fazer sorvete\u201d. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 a partir de Porto Alegre que Saint-Hilaire come\u00e7ar\u00e1 a entender realmente a complexidade dos interesses pol\u00edticos, econ\u00f4micos e militares que envolvem a capitania.<\/p>\n<p>Mapeia regi\u00f5es e recolhe dados sobre a flora, a fauna, exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es, contingentes militares. Primeiro, em sua jornada rumo a Montevid\u00e9u. Depois, em seu retorno, j\u00e1 em 1821, ao Rio Grande do Sul, percorrendo as Miss\u00f5es, voltando a Porto Alegre.<\/p>\n<p>Neste percurso, pr\u00f3ximo ao arroio Guaratapuit\u00e3 (cercanias de Uruguaiana), em primeiro de fevereiro de 1821, ocorreu a incr\u00edvel experi\u00eancia de Saint-Hilaire ao consumir o mel da lechiguana.<\/p>\n<p>Eis como \u00e9 que ele conta a \u201cviagem\u201d: [&#8230;] \u201cavalio n\u00e3o ter tomado quantidade a duas colheradas. Senti logo uma dor no est\u00f4mago, mais inc\u00f4moda que forte e deitei-me em baixo da carruagem, com a cabe\u00e7a apoiada sobre uma pasta do herb\u00e1rio, caindo em uma esp\u00e9cie de sonol\u00eancia, durante a qual senti-me transportado aos espa\u00e7os celestiais, ouvindo uma voz que gritava: \u201cEle n\u00e3o se perder\u00e1, h\u00e1 um anjo que o protege.\u201d Nesse instante minha irm\u00e3 veio buscar-me pela m\u00e3o. Achava-se vestida de branco, com uma faixa ao redor do corpo e sua fisionomia trazia apar\u00eancia de inexpress\u00e1vel calma e serenidade. Tomou-me pela m\u00e3o, sem me olhar e sem proferir uma s\u00f3 palavra, e conduziu-me perante o tribunal de Deus. Lembrei-me das \u00faltimas palavras da par\u00e1bola do Bom Pastor e acordei\u201d. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Seguiram-se v\u00f4mitos, sustos, e ch\u00e1s para cortar o efeito.. Conforme informa, entre o consumo do mel, 10 da manh\u00e3, e a volta da \u201csobriedade\u201d, ao p\u00f4r do sol, Saint-Hilaire viveu, avant la lettre, aquilo que se chamaria de bad trip.<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o d\u00e1 pra configurar um Saint-Hilaire \u201cviajand\u00e3o\u201d pelo pampa, pois, no fundo, levou a experi\u00eancia como uma esp\u00e9cie de envenenamento, com sequelas, e da qual custaria a se restabelecer.<\/p>\n<p>De resto, muitas anota\u00e7\u00f5es interessantes nesses percursos da volta ao Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>A fertilidade dos solos, capazes de produzir cereais em abund\u00e2ncia, e frutas de clima temperado. E as pastagens que, mesmo inferiores \u00e0s uruguaias, garantem uma carne de excelente qualidade e um \u201cmagn\u00edfico leite\u201d.<\/p>\n<p>Sua curiosidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia da capitania faz com que, em Rio Grande, obtenha informa\u00e7\u00f5es e liste as importa\u00e7\u00f5es e as exporta\u00e7\u00f5es dos anos logo anteriores aos de sua chegada, de 1816 a 1819.<\/p>\n<p>Elas d\u00e3o um bom quadro do movimento comercial da \u00e9poca. A capitania exportou: carne seca, sebo, graxa, crinas, barris de carne salgada, couros de bois, couros de \u00e9gua, trigo.<\/p>\n<p>E importou: sal, farinha de mandioca, arroz, a\u00e7\u00facar, marmelada, doces e chocolates, caf\u00e9, ch\u00e1, vinhos, aguardente, presunto, bacalhau, manteiga, queijos, fumo, tecidos, m\u00f3veis e, claro, escravos.