{"id":74753,"date":"2019-06-10T10:10:27","date_gmt":"2019-06-10T13:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=74753"},"modified":"2019-06-10T10:10:27","modified_gmt":"2019-06-10T13:10:27","slug":"mensagens-divulgadas-pelo-intercept-implodem-a-operacao-lava-jato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/mensagens-divulgadas-pelo-intercept-implodem-a-operacao-lava-jato\/","title":{"rendered":"Mensagens divulgadas pelo Intercept implodem a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato"},"content":{"rendered":"<div class=\"texto-externo\">\n<h2>Mensagens trocadas por meio do Telegram entre o ent\u00e3o juiz S\u00e9rgio Moro e os procuradores da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, divulgadas neste domingo pelo site Intercept Brasil, detonam a imparcialidade das investiga\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0 pris\u00e3o de Lula e jogam gasolina na crise pol\u00edtica brasileira.<\/h2>\n<p>Apesar do esfor\u00e7o de alguns jornais, como o Globo e o Estad\u00e3o, de minimizar o impacto, atribuindo o vazamento a a\u00e7\u00f5es criminosas de hackers, o conte\u00fado dos di\u00e1logos e troca de informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o arrasadores para a credibilidade de Moro e os procuradores, especialmente o coordenador da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, Deltan Dallagnol.<\/p>\n<h2>As mensagens foram passadas ao Intercept por uma &#8220;fonte an\u00f4nima&#8221; e os autores da reportagens, entre eles Glenn Greenwald, jornalista americano fundador do site, garantem que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a invas\u00e3o do celular denunciada pelo Juiz S\u00e9rgio Moro na semana passada.<\/h2>\n<h2>J\u00e1 se diz que \u00e9 a maior crise institucional da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<p>Parte 1<br \/>\nO Intercept Brasil publicou hoje tr\u00eas reportagens explosivas mostrando discuss\u00f5es internas e atitudes altamente controversas, politizadas e legalmente duvidosas da for\u00e7a-tarefa da Lava Jato, coordenada pelo procurador renomado Deltan Dallagnol, em colabora\u00e7\u00e3o com o atual ministro da Justi\u00e7a, Sergio Moro, celebrado a n\u00edvel mundial.<br \/>\nProduzidas a partir de arquivos enormes e in\u00e9ditos \u2013 incluindo mensagens privadas, grava\u00e7\u00f5es em \u00e1udio, v\u00eddeos, fotos, documentos judiciais e outros itens \u2013 enviados por uma fonte an\u00f4nima, as tr\u00eas reportagens revelam comportamentos anti\u00e9ticos e transgress\u00f5es que o Brasil e o mundo t\u00eam o direito de conhecer.<br \/>\nO material publicado hoje no Brasil tamb\u00e9m foi resumido em duas reportagens em ingl\u00eas publicadas no Intercept, bem como essa nota dos editores do The Intercept e do The Intercept Brasil.<br \/>\nEsse \u00e9 apenas o come\u00e7o do que pretendemos tornar uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica cont\u00ednua das a\u00e7\u00f5es de Moro, do procurador Deltan Dallagnol e da for\u00e7a-tarefa da Lava Jato \u2013 al\u00e9m da conduta de in\u00fameros indiv\u00edduos que ainda det\u00eam um enorme poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico dentro e fora do Brasil.<br \/>\nA import\u00e2ncia dessas revela\u00e7\u00f5es se explica pelas consequ\u00eancias incompar\u00e1veis das a\u00e7\u00f5es da Lava Jato em todos esses anos de investiga\u00e7\u00e3o. Esse esc\u00e2ndalo generalizado envolve diversos oligarcas, lideran\u00e7as pol\u00edticas, os \u00faltimos presidentes e at\u00e9 mesmo l\u00edderes internacionais acusados de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO mais relevante: a Lava Jato foi a saga investigativa que levou \u00e0 pris\u00e3o o ex-presidente Lula no \u00faltimo ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condena\u00e7\u00e3o foi rapidamente confirmada em segunda inst\u00e2ncia, o tornando ineleg\u00edvel no momento em que todas as pesquisas mostravam que Lula \u2013 que terminou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprova\u00e7\u00e3o \u2013 liderava a corrida eleitoral de 2018. Sua exclus\u00e3o da elei\u00e7\u00e3o, baseada na decis\u00e3o de Moro, foi uma pe\u00e7a-chave para abrir um caminho para a vit\u00f3ria de Bolsonaro. A import\u00e2ncia dessa reportagem aumentou ainda mais depois da nomea\u00e7\u00e3o de Moro ao minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<br \/>\nMoro e os procuradores da Lava Jato s\u00e3o figuras altamente controversas aqui e no mundo \u2013 tidos por muitos como her\u00f3is anticorrup\u00e7\u00e3o e acusados por tantos outros de ser ide\u00f3logos clandestinos de direita, disfar\u00e7ados como homens da lei apol\u00edticos. Seus cr\u00edticos t\u00eam insistido que eles exploraram e abusaram de seus poderes na justi\u00e7a com o objetivo pol\u00edtico de evitar que Lula retornasse \u00e0 presid\u00eancia e destruir o PT. Moro e os procuradores t\u00eam negado, com a mesma veem\u00eancia, qualquer alian\u00e7a ou prop\u00f3sito pol\u00edtico, dizendo que est\u00e3o apenas tentando livrar o Brasil da corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas, at\u00e9 agora, os procuradores da Lava Jato e Moro t\u00eam realizado parte de seu trabalho em segredo, impedindo o p\u00fablico de avaliar a validade das acusa\u00e7\u00f5es contra eles. \u00c9 isso que torna este acervo t\u00e3o valioso do ponto de vista jornal\u00edstico: pela primeira vez, o p\u00fablico vai tomar conhecimento do que esses ju\u00edzes e procuradores estavam dizendo e fazendo enquanto pensavam que ningu\u00e9m estava ouvindo.<br \/>\nAs reportagens de hoje mostram, entre outros elementos, que os procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre seu desejo de impedir a vit\u00f3ria eleitoral do PT e tomaram atitudes para atingir esse objetivo; e que o juiz Sergio Moro colaborou de forma secreta e anti\u00e9tica com os procuradores da opera\u00e7\u00e3o para ajudar a montar a acusa\u00e7\u00e3o contra Lula. Tudo isso apesar das s\u00e9rias d\u00favidas internas sobre as provas que fundamentaram essas acusa\u00e7\u00f5es e enquanto o juiz continuava a fingir ser o \u00e1rbitro neutro neste jogo.<br \/>\nO \u00fanico papel do Intercept Brasil na obten\u00e7\u00e3o desse material foi seu recebimento por meio de nossa fonte, que nos contatou h\u00e1 diversas semanas (bem antes da not\u00edcia da invas\u00e3o do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que n\u00e3o houve \u201ccapta\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u201d) e nos informou de que j\u00e1 havia obtido todas as informa\u00e7\u00f5es e estava ansiosa para repass\u00e1-las a jornalistas.<br \/>\nInformar \u00e0 sociedade quest\u00f5es de interesse p\u00fablico e expor transgress\u00f5es foram os princ\u00edpios que nos guiaram durante essa investiga\u00e7\u00e3o, e continuar\u00e3o sendo conforme continuarmos a noticiar a enorme quantidade de dados a que tivemos acesso.<br \/>\nO enorme volume do acervo, assim como o fato de que v\u00e1rios documentos incluem conversas privadas entre agentes p\u00fablicos, nos obriga a tomar decis\u00f5es jornal\u00edsticas sobre que informa\u00e7\u00f5es deveriam ser noticiadas e publicadas e quais deveriam permanecer em sigilo.<br \/>\nAo fazer esses julgamentos, empregamos o padr\u00e3o usado por jornalistas em democracias ao redor do mundo: as informa\u00e7\u00f5es que revelam transgress\u00f5es ou engodos por parte dos poderosos devem ser noticiadas, mas as que s\u00e3o puramente privadas e infringiriam o direito leg\u00edtimo \u00e0 privacidade ou outros valores sociais devem ser preservadas.<br \/>\nA bem da verdade, ao produzir reportagens a partir desses arquivos, somos guiados pela mesma argumenta\u00e7\u00e3o que levou boa parte da sociedade brasileira \u2013 a\u00ed inclu\u00eddos alguns jornalistas, comentaristas pol\u00edticos e ativistas \u2013 a aplaudir a publicidade determinada pelo ent\u00e3o juiz Moro das conversas telef\u00f4nicas privadas entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (em que discutiam a possibilidade do ex-presidente se tornar ministro da Casa Civil), logo reproduzidas por in\u00fameros ve\u00edculos de m\u00eddia. A divulga\u00e7\u00e3o dessas liga\u00e7\u00f5es privadas foi crucial para virar a opini\u00e3o do p\u00fablico contra o PT, ajudando a preparar o terreno para o impeachment de Dilma em 2016 e a pris\u00e3o de Lula em 2018. O princ\u00edpio invocado para justificar essa divulga\u00e7\u00e3o foi o mesmo a que estamos aderindo em nossas reportagens sobre esse acervo: o de que uma democracia \u00e9 mais saud\u00e1vel quando a\u00e7\u00f5es de relev\u00e2ncia levadas a cabo em segredo por figuras pol\u00edticas poderosas s\u00e3o reveladas ao p\u00fablico.