{"id":101358,"date":"2026-05-18T09:17:22","date_gmt":"2026-05-18T12:17:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/?p=101358"},"modified":"2026-05-18T09:30:07","modified_gmt":"2026-05-18T12:30:07","slug":"demolicoes-continuam-em-meio-aos-escombros-o-quilombo-kedi-resiste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/demolicoes-continuam-em-meio-aos-escombros-o-quilombo-kedi-resiste\/","title":{"rendered":"Demoli\u00e7\u00f5es continuam: em meio aos escombros, o quilombo Kedi resiste"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem entra no quilombo Kedi sem saber dos antecedentes do lugar, pode pensar que ali caiu um m\u00edssil perdido da guerra do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Paredes derrubadas, vigas expostas, ferragens retorcidas, portas e janelas arrombadas \u2013 as duas fileiras de casas que se estendem ao longo de um estreito beco est\u00e3o reduzidas a escombros.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas poucas casas que ainda est\u00e3o de p\u00e9, as pessoas se mostram arredias e inquietas. \u201c\u00c9 muito medo\u201d, diz uma mulher na janela. Pela porta entreaberta v\u00ea-se uma crian\u00e7a no ch\u00e3o, uma velha numa cadeira. O marido sai para trabalhar de manh\u00e3 e recomenda que ela n\u00e3o fale com estranhos. <\/p>\n\n\n\n<p> Pensa em sa\u00edr? \u201cN\u00e3o sa\u00ed ainda porque querem pagar como se fosse uma fam\u00edlia e s\u00e3o duas\u201d. Explica que no terreno moram tamb\u00e9m sua filha, um neto e o genro. \u201cEles tamb\u00e9m precisam um lugar pra morar\u201d. \u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o, depois de uma semana em que foram derrubadas 30 casas, a justi\u00e7a proibiu as demoli\u00e7\u00f5es. Mas neste fim de semana at\u00e9 de madrugada se ouviam as pancadas de marreta e picaretas derrubando paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 moraram 80 familias ali no Kedi. Agora &nbsp;falam em doze, n\u00e3o se sabe ao certo, todo o dia tem gente se mudando. Levam as tralhas e voltam para derrubar a casa, condi\u00e7\u00e3o exigida para receber a indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 180 mil negociada com a prefeitura mas paga por uma empresa privada, segundo denunciou ao MPF a Frente Quilombola. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra exig\u00eancia para fazer jus ao pagamento \u00e9 assinar um termo em que renuncia \u00e0 identidade de quilombola.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo nasceu e se criou ali, tem 32 anos. \u00a0J\u00e1 fechou neg\u00f3cio, est\u00e1 levando seus pertences, vai construir duas pe\u00e7as no terreno de sua m\u00e3e, na Restinga. Ele n\u00e3o quer falar: \u201cS\u00f3 quero sair daqui, isso aqui virou inferno, s\u00f3 rato, sujeira, \u00e1gua podre\u201d, diz entrando e fechando a porta da pequena casa de tijolo, onde vivia com a mulher e dois filhos. <\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e1bado, representantes do Movimento Quilombola  se reuniram no local para debater a situa\u00e7\u00e3o e discutir as possibilidades de resist\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p> Desde 2023 tramita no Incra um processo para reconhecer a \u00e1rea como um quilombo, territ\u00f3rio ancestral de escravizados. \u00a0O problema \u00e9 que o reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o quilombola \u00e9 um processo coletivo e a prefeitura adotou um programa de compra assistida, negociando isoladamente com cada fam\u00edlia. No processo do Incra, que inclusive j\u00e1 tem o laudo antropol\u00f3gico, est\u00e3o cadastradas 41 familias. Mas o quadro real se tornou confuso com o surgimento de aproveitadores desde que come\u00e7aram as compras assistidas com a prefeitura. Consta que 120 acordos j\u00e1 foram feitos. \u201cMuita esperteza, teve gente que pegou um quadradinho, s\u00f3 para receber\u201d, diz S\u00e9rgio Valentim, da Frente Quilombola.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExtirpar\u201d \u00e9 a palavra que o representante do Movimento Quilombola usa para o que est\u00e1 sendo feito com o Quilombo Kedi, um enclave de pobreza que restou numa das regi\u00f5es mais valorizadas de Porto Alegre, cercado de condom\u00ednios e im\u00f3veis de alto padr\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o duas fileiras de casinhas, muitas de tijolos sem reboco, ao longo de uma ruela, formando uma nesga com pouco mais de 30 metros de largura por 100 metros \u00a0de comprimento,  espremida entre o muro do \u00a0Country Club e um condom\u00ednio de luxo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio remonta ao fim da escravid\u00e3o. Quando foi proibido o trabalho escravo no Brasil, em 1888, os negros escravizados nas fazendas da regi\u00e3o, como ocorreu em todo o pais, &nbsp;foram largados \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Alguns preferiram continuar com os antigos senhores, a maioria foi se instalando numa faixa de terra ao longo do riacho que corta uma grande extens\u00e3o daqueles campos.<\/p>\n\n\n\n<p>Moradores mais antigos ainda conheceram os av\u00f3s que cuidavam do gado nessas fazendas e foram se arranchar na beira do riacho.\u00a0 Desse movimento nasceram v\u00e1rias comunidades negras na regi\u00e3o: o Quilombo Silva, a Volta da Cobras e o Quilombo Kedi, que \u00e9 uma corruptela de <strong>caddies <\/strong>como s\u00e3o chamados os carregadores dos tacos nos jogos de golfe. Deriva dos jovens da comunidade que prestavam esse servi\u00e7o aos jogadores de golfe do vizinho  Country Club, desde\u00a0 o in\u00edcio do s\u00e9culo passado. (<strong>segue<\/strong>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem entra no quilombo Kedi sem saber dos antecedentes do lugar, pode pensar que ali caiu um m\u00edssil perdido da guerra do Oriente M\u00e9dio. Paredes derrubadas, vigas expostas, ferragens retorcidas, portas e janelas arrombadas \u2013 as duas fileiras de casas que se estendem ao longo de um estreito beco est\u00e3o reduzidas a escombros. 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