<\/p>\n<p>Mas, se por um lado, e para a \u00e9poca, trata-se de uma economia pujante, por outro, sofre, segundo Saint-Hilaire, as mazelas de um governo incapaz de defender os interesses da capitania no que tange a cobran\u00e7a de impostos, considerados excessivos, e os abusos de requisi\u00e7\u00f5es, como animais, para as tropas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ouve e registra queixas sobre a falta de infra-estrutura, estradas intransit\u00e1veis, e, principalmente, pontes: \u201cVenho de terminar uma viagem de quase 600 l\u00e9guas, em regi\u00e3o sulcada de rios e \u00e9 not\u00e1vel n\u00e3o ter encontrado uma s\u00f3 ponte. Em toda parte s\u00f3 encontro pirogas, e essas quase sempre em p\u00e9ssimo estado.&#8221; ( SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>O governo era incapaz, inclusive, de oferecer seguran\u00e7a e, da\u00ed, conforme testemunhos dados a Saint-Hilaire, o abandono de muitas est\u00e2ncias pela desist\u00eancia de alguns propriet\u00e1rios em reconstruir, pela terceira vez, benfeitorias destru\u00eddas por tropas regulares, espanh\u00f3is ou portuguesas, mil\u00edcias, mercen\u00e1rios, \u00edndios, ou bando de ga\u00fachos.<\/p>\n<p>Todos, invariavelmente, nestas a\u00e7\u00f5es, \u201crequisicionavam\u201d o gado, cavalos e tudo que pudessem levar.<\/p>\n<p>Enfim, as anota\u00e7\u00f5es de Saint Hilaire sobre todas as mazelas que envolvem a administra\u00e7\u00e3o da capitania. E a rela\u00e7\u00e3o da mesma com o poder central \u2013 mesmo depois de efetuada a independ\u00eancia do Brasil, em 1822, d\u00e3o elementos para vislumbrar a g\u00eanese do descontentamento que far\u00e1 eclodir, em 1835, a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha.<\/p>\n<p class=\"intertit\">E<strong>ntre a civiliza\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie<\/strong><\/p>\n<p>O Rio Grande do Sul que Saint-Hilaire conheceu era um espa\u00e7o geogr\u00e1fico sujeito a guerra de fronteiras ainda n\u00e3o definidas.<\/p>\n<p>Uma disputa\u00a0 por terras que desde o s\u00e9culo XVII conduzia ao engalfinhamento portugueses e espanh\u00f3is. E o conflito aumentou quando, depois de uma interven\u00e7\u00e3o contra Artigas, comandada pelo general Lecor, em 1817, o governo portugu\u00eas anexou a Banda Oriental, sob o nome de prov\u00edncia Cisplatina, ao Brasil.<\/p>\n<p>Assim, o Rio Grande do Sul no qual chegou Saint-Hilaire era uma pra\u00e7a de guerra, um grande acampamento militar em meio ao qual tentavam sobreviver \u2013 cada um de acordo com a condi\u00e7\u00e3o a que estava sujeito \u2013 brancos, \u00edndios, negros e mesti\u00e7os.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o era f\u00e1cil apesar da abund\u00e2ncia de carne e montaria.\u00a0 O Rio Grande do Sul tamb\u00e9m j\u00e1 era habitado por \u201cb\u00e1rbaros\u201d ga\u00fachos, termo que na \u00e9poca designava seres marginais, associados a crimes, pilhagens. Muito longe da aura aventureira que lhes daria Jos\u00e9 Hernandez com o seu Martin Fierro.<\/p>\n<p>O ga\u00facho de Saint-Hilaire n\u00e3o \u00e9 um monarca das coxilhas, mas um bandido, ou, o mais simp\u00e1tico que consegue chegar, \u201cum bandoleiro de melodrama\u201d.<\/p>\n<p>Preconceito que poderia ser estendido a maioria dos rio-grandenses e platinos que, numa escala social, colocavam o ga\u00facho abaixo do escravo que, pelo menos, tinha cota\u00e7\u00e3o de mercado, era um \u201cbem\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 o gaud\u00e9rio tinha serventia, ocasionalmente, como pe\u00e3o, principalmente em \u00e9pocas de rodeio, ou soldado provis\u00f3rio nas guerras de fronteira. Mais comumente, era tido como ladr\u00e3o, conforme exemplifica este testemunho colhido por Saint-Hilaire: [&#8230;] \u201cOs animais de Itaruquem (est\u00e2ncia) desapareceram quando os ga\u00fachos entraram em S\u00e3o Nicolau\u201d. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Entretanto, a pr\u00e1tica de roubo de gado ou, eufemisticamente, \u201crequisi\u00e7\u00f5es\u201d, era comum entre tropas (invasoras, rebeldes, ou legalistas), ou mil\u00edcias que em troca, ofereciam vales que dificilmente eram pagos.<\/p>\n<p>Na verdade, nenhum grupo social ou \u00e9tnico fica imune ao julgamento e preconceitos de Saint Hilaire, embora, muitas vezes, se contradiga.<\/p>\n<p>Os primeiros, logo na chegada, a colocar sob sua mira s\u00e3o \u00edndios,\u00a0 em Torres, num agrupamento de \u00edndios, prisioneiros, tomados a Artigas, e que seriam empregados na constru\u00e7\u00e3o de um forte.<\/p>\n<p>Eles eram:[&#8230;] \u201ctodos baixos, t\u00eam o peito de largura exagerada, os cabelos negros e lisos, o pesco\u00e7o curto e uma fisionomia verdadeiramente ign\u00f3bil\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Entretanto, logo em seguida, escreve que o alferes encarregado deles fez um \u201celogio de sua docilidade\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974). Meses depois, diante de um \u00edndio guaicuru percebe: [&#8230;] \u201calgo de nobre em sua fisionomia\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Este desprezo em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios ser\u00e1 recorrente em todo o livro. Mas, nada se compara ao julgamento que faz das \u00edndias. Para ele, s\u00e3o \u201cfeias, sem pudor, sem brio\u201d, oferecendo-se aos homens que o acompanhavam.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, acrescenta, transmitem doen\u00e7as ven\u00e9reas. E, sobretudo, ociosas; [&#8230;] &#8220;N\u00e3o as vi fazer nada al\u00e9m de andar a toa e dormir\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974). E ele registra um dos dizeres da \u00e9poca: \u201cAs \u00edndias diziam que se entregavam aos homens de sua ra\u00e7a por dever, aos brancos por interesse e aos pretos por prazer&#8221; (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Saint Hilaire atribui a degenera\u00e7\u00e3o moral e material dos \u00edndios guaranis a destrui\u00e7\u00e3o das miss\u00f5es: [&#8230;]\u201dDepois da sa\u00edda dos Jesu\u00edtas os \u00edndios das Miss\u00f5es ficaram entregues aos soldados e homens corrompidos, vivendo atualmente de pilhagem, no meio das desordens da guerra, n\u00e3o sendo de admirar se suas mulheres n\u00e3o mais conhe\u00e7am o pudor\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974)<\/p>\n<p>Saint-Hilaire tamb\u00e9m se\u00a0 apega a ideia de que o principal problema dos \u00edndios, e nisso, segundo ele, inferiores aos negros, \u00e9 sua falta de \u201cno\u00e7\u00e3o de futuro\u201d, apegando-se unicamente ao presente.<\/p>\n<p>V\u00ea-os como crian\u00e7as, seduzidos por doces, como a garapa da cana fornecida pelos padres. Assim como a m\u00fasica, agora tamb\u00e9m utilizadas pelo militares para engaj\u00e1-los nas tropas. E nisso, chama a aten\u00e7\u00e3o, no per\u00edodo, o enorme contingente de soldados \u00edndios envolvidos em combates nos dois lados da fronteira.<\/p>\n<p>Contudo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00edndias, n\u00e3o se trata propriamente de misoginia. Ele \u00e9 mais simp\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o ao mulherio local, portuguesas, ou de origem, que, se n\u00e3o chegam a ter o charme das francesas, n\u00e3o se escondem, como em outras prov\u00edncias do interior do Brasil, diante dos homens.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante a descri\u00e7\u00e3o que faz de um grupo de senhoras num baile, em Rio Grande:[&#8230;] \u201cT\u00eam os olhos e os cabelos negros, e em geral belo porte e boa cor, por\u00e9m, destitu\u00eddas de gra\u00e7a, de atrativos dados pela educa\u00e7\u00e3o, que as mulheres deste Pa\u00eds n\u00e3o recebem\u201d. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Vale ressaltar o acento que d\u00e1 sobre a falta de educa\u00e7\u00e3o para meninas.<\/p>\n<p>Tem um trato diferenciado em rela\u00e7\u00e3o aos negros. Primeiro, como seres de segunda ordem. S\u00e3o comuns as express\u00f5es como: casa para negros, roupas para negros, um negro me trouxe isto ou aquilo.<\/p>\n<p>Depois, valoriza-os em rela\u00e7\u00e3o aos negros de outras prov\u00edncias: [&#8230;] \u201cn\u00e3o h\u00e1, creio, em todo o Brasil, lugar onde os escravos sejam mais felizes que nesta capitania [&#8230;] os senhores tratam-nos com menos desprezo [&#8230;] o escravo come carne a vontade, n\u00e3o \u00e9 mal vestido, n\u00e3o anda a p\u00e9 e sua principal\u00a0 ocupa\u00e7\u00e3o consiste em galopar pelos campos, cousa mais sadia que fatigante\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m valoriza os negros como grupo \u00e9tnico: [&#8230;] \u201cquase todos os escravos do Bar\u00e3o (Jos\u00e9 Eg\u00eddio, bar\u00e3o de Santo \u00c2ngelo) s\u00e3o negros-minas, tribo bem superior a todas as outras, por sua intelig\u00eancia, fidelidade e amor ao trabalho\u201d. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Mas percebe a verdadeira rela\u00e7\u00e3o, simples mercadoria, noutra situa\u00e7\u00e3o, tr\u00e1gica, testemunha, ao ser i\u00e7ado do rio o corpo, cad\u00e1ver, de um negro que se afogara, e ver o patr\u00e3o gritor: [..] \u201cAh, meu dinheiro! Meu dinheiro! Que me custa tanto a ganhar&#8221;. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Contudo, foi numa est\u00e2ncia nas charqueadas que Saint-Hilaire testemunhou uma das cenas mais tristes da escravid\u00e3o no Brasil:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 sempre na sala um pequeno negro de 10 a 12 anos, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 ir chamar os outros escravos, servir \u00e1gua e prestar pequenos servi\u00e7os caseiros. N\u00e3o conhe\u00e7o criatura mais infeliz que esta crian\u00e7a. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostado \u00e0 parede e \u00e9 frequentemente maltratado pelos filhos do dono. A noite chega-lhe o sono, e, quando n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m na sala, cai de joelhos para poder dormir. N\u00e3o \u00e9 esta a casa a \u00fanica que usa esse impiedoso sistema: ele \u00e9 frequente em outras\u201d (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Se tem compaix\u00e3o por um escravo e, tamb\u00e9m, apesar do desprezo, da sorte dos \u00edndios, Saint-Hilaire n\u00e3o deixa de ter um senso de meritocracia.<\/p>\n<p>Assim, se louva o portugu\u00eas, ou de origem lusa, ou europeu em geral, que, mesmo de baixa extra\u00e7\u00e3o, enriquece pela iniciativa e senso de economia, faz o mesmo com \u00edndios, negros e mulatos que, apesar de todas as adversidades, souberam, atrav\u00e9s de esfor\u00e7o pr\u00f3prio, al\u00e7ar-se muito al\u00e9m de sua condi\u00e7\u00e3o humilde, seja ocupando cargos de oficiais militares, seja na aquisi\u00e7\u00e3o de propriedades.<\/p>\n<p>Sinal que, apesar de membro da aristocracia do Ancien Regime, n\u00e3o ficou imune a revolu\u00e7\u00e3o burguesa que se operava.<\/p>\n<p>Mas, talvez devido a falta de no\u00e7\u00e3o de pompa e circunst\u00e2ncia, n\u00e3o poupa a elite local: [&#8230;] \u201cOs habitantes desta Capitania s\u00e3o ricos e n\u00e3o ambicionam sen\u00e3o o aumento dessa riqueza. Tal fortuna, entretanto, pouco contribui para o conforto de suas exist\u00eancias; nutrem-se mal e n\u00e3o conhecem divers\u00f5es. Os momentos de lazer s\u00e3o dedicados ao jogo ou as intriguinhas de aldeia. Na maior parte s\u00e3o ignorantes e sem educa\u00e7\u00e3o; como n\u00e3o recebem nenhuma instru\u00e7\u00e3o moral e honra agem sempre de m\u00e1 f\u00e9 em seus neg\u00f3cios\u201d. (SAINT-HILAIRE, 1974).