<br \/>\nMas a divulga\u00e7\u00e3o feita por Moro e diversos ve\u00edculos da imprensa dos di\u00e1logos privados entre Lula e Dilma inclu\u00edam n\u00e3o apenas revela\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico, mas tamb\u00e9m comunica\u00e7\u00f5es privadas de Lula sem qualquer relev\u00e2ncia para a sociedade \u2013 o que levou muitas pessoas a argumentarem que a divulga\u00e7\u00e3o tinha o prop\u00f3sito de constranger pessoalmente o ex-presidente. Ao contr\u00e1rio deles, o Intercept decidiu manter reservada qualquer comunica\u00e7\u00e3o ou informa\u00e7\u00e3o relacionada a Moro, Dallagnol e outros indiv\u00edduos que seja de natureza puramente privada e, portanto, desprovida de real interesse p\u00fablico.<br \/>\nN\u00f3s tomamos medidas para garantir a seguran\u00e7a deste acervo fora do Brasil, para que v\u00e1rios jornalistas possam acess\u00e1-lo, assegurando que nenhuma autoridade de qualquer pa\u00eds tenha a capacidade de impedir a publica\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que tem como regra, o Intercept n\u00e3o solicitou coment\u00e1rios de procuradores e outros envolvidos nas reportagens para evitar que eles atuassem para impedir sua publica\u00e7\u00e3o e porque os documentos falam por si. Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente ap\u00f3s publicarmos as mat\u00e9rias, que atualizaremos com os coment\u00e1rios assim que forem recebidos.<br \/>\nTendo em vista o imenso poder dos envolvidos e o grau de sigilo com que eles operam\u2013 at\u00e9 agora \u2013, a transpar\u00eancia \u00e9 crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente fizeram. A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem \u00e0s sombras.<br \/>\n<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/theintercept.com\/2019\/06\/09\/procuradores-tramaram-impedir-entrevista-lula\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">Parte 2<\/a><br \/>\nUm extenso lote de arquivos secretos revela que os procuradores da Lava Jato, que passaram anos insistindo que s\u00e3o apol\u00edticos, tramaram para impedir que o Partido dos Trabalhadores, o PT, ganhasse a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2018, bloqueando ou enfraquecendo uma entrevista pr\u00e9-eleitoral com Lula com o objetivo expl\u00edcito de afetar o resultado da elei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs arquivos, a que o Intercept teve acesso com exclusividade, cont\u00eam, entre outras coisas, mensagens privadas e de grupos da for\u00e7a-tarefa no aplicativo Telegram. Neles, os procuradores da for\u00e7a-tarefa em Curitiba, liderados por Deltan Dallagnol, discutiram formas de inviabilizar uma entrevista do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u00e0 colunista da Folha de S.Paulo M\u00f4nica Bergamo, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski porque, em suas palavras, ela \u201cpode eleger o Haddad\u201d ou permitir a \u201cvolta do PT\u201d ao poder.<br \/>\nOs procuradores, que por anos garantiram n\u00e3o ter motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou partid\u00e1rias, manifestaram repetidamente nos chats a preocupa\u00e7\u00e3o de que a entrevista, a ser realizada a menos de duas semanas do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, ajudaria o candidato \u00e0 Presid\u00eancia pelo PT, Fernando Haddad. Por isso, articularam estrat\u00e9gias para derrubar a decis\u00e3o judicial de 28 de setembro de 2018, que a liberou \u2013 ou, caso ela fosse realizada, para garantir que fosse estruturada de forma a reduzir seu impacto pol\u00edtico e, assim, os benef\u00edcios eleitorais ao candidato do PT.<\/p>\n<div class=\"SandboxRoot env-bp-350\" data-twitter-event-id=\"0\">\n<div id=\"twitter-widget-1\" class=\"EmbeddedTweet EmbeddedTweet--cta js-clickToOpenTarget tweet-InformationCircle-widgetParent\" lang=\"en\" data-click-to-open-target=\"http:\/\/twitter.com\/deltanmd\/status\/1121418364138790919\" data-iframe-title=\"Twitter Tweet\" data-scribe=\"page:tweet\" data-twitter-event-id=\"1\">\n<div class=\"EmbeddedTweet-tweetContainer\">\n<div class=\"EmbeddedTweet-tweet\">\n<blockquote class=\"Tweet h-entry js-tweetIdInfo subject expanded\" cite=\"http:\/\/twitter.com\/deltanmd\/status\/1121418364138790919\" data-tweet-id=\"1121418364138790919\" data-scribe=\"section:subject\">\n<div class=\"Tweet-body e-entry-content\" data-scribe=\"component:tweet\">\n<div class=\"TweetInfo\"><\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"CallToAction-chevron\" data-scribe=\"element:cta_chevron\">\n<div class=\"Icon Icon--chevronRightCTA \" title=\"View on Twitter\" role=\"img\" aria-label=\"View on Twitter\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"resize-sensor\">\n<div class=\"resize-sensor-expand\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"resize-sensor-shrink\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<blockquote class=\"twitter-tweet lazyloaded twitter-tweet-error\" data-lang=\"en\" data-twitter=\"twitter-tweet\">\n<p dir=\"ltr\">O trabalho do MPF na Lava Jato, de novo, \u00e9 t\u00e9cnico, imparcial e apartid\u00e1rio, buscando a responsabiliza\u00e7\u00e3o quem quer que tenha praticado crimes no contexto do megaesquema de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras.<\/p>\n<p>Essas discuss\u00f5es ocorreram no mesmo dia em que o STF acatou o pedido de entrevista da Folha de S.Paulo. Conforme noticiado no Consultor Jur\u00eddico: \u201cNa decis\u00e3o, o ministro [Ricardo Lewandowski] citou que o Plen\u00e1rio do STF garantiu \u2018a \u2018plena\u2019 liberdade de imprensa como categoria jur\u00eddica proibitiva de qualquer tipo de censura pr\u00e9via&#8217;\u201d.<br \/>\nOs di\u00e1logos demonstram que os procuradores n\u00e3o s\u00e3o atores apartid\u00e1rios e apol\u00edticos, mas, sim, parecem motivados por convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e preocupados em evitar o retorno do PT ao poder. As conversas fazem parte de um lote de arquivos secretos enviados ao Intercept por uma fonte an\u00f4nima h\u00e1 algumas semanas (bem antes da not\u00edcia da invas\u00e3o do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que n\u00e3o houve \u201ccapta\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u201d). O \u00fanico papel do Intercept foi receber o material da fonte, que nos informou que j\u00e1 havia obtido todas as informa\u00e7\u00f5es e estava ansiosa para repass\u00e1-las a jornalistas. A declara\u00e7\u00e3o conjunta dos editores do The Intercept e do Intercept Brasil (clique para ler o texto completo) explica os crit\u00e9rios editoriais usados para publicar esses materiais, incluindo nosso m\u00e9todo para trabalhar com a fonte an\u00f4nima.<br \/>\n\u2018PODE ELEGER O HADDAD\u2019<br \/>\nNaquele dia, a como\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio \u00e0s 10h da manh\u00e3, assim que o grupo soube da decis\u00e3o de Lewandowski. O ministro ressaltou que os argumentos usados para impedir a entrevista de Lula na pris\u00e3o eram claramente inv\u00e1lidos, uma vez que com frequ\u00eancia entrevistas s\u00e3o \u201cconcedidas por condenados por crimes de tr\u00e1fico, homic\u00eddio ou criminosos internacionais, sendo este um argumento inid\u00f4neo para fundamentar o indeferimento do pedido de entrevista\u201d. Assim, levando em conta que Lula \u201cn\u00e3o [se encontra] em estabelecimento prisional, em que pode existir eventual risco de rebeli\u00e3o\u201d e tampouco \u201cse encontra sob o regime de incomunicabilidade\u201d, o ministro decidiu em favor da entrevista.<br \/>\nUm clima de revolta e p\u00e2nico se espalhou entre os procuradores. Acreditando se tratar de uma conversa privada que jamais seria divulgada, eles deixaram expl\u00edcitas suas motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<br \/>\nA procuradora Laura Tessler logo exclamou: \u201cQue piada!!! Revoltante!!! L\u00e1 vai o cara fazer palanque na cadeia. Um verdadeiro circo. E depois de M\u00f4nica Bergamo, pela isonomia, devem vir tantos outros jornalistas\u2026 e a gente aqui fica s\u00f3 fazendo papel de palha\u00e7o com um Supremo desse\u2026 \u201d.<br \/>\nUma outra procuradora, Isabel Groba, respondeu com apenas uma palavra e v\u00e1rias exclama\u00e7\u00f5es: \u201cMafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!\u201d.<br \/>\nAp\u00f3s uma hora, Tessler deixou expl\u00edcito o que deixava os procuradores t\u00e3o preocupados: \u201csei l\u00e1\u2026mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad\u201d.<br \/>\nEnquanto essas mensagens eram trocadas no grupo dos procuradores da Lava Jato, Dallagnol estava conversando em paralelo com uma amiga e confidente identificada no seu Telegram apenas como \u2018Carol PGR\u2019 (cuja identidade n\u00e3o foi confirmada pelo Intercept). Lamentando a possibilidade de Lula ser entrevistado antes das elei\u00e7\u00f5es, os dois estavam expressamente de acordo que o objetivo principal era impedir o retorno do PT \u00e0 presid\u00eancia e concordaram que rezariam para que isso n\u00e3o ocorresse.<br \/>\n<strong>Carol PGR \u2013 11:22:08 Deltannn, meu amigo<\/strong><br \/>\n<strong>Carol PGR \u2013 11:22:33 toda solidariedade do mundo \u00e0 voc\u00ea nesse epis\u00f3dio da Coger, estamos num trem desgovernado e n\u00e3o sei o que nos espera<\/strong><br \/>\n<strong>Carol PGR \u2013 11:22:44 a \u00fanica certeza \u00e9 que estaremos juntos<\/strong><br \/>\n<strong>Carol PGR \u2013 11:24:06 ando muito preocupada com uma possivel volta do PT, mas tenho rezado muito para Deus iluminar nossa popula\u00e7\u00e3o para que um milagre nos salve<\/strong><br \/>\n<strong>Deltan Dallagnol \u2013 13:34:22 Valeu Carol!<\/strong><br \/>\n<strong>13:34:27 Reza sim<\/strong><br \/>\n<strong>13:34:32 Precisamos como pa\u00eds<\/strong><br \/>\nN\u00e3o se trata de uma confiss\u00e3o isolada. Toda a discuss\u00e3o, que se estendeu por v\u00e1rias horas, parece mais uma reuni\u00e3o entre estrategistas e operadores anti-PT do que uma conversa entre procuradores supostamente imparciais.<br \/>\nDescartada a possibilidade de impedir a entrevista, eles passaram a debater qual formato traria menos benef\u00edcios pol\u00edticos para Lula: uma entrevista a s\u00f3s com M\u00f4nica Bergamo, ou uma coletiva de imprensa com v\u00e1rios jornalistas. Janu\u00e1rio Paludo, por exemplo, prop\u00f4s as seguintes medidas: \u201cPlano a: tentar recurso no pr\u00f3prio stf, possibilidade Zero. Plano b: abrir para todos fazerem a entrevista no mesmo dia. Vai ser uma zona mas diminui a chance da entrevista ser direcionada.\u201d<br \/>\nOutro procurador, Athayde Ribeiro Costa, sugeriu expressamente que a Pol\u00edcia Federal manobrasse para que a entrevista fosse feita depois das elei\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que n\u00e3o havia indica\u00e7\u00e3o expl\u00edcita da data em que ela deveria ocorrer. Dessa forma, seria poss\u00edvel evitar a entrevista sem descumprir a decis\u00e3o.<br \/>\n<strong>Athayde Costa \u2013 12:02:22 N tem data. So a pf agendar pra dps das eleicoes. Estara cumprindo a decisao<\/strong><br \/>\n<strong>12:03:00 E se forcarem antes, desnuda ainda mais o carater eleitoreiro<\/strong><br \/>\nUma coletiva de imprensa, al\u00e9m de diluir o foco da entrevista, ainda traria a vantagem de possivelmente inviabiliz\u00e1-la operacionalmente, como pontuou o procurador Julio Noronha horas depois. Ele tamb\u00e9m sugeriu abrir a entrevista a outros presos para reduzir a repercuss\u00e3o:<br \/>\n<strong>Julio Noronha \u2013 17:43:37 Como o Lewa j\u00e1 autorizou, acho que s\u00f3 h\u00e1 dois cen\u00e1rios: a) A entrevista s\u00f3 para a FSP, possivelmente com o \u201ccirco armado e preparado\u201d; b) tentar ampliar para outros, para o \u201cciro\u201d ser menor armado e preparado, com a chance de, com a poss\u00edvel confus\u00e3o, n\u00e3o acontecer.<\/strong><br \/>\n(Quando a entrevista foi finalmente autorizada, em abril passado, a Pol\u00edcia Federal, agora sob o comando do ministro da Justi\u00e7a de Jair Bolsonaro, Sergio Moro, o ex-juiz que havia condenado Lula \u00e0 pris\u00e3o, tentou transform\u00e1-la numa coletiva de imprensa. Um pedido do El Pa\u00eds acatado por Lewandowski finalmente p\u00f4s o plano por terra.)<br \/>\nEm nenhum trecho da conversa Dallagnol, que participou de forma ativa das discuss\u00f5es, ou qualquer outro procurador, indicou desconforto com as motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas expl\u00edcitas das estrat\u00e9gias da acusa\u00e7\u00e3o. Mais do que isso, esse grupo de Telegram, ativo por meses, sugere que esse tipo de c\u00e1lculo pol\u00edtico era rotineiro nas decis\u00f5es da for\u00e7a-tarefa.<br \/>\nEm um momento, um dos procuradores citou um artigo publicado no site O Antagonista informando que a Procuradora-Geral da Rep\u00fablica, Raquel Dodge, n\u00e3o pretendia recorrer da decis\u00e3o autorizando a entrevista. Os procuradores especularam imediatamente sobre as causas da escolha de Dodge:<br \/>\n<strong>Jerusa Viecilli \u2013 15:54:27\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>[\u2026]<\/strong><br \/>\n<strong>Athayde Costa \u2013 17:15:32 Ela ja ta pensando \u00e9 na indicacao ao STF caso Hadadd ganhe<\/strong><br \/>\n<strong>17:16:01 Absurdo<\/strong><br \/>\n<strong>Laura Tessler \u2013 17:16:03 que palha\u00e7ada\u2026adora jogar pra plat\u00e9ia\u2026quer ganhar o apoio da imprensa ao nome dela<\/strong><br \/>\nParte das discuss\u00f5es tratava tamb\u00e9m de vazar uma eventual peti\u00e7\u00e3o para ve\u00edculos de imprensa.<br \/>\n<strong>Paulo Galv\u00e3o \u2013 20:09:30 Passaram a peti\u00e7\u00e3o da entrevista pro antagonista?<\/strong><br \/>\n<strong>20:09:51 Vcs querem passar p globo?<\/strong><br \/>\nOs procuradores da for\u00e7a-tarefa estavam t\u00e3o alarmados com a possibilidade de uma entrevista de Lula levar o PT \u00e0 vit\u00f3ria que compartilharam um artigo ir\u00f4nico do Antagonista. Publicado naquele dia, o texto sugeria que, num eventual governo Haddad, \u201cLula sai da cadeia e os procuradores da Lava Jato entram no lugar dele\u201d.<br \/>\nOs receios dos procuradores, por\u00e9m, foram logo acalmados. \u00c0s 22h49 do mesmo dia, o procurador Julio Noronha compartilhou mais uma reportagem do Antagonista, dessa vez com uma boa not\u00edcia: \u201cPartido Novo Recorre ao STF Contra Entrevista de Lula\u201d. Uma hora depois, o clima era de comemora\u00e7\u00e3o. O ministro do STF Luiz Fux concedeu uma liminar contra a entrevista, atendendo ao pedido do Partido Novo. Na decis\u00e3o, o ministro diz que \u201cse faz necess\u00e1ria a relativiza\u00e7\u00e3o excepcional da liberdade de imprensa\u201d. Janu\u00e1rio Paludo foi taxativo: \u201cDevemos agradecer \u00e0 nossa PGR: Partido Novo!!!\u201d.<br \/>\nOs procuradores n\u00e3o demonstraram preocupa\u00e7\u00e3o com o fato de um ministro do STF ter poder para suspender a liberdade de imprensa \u2013 ou de que um partido que se diz liberal entrou com um pedido nesse sentido. Pelo contr\u00e1rio, os procuradores comemoraram a proibi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Janu\u00e1rio Paludo \u2013 23:41:02 Eu fiquei sabendo agora\u2026\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Deltan \u2013 23:41:32 Rsrsrs<\/strong><br \/>\n<strong>Athayde Costa \u2013 23:42:02 O clima no stf deve ta otimo<\/strong><br \/>\n<strong>Janu\u00e1rio Paludo \u2013 23:42:11 vai ser uma guerra de liminares\u2026<\/strong><br \/>\nPOR ANOS, A LAVA JATO foi acusada de operar com motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, partid\u00e1rias e ideol\u00f3gicas, e n\u00e3o jur\u00eddicas. A for\u00e7a-tarefa vem negando isso de forma veemente. Agora que suas conversas est\u00e3o se tornando p\u00fablicas, a popula\u00e7\u00e3o ter\u00e1 a oportunidade de decidir por si mesma. As discuss\u00f5es do dia 28 de setembro trazem ind\u00edcios significativos de que a for\u00e7a-tarefa n\u00e3o \u00e9 o grupo apol\u00edtico e apartid\u00e1rio de luta anticorrup\u00e7\u00e3o que os procuradores e seus aliados na m\u00eddia tentam pintar.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que tem como regra, o Intercept n\u00e3o solicitou coment\u00e1rios de procuradores e outros envolvidos nas reportagens, para evitar que eles atuassem para impedir sua publica\u00e7\u00e3o e porque os documentos falam por si. Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente ap\u00f3s publicarmos as mat\u00e9rias, que atualizaremos com os coment\u00e1rios assim que forem recebidos.<br \/>\n<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/theintercept.com\/2019\/06\/09\/dallagnol-duvidas-triplex-lula-telegram-petrobras\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">Parte 3<\/a><br \/>\nFaltavam apenas quatro dias para que a den\u00fancia que levaria o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u00e0 pris\u00e3o fosse apresentada, mas o coordenador da for\u00e7a-tarefa da Lava Jato em Curitiba tinha d\u00favidas sobre a solidez da hist\u00f3ria que contaria ao juiz Sergio Moro. A apreens\u00e3o de Deltan Dallagnol, que, junto com outros 13 procuradores, revirava a vida do ex-presidente havia quase um ano, n\u00e3o se devia a uma quest\u00e3o banal. Ele estava inseguro justamente sobre o ponto central da acusa\u00e7\u00e3o que seria assinada por ele e seus colegas: que Lula havia recebido de presente um apartamento triplex na praia do Guaruj\u00e1 ap\u00f3s favorecer a empreiteira OAS em contratos com a Petrobras.<br \/>\nAs conversas fazem parte de um lote de arquivos secretos enviados ao Intercept por uma fonte an\u00f4nima h\u00e1 algumas semanas (bem antes da not\u00edcia da invas\u00e3o do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que n\u00e3o houve \u201ccapta\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u201d). O \u00fanico papel do Intercept foi receber o material da fonte, que nos informou que j\u00e1 havia obtido todas as informa\u00e7\u00f5es e estava ansiosa para repass\u00e1-las a jornalistas. A declara\u00e7\u00e3o conjunta dos editores do The Intercept e do Intercept Brasil (clique para ler o texto completo) explica os crit\u00e9rios editoriais usados para publicar esses materiais, incluindo nosso m\u00e9todo para trabalhar com a fonte an\u00f4nima.<br \/>\nNo dia 9 de setembro de 2016, precisamente \u00e0s 21h36 daquela sexta-feira, Deltan Dallagnol enviou uma mensagem a um grupo batizado de Incendi\u00e1rios ROJ, formado pelos procuradores que trabalhavam no caso.