<\/p>\n<p>Como pode reparar, a pompa, elite ou n\u00e3o, dos rio-grandenses, estava na prataria que adornavam pe\u00e7as de montaria, arreios, esporas, etc.<\/p>\n<p class=\"intertit\">Legado<\/p>\n<p>Aristocrata, Saint-Hilaire era seguidor de uma ideologia que preconizava uma hierarquia de ra\u00e7as, que seria utilizada ao longo do s\u00e9culo XIX na pol\u00edtica colonial europ\u00e9ia, legitimando, em nome de uma \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d, a ocupa\u00e7\u00e3o de terras na \u00c1frica, na \u00c1sia, em detrimento das popula\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctones, assim como ocorreu na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Seu livro, hoje, devido as considera\u00e7\u00f5es preconceituosas \u2013 sobre \u00edndios, negros, mesti\u00e7os, americanos em geral \u2013 pode ser considerado como racista.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m seria taxado de machista pelas considera\u00e7\u00f5es que faz sobre as mulheres e at\u00e9 mis\u00f3gino, caso das \u00edndias. Enfim, um di\u00e1rio cheio de declara\u00e7\u00f5es politicamente incorretas, destinado ao \u00edndex dos bem pensantes, e o autor no rol dos n\u00e3o frequent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se deve considerar que o di\u00e1rio sobre a viagem ao Rio Grande do Sul foi publicado postumamente. Ou seja, ele teve mais de 30 anos para rever, acrescentar, cortar, ou alterar seus escritos. Parece que n\u00e3o fez nada disso. Ou seja, n\u00e3o abdicou de nenhum dos seus preconceitos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, restringido aos valores e preconceitos do seu tempo, e na forma como descreveu a sua viagem, misturando observa\u00e7\u00f5es de cunho cient\u00edfico a confiss\u00f5es de ordem pessoal, <em>Viagem ao Rio Grande do Sul<\/em>, fora os diversos aportes hist\u00f3ricos de dados sociais, culturais e econ\u00f4micos j\u00e1 citados, mostra um universo em transi\u00e7\u00e3o, de fronteiras n\u00e3o delineadas, de conflitos de interesses, onde se digladiam brancos, portugueses, ou de origem, espanh\u00f3is, ou de origem, \u00edndios, negros, e mesti\u00e7os, representados pelos \u201cb\u00e1rbaros\u201d ga\u00fachos, lutando por espa\u00e7os ou liberdade.<\/p>\n<p>Um farto material para pesquisas de car\u00e1ter hist\u00f3rico e cient\u00edfico, e tamb\u00e9m para ficcionistas diante de um contexto onde, se havia muita mis\u00e9ria, tamb\u00e9m havia muita aventura, e homens que se nutriam somente de carne, muitas vezes sem sal. Saint-Hilaire, como previra, talvez tenha sentido muita saudade (nostalgie) desses \u201cdesertos\u201d, como eram denominadas as regi\u00f5es onde n\u00e3o havia crist\u00e3os.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-82070\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/cultura\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/06\/Saint-Hilaire-214x300.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"300\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Ribeiro Na manh\u00e3 do dia cinco de junho de 1820 o bot\u00e2nico e naturalista \u00a0franc\u00eas Auguste de Saint-Hilaire cruzou o rio Mampituba (\u201co pai do frio\u201d) e entrou na capitania de S\u00e3o Pedro do Rio Grande do Sul. 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