<br \/>\nEle digitou: \u201cFalar\u00e3o que estamos acusando com base em not\u00edcia de jornal e ind\u00edcios fr\u00e1geis\u2026 ent\u00e3o \u00e9 um item que \u00e9 bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, at\u00e9 agora tenho receio da liga\u00e7\u00e3o entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da hist\u00f3ria do apto\u2026 S\u00e3o pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da l\u00edngua\u201d.<br \/>\nAs mat\u00e9rias de jornais a que o procurador se referiu s\u00e3o as dezenas citadas na pe\u00e7a de acusa\u00e7\u00e3o. Dallagnol fazia sua \u00faltima leitura da den\u00fancia e debatia o texto com o grupo, analisando ponto a ponto cada item que seria oferecido \u00e0 13\u00aa vara de Curitiba, onde Sergio Moro atuava como juiz.<br \/>\nNaquele dia, ningu\u00e9m respondeu \u00e0 d\u00favida de Dallagnol: se o apartamento triplex poderia ser apontado como propina para Lula nos casos de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras. O documento seria anunciado ao p\u00fablico, com direito a um hoje famoso PowerPoint, dali a poucos dias.<br \/>\nSem essa liga\u00e7\u00e3o, o caso n\u00e3o poderia ser tocado em Curitiba, onde apenas a\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 empresa eram objeto de investiga\u00e7\u00e3o. A liga\u00e7\u00e3o do apartamento com a corrup\u00e7\u00e3o na petrol\u00edfera tinha gerado uma guerra jur\u00eddica nos primeiros meses daquele 2016. De um lado, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo. Do outro, a for\u00e7a-tarefa de Curitiba.<br \/>\nCaso o caso ficasse em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o seria julgado por Sergio Moro, o atual ministro da Justi\u00e7a de Jair Bolsonaro e ex-juiz que ajudou coordenar a opera\u00e7\u00e3o quando era o encarregado pela 13\u00aa Vara Federal de Curitiba, como mostram di\u00e1logos revelados pelo Intercept.<br \/>\nO MPSP j\u00e1 investigava o caso Bancoop muito antes de Curitiba. Em uma disputa que envolveu at\u00e9 mesmo o Supremo Tribunal Federal, a Lava Jato tentava tirar o caso das m\u00e3os dos paulistas para denunciar e julgar Lula em Curitiba. Para isso, o im\u00f3vel de Lula precisaria obrigatoriamente ter rela\u00e7\u00e3o com a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras.<br \/>\nN\u00e3o era o entendimento dos promotores de S\u00e3o Paulo. Em mar\u00e7o de 2016, ao recorrerem de uma decis\u00e3o judicial que jogava o caso nas m\u00e3os de Dallagnol, eles disseram: \u201cEm 2009\/2010 n\u00e3o se falava de esc\u00e2ndalo na Petrobras. Em 2005 quando o casal presidencial, em tese, come\u00e7ou a pagar pela cota-parte do im\u00f3vel, n\u00e3o havia qualquer indica\u00e7\u00e3o do esc\u00e2ndalo do \u2018petrol\u00e3o\u2019. Ao contr\u00e1rio, est\u00e1vamos no per\u00edodo temporal referente ao esc\u00e2ndalo do \u2018mensal\u00e3o\u2019. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel presumir genericamente e sem conhecer detidamente as investiga\u00e7\u00f5es que tramitam perante a 13\u00aa Vara Criminal Federal de Curitiba que tudo tenha partido de corrup\u00e7\u00e3o na estatal envolvendo desvio de recursos federais.\u201d<br \/>\nMas a Lava Jato venceu e, pouco tempo depois, os procuradores conseguiram tirar o caso de S\u00e3o Paulo alegando que o caso do triplex tinha, sim, envolvimento com a Petrobras. Agora, com a revela\u00e7\u00e3o das conversas secretas do grupo da Lava Jato, descobre-se que os procuradores blefaram \u2013 eles n\u00e3o tinham certeza dessa rela\u00e7\u00e3o nem mesmo poucas horas antes de apresentarem a den\u00fancia.<br \/>\nE, assim, o caso parou no colo do aliado Sergio Moro.<br \/>\n\u2018TES\u00c3O DEMAIS ESSA MAT\u00c9RIA. VOU DAR UM BEIJO EM QUEM ACHOU\u2019<br \/>\nCERCA DE 24 HORAS DEPOIS, no s\u00e1bado, 10, quando aparentemente chegou ao item 191 do documento (que teria, em sua reda\u00e7\u00e3o final, 274 itens), Dallagnol vibrou com o que leu. Ele escreveu, \u00e0s 22h45: \u201ctesao demais essa mat\u00e9ria do O GLOBO de 2010. Vou dar um beijo em quem de Vcs achou isso.\u201d A reportagem a qual ele se referia \u2013 \u201cCaso Bancoop: triplex do casal Lula est\u00e1 atrasado\u201d \u2013 foi a primeira a tratar do apartamento no Guaruj\u00e1, muito antes da Lava Jato. Sem mencionar OAS ou Petrobras, ela dizia apenas que a fal\u00eancia da cooperativa que constru\u00eda o pr\u00e9dio poderia prejudicar o casal Lula.<br \/>\nSeguiu-se ent\u00e3o uma s\u00e9rie de mensagens de Dallagnol a respeito da reportagem:<br \/>\n<strong>Deltan Dallagnol \u2013 23:05:11 \u2013 Sabemos qual a fonte da mat\u00e9ria? Ser\u00e1 que n\u00e3o vale perguntar para a rep\u00f3rter, a Tatiana Farah, qual foi a vonte dela? [O procurador certamente quis escrever \u201cfonte\u201d]<\/strong><br \/>\n<strong>23:05:29 \u2013 Acho que vale. Informalmente e, se ela topar, d\u00e1 para ouvi-la.<\/strong><br \/>\n<strong>23:05:58 \u2013 Pq se ele j\u00e1 era dono em 2010 do triplex\u2026 a reportagem \u00e9 um tes\u00e3o, mas se convertermos em testemunho pode ser melhor<\/strong><br \/>\n<strong>23:06:08 \u2013 Podemos fazer contato via SECOM, topam?<\/strong><br \/>\n<strong>23:06:27 \u2013 vou pedir pra ascom o contato<\/strong><br \/>\nNo mesmo minuto, Dallagnol foi a outro chat no Telegram em que al\u00e9m dele estavam apenas os dois assessores de imprensa da opera\u00e7\u00e3o em Curitiba. \u201cConsegguem pra mim o contato da reporter que fez esta mat\u00e9ria?\u201d, ele teclou. \u201cpede celular, please\u2026 precisamos meio que urgente\u201d, insistiu, \u00e0s 23h55, sem perceber que um dos assessores j\u00e1 enviara o n\u00famero da jornalista.<br \/>\nMesmo antes de ter o telefone, no entanto, Dallagnol j\u00e1 parecia aliviado quando retornou ao grupo Incendi\u00e1rios ROJ, em que postou \u00e0s 23h08: \u201cVcs n\u00e3o t\u00eam mais a mesma preocupac\u00e7\u00e3o que tinham quanto ao im\u00f3vel, certo? Pergunto pq estou achando top e n\u00e3o estou com aquela preocupa\u00e7\u00e3o. Acho que o slide do apto tem que ser did\u00e1tico tb. Imagino o mesmo do lula, bal\u00f5es ao redor do bal\u00e3o central, ou seja, evid\u00eancias ao redor da hip\u00f3tese de que ele era o dono\u201d, j\u00e1 sugerindo a ideia para o PowerPoint que apresentaria aos jornalistas dali a alguns dias.<br \/>\nQuando voltou ao grupo com os assessores e viu que o n\u00famero de telefone havia sido enviado, ele imediatamente encaminhou o contato aos procuradores Roberson Pozzobon e J\u00falio Noronha, junto com um pedido e algumas orienta\u00e7\u00f5es:<br \/>\n<strong>Deltan Dallagnol \u2013 23:56:11 \u2013 Vcs ligam pra ela?<\/strong><br \/>\n<strong>23:57:24 \u2013 Na liga\u00e7\u00e3o tem que ser totalmente respeitoso e deferencial em rela\u00e7\u00e3o ao sigilo de fonte<\/strong><br \/>\n<strong>23:58:14 \u2013 Tem que dizer que viram, queriam parabenizar pela mat\u00e9ria, e que, respeitado o dto de fonte, caso n\u00e3o seja o casso de manter o sigilo, se ela poderia indicar quem foi a fonte, ainda que ap\u00b4so eventual confer\u00eancia ou conversa com as fontes\u2026<\/strong><br \/>\nPelo di\u00e1logo no grupo Incendi\u00e1rios ROJ, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber se Pozzobon ou Noronha fizeram o que lhes foi pedido. Mas a reportagem seria mencionada ainda outra vez nas conversas privadas, agora a dois dias da entrevista em que a den\u00fancia contra Lula seria apresentada.<br \/>\nNo dia seguinte, v\u00e9spera da den\u00fancia, foi a vez do procurador Janu\u00e1rio Paludo se lembrar da mat\u00e9ria do Globo num outro chat, intitulado Filhos do Janu\u00e1rio 1:<br \/>\n\u201cConversei com a TATIANA FARAH DE MELLO, que fez a reportagem em 2010 sobre o TRIPLEX. Ela realmente confirmou que foi para GUARUJA e l\u00e1 colheu diversas informa\u00e7\u00f5es sobre os empreendimentos da BANCOOP. A mat\u00e9ria era para ser sobre a BANCOOP e o calote dado nos mutu\u00e1rios. Em guaruja conversando com funcion\u00e1rios da obra \u2013 que ainda estava no esqueleto, \u00e9 que ela descobriu que o triplex seria do Lula. Ela manteve contato com a Assessoria de comunica\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio do Planalto que confirmou a informa\u00e7\u00e3o. Toda parte documental, como e-mail e outros dados foram inutilizados quando ela saiu do \u2018o Globo\u2019. Acho que podemos tomar por termo o depoimento. Marco uma video e pronto\u201d, escreveu o procurador \u00e0s 17h40.<br \/>\n\u201cBoooooa demais Jan!\u201d, respondeu imediatamente Pozzobon. Mas outro procurador, Carlos Fernando dos Santos Lima, pediu prud\u00eancia: \u201cCreio que tomar depoimento de jornalista n\u00e3o \u00e9 conveniente.\u201d<br \/>\nOS PROBLEMAS DA PROVA QUE MORO CHAMOU DE \u2018BASTANTE RELEVANTE\u2019<br \/>\nA REPORTAGEM DO GLOBO n\u00e3o foi um item trivial nesse caso: al\u00e9m de figurar na den\u00fancia como prova de que o triplex era de fato do casal Lula, foi usada na senten\u00e7a assinada por Sergio Moro. Sobre ela, o juiz escreveu: \u201cA mat\u00e9ria em quest\u00e3o \u00e9 bastante relevante do ponto de vista probat\u00f3rio.\u201d<br \/>\nMas a reportagem n\u00e3o bate com ao menos dois pontos do que \u00e9 dito na den\u00fancia do MPF. O texto do Globo atribui o triplex a Lula e, para comprovar isso, usa a declara\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o apresentada \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral em 2006. Ela afirma o seguinte: \u201cParticipa\u00e7\u00e3o Cooperativa Habitacional Apartamento em constru\u00e7\u00e3o no Guaruj\u00e1 \u2013 SP Maio 2005 \u2013 R$ 47.695,38 j\u00e1 pagos\u201d. Em tese, a cota poderia ser usada para qualquer apartamento \u2013 a defesa de Lula alegaria mais tarde que se tratava de uma unidade simples. O que \u00e9 certo \u00e9 que a palavra triplex n\u00e3o aparece na lista de bens do pol\u00edtico usada pelo Globo.<br \/>\nA segunda inconsist\u00eancia poderia ter sido percebida pelos procuradores com uma leitura atenta da pr\u00f3pria reportagem. A mat\u00e9ria do Globo atribuiu a Lula a propriedade de um triplex na torre B, o pr\u00e9dio dos fundos do condom\u00ednio. Isso fica claro na mat\u00e9ria: \u201cA segunda torre (a torre A), se constru\u00edda como informa a planta do empreendimento, lan\u00e7ado no in\u00edcio dos anos 2000, pode acabar com parte da alegria de Lula: o pr\u00e9dio ficar\u00e1 na frente do im\u00f3vel do presidente, atrapalhando a vista para o mar do Guaruj\u00e1, cidade do litoral paulista\u201d.<br \/>\nNa den\u00fancia feita pela Lava Jato, no entanto, os procuradores afirmam que o triplex de Lula fica na torre A, que ainda n\u00e3o existia quando a reportagem foi publicada. Mas, no item 191 da den\u00fancia assinada pelos 14 procuradores, h\u00e1 o seguinte trecho (citando a reportagem do Globo): \u201cEssa mat\u00e9ria dava conta de que o ent\u00e3o Presidente LULA e MARISA LET\u00cdCIA seriam contemplados com uma cobertura triplex, com vista para o mar, no referido empreendimento\u201d.<br \/>\nSegundo a apura\u00e7\u00e3o do jornal, isso n\u00e3o \u00e9 verdade. A reportagem diz claramente que o casal Lula da Silva perderia a vista para o mar com a constru\u00e7\u00e3o da torre A, que seria erguida \u00e0 frente da torre B, portanto, em frente ao triplex que o Globo atribuiu a Lula.<br \/>\nA Lava Jato usou a reportagem como prova de que o apartamento era, sim, uma propriedade ou uma aspira\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia presidencial, mas indicou outro im\u00f3vel na den\u00fancia. Uma evid\u00eancia de que a investiga\u00e7\u00e3o foi imprecisa num dos pontos mais cruciais da acusa\u00e7\u00e3o: na defini\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel que materializaria a propina que Lula teria recebido da empreiteira.<br \/>\nAo longo de semanas, n\u00f3s tentamos contatos com fontes que poderiam ter acesso \u00e0 troca de e-mails entre a assessoria do petista e a rep\u00f3rter do jornal, mas n\u00e3o obtivemos sucesso. Enquanto o Globo alega que os e-mails foram \u201cinutilizados\u201d, a assessoria diz n\u00e3o ter guardado c\u00f3pia. Uma terceira d\u00favida, portanto, ainda permanece: a reportagem diz que Lula era dono de um triplex no pr\u00e9dio, mas diz que a assessoria da Presid\u00eancia confirmou que o petista tinha um \u201cim\u00f3vel\u201d no local.<br \/>\nO que \u00e9 verdade: a cota estava declarada em seu imposto de renda. Sem os e-mails, n\u00e3o h\u00e1 como saber se o Globo inquiriu Lula sobre o triplex ou apenas sobre um im\u00f3vel, ou se a assessoria do petista tomou uma coisa por outra \u2013 e, sem querer, abasteceu a den\u00fancia que viria contra Lula anos depois.<br \/>\nAinda que a localiza\u00e7\u00e3o do triplex na torre A ou B pare\u00e7a irrelevante para a acusa\u00e7\u00e3o por lavagem de dinheiro, ela deveria ao menos colocar em d\u00favida o valor de prova da reportagem, mencionada por Moro como um dos argumentos para a condena\u00e7\u00e3o de Lula.<br \/>\n\u2018A DEN\u00daNCIA \u00c9 BASEADA EM MUITA PROVA INDIRETA DE AUTORIA, MAS N\u00c3O CABERIA DIZER ISSO\u2019<br \/>\nNA V\u00c9SPERA DA DEN\u00daNCIA, Dallagnol voltou ao celular e comentou mais uma vez sobre a pe\u00e7a de acusa\u00e7\u00e3o, analisando a qualidade das provas que eles tinham em m\u00e3os. \u201cA opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 decisiva e \u00e9 um caso constru\u00eddo com prova indireta e palavra de colaboradores contra um \u00edcone que passou incolume pelo mensal\u00e3o\u201d, ele teclou no grupo Filhos do Janu\u00e1rio 1.<br \/>\nNo dia seguinte, quarta-feira, 14, a Lava Jato mostraria sua primeira den\u00fancia contra Lula, numa entrevista coletiva em uma sala de reuni\u00f5es de um hotel de luxo em Curitiba. O triplex \u2013 segundo a Lava Jato, reformado pela OAS e doado ao pol\u00edtico como propina em contratos da empreiteira com a Petrobras \u2013 era a pe\u00e7a central da den\u00fancia por corrup\u00e7\u00e3o passiva e lavagem de dinheiro.<br \/>\nDallagnol voltaria ao assunto numa conversa privada com o ent\u00e3o juiz Sergio Moro, em 16 de setembro, dois dias ap\u00f3s a den\u00fancia. O procurador estava sendo duramente criticado por parte da opini\u00e3o p\u00fablica, que alegava fragilidade na den\u00fancia. Tinha virado, tamb\u00e9m, alvo de chacotas e memes pelo PowerPoint que apresentou na entrevista coletiva.<br \/>\nO coordenador da Lava Jato escreveu a Moro: \u201cA den\u00fancia \u00e9 baseada em muita prova indireta de autoria, mas n\u00e3o caberia dizer isso na den\u00fancia e na comunica\u00e7\u00e3o evitamos esse ponto.\u201d Depois, entrou em detalhes t\u00e9cnicos: \u201cN\u00e3o foi compreendido que a longa exposi\u00e7\u00e3o sobre o comando do esquema era necess\u00e1ria para imputar a corrup\u00e7\u00e3o para o ex-presidente. Muita gente n\u00e3o compreendeu porque colocamos ele como l\u00edder para imperar 3,7MM de lavagem, quando n\u00e3o foi por isso, e sim para inputar 87MM de corrup\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nEm privado, Dallagnol confirmava a Moro que a express\u00e3o usada para se referir a Lula durante a apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 imprensa (\u201cl\u00edder m\u00e1ximo\u201d do esquema de corrup\u00e7\u00e3o) era uma forma de vincular ao pol\u00edtico os R$ 87 milh\u00f5es pagos em propina pela OAS em contratos para obras em duas refinarias da Petrobras \u2013 uma acusa\u00e7\u00e3o sem provas, ele mesmo admitiu, mas que era essencial para que o caso pudesse ser julgado por Moro em Curitiba.<br \/>\nPreocupado com a repercuss\u00e3o p\u00fablica de seu trabalho \u2013 uma obsess\u00e3o do procurador, como demonstra a leitura de diversas de suas conversas \u2013, ele prossegue: \u201cAinda, como a prova \u00e9 indireta, \u2018juristas\u2019 como Lenio Streck e Reinaldo Azevedo falam de falta de provas. Creio que isso vai passar s\u00f3 quando eventualmente a p\u00e1gina for virada para a pr\u00f3xima fase, com o eventual recebimento da den\u00fancia, em que talvez caiba, se entender pertinente no contexto da decis\u00e3o, abordar esses pontos\u201d, escreveu a Sergio Moro.<br \/>\nDois dias depois, Moro afagaria o procurador: \u201cDefinitivamente, as cr\u00edticas \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o de vcs s\u00e3o desproporcionais. Siga firme.\u201d Menos de um ano depois, o juiz condenaria Lula a nove anos e seis meses de pris\u00e3o.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que tem como regra, o Intercept n\u00e3o solicitou coment\u00e1rios de procuradores e outros envolvidos nas reportagens, para evitar que eles atuassem para impedir sua publica\u00e7\u00e3o e porque os documentos falam por si. Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente ap\u00f3s publicarmos as mat\u00e9rias, que atualizaremos com os coment\u00e1rios assim que eles sejam recebidos.<br \/>\n<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/theintercept.com\/2019\/06\/09\/chat-moro-deltan-telegram-lava-jato\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">Parte 4<\/a><br \/>\nSergio Moro e Deltan Dallagnol trocaram mensagens de texto que revelam que o ent\u00e3o juiz federal foi muito al\u00e9m do papel que lhe cabia quando julgou casos da Lava Jato. Em diversas conversas privadas, at\u00e9 agora in\u00e9ditas, Moro sugeriu ao procurador que trocasse a ordem de fases da Lava Jato, cobrou agilidade em novas opera\u00e7\u00f5es, deu conselhos estrat\u00e9gicos e pistas informais de investiga\u00e7\u00e3o, antecipou ao menos uma decis\u00e3o, criticou e sugeriu recursos ao Minist\u00e9rio P\u00fablico e deu broncas em Dallagnol como se ele fosse um superior hier\u00e1rquico dos procuradores e da Pol\u00edcia Federal.<br \/>\n\u201cTalvez fosse o caso de inverter a ordem da duas planejadas\u201d, sugeriu Moro a Dallagnol, falando sobre fases da investiga\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 muito tempo sem opera\u00e7\u00e3o?\u201d, questionou o atual ministro da Justi\u00e7a de Jair Bolsonaro ap\u00f3s um m\u00eas sem que a for\u00e7a-tarefa fosse \u00e0s ruas. \u201cN\u00e3o pode cometer esse tipo de erro agora\u201d, repreendeu, se referindo ao que considerou uma falha da Pol\u00edcia Federal. \u201cAparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informa\u00e7\u00e3o. Estou entao repassando. A fonte \u00e9 seria\u201d, sugeriu, indicando um caminho para a investiga\u00e7\u00e3o. \u201cDeveriamos rebater oficialmente?\u201d, perguntou, no plural, em resposta a ataques do Partido dos Trabalhadores contra a Lava Jato.<br \/>\nAs conversas fazem parte de um lote de arquivos secretos enviados ao Intercept por uma fonte an\u00f4nima h\u00e1 algumas semanas (bem antes da not\u00edcia da invas\u00e3o do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que n\u00e3o houve \u201ccapta\u00e7\u00e3o de conte\u00fado\u201d). O \u00fanico papel do Intercept foi receber o material da fonte, que nos informou que j\u00e1 havia obtido todas as informa\u00e7\u00f5es e estava ansiosa para repass\u00e1-las a jornalistas. A declara\u00e7\u00e3o conjunta dos editores do The Intercept e do Intercept Brasil (clique para ler o texto completo) explica os crit\u00e9rios editoriais usados para publicar esses materiais, incluindo nosso m\u00e9todo para trabalhar com a fonte an\u00f4nima.<br \/>\nA Constitui\u00e7\u00e3o brasileira estabeleceu o sistema acusat\u00f3rio no processo penal, no qual as figuras do acusador e do julgador n\u00e3o podem se misturar. Nesse modelo, cabe ao juiz analisar de maneira imparcial as alega\u00e7\u00f5es de acusa\u00e7\u00e3o e defesa, sem interesse em qual ser\u00e1 o resultado do processo. Mas as conversas entre Moro e Dallagnol demonstram que o atual ministro se intrometeu no trabalho do Minist\u00e9rio P\u00fablico \u2013 o que \u00e9 proibido \u2013 e foi bem recebido, atuando informalmente como um auxiliar da acusa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA atua\u00e7\u00e3o coordenada entre o juiz e o Minist\u00e9rio P\u00fablico por fora de audi\u00eancias e autos (ou seja, das reuni\u00f5es e documentos oficiais que comp\u00f5em um processo) fere o princ\u00edpio de imparcialidade previsto na Constitui\u00e7\u00e3o e no C\u00f3digo de \u00c9tica da Magistratura, al\u00e9m de desmentir a narrativa dos atores da Lava Jato de que a opera\u00e7\u00e3o tratou acusadores e acusados com igualdade. Moro e Dallagnol sempre foram acusados de operarem juntos na Lava Jato, mas n\u00e3o havia provas expl\u00edcitas dessa atua\u00e7\u00e3o conjunta \u2013 at\u00e9 agora.<br \/>\nMoro negou em diversas oportunidades que trabalhava em parceria com o MPF. \u201cVamos colocar uma coisa muito clara, que se ouve muito por a\u00ed que a estrat\u00e9gia de investiga\u00e7\u00e3o do juiz Moro. [\u2026] Eu n\u00e3o tenho estrat\u00e9gia de investiga\u00e7\u00e3o nenhuma. Quem investiga ou quem decide o que vai fazer e tal \u00e9 o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a Pol\u00edcia [Federal]. O juiz \u00e9 reativo. A gente fala que o juiz normalmente deve cultivar essas virtudes passivas. E eu at\u00e9 me irrito \u00e0s vezes, vejo cr\u00edtica um pouco infundada ao meu trabalho, dizendo que sou juiz investigador\u201d, desafiou, numa palestra que proferiu em mar\u00e7o de 2016.<\/p><\/blockquote>\n<p>Desde o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o, em 2013, Dallagnol e o MPF tentaram passar uma imagem de que Moro atuava com imparcialidade e dist\u00e2ncia dos acusadores. \u201cSempre avaliou os pedidos do Minist\u00e9rio P\u00fablico de modo imparcial e t\u00e9cnico\u201d, escreveu o procurador, sobre o ent\u00e3o juiz, em seu livro de mem\u00f3rias. A Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica endossou essa narrativa. \u201cAssim, invi\u00e1vel a declara\u00e7\u00e3o de nulidade de todos os atos praticados no curso da a\u00e7\u00e3o penal processada e julgada pelo Ju\u00edzo Criminal Federal de Curitiba, que se manteve imparcial durante toda a marcha processual\u201d, escreveu a PGR em parecer pr\u00f3-Moro.<br \/>\nMas a proximidade com o juiz facilitou o trabalho do Minist\u00e9rio P\u00fablico, e o pr\u00f3prio Dallagnol j\u00e1 admitiu isso. \u201cDemos a \u2018sorte\u2019 de que o caso ca\u00edsse nas m\u00e3os de um juiz como Sergio Moro\u201d, escreveu Dallagnol no Twitter e no seu livro.<br \/>\nOS DI\u00c1LOGOS<br \/>\n\u201cVIRAM ISSO????\u201d, escreveu no Telegram Athayde Ribeiro Costa, um dos procuradores da for\u00e7a-tarefa da Lava Jato no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal do Paran\u00e1. \u201cPqP!\u201d, respondeu Roberson Pozzobon, membro da equipe e do grupo FT MPF Curitiba 2, no qual procuradores da Lava Jato de Curitiba discutiam estrat\u00e9gias para as investiga\u00e7\u00f5es que transformaram a pol\u00edtica brasileira.<br \/>\nAs mensagens eram uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 not\u00edcia \u201cDiretor da Odebrecht que acompanhava Lula em suas viagens ser\u00e1 solto hoje\u201d, publicada naquele 16 de outubro de 2015 no blog de Lauro Jardim, do Globo.<br \/>\nMinutos depois, Dallagnol usou o chat privado do Telegram para discutir o assunto com Moro, at\u00e9 ent\u00e3o respons\u00e1vel por julgar os casos da Lava Jato na 13\u00aa Vara Federal de Curitiba.<br \/>\n\u201cCaro, STF soltou Alexandrino. Estamos com outra den\u00fancia a ponto de sair, e pediremos pris\u00e3o com base em fundamentos adicionais na cota. [\u2026] Seria poss\u00edvel apreciar hoje?\u201d, escreveu Dallagnol.<br \/>\n\u201cN\u00e3o creio que conseguiria ver hj. Mas pensem bem se \u00e9 uma boa ideia\u201d, alertou o ent\u00e3o juiz. Nove minutos depois, Moro deu outra dica ao procurador: \u201cTeriam que ser fatos graves\u201d.<br \/>\nDepois de ouvir a sugest\u00e3o, Dallagnol repassou a mensagem de Moro para o grupo de colegas de for\u00e7a-tarefa. \u201cFalei com russo\u201d, anunciou, usando o apelido do juiz entre os procuradores. Em seguida, os investigadores da Lava Jato passaram a discutir estrat\u00e9gias para reverter a decis\u00e3o, mas Alencar n\u00e3o seria preso novamente, numa demonstra\u00e7\u00e3o clara de que os di\u00e1logos entre Moro e Dallagnol influenciaram diretamente os desdobramentos da opera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm m\u00eas depois, Sergio Moro enviou uma quest\u00e3o a Deltan Dallagnol pelo Telegram. \u201cOlha est\u00e1 um pouco dificil de entender umas coisas. Por que o mpf recorreu das condenacoes dos colaboradores augusto, barusco emario goes na acao penal 5012331-04? O efeito pratico \u00e9 impedir a execu\u00e7\u00e3o da pena\u201d, reclamou a Dallagnol. Em teoria, o juiz n\u00e3o deveria ter interesse em resultados do processo, como, por exemplo, o aumento ou redu\u00e7\u00e3o de penas de um acusado \u2013 nem muito menos tirar satisfa\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio P\u00fablico fora dos autos.<br \/>\nNum despacho publicado \u00e0s 14h01, o juiz chamou o recurso do MPF de \u201cobscuro\u201d. Minutos depois, \u00e0s 14h08, Dallagnol respondeu pelo Telegram. Moro rebateu, tamb\u00e9m pelo aplicativo de mensagens: \u201cNa minha opiniao estao provocando confus\u00e3o. E o efeito pratico sera jogar para as calendas a exist\u00eancia [da] execu\u00e7\u00e3o das penas dos colaboradores\u201d.<br \/>\nEm 21 de fevereiro de 2016, Moro se intrometeu no planejamento do MP de forma expl\u00edcita. \u201cOl\u00e1 Diante dos \u00faltimos . desdobramentos talvez fosse o caso de inverter a ordem da duas planejadas\u201d, afirmou Moro, numa prov\u00e1vel men\u00e7\u00e3o \u00e0s fases seguintes da Lava Jato. Dallagnol disse que haveria problemas log\u00edsticos para acatar a sugest\u00e3o. No dia seguinte, ocorreu a 23\u00aa fase da Lava Jato, a Opera\u00e7\u00e3o Acaraj\u00e9.<br \/>\nDias depois, Moro cometeu um deslize de linguagem que revela como a acusa\u00e7\u00e3o e o juiz, que deveria avaliar e julgar o trabalho do MP, viraram uma coisa s\u00f3. \u201cO que acha dessas notas malucas do diretorio nacional do PT? Deveriamos rebater oficialmente? Ou pela ajufe?\u201d, escreveu o juiz em 27 de fevereiro, usando a primeira pessoa do plural, dando a entender que as rea\u00e7\u00f5es do juiz e do MP deveriam ser coordenadas.<br \/>\nEm 31 de agosto de 2016, Moro mais uma vez escancarou seu papel de aliado dos acusadores ao questionar o ritmo das pris\u00f5es e apreens\u00f5es. \u201cN\u00e3o \u00e9 muito tempo sem opera\u00e7\u00e3o?\u201d, perguntou o ent\u00e3o juiz ao procurador \u00e0s 18h44. A \u00faltima fase da Lava Jato havia sido realizada 29 dias antes \u2013 a opera\u00e7\u00e3o Resta Um, com foco na empreiteira Queiroz Galv\u00e3o.<br \/>\nA periodicidade \u2013 e at\u00e9 mesmo a realiza\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o deveria ser motivo de preocupa\u00e7\u00e3o do juiz, mas Moro trabalhava com Dallagnol para impulsionar as a\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico, como comprovam os di\u00e1logos e coment\u00e1rios habituais nas conversas entre os dois.<br \/>\n\u201c\u00c9 sim\u201d, respondeu Dallagnol mais tarde. A opera\u00e7\u00e3o seguinte ocorreu tr\u00eas semanas depois.<br \/>\n\u2018ESTOU REPASSANDO. A FONTE \u00c9 SERIA\u2019<br \/>\nO MINISTRO DA JUSTI\u00c7A DE BOLSONARO parece ter cruzado a fronteira que separa juiz e investigador numa conversa de 7 de dezembro de 2015, quando ele passou informalmente uma pista sobre o caso de Lula para que a equipe do MP investigasse. \u201cEntao. Seguinte. Fonte me informou que a pessoa do contato estaria incomodado por ter sidoa ela solicitada a lavratura de minutas de escrituras para transfer\u00eancias de propriedade de um dos filhos do ex Presidente. Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informa\u00e7\u00e3o. Estou entao repassando. A fonte \u00e9 seria\u201d, escreveu Moro.<br \/>\n\u201cObrigado!! Faremos contato\u201d, respondeu Dallagnol pouco depois. \u201cE seriam dezenas de im\u00f3veis\u201d, acrescentou o juiz. O procurador disse que ligou para a fonte, mas ela n\u00e3o quis falar. \u201cEstou pensando em fazer uma intima\u00e7\u00e3o oficial at\u00e9, com base em not\u00edcia ap\u00f3crifa\u201d, cogitou Dallagnol. Ao que tudo indica, o procurador estava considerando criar uma den\u00fancia an\u00f4nima para justificar o depoimento da fonte ao MP. O juiz Sergio Moro poderia condenar a solu\u00e7\u00e3o \u2013 ou ficar quieto. Mas endossou a gambiarra: \u201cMelhor formalizar entao\u201d, escreveu Moro.<br \/>\nMais um sinal de que ele trabalhava em coordena\u00e7\u00e3o com a acusa\u00e7\u00e3o veio numa troca de mensagens em 13 de mar\u00e7o de 2016, quando manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo de Dilma Rousseff tomaram as ruas. O juiz revela o desejo de \u201climpar o congresso\u201d.<br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 22:19:29 \u2013 E parab\u00e9ns pelo imenso apoio p\u00fablico hoje. [\u2026] Seus sinais conduzir\u00e3o multid\u00f5es, inclusive para reformas de que o Brasil precisa, nos sistemas pol\u00edtico e de justi\u00e7a criminal. [\u2026].<\/strong><br \/>\n<strong>Moro \u2013 22:31:53. \u2013 Fiz uma manifesta\u00e7\u00e3o oficial. Parabens a todos n\u00f3s.<\/strong><br \/>\n<strong>22:48:46 \u2013 Ainda desconfio muito de nossa capacidade institucional de limpar o congresso. O melhor seria o congresso se autolimpar mas isso nao est\u00e1 no horizonte. E nao sei se o stf tem for\u00e7a suficiente para processar e condenar tantos e tao poderosos.<\/strong><br \/>\nTr\u00eas dias depois, Dilma tentaria nomear Lula para a Casa Civil, e Moro divulgaria a famosa conversa gravada entre a ent\u00e3o presidente e o ex-presidente. Naquela manh\u00e3, Dallagnol e Moro conversaram sobre a divulga\u00e7\u00e3o dos \u00e1udios e se consultaram sobre a estrat\u00e9gia.<br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 12:44:28. \u2013 A decis\u00e3o de abrir est\u00e1 mantida mesmo com a nomeacao, confirma?<\/strong><br \/>\n<strong>Moro \u2013 12:58:07. \u2013 Qual \u00e9 a posicao do mpf?<\/strong><br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 15:27:33. \u2013 Abrir<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>As cr\u00edticas \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o dos \u00e1udios foram fortes e, seis dias depois, o procurador e o juiz ainda discutiam o assunto:<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 21:45:29. \u2013 A libera\u00e7\u00e3o dos grampos foi um ato de defesa. Analisar coisas com hindsight privilege \u00e9 f\u00e1cil, mas ainda assim n\u00e3o entendo que tiv\u00e9ssemos outra op\u00e7\u00e3o, sob pena de abrir margem para ataques que estavam sendo tentados de todo jeito\u2026<\/strong><br \/>\n<strong>[\u2026]<\/strong><br \/>\n<strong>Moro \u2013 22:10:55. \u2013 nao me arrependo do levantamento do sigilo. Era melhor decis\u00e3o. Mas a rea\u00e7\u00e3o est\u00e1 ruim.<\/strong><br \/>\nUma semana depois da conversa, por\u00e9m, Moro pediu desculpas pela decis\u00e3o.<br \/>\nO juiz voltaria a dar conselhos ao MP em 21 de junho de 2016. Deltan Dallagnol apresentou uma pr\u00e9via impressionante dos ind\u00edcios de corrup\u00e7\u00e3o revelados pela dela\u00e7\u00e3o de 77 executivos da Odebrecht, que implicavam 150 pol\u00edticos, incluindo nomes como Michel Temer, Dilma, Lula, Eduardo Cunha, A\u00e9cio Neves, S\u00e9rgio Cabral e Geraldo Alckmin. \u201cReservadamente. Acredito que a revela\u00e7\u00e3o dos fatos e abertura dos processos deveria ser paulatina para evitar um abrupto pereat mundus\u201d, disse Moro, usando a express\u00e3o em latim para um ditado do meio jur\u00eddico \u2013 \u201cacabe-se o mundo [mas] fa\u00e7a-se justi\u00e7a\u201d. \u201cAbertura paulatina segundo gravidade e qualidade da prova. Espero que LJ sobreviva ou pelo menos n\u00f3s\u201d, completou.<br \/>\nOutro conselho veio em em 15 de dezembro de 2016, quando o procurador atualizou o juiz sobre as negocia\u00e7\u00f5es da dela\u00e7\u00e3o dos executivos da Odebrecht.<br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 16:01:03 \u2013 Caro, favor n\u00e3o passar pra frente: (favor manter aqui): 9 presidentes (1 em exerc\u00edcio), 29 ministros (8 em exerc\u00edcio), 3 secret\u00e1rios federais, 34 senadores (21 em exerc\u00edcio), 82 deputados (41 em exerc\u00edcio), 63 governadores (11 em exerc\u00edcio), 17 deputados estaduais, 88 prefeitos e 15 vereadores [\u2026].<\/strong><br \/>\n<strong>Moro \u2013 18:32:37 \u2013 Opini\u00e3o: melhor ficar com os 30 por cento iniciais. Muitos inimigos e que transcendem a capacidade institucional do mp e judici\u00e1rio.<\/strong><br \/>\n\u2018N\u00c3O PODE COMETER ESSE TIPO DE ERRO AGORA\u2019<br \/>\nEM MAR\u00c7O DE 2017, Moro escreveu a Dallagnol para sugerir por baixo dos panos um caminho para a investiga\u00e7\u00e3o da Lava Jato \u2013 o que, na teoria, s\u00f3 poderia ser feito dentro dos autos. \u201cPrezado, a Deputada Mara Gabrili mandou o texto abaixo para mim, podem dar uma checada nisso. Favor manter reservado\u201d, disse o ent\u00e3o juiz.<br \/>\nSeguia-se uma longa mensagem de Gabrilli, do PSDB de SP e atualmente senadora, em que ela sugere que o publicit\u00e1rio Marcos Val\u00e9rio, preso ap\u00f3s os processos do Mensal\u00e3o, fosse ouvido a respeito do assassinato de Celso Daniel, ocorrido em 2002. Daniel era prefeito de\u00a0<abbr class=\"glossarizer_replaced\" title=\"\u00e9 o tucano Geraldo Alckmin, imaculado Governador de S\u00e3o Paulo. Ele \u00e9 tratado como franciscano pelo PiG, mas, segundo a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, recebeu uma grana gorda da Odebrecht. Benedicto Junior, ex-executivo da empreiteira, disse que Alckmin acertou pessoalmente o repasse de R$ 2 milh\u00f5es em propina para a sua campanha ao governo do estado, em 2010, e mais R$ 8,3 milh\u00f5es para as elei\u00e7\u00f5es de 2014 (desta vez com o interm\u00e9dio de Marcos Monteiro, ex-tesoureiro do PSDB). Ele sustenta que a Odebrecht fazia isso em troca de favorecimento em contratos do Metr\u00f4 (aquele que est\u00e1 sempre atrasado) e de saneamento. Benedicto, ali\u00e1s, disse que Alckmin era visto como forte candidato \u00e0 Presid\u00eancia, mas, como se sabe, ele s\u00f3 serviu para tomar uma surra do Lula, em 2006. O Conversa Afiada sustenta que de Santo o Alckmin s\u00f3 tem o cunhado, aquele que, segundo a Odebrecht, era quem pegava a grana da propina para o governador\">Santo<\/abbr>\u00a0Andr\u00e9, cidade do ABC paulista, ber\u00e7o pol\u00edtico de Lula e do Partido dos Trabalhadores.<br \/>\nMenos de uma hora depois, Moro ouviu que o apelo da ent\u00e3o deputada seria levado em conta pela Lava Jato. \u201cFalei com Diogo, que checar\u00e1\u201d, respondeu Dallagnol, fazendo refer\u00eancia ao procurador Diogo Castor de Mattos.<br \/>\nDois meses depois, em 8 de maio de 2017, Curitiba parecia \u00e0 beira de uma guerra civil. Dali a dois dias, Lula se sentaria pela primeira vez diante de Moro para depor, como r\u00e9u, no caso do triplex. Diante da chegada de caravanas de apoio ao petista \u2013 e, em menor n\u00famero, de f\u00e3s de Moro e da Lava Jato \u2013, a secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Paran\u00e1 montou um gigantesco esquema que incluiu at\u00e9 atiradores de elite no dia do julgamento.<br \/>\nEm meio ao clima de tens\u00e3o, Moro disparou uma mensagem a Dallagnol em que, duramente, o cobrava sobre a inten\u00e7\u00e3o de adiar em cima da hora o depoimento do ex-presidente. \u201cQue hist\u00f3ria \u00e9 essa que vcs querem adiar? Vcs devem estar brincando\u201d, escreveu, \u00e0s 19h09. \u201cN\u00e3o tem nulidade nenhuma, \u00e9 s\u00f3 um monte de bobagem\u201d, completou.<br \/>\nDallagnol s\u00f3 respondeu no dia seguinte, \u00e0s 8h41. \u201cPassei o dia fora ontem. Defenderemos manter. Falaremos com Nivaldo\u201d, ele prometeu. Referia-se a Nivaldo Brunoni, juiz de primeira inst\u00e2ncia que cobria as f\u00e9rias do relator da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4\u00aa Regi\u00e3o, Jo\u00e3o Pedro Gebran Neto. Naquele mesmo dia, Brunoni rejeitou pedido da defesa do petista para adiar o interrogat\u00f3rio.<br \/>\nDois dias depois, uma outra conversa que revela o clima de camaradagem entre juiz e acusa\u00e7\u00e3o. \u201cCaro, foram pedidas oitivas na fase do 402, mas fique \u00e0 vontade, desnecess\u00e1rio dizer, para indeferir. De nossa parte, foi um pedido mais por estrat\u00e9gia\u201d, teclou Dallagnol. Moro respondeu antecipando a sua decis\u00e3o: \u201cBlz, tranquilo, ainda estou preparando a decis\u00e3o mas a tend\u00eancia \u00e9 indeferir mesmo\u201d.<br \/>\nEm 26 de junho, seria a vez de Moro ditar a estrat\u00e9gia para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal manter preso Jo\u00e3o Vaccari Neto, tesoureiro do PT que ele condenara, mas que seria absolvido por falta de provas, no dia seguinte, pelo TRF4.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Moro \u2013 18:24:25 \u2013 Diante das absolvi\u00e7\u00e3o do Vaccari seria talvez conveniente agilizar julgamento do caso do Skornicki no qual ele tb est\u00e1 preso e condenado. Parece que est\u00e1 para parecer na segunda inst\u00e2ncia<\/strong><br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 20:54:53 \u2013 Providenciamos tb nota de que a PRR vai recorrer<\/strong><br \/>\n<strong>20:57:31 \u2013 Tem outras tb no TRF. Alguma raz\u00e3o especial para apontar esta?<\/strong><br \/>\n<strong>Moro \u2013 23:20:53 \u2013 Porque Vaccari tb foi condenado nesta?!<\/strong><br \/>\nA LEITURA DAS conversas mostra como Moro e Dallagnol ficaram pr\u00f3ximos ao longo dos anos. Entre as \u00faltimas mensagens a que o Intercept teve acesso, Moro conversa em tom de amizade com o procurador \u2013 que tratava o atual ministro como \u201cCaro juiz\u201d no in\u00edcio dos di\u00e1logos.<br \/>\n<strong>Moro \u2013 15:28:29. \u2013 Cara, recebi uma fotos de vc fantasiado de superhomem com um tal de Castor, n\u00e3o sei o que fa\u00e7o mas a M\u00f4nica Bergamin est\u00e1 perguntando se vc preferiu o Superman i, oi ou Iii?<\/strong><br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 22:47:06. \u2013 Kkkkkkk<\/strong><br \/>\n<strong>22:47:28 \u2013 T\u00e1 no face tb?<\/strong><br \/>\n<strong>22:48:10 \u2013 Se tiver, preciso tirar\u2026 ela est\u00e1 me difamando, era na verdade de pr\u00edncipe que eu estava rs<\/strong><br \/>\nMas tamb\u00e9m houve momentos tensos entre os dois. Em mar\u00e7o de 2016, Moro irritou-se com o que considerou um erro da Pol\u00edcia Federal. \u201cTremenda bola nas costas da Pf\u201d, digitou o ent\u00e3o juiz. As justificativas apresentadas por Dallagnol n\u00e3o o convenceram. \u201cContinua sendo lamban\u00e7a. N\u00e3o pode cometer esse tipo de erro agora.\u201d<br \/>\nUm ano depois, Moro, aparentemente irritado com uma das procuradoras da for\u00e7a-tarefa da Lava Jato, fez um pedido delicado a Dallagnol:<br \/>\n<strong>Moro \u2013 12:32:39. \u2013 Prezado, a colega Laura Tessler de vcs \u00e9 excelente profissional, mas para inquiri\u00e7\u00e3o em audi\u00eancia, ela n\u00e3o vai muito bem. Desculpe dizer isso, mas com discri\u00e7\u00e3o, tente dar uns conselhos a ela, para o pr\u00f3prio bem dela. Um treinamento faria bem. Favor manter reservada essa mensagem.<\/strong><br \/>\n<strong>Dallagnol \u2013 12:42:34. \u2013 Ok, manterei sim, obrigado!<\/strong><br \/>\n\u2018MORO N\u00c3O \u00c9 MODELO DE JUIZ IMPARCIAL\u2019<br \/>\nAS CONVERSAS ENTRE MORO E DALLAGNOL enviadas pela fonte an\u00f4nima compreendem um per\u00edodo de dois anos entre 2015 e 2017. J\u00e1 no grupo de procuradores citado neste texto, o FT MPF Curitiba, o conte\u00fado dos chats totaliza o equivalente a um livro de 1.700 p\u00e1ginas.<br \/>\nJuristas ouvidos pelo Intercept disseram que a proximidade entre procuradores e ju\u00edzes \u00e9 normal no Brasil \u2013 ainda que seja imoral e viole o c\u00f3digo de \u00e9tica dos magistrados.<br \/>\n\u201cPela Constitui\u00e7\u00e3o, o processo penal brasileiro \u00e9 acusat\u00f3rio. Na pr\u00e1tica, \u00e9 inquisitivo\u201d, cravou Lenio Streck, advogado, jurista, p\u00f3s-doutor em Direito e professor de Direito Constitucional na Unisinos, no Rio Grande do Sul. \u201cO juiz acaba sendo protagonista do processo, age de of\u00edcio [ou seja, sem ser provocado por uma das partes], busca provas. Isso acaba fazendo com que o MP, tamb\u00e9m com postura inquisitiva, acabe encontrando um aliado estrat\u00e9gico no juiz. \u00c9 um problema anterior, de que a Lava Jato \u00e9 um sintoma.\u201d<br \/>\nAprovado em 2008 pelo Conselho Nacional de Justi\u00e7a, o CNJ, o C\u00f3digo de \u00c9tica da Magistratura Nacional determina, em seu primeiro artigo, que ju\u00edzes atuem \u201cnorteando-se pelos princ\u00edpios da independ\u00eancia, da imparcialidade\u201d e \u201cdo segredo profissional\u201d, entre outros.<br \/>\nO cap\u00edtulo 3 do c\u00f3digo, que trata exclusivamente da imparcialidade, diz, no artigo oitavo: \u201cO magistrado imparcial \u00e9 aquele que busca nas provas a verdade dos fatos, com objetividade e fundamento, mantendo ao longo de todo o processo uma dist\u00e2ncia equivalente das partes, e evita todo o tipo de comportamento que possa refletir favoritismo, predisposi\u00e7\u00e3o ou preconceito\u201d. O artigo seguinte determina que o juiz, \u201cno desempenho de sua atividade, cumpre dispensar \u00e0s partes igualdade de tratamento, vedada qualquer esp\u00e9cie de injustificada discrimina\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nEm v\u00e1rias decis\u00f5es, o Supremo Tribunal Federal ratificou decis\u00f5es que pro\u00edbem ju\u00edzes de promover investiga\u00e7\u00f5es. \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 fez uma op\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca pelo sistema penal acusat\u00f3rio. Disso decorre uma separa\u00e7\u00e3o r\u00edgida entre, de um lado, as tarefas de investigar e acusar e, de outro, a fun\u00e7\u00e3o propriamente jurisdicional. Al\u00e9m de preservar a imparcialidade do Judici\u00e1rio, essa separa\u00e7\u00e3o promove a paridade de armas entre acusa\u00e7\u00e3o e defesa, em harmonia com os princ\u00edpios da isonomia e do devido processo legal\u201d, diz a ementa da a\u00e7\u00e3o direta de inconstucionalidade 5104, relatada pelo ministro Roberto Barroso.<br \/>\nAs conversas sugerem que o juiz deu acesso privilegiado \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o e ajudou o Minist\u00e9rio P\u00fablico a construir casos contra os investigados, o que pode ser usado pela defesa dos acusados na Lava Jato. Esse foi, por exemplo, o argumento da defesa do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ao recorrer da condena\u00e7\u00e3o e ao denunciar Sergio Moro na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da ONU. \u201cO juiz Moro atuou com pr\u00e9-julgamento, pois ele foi o juiz de investiga\u00e7\u00e3o de Lula\u201d, disse o advogado que representou o ex-presidente na ONU, Geoffrey Robertson, na \u00e9poca em que o petista foi condenado em segunda inst\u00e2ncia. A defesa de Lula vem, sem sucesso, questionando a imparcialidade de Moro no Supremo Tribunal Federal.<br \/>\n\u201cO juiz brasileiro, em regra, \u00e9 um juiz formal, mais distante, mas tem mais proximidade com o MPF, porque s\u00e3o ambos funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Existe um desequil\u00edbrio nesse sentido\u201d, afirmou o advogado Ant\u00f4nio S\u00e9rgio Pitombo, que j\u00e1 defendeu na Justi\u00e7a o atual chefe de Moro, Jair Bolsonaro.<br \/>\n\u201cConhe\u00e7o o juiz Moro h\u00e1 muitos anos. N\u00e3o \u00e9 um modelo de juiz imparcial, tem um vi\u00e9s de favorecer a acusa\u00e7\u00e3o. [Mas] O ponto sobre Lava Jato nunca foi o juiz Moro, mas o Tribunal Regional da Quarta Regi\u00e3o [respons\u00e1vel por julgar na segunda inst\u00e2ncia os processos da opera\u00e7\u00e3o] nunca corrigir o juiz Moro. Ju\u00edzes com esse \u00edmpeto [punitivista] sempre tivemos no Brasil. Mas nunca tivemos um tribunal t\u00e3o leniente [com a primeira inst\u00e2ncia] como o TRF4. Ali parecia haver um pacto ideol\u00f3gico entre tribunal e juiz. O tribunal achava bonito aquilo\u201d, criticou Pitombo.<br \/>\nO relator dos processos da Lava Jato no TRF4, o juiz de segunda inst\u00e2ncia Jo\u00e3o Pedro Gebran Neto, \u00e9 amigo pessoal de Moro e, via de regra, se alinha ao atual ministro em suas senten\u00e7as.<br \/>\nMuitas das decis\u00f5es tomadas por Moro ainda podem ser questionadas pelas defesas de condenados na Lava Jato e revistas em tribunais superiores.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que tem como regra, o Intercept n\u00e3o solicitou coment\u00e1rios de procuradores e outros envolvidos nas reportagens, para evitar que eles atuassem para impedir sua publica\u00e7\u00e3o e porque os documentos falam por si. Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente ap\u00f3s publicarmos as mat\u00e9rias, que atualizaremos com os coment\u00e1rios assim que forem recebidos.\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagens trocadas por meio do Telegram entre o ent\u00e3o juiz S\u00e9rgio Moro e os procuradores da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, divulgadas neste domingo pelo site Intercept Brasil, detonam a imparcialidade das investiga\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0 pris\u00e3o de Lula e jogam gasolina na crise pol\u00edtica brasileira. 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